• FIM
  • R.I.P

quarta-feira, 20 de julho de 2011

After the curtain

A primeira vez que se lembra que tal lhe tenha ocorrido, era ainda pequeno, não teria mais do que 8 anos. A sua pequena, mas já vincada personalidade, havia demonstrado que era irremediavelmente arisco. Não porque não gostasse de receber um carinho, ou uma demonstração de afecto, mas porque lhe era muito difícil confiar assim de repente nas pessoas, ao ponto de lhes mostrar um sorriso sequer. Seria preciso muita paciência, e persistência, para alguém conseguir ganhar a sua confiança. Isto, claro está, excluindo a sua família mais chegada, para a qual também não conseguia encontrar a plausibilidade de gostar e confiar tanto neles, tendo aceitado apenas que as coisas era suposto serem assim e pronto. Paralelamente a tal facto, possivelmente devido à sua característica esquiva, passava grande parte do seu tempo sozinho. Sem se conseguir determinar exactamente o momento em que tal começou a ocorrer, passou a pautar a sua vida com base em sinais que previamente estabelecia na sua cabeça, ditando-os depois, num sussurro apenas perceptível para si, para que fosse inequívoco o sinal de início do tempo em que tudo teria de ocorrer. Tais sinais tinham o propósito de conseguir, ou não, prever que algo ia acontecer, ou então, seguir pela direita caso o tal sinal que determinara acontecesse, ou seguir pela esquerda da rua em caso negativo.
Aquelas pequenas brincadeiras, aqueles jogos mentais, foram tomando praticamente conta de todo o tempo que passava sozinho, sendo um dos seus momentos preferidos o momento em que a sua Mãe lhe pedia para ir fazer um recado qualquer à mercearia nas traseiras do prédio onde habitava. A possibilidade de poder, na rua, determinar os sinais, com tantas coisas diferentes, tanto espaço, à sua volta, provocam-lhe sempre muita alegria. Foi então, com cerca de 8 anos, que tal lhe ocorreu pela primeira vez. Após o sinal que tinha determinado não ter acontecido, e por causa disso ter atravessado a estrada para poder seguir do lado esquerdo da mesma, lembrou-se que a sua Mãe lhe tinha dito que o Sr. Pires, dono da mercearia onde habitualmente fazia o avio do mês e as pequenas compras diárias, se encontrava fechado para férias, e que por causa disso teria de ir ao Sr. Ramos, um senhor que tinha vindo de Angola e tinha aberto também uma mercearia, para ver se conseguia construir uma casa no lugar da barraca que tinha feito. Na tentativa de criar novamente raízes, tinha comprado um pequeno terreno perto do sítio onde arrendou depois o pequeno armazém onde fez a mercearia. Até então, apenas tinha dias melhores quando o Sr. Pires fechava, ou então já de noite cerrada, pois ficava sempre aberto até mais tarde e havia sempre alguém que precisava de alguma coisa. Por tal motivo, pouco tempo depois de ter aberto a mercearia, passou a ser carteiro, deixando a sua mulher, e dois pequenos filhos, a tomar conta do estabelecimento durante o dia, para ver se conseguia finalmente desmanchar a barraca.
Por ser quase hora de almoço, e a mulher do Sr. Ramos ter de dar comer aos dois filhos pequenos, quando chegou à mercearia havia um pequeno cartaz na porta, escrito à mão, que dizia, no caso de ser preciso alguma coisa da loja, que ela se encontraria em casa, bastando bater à porta para que viesse de imediato à mercearia.
No minuto que esteve parado em frente à porta a pensar no que deveria fazer, ocorreu-lhe perguntar a uma senhora que por ali passava no momento, se sabia onde morava a mulher do Sr. Ramos. Após uma breve, mas mas esclarecedora explicação, sentiu-se confiante para se pôr ao caminho sem ver a necessidade de ir a casa explicar o sucedido à sua Mãe.
Esquecera-se completamente que teria de seguir pelo lado esquerdo da estrada! De pensamento embrenhado no objectivo de não se perder e dar com a barraca do Sr. Ramos, a sua mente só conseguiu sossegar depois de ter conseguido encontrar a barraca, falar com a mulher do Sr. Ramos, comprar o que tinha para comprar, depois de seguir atrás da mulher do Sr. Ramos até à mercearia sem abrir a boca, e por fim regressar a casa. Apenas após ter entregado tudo à sua Mãe, e ter regressado ao seu quarto, é que se lembrou que não tinha, pela primeira vez, cumprido o que o sinal tinha determinado.
E agora, o que fazer, qual seria o significado das coisas daí para frente, se depois não cumpria o que estaria já estabelecido fazer? Passaram dois dias até que um novo significado, um significado que o acompanharia até à idade adulta, lhe era revelado. Nesse dia, o seu vizinho Quim, mais o seu filho Pedro, foram lá a casa convida-lo para jogar à bola num campo grande, pelado mas novo, que havia perto da casa deles. Depois de terem ido também buscar o Bruno, um outro miúdo do prédio ao lado, estavam agora parados em frente ao prédio à espera que o Quim conseguisse lembrar-se do caminho para o campo de futebol. De repente, enquanto o Quim perguntava ao vizinho António se ele sabia o caminho, aos berros, já que o António morava no terceiro andar, perante a resposta “É AO PÉ DA BARRACA DO RAMOS”, e da nova questão “E ISSO É ONDE?” ele, prontamente, disse que sabia onde era, e levou-os todos atrás de si até lá. Depois de tal feito, de ter ensinado a um adulto um caminho novo, sentia-se um herói, um verdadeiro herói!
Ainda durante o jogo, enquanto todos corriam freneticamente atrás da bola, ele, parado junto a uma das balizas, concluía, com um sorriso nos lábios, que então era isto que acontecia caso, por algum esquecimento, ou infortúnio de ultima hora, como preferia pensar, o objectivo previamente estabelecido não fosse cumprido! O caminho que faria teria alguma utilidade, ou objectivo, passados dois dias! Essa tarde só acabou por não ser perfeita porque, a dada altura, um pastor alemão invadiu o campo, sedento de brincadeira, o por acidente mordeu o Bruno no peito, causando a todos eles, até aos dias de hoje, um verdadeiro pânico de cães!

Mantendo sempre a característica de esquivo à medida que ia crescendo, e os pequenos jogos mentais, que iam sendo cada vez mais elaborados com o decorrer do tempo, já com dezanove anos, depois de ter cumprido à risca um sinal mental previamente determinado, ganhou coragem, e deixou que a vontade de conhecer, e ser conhecido, por aquela que foi a sua primeira namorada, e o seu primeiro amor, finalmente acontecesse. Passaram cinco anos embevecidos um outro pelo, trocando cartas e juras de amor, tendo por fim perdido a virgindade juntos! Apesar de toda a sua vontade e desejo, cinco anos foi o melhor que conseguiu até se sentir completamente preparado para ver a mulher que amava nua, e, principalmente, entregar-se, mostrar-se também nu. No entanto, rapidamente o tempo passou, e todas aquelas emoções foram sendo substituídas por sentimentos que não sabia interpretar ou explicar. Passado algum tempo começou a reparar que um gesto dela era diferente, depois uma frase que não lhe parecia dita de uma forma verdadeira, que parecia até mentira! Mais tarde a forma de dormir, de olhar para ele, de demonstrar desejo, paixão, tudo foi ficando diferente, para pior! Foi então que um último e derradeiro significado tomou conta do seu ser. Saber interpretar o que sentia mas não conseguia explicar, ou acreditar que era verdade. Contudo, interpretar o que sentia, não lhe era nada fácil, já que aquilo que sentia, sem saber explicar porquê, tinha apenas como base todas aquelas pequenas alterações que foram ocorrendo ao longo do tempo, que só ele, aparentemente, tinha notado, e tudo isso lhe dizia que ela já mais não o amava como outrora tinha dito que amava, que ela já não mais sentia o que ele ainda sentia por ela. Recusando-se a querer aceitar isso, invariavelmente preferia acreditar nas justificações sem nexo que recebia cada vez que, num momento de desespero, a confrontava com o que sentia e mais não conseguia esconder sem falar e perguntar. Raramente conseguia acalmar o seu espírito, mesmo depois de fazer todos os esforços possíveis e imaginários para que tudo o que tinha ouvido afinal fizesse sentido. Assomado por tais sentimentos contraditórios, amargurou, tornou-se obcecado e deixou de conseguir raciocinar bem. Cada dia que passava, um pouco mais do seu ser era corroído por tudo aquilo que sentia mas não queria acreditar ou aceitar que era verdade, ao mesmo tempo que tentava, desesperadamente, acreditar no contrário. Seis anos se passaram, até que finalmente ela, cansada de tudo e tomada pela falta de desejo e amor que há muito sentia, consegue superar a vontade que sempre tivera manifestado em não o magoar, e lhe disse que não mais o amava, partindo para sempre no dia a seguir.
Finalmente o que sentia fazia sentido, afinal era mesmo verdade tudo aquilo que sentia há já seis longos anos! Um misto de tristeza e alívio ainda lhe corria nas veias quando uma dúvida se desfez em mil estilhaços por todo o seu cérebro. Teria sido ele apenas a ter notado todas as alterações que notou, e por causa disso, e do comportamento que teve devido a isso, ter feito com que ela tivesse deixado de gostar dele, ou teria efectivamente ela deixado de gostar dele antes de ela mesmo ter notado?
Mais quatro anos se passariam até que conseguisse novamente apaixonar-se. Quando tal aconteceu, novamente após um determinado sinal ter sido cumprido, sentiu, dias depois de ter começado o processo mútuo de descoberta, a mesma desconfiança, o mesmo sentimento não reciproco vindo da mulher pela qual se acabara de apaixonar. Coisa a que curiosamente a sua mente nunca passou muito tempo a tentar perceber. À semelhança do que aceitara com a sua família, também aceitara de bom grado que não existe uma explicação lógica e racional para o acelerar do coração e o apaixonar-se por alguém assim que a vê a pela primeira vez. Todavia, não conseguia saber se era porque ela raramente olhava para trás uma última vez para um último sorriso antes de se ir embora, ou se seria porque raramente ia com um esgar de felicidade quando se ia embora, o que é certo é que se sentia novamente invadido por aquela sensação de que ela não sentia o mesmo que ele.
Uma vez ou outra, ao mesmo tempo que fazia tudo por tudo para não manifestar em nada aquilo que mais uma vez sentia, por mais sinais cumpridos que obtivesse, continuava a sentir que ela não sentia o mesmo que ele, deixando, nessas alturas, escapar uma pergunta, ou uma acusação que corroborasse o seu sentimento, mas em todas essas vezes a vontade que tinha em acreditar no que ela prontamente respondia fazia com que a coisa passasse por uns tempos e continuasse com ela a seu lado.
Os meses foram passando, e ele, determinado em acabar de vez com aquilo que já considerava ser uma doença da qual padecia, e que só ele poderia debelar, resolveu estabelecer um último sinal, o derradeiro sinal, que lhe iria ditar se deveria aceitar aquilo que sentia como verdade, ou então como paranóia sua. Nunca mais, após tal sinal, iria fazer aquilo ou ficar absorvido em impressões ou sentimentos para os quais não tinha uma explicação lógica e plausível O resultado teria de ser inequívoco para que nunca mais fosse assolado por tais dúvidas ou sentimentos. Assim, num Sábado de manhã, enquanto ela se tinha ido dedicar a uma tarefa qualquer fora de casa, feliz por ter ficado na cama onde ambos tinham dormido, e cada vez mais convencido que tudo não passava de uma paranóia dele, do medo que ele sentia desde pequeno em dar-se a conhecer a pessoas que não sabe quem são, determinou que se ela tivesse guardado todas as mensagens que lhe tinha enviado durante quatro meses, coisa que ele fazia sempre já que gostava depois de recordar os momentos em que tinha trocado aquele mensagem com ela, seria porque ela gostava dele como ele gostava dela, se houvessem menos do que quatro meses de mensagens, ela não gostava dele. Num misto de confiança e ansiedade, agarrou no telemóvel dela e começou a ver as mensagens por ela enviadas. Não chegou nunca a saber em quantas ia, já que, a dada altura, cruzou-se com o texto “Amanhã fodes-me?” para alguém que não era ele. Já nada mais interessava. Um ataque de pânico percorreu-lhe o corpo todo, sentia-se tonto, a cair, ainda que estivesse deitado na cama com o cheiro dela a entrar-lhe pela ventas adentro, só queria fugir, sair dali o mais rápido possível, encerrar abruptamente, com o correr súbito das cortinas, um espectáculo que estava ainda a meio. Não existe satisfação ou alívio quando se está certo e convicto da decepção. E há coisas que não se explicam, sentem-se e pronto. Tal como muitas coisas, as coisas são o que são... ...

Beirut - After the Curtain

what can you do
when the curtain falls

what will you do
when the curtain falls
you'll

left, right

1 comentário:

Tindergirl disse...

Fonix!! Desculpa :) Depois de tanto tempo sem escreveres, ofereceste-me (sim, porque eu venho aqui todos os dias ou quase) uma grande e excelente história e que me deixou também um bocado perturbada.