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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Extractos do diário de um conformista

Há poucas semanas, a propósito de eu andar mesmo muito fodido da vida com tudo, numa conversa circunstancial de esplanada, enquanto falava com umas pessoas amigas, foi-me dito que as pessoas ficam assim nesse estado, ou só ficam assim, apenas porque há coisas que não se conseguem controlar, mas que para os seres humanos, que por acaso até se consideram inteligentes, acaba por não fazer sentido nenhum não conseguir controlar a coisa, já que achamos sempre que conseguimos e devemos sempre ter tudo sob controlo! Dessa forma, e ainda na mesma conversa, disseram-me que quando alguém sente, pressente, que já não se está a conseguir ter o controlo da coisa, que as pessoas ficam, quase automaticamente, instintivamente, fodidas da vida e disparatam com tudo, pagando, normalmente, as favas quem não tem nada a ver com isso. Deram-me até o exemplo daquelas pessoas que desatinam num café, ou numa papelaria, com as pessoas que estão atrás do balcão de uma forma despropositada e exagerada, porque no fundo estão apenas ali a descarregar aquela raiva acumulada que sentem por causa de outra coisa qualquer completamente diferente. Se isto faz algum sentido, ou não, francamente não sei. No entanto, hoje de manhã quando cheguei ao trabalho, estava o gajo que se senta mesmo ao lado da secretaria onde me sento todos os dias a trautear uma música. Para ser justo, uma vez que ele entra mais cedo do que eu, eu sei que sempre que chego que ele está a trautear uma musica qualquer, usualmente uma musica velha, e hoje, por acaso, trauteava a musica: “I love you baby....ta na na ni na na I love you baby...ta na na ni na n...” Ouvir aquele balbuciar da música assim que cheguei, transportou-me de imediato para aquele momento, estávamos ainda nós no início, em que ela me cantou, meio envergonhada, mas com entusiasmo e, pensava eu, genuína alegria, a mesma música. Do que me recordo particularmente desse momento, é da ênfase que ela dava às palavras LOVE YOU BABY, e simultaneamente a cara marota em conjunto com o olhar de lado e disfarçado para mim enquanto cantava, a fim de constatar que eu compreendia a mensagem altamente subliminar que me estava a ser transmitida. Lembro-me de ter ficado feliz com todo aquele momento, principalmente porque ela nitidamente me queria dizer aquilo, e de uma forma atabalhoada lá me foi dizendo, mal nós nos encontrámos naquele dia, que tinha passado o dia inteiro com aquela música na cabeça sem saber muito bem porquê. Fui abruptamente assolado novamente por todas as dúvidas que tenho, e por toda a incompreensão que sinto, em relação à forma como tudo sempre decorreu e à forma como tudo acabou repentinamente, sem que tenha havido em algum momento qualquer justificação, ou coerência, com que era dito, aparentemente com o coração, e depois feito sem qualquer coração. Para piorar as coisas, a meio da manhã, ao procurar numa pasta de e-mails antigos uma mensagem de trabalho que necessitava rever, deparei-me com o um e-mail que ela me tinha enviado há três meses em que dizia que eu era a pessoa mais gira do Universo! Escrito de uma forma tal, que só conseguia ver a cara dela a escrever com o mesmo entusiasmo e sorriso maroto com que me tinha cantado a música. Fui abruptamente assolado novamente por todas as dúvidas que tenho, e por toda a incompreensão que sinto, em relação à forma como tudo sempre decorreu e à forma como tudo acabou repentinamente, sem que tenha havido em algum momento qualquer justificação, ou coerência, com que era dito, aparentemente com o coração, e depois feito sem qualquer coração. Chegada a hora de almoço, felizmente, aproveitei, depois de deglutido o repasto, para ir comprar senhas para o autocarro. (Concluí que sai mais barato, com os percursos mensais que faço e com o que ando a pé, comprar senhas em vez de passe!) Penso que foi a terceira vez que ali fui, mas, não sei porquê, assim que entrei aborreceu-me profundamente ter de me dirigir a três pessoas dentro de uma pequena papelaria, em que duas estavam apenas a olhar para quem passava, e me ter sido dito que apenas a pessoa que estava a atender um cliente é que me poderia carregar as senhas no cartão! Desatinei! Bastante! Até sair dali e me ter apercebido que tinha disparatado, exageradamente, com pessoas que não tinham culpa nenhuma da manhã que tinha tido. Fui abruptamente assolado novamente por todas as dúvidas que tenho, e por toda a incompreensão que sinto, em relação à forma como tudo sempre decorreu e à forma como tudo acabou repentinamente, sem que tenha havido em algum momento qualquer justificação, ou coerência, com que era dito, aparentemente com o coração, e depois feito sem qualquer coração, mas concluí que não tenho de ter o controlo de tudo, preciso apenas que as coisas façam sentido. Até agora nada ainda fez... ...