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terça-feira, 20 de março de 2012

Banda Sonora

Oito da manhã. O despertador toca e ele acorda. Ao contrário dos outros dias, assim que o despertador tocou, levantou-se de imediato. Premiu o botão para parar o som que provinha do altifalante do aparelho de despertar, e ficou em pé, parado, no meio da sala somente iluminada pelos fracos raios de luz que conseguem perpassar pelo pequeno vidro pintado de amarelo, colocado acima das cerradas persianas, já no topo das duas grandes janelas. Não sentiu nada enquanto ali esteve parado. Nem um pensamento, uma sensação, sono, exaltação pelo começar de um novo dia, nada, absolutamente nada, somente um vazio no olhar preenchia o espaço.
Completou os habituais afazeres matinais de forma mecânica, e preparou-se para sair de casa, apalpando os bolsos do casaco a fim de se certificar que tinha tudo o que precisava. Mesmo antes de rodar a chave para abrir a porta, subitamente o silêncio que se fazia sentir em casa, desde que se tinha levantado, interrompeu-o de forma abrupta. Apercebeu-se então que não tinha ouvido música depois de ter acordado, que não deu sequer conta que tinha ficado pronto para sair, que continuava sem sentir nada, sem sentir uma só emoção, sem pensar em nada, era quase como se apenas existisse de forma automática, onde todas as acções que tem de efectuar são cumpridas de forma rotineira, sabidas de cor. Não ligou qualquer importância a tal constatação e abriu decidido a porta de casa.
Já na rua, nem o Sol nem a aragem fria que corria tiveram qualquer efeito em si. Enquanto caminhava pela calçada de basalto acima, não reparou que passou pelo cão que todos os dias vagueia por ali aquela hora à procura de algo para morder, situação que lhe causa usualmente uma certa apreensão. Seguiu simplesmente em frente, ignorando também, mais à frente, aquela velhota de muletas que igualmente todos os dias carrega dois sacos com extrema dificuldade, ao mesmo tempo que tenta descer a pequena ladeira sem escorregar e cair. Seguiu sempre em frente, sem olhar ou ver ninguém, até chegar à rua principal e se fundir no meio dos inúmeros transeuntes que todos os dias, ao início dos mesmos, pululam por ali, e todos os dias, ao fim dos mesmos, como se de magia se tratasse, desaparecem do horizonte à medida que o Sol se desvanece. A meio da manhã, a altercação que ocorre entre os vários colegas de escritório, sempre no dia a seguir a um jogo de futebol, estava a acontecer mesmo em frente à sua secretária num alarido quase insuportável. Sem proferir uma palavra, colocou novamente o olhar no monitor e ali ficou até alguém lhe ter dito que eram horas de almoço. Como de costume, foi almoçar sozinho, sem proferir uma palavra. Passado esse dia, já em casa à noite, a última coisa de que tem memória, ou consciência, é a recordação de ter olhado para o lado durante a tarde, e ouvir alguém bradar num esgar feliz que começava a Primavera nesse dia. Continuando sem sentir absolutamente nada, recorda-se perfeitamente de conjugar essa frase que ouviu com a constatação, perfeitamente normal e banal para si, que apesar de o sangue ainda lhe continuar a correr nas veias, só podia ter morrido! Tinha morrido precisamente no dia em que tudo começa a brotar novamente, tal como é suposto ser em todos os ciclos de vida até que a mesma tenha um fim. Morreu! Pura e simplesmente morreu. Sem sequer se importar com isso, ou até mesmo questionar-se porquê, no dia a seguir, às oito da manhã, depois de o despertador tocar e de ter ficado só, em pé, no meio da sala preenchida apenas pelo olhar vazio, deu por si, de repente, prostrado no meio da rua, entre os inúmeros transeuntes que freneticamente se movimentavam de um lado para o outro, ao mesmo tempo que uma criança corria rua abaixo de sorriso aberto, enquanto outra a incentivava fortemente a saltar para dentro do eléctrico em movimento...



Another turning point, a fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist, directs you where to go
So make the best of this test, and don't ask why
It's not a question, but a lesson learned in time

It's something unpredictable, but in the end it's right.
I hope you had the time of your life.

So take the photographs, and still frames in your mind
Hang it on a shelf in good health and good time
Tattoos of memories and dead skin on trial
For what it's worth it was worth all the while

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