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sexta-feira, 23 de março de 2012

Estado de A.L.M.A II

O ---- quer-se destemido
O ---- é faca na liga
O ---- não pode ser encolhido
O ---- não é questionar o que queres que te diga
O ---- não tem sim
O ---- não tem não
O ---- é a inocente decisão
O ---- não tem pés nem cabeça, mas apenas coração
O ---- não tem pénis nem vagina, é puramente tesão
O ---- não faz sentido, é somente compreensão
O ---- não usa vestido, muito menos calção
O ---- é nu, tal como nos fez vir ao mundo
O ---- és tu, tal como eu soube passado unicamente um segundo
depois de te ver...

terça-feira, 20 de março de 2012

Banda Sonora

Oito da manhã. O despertador toca e ele acorda. Ao contrário dos outros dias, assim que o despertador tocou, levantou-se de imediato. Premiu o botão para parar o som que provinha do altifalante do aparelho de despertar, e ficou em pé, parado, no meio da sala somente iluminada pelos fracos raios de luz que conseguem perpassar pelo pequeno vidro pintado de amarelo, colocado acima das cerradas persianas, já no topo das duas grandes janelas. Não sentiu nada enquanto ali esteve parado. Nem um pensamento, uma sensação, sono, exaltação pelo começar de um novo dia, nada, absolutamente nada, somente um vazio no olhar preenchia o espaço.
Completou os habituais afazeres matinais de forma mecânica, e preparou-se para sair de casa, apalpando os bolsos do casaco a fim de se certificar que tinha tudo o que precisava. Mesmo antes de rodar a chave para abrir a porta, subitamente o silêncio que se fazia sentir em casa, desde que se tinha levantado, interrompeu-o de forma abrupta. Apercebeu-se então que não tinha ouvido música depois de ter acordado, que não deu sequer conta que tinha ficado pronto para sair, que continuava sem sentir nada, sem sentir uma só emoção, sem pensar em nada, era quase como se apenas existisse de forma automática, onde todas as acções que tem de efectuar são cumpridas de forma rotineira, sabidas de cor. Não ligou qualquer importância a tal constatação e abriu decidido a porta de casa.
Já na rua, nem o Sol nem a aragem fria que corria tiveram qualquer efeito em si. Enquanto caminhava pela calçada de basalto acima, não reparou que passou pelo cão que todos os dias vagueia por ali aquela hora à procura de algo para morder, situação que lhe causa usualmente uma certa apreensão. Seguiu simplesmente em frente, ignorando também, mais à frente, aquela velhota de muletas que igualmente todos os dias carrega dois sacos com extrema dificuldade, ao mesmo tempo que tenta descer a pequena ladeira sem escorregar e cair. Seguiu sempre em frente, sem olhar ou ver ninguém, até chegar à rua principal e se fundir no meio dos inúmeros transeuntes que todos os dias, ao início dos mesmos, pululam por ali, e todos os dias, ao fim dos mesmos, como se de magia se tratasse, desaparecem do horizonte à medida que o Sol se desvanece. A meio da manhã, a altercação que ocorre entre os vários colegas de escritório, sempre no dia a seguir a um jogo de futebol, estava a acontecer mesmo em frente à sua secretária num alarido quase insuportável. Sem proferir uma palavra, colocou novamente o olhar no monitor e ali ficou até alguém lhe ter dito que eram horas de almoço. Como de costume, foi almoçar sozinho, sem proferir uma palavra. Passado esse dia, já em casa à noite, a última coisa de que tem memória, ou consciência, é a recordação de ter olhado para o lado durante a tarde, e ouvir alguém bradar num esgar feliz que começava a Primavera nesse dia. Continuando sem sentir absolutamente nada, recorda-se perfeitamente de conjugar essa frase que ouviu com a constatação, perfeitamente normal e banal para si, que apesar de o sangue ainda lhe continuar a correr nas veias, só podia ter morrido! Tinha morrido precisamente no dia em que tudo começa a brotar novamente, tal como é suposto ser em todos os ciclos de vida até que a mesma tenha um fim. Morreu! Pura e simplesmente morreu. Sem sequer se importar com isso, ou até mesmo questionar-se porquê, no dia a seguir, às oito da manhã, depois de o despertador tocar e de ter ficado só, em pé, no meio da sala preenchida apenas pelo olhar vazio, deu por si, de repente, prostrado no meio da rua, entre os inúmeros transeuntes que freneticamente se movimentavam de um lado para o outro, ao mesmo tempo que uma criança corria rua abaixo de sorriso aberto, enquanto outra a incentivava fortemente a saltar para dentro do eléctrico em movimento...



Another turning point, a fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist, directs you where to go
So make the best of this test, and don't ask why
It's not a question, but a lesson learned in time

It's something unpredictable, but in the end it's right.
I hope you had the time of your life.

So take the photographs, and still frames in your mind
Hang it on a shelf in good health and good time
Tattoos of memories and dead skin on trial
For what it's worth it was worth all the while

quarta-feira, 14 de março de 2012

Jism

Hoje em dia, com as novas tecnologias, é tão fácil alguém esquecer alguma coisa. Com o botão delete, ali mesmo ao alcance de um pequeno e rápido click, é só premir e pronto, coisa apagada e, por consequência, esquecida. O problema, ou não, dependendo sempre do ponto de vista, é que com as novas tecnologias, tais hábitos encarnam-se e entranham-se tanto no modo de estar, de pensar, ver e dizer as coisas, nas pessoas, que às tantas, as pessoas já possuem um pequeno botão de delete no cérebro ao ponto de conseguirem efectuar, do mesmo exacto modo o apagar instantâneo da coisa. Se isso acaba por ser bom, ou não, não sei, depende sempre do ponto de vista e do que se quer de facto esquecer. No entanto, talvez aquela célebre frase que reza: “É importante não esquecer e relembrar sempre o passado para que não se volte a cometer os mesmos erros”, apesar do sentido que pode fazer, corre o risco de ser esquecida de vez.
Aquilo que, todavia, me continua a fazer confusão no meio disto tudo, é que certas coisas que são apagadas, às vezes sem querer, outras propositadamente, talvez por ignorância, e porque apenas representavam um problema que se queria resolver sem ter que fazer grande coisa ou ter muito trabalho, numa máquina, por muito nova e altamente tecnológica que seja, pode fazer com que deixe de funcionar de vez. Claro que se pode sempre mandar arranjar, gasta-se um dinheiro e tal, e caso o custo do arranjo não se justifique, compra-se uma nova e pronto, problema de novo resolvido. Mesmo assim, penso que qualquer pessoa irá reflectir sempre duas vezes antes de se pôr a apagar coisas assim à maluca. Nas pessoas, não estou a ver como é que a coisa se conseguirá algum dia reparar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Jogos físicos e psicológicos

- Ora bom dia.

- ... ... Bom dia.

- ... ... ...

- ... ... ...

- Então? E o Barcelona ontem? Hein? Não há quem bata aquela equipa...

- Não vi o jogo, estive antes a ver o jogo do Apoel...

- Ah sim? Boa! Eu de vez em quando mudava para ver o resultado. Deve ter sido granda joga...

- Eu não prestei atenção nenhuma ao jogo. Nem sequer sei quem ganhou. Estava a fazer zapping, e por acaso, quando passei no canal em que o jogo estava a dar, estava a passar imagens do público, e fiquei ali, embasbacado, a tentar perceber o que estavam a dizer. Não sei porquê, achei fascinante o facto de eu estar no meu sofá, sozinho, sem perceber patavina do que aqueles milhares de pessoas vociferavam a plenos pulmões para dentro do campo, enquanto, de certeza, milhões de pessoas que estivessem a ver o jogo, através da TV também, percebiam perfeitamente o que aquelas pessoas estavam a dizer. Enquanto passavam depois as imagens do jogo, divagava em pensamentos. Perdi não sei quanto tempo a tentar, através da leitura dos lábios, perceber se diziam a palavra Apoel. Não percebi uma única vez se disseram ou não, depois aborreci-me com aquilo e mudei de canal...

- Epá! Assim não dá! Não falas sobre o tempo. Não falas sobre futebol, assim não sei sobre o que falar. Sabes perfeitamente que não consigo ir sossegada no elevador...

- Rebenta a bolha! Aborta tudo! Isto não está a resultar nada.

- Então? O que foi?

- Granda joga?! O que é que isso quer dizer? Isto para ti é que é uma situação casual? Achas casual dizer-me que eu sei perfeitamente que não consegues ir sossegada no elevador? E como é que sabes que não falo sobre o tempo se não me conheces?

- Opá! Anda lá, eu nem sei o que é um apoel, pus-me a pensar nisso depois esqueci-me do que tínhamos combinado dizer e improvisei. Casual vês? Falhou só um pormenor...

- Um pormenor que estraga tudo! Deixa, automaticamente, de ser uma coisa casual. Corta a cena toda! Eu disse-te que isto não ia resultar... ...E sempre quero ver como é que vamos depois conseguir sair daqui. Sempre estou para ver...

- Se não fosses maniento, nada disto estaria a suceder. Qual é que é o problema de me possuíres dentro de um elevador? Por que é que tem de ser uma cena casual? Por que é que...

- Eh! Para lá! Antes de mais, não tentes seduzir-me ou excitar-me ao usares a palavra possuíres, só porque sabes que fico doido ouvir-te dizer isso. Depois, tu sabes perfeitamente que nós conversamos sobre isto! Sabes perfeitamente que estas coisas em sítios públicos a mim me afligem bastante. Convenceste-me, não sei bem ainda como, que com uma situação casual e tal e não sei mais o quê, depois beijaste-me a orelha e pronto, aqui estamos nós! E como é que nós vamos sair daqui diz-me lá? Vamos até ao vigésimo e depois? Tens de levar o papel assinado. Eu nem acredito na sorte que tiveste em acertar no nome de alguém que trabalha no vigésimo andar...

- Estás sempre a stressar com tudo! Chegamos lá acima, eu peço a alguém que passe para assinar isto e pronto. Anda lá, possui-me só uma vez, só de pensar nisso fico tão excitada que tenho a certeza que só precisas entrar só uma vez. Anda, só uma vezinha, vá lá...

- E as câmaras do elevador?

- Filmam tudo, e alguém vai bater umas à nossa pala.

- E isso não te incomoda?

- Não.

- Nem um bocadinho?

- Nada.

- Tens a certeza?

- Tenho.

- Pronto. Está bem então. Vamos lá. Chama o elevador...

- Deixa estar. Perdi a vontade agora...

- O QUÊ? Só podes estar a brincar...

- E estava. Queria só ver se eras capaz, mesmo afligindo-te e stressando-te, de fazer isso comigo. Já vi que és. Estou contente e feliz. Anda, agora estou ansiosa que me possuas em casa...

- Só podes estar a brincar...Não vi eu o jogo todo por tua causa...

quarta-feira, 7 de março de 2012

Banda Sonora

Independentemente de seres, ou não, verdadeira contigo mesmo, podes pensar o que quiseres, acreditar no que quiseres, formar as opiniões que quiseres, fundamentadas naquilo que quiseres, ser até aquilo que quiseres ser. Não deixa é nunca de haver, ao mesmo tempo, a realidade, nua e crua, para nos lembrar que a verdade de cada um, mais cedo ou mais tarde, não passa disso mesmo. Seja lá o que isso for...
Ontem a minha Mãe teve um pequeno derrame na cabeça. Apesar de já estar tudo bem, ter, de vez em quando, e de repente, a consciência da mortalidade daqueles que mais amamos, ou mesmo da minha, faz-me sempre questionar a minha verdade, aquilo em que eu acredito, aquilo que eu ando a fazer com a minha vida, o tempo que perco com coisas estúpidas, que só me apercebo que são estúpidas precisamente nestes momentos. Porquê? Para quê? Nada, mas mesmo nada, depende de mim...
Para já, e por enquanto, na minha verdade, as pessoas, de uma maneira geral, não valem mesmo nada. As únicas coisas puras que para mim existem são:

O amor descrito somente nos livros e nos filmes, e o ar puro e fresco de uma manhã de Primavera.