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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Banda Sonora

Levanta-se, corre, veste-se à pressa, sai de casa sem comer. Aperta o casaco até cima, enquanto olha para o céu através do vidro da porta do prédio, franze a testa, e faz-se à rua com determinação. Horas antes, à medida que preparava o jantar, bebendo pequenos tragos de vinho tinto enquanto esperava que algo cozinhasse ou ficasse quente, ia trauteando, ao mesmo tempo, a música que passeava por toda a casa proveniente das colunas colocadas na sala. O vapor, proporcionado pelo lume brando que abraçava os tachos e panelas em cima dos bicos de ferro do velho fogão a gás, enfeitava os vidros da cozinha com pequenas bolhas, que lentamente escorriam, desenhando pequenas lágrimas nos vidros das duas janelas viradas para o pequeno monte em frente. O misto de cheiros provenientes do repasto, agora quase pronto, originavam uma acolhedora e confortável sensação de felicidade, apenas perceptível para alguém que, porventura, estivesse, naquele momento, a observar tudo de cima, como se a casa não tivesse tecto e de uma peça de teatro, ou uma cena de um qualquer filme europeu, se tratasse. Preparando-se para colocar os pratos em cima da antiga mesa de madeira que a sua avó lhe tinha oferecido, decide, antes de apagar o lume, pegar na velhinha colher de pau que tinham comprado, anos antes, naquela pequena loja de artesanato ao virar da esquina, e provar o tempero. Assim que tocou com os lábios na colher, a memória de um “amo-te muito” dito dias antes, com a mesma colher na mão, seguido de um enorme sorriso rasgado naquela cara de anjo, perfeita para si, um arrepio percorreu-lhe as costas ao mesmo tempo que o telefone tocou. Sem conseguir perceber porquê, um aperto no coração fez com que se sentasse, sem pensar, na cadeira que tem o encosto empenado, encostada na parede da cozinha e ali mantida apenas e só devido às recordações que proporciona. Com as pernas ainda a tremer, atende a chamada. Do outro lado, uma voz que desconhecia indaga se está a telefonar para o número correcto, para a seguir dizer que infelizmente tinha havido um acidente... ...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Banda Sonora

Quando era puto, os valores que me foram transmitidos, quer pela minha professora da escola primária, quer pelos meus Avós, maternos e paternos, e Pais, fizeram com que tivesse crescido com a noção de respeito pelos mais velhos, que tivesse crescido com a noção de que aquilo que não é meu não é para mexer, que o respeito pelo próximo era das coisas mais importantes que podem haver quando se vive em comunidade numa sociedade. Dantes, as pessoas em geral só queriam viver condignamente, só queriam ter oportunidades para poderem dar aos filhos aquilo que não conseguiram ter enquanto crianças, queriam ter a felicidade de encontrar a tampa para a sua panela e poder partilhar uma vida que, através do trabalho e do amor, lhes iria proporcionar, com filhos, netos, etc, uma sensação feliz de dever cumprido no leito da sua morte. Claro que, como putos que éramos, e depois adolescentes, fizemos asneiras, gozamos com pessoas apenas e só porque eram diferentes de nós. Uns mais, outros menos, acabaram por prejudicar alguém, sem ter bem noção das consequências dos seus actos, mas os valores, os princípios, que nos regiam, eram os de respeito, acima de tudo, pela verdade e por aquilo que é correcto. Sendo, não mentir, ajudar, o respeito pelo próximo, o não prejudicar ninguém em benefício próprio, unicamente aquilo que é correcto.
Hoje em dia, na era da comunicação, e da (des)informação, como gostam de apelidar a coisa, com os jogadores de futebol a mentir e enganar deliberadamente na TV em pról nem sei bem do quê, sendo o futebol mais importante do que outra coisa qualquer, com os Isaltinos, os Valentins, os Pintos da Costa, os Jardins, e todos os restantes afins, a pavonearem-se impunemente por aí, manipulando, prejudicando, dizendo e fazendo o que querem e bem lhes apetece, com as politicas, o dinheiro, e a economia dos mercados (seja lá o que isso for!), a suplantar e a dominar os interesses, a todos os níveis, da vida das pessoas e dos Países que ainda existem, com que valores crescem e se regem os putos de hoje em dia? E como irão eles ser daqui a 30 anos?
Diz-me o o que o sou, diz-me o o que o sou, no estado em que as coisas estão...