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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Dust motes

Ela está melancólica porque comeu uma catrefada de fatias generosas de melancia, e depois bebeu um copo de vinho tinto.

Got the shakes

- Esta semana, por incrível que pareça, não dormi na minha cama nem um dia! Tenho…

- A semana toda?! Eh lá, granda maluco! Até que enfim que despertaste para a vida e começas a fazer alguma coisa para te divertir! Então e quem é ela? Eu conheço-a?

- Como eu te estava a dizer, tenho andado a dormir no sofá! Por alguma razão que desconheço adormeço a ver televisão e só acordo de manhã depois! Ando com as costas todas lixadas! Achas que estou a ficar velho?

- Não! Estás a ir para novo…

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Bring On The Dancing Horses

Oh! O Oliveira é um azeiteiro...

The cutter

- Achas possível deixar de gostar de algo?

- Deixar de gostar de algo? Como assim?

- Deixar de gostar de pizza, por exemplo, ou deixar de gostar de uma musica, ou de um sabor de gelado?

- Não. Acho que é possível ficar saturado, enjoado, mas não deixar de gostar...

- Então mas se ficas saturado, enjoado, cansado de uma determinada coisa, isso não é deixar de gostar?

- Não. É gostar de uma forma diferente. Tens a certeza absoluta que se comeres pataniscas todos os dias, até ficares farto, que depois de estares dez, vinte anos sem as comer, que não vais voltar a desfrutar de uma patanisca outra vez, talvez até com um gosto maior, devido à saudade que nem sequer sabias que sentias?

- Oh! Por essa ordem de ideias, não se deixa nunca de gostar de nada ou até mesmo de alguém...

- Sim, é verdade. Quando se gosta é para sempre, e quando não se gosta também é para sempre. Desde que se saiba o porquê de tal acontecer. O problema reside é no facto de saber o porquê de gostar, ou não, de algo ou de alguém... ... O pior mesmo, é quando se pensa que se gosta de algo, ou alguém e afinal isso não é verdade, e vice-versa...

- Porquê?

- Porque depois, como o ser humano é, é o cabo dos trabalhos para darem o braço a torcer. Só para tu veres bem a dimensão da coisa, há pessoas que comem mesmo figado e rins, e dizem que gostam e tudo...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Extracto de uma tarde de Agosto em Lisboa

Hoje à tarde, num jardim de Lisboa com vista para o rio, enquanto as não muitas pessoas que por ali passeavam pacatamente se refugiavam nas poucas sombras disponíveis e a única esplanada se encontrava completamente vazia à torreira do Sol, perto da esplanada, nas traseiras de uma casa cor-de-rosa, um homem, com aspecto de quarenta e poucos anos, suspirava e olhava para céu ao mesmo tempo que despejava, muito lentamente, dois baldes de entulho, provenientes das obras que ali decorrem, para dentro de um daqueles enormes depósitos em metal. Nesse preciso momento, pelo portão da mesma casa, sai uma mulher, igualmente com aspecto de quarenta e poucos anos, vestida com uma bata branca e com o seu cabelo castanho apanhado, presumindo eu ser a empregada doméstica da casa. No momento em que o olhar deles se cruzou, presenciei a este pequeno dialogo:

Homem – E é assim a vida! (enquanto limpava o suor da testa com a mão esquerda cheia de pó)

Mulher – A vida é assim! (enquanto encolhia os ombros e prosseguia o seu caminho)

Bestas Vs Bestiais

Nunca consegui compreender por que é que as namoradas, ou esposas, têm sempre a necessidade de ouvir dos seus respectivos namorados, ou esposos, amuando inclusivamente se não ouvirem as palavras: Estás bonita! Por que é que elas acham que eles namoram, ou casaram, com elas em primeiro lugar?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Dance Of The Bad Angel

- Ehhhhh! Então pá? Tudo bem contigo? Aos anos que não te via! Então e como é que tu estás? E a Laura, como é que ela está?

- Eu e a Laura já não estamos juntos há...

- A SERIO! Ena pá! Como é que é possivel! Pensei que tu e a Laura fosse mesmo foreva...

- Pois...Deve ser por causa disso que eu já não te via há anos...

A vingança serve-se fria...

Hoje, finalmente, obtive o meu passe social. Sempre quero ver agora se no Sábado aquele energúmeno do porteiro vai conseguir barrar-me a entrada novamente.

Butterfly's Dream

- Se algo ou alguem me é indiferente, é suposto eu nem sequer pensar nisso não é? Então como é que eu sei se estou a sentir indiferença ou não? Será apenas e só quando nunca penso nisso?

- A indiferença não existe, é um mito. Só se poderá conviver com a indiferença quando tudo e todos forem iguais!

- Não me parece! Se tudo e todos fossem iguais, as coisas seriam diferentes.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Inbetween days

- Achas que um gajo se estiver a pensar sempre em férias, a querer ter férias, a lamentar-se porque as férias já acabaram e agora só para o ano, etc, tu sabes como é que é não é, é porque não é feliz naquilo que faz na vida? Isto porque eu dou comigo muitas vezes a pensar em férias, a querer ter férias, a lamentar-me que agora só para o ano é que tenho férias, mas eu até gosto daquilo que faço, às vezes...Quer dizer, eu gosto da minha vida de uma forma geral. Claro que há sempre coisas que gostava de mudar, e outras que gostava de fazer, mas num compto gosto da minha vida...profissional e privada! Bom, isso é outra coisa que eu por acaso acho engraçada, a separação da vida profissional da vida privada. Como se Eu, no meu trabalho, fosse uma pessoa e em casa fosse outra! Quer dizer, eu acredito que haja pessoas que sejam assim, mas eu não sou. Eu sou tal e qual o mesmo tanto no trabalho como em casa...Se calhar é por isso que estou sempre a pensar em férias, sou eu o dia todo, fico farto de mim!
Não. Não deve ser isso. Se eu ficasse farto de mim não era férias que eu gostava de tirar ou em férias que eu pensaria. Eu pensaria era em mudar. Fazer por ser outra pessoa que eu gostasse mais de ser, muito embora muitas vezes eu acabe por perceber que não sei quem sou! Será que eu só sou eu nas férias e por causa disso fico com saudades de mim sem saber que é isso que estou a sentir? Achas que isso é possivel ou é disparatado aquilo que estou a dizer?...

- Não sei...Isso depende sempre...

- Olha! Já viste as horas?! Vou ter de sair. Hoje dei uma tanga para tirar a tarde. Tenho mesmo de me ir embora já se não ainda pensam que eu estava a dar uma tanga quando disse que tinha de sair às três e meia hoje.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Paisagens mentais #1

- E se eu de repente chegasse aqui ao pé de ti e te desse um beliscão no rabo, o que é que fazias?

- Bom, como mulher prezada que sou, dava-te um estalo.

- Mas davas-me um estalo porque era esse o teu reflexo, porque ficavas com vergonha, ou porque isso é o que é suposto uma mulher fazer quando um estranho chega ao pé dela e faz uma coisa dessas?

- Não sei. Chega lá ao pé de mim e dá-me lá um beliscão no rabo, que eu depois digo-te por que razão é que te dei um estalo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Destino

O homem que muda de repente de ideias, e que começa de imediato a falar sobre o novo pensamento que lhe ocorreu, sem se aperceber que não completou a ideia anterior, casou-se com a mulher que fala constantemente sobre si mesma a pensar noutra coisa qualquer!

Who You Are

Às vezes, quando por acidente encontro alguma coisa escrita ou feita por mim, num passado relativamente distante, gosto de sentir aquela sensação inesperada de me recordar de algo que não esperava naquele momento recordar! É engraçado rever-me por uns momentos, aperceber-me, apesar de achar que não sou mais aquela pessoa que escreveu aquilo um dia, que existe uma linha mestra de pensamento que continua a conduzir tudo aquilo que na altura e hoje em dia ainda penso ou faço!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Gonna See My Friend

- Aquele gajo é levado de trinta diabos! É um pratinho estou a dizer-te! O gajo vai buscar coisas do arco-da-velha!...

- Não concordo nada contigo! Mas até passo a concordar se me disseres o quer dizer pelo menos uma das expressões que acabaste de dizer…

- Tu não me percebeste? Então para quê que estás com cenas?

- Porque me irrita que sejam usadas palavras e expressões que não se sabem o significado! O que raio quer dizer Arco-da-velha, por exemplo?

- Outra vez porque raio? O que raio quer dizer porque raio? Para que saibas, uma das explicações que existem para a expressão arco-da-velha é que coisas do arco-da-velha são coisas inacreditáveis, absurdas. Arco-da-velha é como é chamado o arco-íris e, como sabes, existem muitas lendas sobre as suas propriedades mágicas! Uma delas é beber a água de um lugar e devolvê-la noutro lugar! Tanto que há quem defenda que "arco-da-velha" venha do italiano arco da bere. Por isso, a partir deste momento, a não ser que me expliques o que quer dizer, porque raio, vou assumir que achas aquele gajo um pratinho também...

- És muito espertinho tu! Das outras expressões não falas tu…Essa regra não vale, eu não o acho um pratinho enquanto não me explicares o significado de todas as expressões que usaste. E como fui eu que tive esta ideia primeiro, não podes vir agora dizer que eu também tenho que explicar! Eu não tenho que te explicar o que quer dizer porque raio enquanto tu não me explicares as outras primeiro, até porque tu também usaste essa expressão! Como tal, tu, que estás aí armado em esperto, é que tens de me dizer o que quer dizer porque raio. Eu cá sei… …

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

É como daquela vez

É como daquela vez, nunca mais me esquece...É assim, desta forma e com esta frase, que ele começa tudo o que diz. Diga-se o que se disser, cada vez que ele pretende dizer alguma coisa lá está mais uma vez a bela da analogia narrada do principio ao fim sem qualquer tipo de hesitação! Apesar de ser estranho, a necessidade de estabelecer uma comparação com o que se está no momento a passar ou a dizer, a coisa até poderia ser suportável não fosse o caso de ser, em todas, mas todas, as vezes a mesma! Admito porém, que na primeira vez que a ouvi, algumas horas depois de o ter conhecido, que achei graça. Teve graça sim senhor, e até me pareceu adequada ao momento tal analogia. Na segunda vez, poucos minutos depois, nem sequer achei estranho, imbuído pela risota que pouco tempo antes reinava, e precisamente por causa disso, pensei para comigo que estaria a aproveitar a embalagem e quis usufruir, durante mais alguns minutos, da glória que uma graçola aplicada no momento certo proporciona. Quase toda a gente se riu novamente. Diria até, a bandeiras despregadas, como se tivesse sido a primeira vez que tinham ouvido aquelas palavras! Não liguei, ou melhor, depois de ter pensado o que pensei, achei que tudo aquilo seria normal. No dia a seguir, naquela que foi instituída como a primeira pausa do dia, numa situação em tudo semelhante à do dia anterior voltou a afirmar exactamente a mesma coisa! Enquanto eu começava a pensar numa forma de lhe dizer que ele já tinha nos tinha dito aquilo, para meu espanto a risota foi mais uma vez quase geral! Ainda assim, depois de todos terem parado de rir, comecei novamente a engendrar uma forma simpática de lhe dizer que aquela piada já não era nova. Desisti de vez, quando percebi que não ia adiantar nada, já que estavam novamente quase todos a rir mesmo sendo aquela a quarta vez, num espaço inferior a vinte e quatro horas, que a mesmíssima coisa, palavra por palavra, era dita! Dirigi-me para o meu lugar sem ter proferido uma palavra sequer durante todo o tempo da pausa instituida. Senti-me verdadeiramente consternado por estar a viver tantas situações exactamente iguais em tão curto espaço de tempo! Não é que seja possível sentir-me consternado de uma forma que não seja verdadeira, mas ao dizer, verdadeiramente consternado, para mim mesmo, sinto que a consternação é real e palpável, enquanto se dissesse apenas consternado, tudo não poderia passar de uma mania minha, e eu tenho a certeza que não é. Sem conseguir fazer mais nada, olhei à minha volta e tentei recordar-me da roupa que eles traziam no dia anterior para me poder certificar que não estava, por algum acaso, a viver o mesmo dia. Ou então, a possibilidade de tudo não passar de um sonho esquisito! Depressa desisti desta ideia quando me lembrei que no dia anterior a coisa se tinha passado de tarde. Partilhei mais três pausas com eles durante esse dia. Já não sei o que é que se tornou mais insuportável, se o facto de ele continuar a dizer a mesma piada, como se nunca tivesse sido dita antes, ou o facto de quase todos se rirem a valer em todas as vezes, e reagirem tal e qual como se fosse a primeira vez que a estavam a ouvir! Com o passar dos dias fui-me apercebendo que todos tinham, e têm, um comportamento diário semelhante. Há aquele diz sempre a mesma piada sob a forma de comparação, há o outro que se ri sempre, e da mesma forma, mais alto do que toda a gente, há o que solta um guinchar inominável, que ao principio pensei ser um tique nervoso, mas que agora sei que é o riso dele, há o que pede sempre de uma forma absolutamente irritante um galão descafeinado com leite frio e uma sandes de queijo com pouca manteiga, ao menos podia pedir de vez em quando a sandes em primeiro lugar, ou dizer hoje não quero manteiga, ou então hoje quero muita manteiga, ou até mesmo beber um galão normal, não sei, mas podia fazer qualquer coisa de diferente, não ser outro autómato! Hoje, passados quatrocentos e trinta e sete dias, tem dias que me rio a valer por estar a ouvir mais uma vez a piada analógica, como hoje em dia eu lhe chamo, outros que não tenho paciência e nem sequer as pausas faço. Já cheguei, há duzentos e trinta e oito dias atrás, à conclusão que os dias são todos iguais, sendo que a única coisa que difere de dia para dia é a roupa de alguns, não de todos, mas de alguns, de resto, é tudo sempre igual. Só ainda não consegui perceber foi uma coisa. Ainda não consegui perceber se ele diz sempre "É como daquela vez, nunca mais me esquece..." porque não se lembra que já o disse o mesmo numero de vezes que já se esqueceu que o disse, e se assim for, por que é que ele se esquece de tudo menos da maldita piada, ou se diz a piada, começando sempre com a frase "É como daquela vez, nunca mais me esquece...", porque se está a queixar, efectivamente, que nunca mais se esquece e apenas o diz com esperança que ao dizê-lo mais uma vez, o esquecimento definitvo do raio da piada finalmente aconteça, tal como aparentemente acontece com todos os outros! É como daquela vez, nunca mais me esquece...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Linhas Cruzadas

Hoje ao almoço, a propósito já nem sei bem do quê, falávamos que o local onde se nasce e cresce é determinante para a definição da personalidade e da pessoa. Desde puto que tenho uma facilidade enorme em apanhar sotaques e pronúncias dos mais diversos locais em Portugal. Provavelmente porque tenho parte da família proveniente do Alentejo, outra parte da região Oeste, onde ainda hoje consigo apreciar sempre quando oiço alguém dizer “ Aínha Mãe” querendo tal coisa dizer a minha Mãe, e depois porque os vizinhos do prédio onde vivi, desde que nasci, com os meus Pais e irmã, até um dia ter de ter seguido a minha vida, eram provenientes de várias zonas do País. Claro que como em todos os bairros, havia vizinhos de que gostava muito, outros pouco, outros nada, e alguns com quem sequer nunca falei. No meio de toda esta gente, houve sempre um casal que desde puto conseguiram popular o meu imaginário pelas mais díspares razões. Primeiro porque ela, a Sameiro, vinha de Braga, com aquele pronúncia nortenha bem acentuada que nunca perdeu e sempre me encantou, e por certo contribuiu em muito para a minha tal facilidade em apanhar os sotaques, e ainda por cima tinha uma irmã chamada Zuca, nome que para um puto pequeno é um delírio. Depois, porque a Sameiro se tinha casado com o Toi, que veio do Alentejo. Ambos, sem sequer se conhecerem, rumaram a Lisboa na busca de uma vida melhor, ainda jovens, conheceram-se, casaram, e por Lisboa ficaram. Recordo-me perfeitamente de a Sameiro me contar esta história numa das inúmeras vezes que fomos ao Sr. Pires (Cuja esposa se chamava Especiosa e a filha Zita!) tomar café depois do almoço, ritual alias cumprido centenas de vezes durante os meus anos de pré Adolescência. Nessa altura, depois do almoço, ora era a Sameiro a ir bater na janela da nossa casa para chamar a minha Mãe, ou era a minha Mãe, ou mesmo eu ou a minha irmã, a ir chamar a Sameiro. De todas as histórias e conversas que me recordo dessa altura, a que sempre mais me fascinou era história por ela contada n vezes, sempre com um sorriso, boa disposição e sem demonstrar qualquer tipo de remorso, de ela ainda pequena ter apostado com o irmão que ele não era capaz de lhe cortar o dedo indicador com um machado! O irmão dela, depois de alguns minutos de reticência, zumba, sem hesitar cortou-lhe o dedo! E pronto, a Sameiro ficou desde esse dia apenas com 9 dedos nas mãos! As horas que eu devo ter passado a olhar para a mão direita dela a pensar na forma com ela tinha ficado sem o dedo! O tempo passa, as pessoas crescem, envelhecem, e a vida continua, é mesmo assim, é o que todos estes clichés significam. O que é facto é que as coisas são mesmo assim, quer se queira, quer não. Soube há bocado, através de um telefonema da minha Mãe, que a Sameiro acabou por morrer ontem à noite, vítima de cancro, e eu não queria deixar de anotar neste blog que ela também fez, e fará, pelo menos enquanto as minhas memórias perdurarem, parte da minha vida.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Complexos #28

No preciso dia em iniciava a minha vida noutra cidade, decidi (a necessidade de mudar, de continuar em frente mesmo que não seja isso que apeteça tem destas coisas) usar, pela primeira vez, um fato de fazenda cinzento para ir trabalhar. Não sei se por coincidência, ou porque a fazenda aumentou de alguma forma a minha sensibilidade nas nádegas, tive um pequeno ataque de tesão quando senti o rabo de uma bonita mulher a roçar o rabo dela no meu enquanto íamos aos encontrões no autocarro. Primeiro senti um rubor digno de uma criança inocente que é apanhada a fazer uma asneira, mas logo depois, e sem ter feito qualquer tipo de esforço para isso, senti-me bem, à vontade até, ainda que ligeiramente encabulado depois de termos trocado um olhar cúmplice como se só nós os dois soubéssemos o que se estava a passar. Sem combinarmos nada, pelo menos através de palavras, saímos na paragem a seguir. Já em terra firme, iluminados pelos raios de Sol que resplandeciam na praça cheia de gente que andava de um lado para o outro em passo apressado, sorrimos e dirigimo-nos para uma esplanada, com vida própria, perto da paragem. Após uma pequena conversa circunstancial, em que soube que o nome dela era Maria, fizemos o nosso pedido ao empregado que entretanto se tinha dirigido a nós em francês. Mal o empregado virou costas, depois de ter feito uma pequena habilidade com o abre-garrafas, dei por mim a pensar na vez em que tinha concretizado o sonho de uma vida ao dar um beijo na rapariga mais bonita da sala onde me encontrava! Desde pequeno que sonhava que um dia a miúda mais bonita se iria apaixonar por mim tal como eu já me teria apaixonado por ela assim que os meus olhos a tinham visto. Só que afinal a coisa não correu bem, parece que eu não era bem aquilo que ela pensava que eu era, ou pelo menos foi isso que ela me disse quase onze anos depois de a ter visto pela primeira vez.
Enquanto entretinha a minha mente a pensar no meu passado, olhei para a minha frente e dei-me conta, novamente, do que me estava a acontecer em tão inusitado encontro! Ficámos então ali, em silêncio, a olhar um para o outro, como se nos conhecêssemos há cerca de quatrocentos e vinte e três anos, mais coisa menos coisa.
Deviam ter passado uns cinco minutos desde que o empregado nos tinha trazido o pedido, quando toda aquela situação me começou a enfadar de morte. Sem saber muito bem porquê, de repente tive quase a certeza que estar ali, naquela esplanada, naquele momento, com uma gaja que não conhecia de lado nenhum a beber um batido de morango com banana, tinha sido a maior asneira que cometi na minha vida.
Ela, que ao contrário de mim não parecia estar incomodada com a situação, começou a balbuciar qualquer coisa que metia as palavras destino e feitos um para o outro!
Não sei porquê, mas aqui as coisas acontecem e sucedem-se tal e qual como nos filmes, disse eu ao mesmo tempo que um autóctone passava por nós com um ar de quem está a passear. Ah, isso é porque nós aqui vivemos na terra do sonho, disse-me ela ao olhar também, sem qualquer tipo de curiosidade, para o incauto transeunte.(Embora para mim ele seja um mero autóctone, ele, para ela, não passa de mais um transeunte. Suponho que as coisas sejam sempre assim quando se vê a coisa sob o ponto de vista de um forasteiro e também sob o ponto de vista de um autóctone). Então quer dizer que nada disto aqui é real? Perguntei eu espantado por estar sentado com uma estranha numa esplanada na terra do sonho, julgando eu que estava de facto ali! Isso depende sempre! Disse ela. Depende do quê? Depende da forma como se olha para a coisa. São os filmes que fazem a realidade, ou é a realidade que se torna em filme? Disse-me ela enquanto colocava a palhinha na boca para sorver mais um pouco do seu batido, deixando a questão no ar, feliz e contente. Fiquei ali a pensar durante uns segundos. Por acaso, muitas vezes, tenho a sensação que pertenço ao rol dos inúmeros figurantes que costumam ser contratados para participarem nos filmes de acção, ou nos denominados épicos! Nada do que eu faço, ou digo, hoje, continuei a dizer, tem a importância, ou a não importância, que eu lhe dou. Só saberei a real importância de tudo isto daqui a uns tempos. Só daqui a uns tempos é que saberei se foi ou não um erro tudo aquilo em que eu hoje acredito não ser um erro ou ser um erro. Tomar as coisas como certas, estar certo do que é certo, estar certo do que penso e conheço, inclusive pessoas, e pensar que vai ser sempre assim, tal e qual como foi e é, é um erro enorme que agora, neste momento, apercebi-me que não posso cometer, porque o passado não passa agora de um sonho, ou de um pesadelo, mesmo tendo existido realmente antes!
Olhei em frente novamente, e o batido, em conjunto com a rapariga, tinha desaparecido!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

New Selectah

- Às vezes tenho mesmo muita vontade de ir ao ano de 93 falar comigo. Gostava mesmo de ter uma longa conversa comigo para ver se conseguia perceber em que altura é que deixei de existir como era nessa altura, ou quando é que tudo à minha volta deixou de me fascinar e suscitar interesse e curiosidade para que tal não me compelisse automaticamente a querer mais, querer saber mais até ficar satisfeito, e depois começar tudo de novo, quando surgia logo a seguir outra coisa qualquer...

- A 93?! Tu eras um totó em 93! Queres ir falar com um totó para saber alguma coisa sobre ti? Pensava que tinhas deixado de ser um totó já...

- Ai é? Então e quando é que deixei de ser um totó?

- Eh pá, assim de repente não sei precisar, mas talvez em 2007 tenhas definitivamente deixado de ser constantemente um totó. Obviamente que toda a gente é totó de quando em vez, mas durante o dia e todo penso que deixaste de o ser por volta dessa altura...

- Oh! Mas nessa altura já tinha passado a adolescência e os vintes, já tinha sido escrita a história toda! Todas as pessoas, depois de essa altura passar, passam depois a vida a estabelecer comparações com o que tiveram ou com o que lhes aconteceu, ou pior ainda, a desejar, fora de tempo, concretizar algo que deviam ter concretizado antes. Depois de esse tempo passar, o máximo que se consegue fazer, com prazer, é partilhar historias e concluir que alguém passou pelo mesmo que tu, mas, mesmo assim, compara-se sempre, a adrenalina da novidade acabou....

- Então, mas se é assim, para o quê é que queres voltar a 93 se já sabes isso tudo agora?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Fado do coitadinho

Tenho vontade, é insaciável.
Não tenho vontade, é incontrolável.
Vontade que me move é instintiva.
Falta de vontade que me mova é cognitiva.
Vontade de permanecer imóvel é solidão.
Vontade móvel sem vontade latente é desilusão
Ó vida por que é que te preocupas tanto em não me magoar, quando me esbarro contra muros, e pouco te importas quando o silêncio tem lugar?
Ó vida por que é que achas que conversas circunstanciais consubstanciam o amor oblativo, enchendo-me de esperança, e fazes com que as mesmas permaneçam e existam incessantemente sem qualquer tipo de almejo natural e intrínseco ao ser por quem suspiro?
Ó vida por que é que o sustentas? Ó vida como é que tu aguentas?
E esta nostalgia, com vontade de derivar.
E esta cobardia, com vontade de aumentar.
Ao longe, o sumptuoso brilho no horizonte, cintila, estremece.
Um frémito invade-me a alma enquanto lenta, lânguida, a calma, outrora a enorme estupidez, se transforma em hábito.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Society

É engraçado como nos trajectos que fazemos habitualmente várias vezes ao dia nos conseguimos abstrair do facto que vamos a conduzir e o nosso pensamento diverge. É quase como se o carro soubesse o caminho e as mudanças do carro fossem automáticas! Foi num desses momentos que eu hoje, quando ia almoçar, verifiquei que o semáforo estava verde e achei que não havia necessidade de abrandar. É já muito perto do semáforo, apesar do sinal estar vermelho para os peões, que vejo que está uma mulher a atravessar a estrada. Ela repara que eu não abrandei e pára mesmo no meio da estrada! Travei de imediato o carro, como não ia a grande velocidade não foi uma travagem brusca ou barulhenta, e ainda fiquei a uns metros da passadeira à espera que a pessoa terminasse de atravessar. Ela, ainda no meio da estrada, olha para o carro e depois para mim, pede-me desculpa e segue o seu caminho.
De repente, naquele segundo que ela olhou para mim, regressei ao dia em que fiz 15 anos. Tive novamente aquela sensação na barriga, meio cócegas, meio aperto no estômago, senti o coração palpitar. Dou comigo a dançar no meio da sala da casa da rapariga com quem eu, pela primeira vez, troquei um beijo na boca. A música que se ouviu nessa tarde, vezes sem conta, foi a música “Eternal Flame” das Bangles. Era a música que naquela altura se colocava a tocar no gira discos para que os casais pudessem dançar um slow. Essa música passava também muitas vezes nas matinés das discotecas, e era muito popular na altura. Eu não posso dizer que ela foi a minha primeira namorada, a minha relação com ela foi sempre muito estranha, infantil e inocente, além disso, o “status” de um rapaz naquela altura, tal como hoje em dia, era muito importante, e ninguém com 15 anos revela os seus sentimentos ou diz a verdade sobre o que na verdade sente e faz. Por experiência própria, e mesmo através de observação, as pessoas normalmente não se sentem à vontade para exprimir nem por palavras, nem mesmo por gestos ou actos, o que verdadeiramente sentem. Muitas vezes, os adultos nem sequer sabem muito bem o que sentem, nem saber exprimir o que sentem, quanto mais um puto de 15 anos. Alias, na maior parte das vezes, exactamente porque não se consegue exprimir o que se sente, somos agressivos e irracionais! É sempre muito melhor a agressividade para nos proteger do que dar-nos a conhecer verdadeiramente!
Eu vi-a pela primeira vez numa viagem que fizemos ao norte, na altura em que eu jogava hóquei. Ela era a filha do director do clube, e como a viagem iria ter a duração de 5 dias, o director aproveitou para dar um passeio com a família. Trocamos alguns olhares logo no primeiro dia, e nos dias seguintes, graças a uma amiga dela que foi também, começamos a falar. Não me recordo de nenhuma das nossas conversas nessa viagem, só me lembro que até ao fim da época desportiva, ela passou a ir ver os nossos jogos e sempre que nos víamos não fazíamos muito mais do que trocar alguns olhares e por vezes algumas palavras, mas sempre tudo muito rápido. Ela morava perto do pavilhão onde jogávamos e treinávamos, e eu morava bastante mais longe. Como tínhamos aulas e não havia nem telemóveis, nem MSN, ou outra coisa qualquer semelhante que permitisse comunicação, apenas nos víamos quando havia jogos ou treinos. Quando a época acabou, já em Julho, era tradição no clube fazer um míni torneio entre todas as equipas de todos os escalões. Foi então no dia em que fazia 15 anos, quando os jogos desse torneio terminaram, que descobri que ela também fazia anos no mesmo dia que eu. Apesar de não me lembrar bem da sequência de todos os acontecimentos, recordo-me de termos ido todos para casa dela festejar o aniversário dela. Depois disso, só tenho memória de termos dançado na sala dela, de termos começado a namorar nesse dia e pouco mais de duas semanas depois termos terminado o nosso namoro na praia. Durante as duas semanas que namorámos, como já não havia jogos, consegui vê-la duas vezes! A primeira vez, fui a pé com um amigo a casa dela. Nessa vez, ela falou comigo pela janela e eu na rua. Nesse encontro ficou combinado encontrarmo-nos na praia no dia seguinte. No dia seguinte, fui de comboio com outro amigo, a fugir ao pica, até à praia perto da casa dela. Por todos os motivos, e por nenhum em especial, terminamos a nossa “relação”! Voltei depois para a casa com o meu amigo, a pé. A sensação aflitiva que tivemos ao andar de comboio sem bilhete na viagem para a praia, impediu-nos de repetir a proeza na viagem para casa. Até hoje não me recordo de a ter visto mais do que 5,6 vezes, tendo passado vários anos até a ter visto pela primeira vez depois do encontro na praia. Nessa altura ainda trocamos algumas palavras, embora ela, e eu também de certeza absoluta, estivesse bastante embaraçada. Não espero, obviamente, que ela se recorde da sequência dos acontecimentos tal e qual como eu os recordo, nem faço a mínima ideia do que significou aquele dia para ela. Confesso que durante todos estes anos apenas dediquei algum tempo a pensar nela, sempre que possa ter tido com algum amigo uma conversa sobre a nossa adolescência, ou então, tal como hoje aconteceu, quando a vejo. Hoje, ali estava ela a atravessar a estrada quando eu tive de travar o carro! A única palavra que foi dita neste encontro, foi o obrigado que ela desenhou com os lábios depois de eu ter travado o carro. Fiquei com a música a soar-me nos ouvidos, quando arranquei novamente...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dancing the manta ray

- Curte lá esta ó Nando. Tu sabes que eu sou um gajo que anda sempre demode, com o ultimo berro né? Agora que o mundial já acabou, sabes o que é que o pendura diz ao condutor quando eles acabam de passar por Vizela?

- O quê?

- Vi Vizela.

Killing in the name of

- Olha o Berto! Então, o que fazes por aqui?

- Deixa-te de merdas pá! Acabei agora de falar com o Canina, já sei de tudo entre ti e a Rosa. Ouve lá, mas quem é que tu pensas que tu és?

- Eu? Eu penso que sou o Guilherme! Pelo menos há bocado quando passei por um espelho era...

- Não me dês baile e responde-me, quem é que tu pensas que tu és?

- Olha aí, não é preciso empurrar! Já te disse, penso que sou o Guilherme...

- Não te vou perguntar outra vez. Quem é que tu pensas que tu és?

- Deslarga-me Berto! Qual é a tua? Eu não sei o que é que o Canina te disse, mas eu penso mesmo que sou o Guilherme...

- Juro que não te vou perguntar mais nenhuma vez. QUEM É QUE TU PENSAS QUE ÉS?

- Fogo! Que selvajaria! Olha! Agora partiste-me os suspensórios...Com franqueza pá...

- QUEM É QUE TU PENSAS QUE ÉS?

- Eh pá! Eu já nem sei quem é que eu penso que eu sou, apesar de continuar convencido que sou o Guilherme. Mas de uma coisa tenho eu a certeza. Tu és sem duvida um Berto eco.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Banda Sonora

Qual é que é a coisa que eu acho mais triste na vida? É essa a pergunta? Aquilo que é verdadeiramente triste para mim é amar. Amar verdadeiramente, saber, ter a certeza absoluta que nunca ninguém poderá amar tanto outra pessoa como nós a amamos, dizer-lhe isso com toda a sinceridade, com toda genuinidade possível ao nosso ser, ter vontade de experimentar tudo, fazer tudo, conhecer tudo com essa pessoa, fazer tudo para que ela seja feliz ao nosso lado, e depois saber que não somos correspondidos da mesma forma, não conseguindo no entanto, mesmo depois de ela já nos ter deixado, nunca deixar de acreditar em tudo o que essa pessoa nos diz, embora saibamos de imediato que é mentira, e pensarmos que o fim daquela busca que nós já tínhamos pensado ter terminado, é agora perseguida por ela. Aí, constatamos que essa pessoa, faz depois, e de imediato, com toda a vontade do mundo, tudo aquilo que sempre reprimiu e não fez quando esteve connosco, chegando mesmo ao ponto de dizer que não gostava de fazer algo que desejava fazer, apenas e só porque era connosco que iria fazer isso, tudo na senda de alcançar a tal meta, a meta da busca da sua própria felicidade. Tudo para, por fim, nós, por acaso, a encontrarmos na rua, e verificarmos que apesar de agora fazer tudo o que quer, e que nunca, mesmo nunca, quis fazer connosco, porque apesar de ter dito que nos amava também, na realidade nunca o sentiu, embora o negue para se conseguir enganar a ela própria, nunca o sentiu, e verificarmos que fazendo da sua vida aquilo que quer, não é amada por quem queria e é infeliz! Isso para mim é que é verdadeiramente… …O quê? Não me interrompas agora, não vês que estou a responder a uma pergunta aqui?...O quê?...Então, mas a pergunta que me fizeram não é essa, a pergunta é o que é que eu acho que é mais triste na vida. Como é que eu posso saber o que é que é mais triste se fosse eu a morrer? As outras pessoas é que podiam ficar tristes com isso. Eu, como sabes, não acredito cá em coisas esotéricas, por isso quando morrer, acabou-se tudo. Ãh? AH! Estás a dizer-me para responder que a coisa mais triste é morrer alguém de quem eu gosto? AH! Já percebi! Está bem, tens razão!
Olhe, desculpe, apague lá tudo o que eu disse, a coisa mais triste na vida para mim afinal é a morte de alguém de que eu goste! Estão ali a dizer-me que é melhor eu responder isso...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Jaz agora descoberta, depois da queda natural dos últimos 3 pelos, a careca do grisalho!

Eis chegada a hora
A hora de ir embora
A hora em que deveria haver pena
A hora em que teria lugar a tristeza.
Só que a indiferença predominante, marcante,
não deixou espaço para a saudade.
Prevalece, tão-somente, a ânsia, exasperante
de querer partir para nunca mais voltar.
Pudera, quem dera, outrora,
que a relação falsa que existia,
houvesse sido um dia, verdadeira,
longe da aleivosia, da hipocrisia,
que sempre, desde o início reinou.
Mas eis que a hora de ir embora chegou.
Com ela, o término da falsidade
e a esperança de algum dia
encontrar alguém que apenas nos diga e nos trate,
somente, através da verdade