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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Lazarus heart

Não suporto, nem tenho paciência, as pessoas que estão constantemente a falar sobre si. Não as consigo perceber! É quase uma fixação por elas próprias, fazendo com que isso lhes impeça de conseguirem falar sobre mais alguma coisa que não sobre si mesmo! Sempre eu, eu, eu, então e eu? Parece mesmo que essas pessoas gostam de contar, com todos os pequenos e insignificantes pormenores, as mais estúpidas coisas que aparentemente lhes estão constantemente a acontecer, e sempre como se fossem as coisas mais extraordinárias, ou as maiores tragédias, ou as coisas mais cómicas. Por razões que desconheço, as que são consideradas as mais cómicas são normalmente as mais visadas. Mais confusão me faz quando assisto a uma conversa entre duas pessoas, onde uma está a contar uma situação qualquer que lhe aconteceu, e a outra pessoa, assim que ela termina de contar o que estava a contar, começa de imediato a debitar também uma outra história da sua vida, sem ligar ou opinar absolutamente nada sobre o que ouviu. Normalmente começa sempre com uma frase do género: “Se isso foi a ti, a mim ainda me aconteceu pior… …”. E pumba, lá vem mais uma história qualquer. Como se isto já não fosse o bastante, a primeira que tinha iniciado a conversa, mais uma vez depois de ouvir muito atentamente a história da outra, ainda responde: “Ah, mas isso não é nada comparado como que me aconteceu no outro dia, queres ouvir esta?... …”. Escusado será dizer que ainda vamos para uma terceira, quarta, quinta história. Sim, porque desconfio que este tipo de conversas deva ser uma competição instituída. Este tipo de conversas serve sempre para ver quem é que consegue ter a história mais desgraçada, a mais engraçada, a mais triste, etc. Sempre na primeira pessoa, sempre eu, eu, eu. Então e eu?
Obviamente que neste tipo de conversas/competição, cada resposta que é dada nunca é um comentário, ou uma opinião ao que se acabou de dizer. É logo uma resposta a contar também um episódio qualquer da vida delas. Um espectador de uma destas conversas consegue observar a pessoa que fala a falar muito interessadamente e efusivamente sobre o que está a contar, e a pessoa que ouve muito atenta ao que está a ouvir. Mas ao contrário do que se possa pensar, o ouvinte apenas ouve interessado para que possa, enquanto ouve, ir aos confins da memória buscar uma história ainda melhor do que a que está a ouvir para que a possa contar assim que perceba que a outra pessoa terminou o que estava a dizer. Por vezes o esforço de memória não chegou a lado nenhum e então a melhor solução que têm é passar para a secção das conversas filosóficas sobre o que é que fariam se fossem uma determinada pessoa numa determinada situação. Sempre eu, eu, eu, então e eu?
Se ainda fosse necessário uma confirmação, ela surge quando numa destas conversas entre duas pessoas surge uma terceira pessoa e interrompe abruptamente, com os habituais cumprimentos da praxe, tanto a pessoa que estava a falar como a pessoa que estava a ouvir, e começa de imediato a contar uma coisa muito importante sobre o que lhe aconteceu durante o dia. Nesta altura, para um mero espectador, nunca iremos saber o fim da conversa que estava a haver antes do terceiro interlocutor ter interferido. O que evidencia claramente a falta de interesse dos ouvintes, e até de quem está a falar!
Desisto. Sempre eu, eu, eu. Então e eu, quando é que eu irei ter uma oportunidade de me conhecer a mim próprio?

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