• FIM
  • R.I.P

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Banda Sonora

Foi amor à primeira vista. Quero conhecer-te, quero saber tudo sobre ti. Mal consigo esperar que as horas passem para te voltar a ver. Nunca pensei vir a gostar assim de alguém. Não suporto pensar nas mulheres todas com quem andaste antes de mim. Amo-te. Já não consigo imaginar a minha vida sem ti. Cúmplices para toda a vida, tenho a certeza. Tive pena que não estivesses aqui hoje. Hoje não vou poder estar aí, mas vem cá tu, tenho saudades. Se quiseres. Às vezes não sei o que é que vi em ti. Queria dizer-te uma coisa, mas não quero que fiques chateado. Porque é que as coisas têm sempre de ser como tu queres? Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem aquilo que disseste? Cada vez mais suporto-te menos. Somos incompatíveis. Odeio-te. Quem sabe um dia destes? Tenho a certeza que podemos vir a ser amigos. Sê feliz. Adeus.

Radio Macau - Cantiga de amor

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O projecto - capitulo 3

Fomos de imediato para a loja onde o Guilherme tinha comprado a máquina. Quando lá chegámos, contámos ao dono o que se tinha passado desde o início do projecto. A loja era nova e eu não conhecia ainda o dono e nem consigo imaginar a cara de parvos que fizemos quando a resposta do homem ao que lhe tínhamos dito foi:
- Então, mas por que é que não tiram uma foto agora para ver se a máquina está estragada ou não?
O Guilherme desculpou-se dizendo que fazia parte do projecto tirar apenas uma foto por dia e que como não percebia muito de máquinas fotográficas queria que fosse o homem a ver a máquina. Ele mostrou as 3 fotos iguais ao homem e passou-lhe a máquina para as mãos. O dono da loja olhou para as fotos, disse que apesar de iguais as fotos estavam boas. De seguida, agarrou na máquina, apontou para a porta da loja e tirou uma foto. Esperámos impacientemente que a foto ficasse nítida Quando ficou nítida podia ver-se na foto a porta da loja. O homem olhou para nós e disse que a máquina não tinha nenhum problema. Eu ainda tentei falar com o homem e perguntar por que é que a máquina tinha tirado 3 fotos iguais, mas o Guilherme puxou-me e saímos da loja.
Quando saímos perguntei ao Guilherme o que é que ele ia fazer. Ele respondeu que não ia fazer mais nada a não ser esperar que chegassem as 15:45 de sexta-feira. Eu concordei, depois de provado que que a máquina não tinha nenhum problema restava agora tirar mais uma foto. Combinamos à mesma hora na praça no dia a seguir e fui para casa. Mais uma vez quanto mais pensava naquilo, menos percebia, foi um custo o resto do dia a noite e a manhã seguinte.
Eram novamente 14:00, estávamos na praça a olhar para todo o lado e a ver quem de vez em quando passava. Nem sequer nos dávamos ao trabalho de identificar quem passava, se não fossem as 4 pessoas que estavam nas 3 fotos não olhávamos outra vez. Ficamos assim até às 15:44. Enquanto nos aproximávamos mais uma vez da máquina para tirar a foto, disse ao Guilherme para não fechar os olhos ao tirar a foto. Ele concordou, e quando soou o toque das 15:45, ele de olhos bem abertos e olhar na direcção em que a máquina apontava tirou a foto. No tempo de espera para a foto ficar nítida, concordámos os 2 que ninguém tinha passado. Foi sem surpresa, e com surpresa, que vimos que a foto tinha ficado igual às outras 3. Nem tentámos perceber nada desta vez, apenas perguntei ao Guilherme o que é que ele ia fazer. Ele disse-me que já tinha um plano e que o ia por em prática nessa noite. Quando lhe perguntei qual era o plano ele recusou-se a dizer-mo! Eu tinha de ir passar esse fim-de-semana fora em trabalho, insisti bastante com ele para me dizer o que ia fazer, estive quase até às 10 da noite a tentar que ele me dissesse, mas nada. Fui-me embora sem saber o que ele ia fazer. Parti no sábado por volta das 10:00 da manhã. Como moro ainda relativamente longe da praça, ainda pensei em passar por lá, mas disse para mim mesmo que não podia passar o fim-de-semana a trabalhar com aquilo na cabeça. Aumentei o volume do rádio e sai da aldeia a toda a velocidade, mentalizei-me que só na Segunda é que ia pensar naquilo outra vez.
Na Segunda à tarde, quando cheguei a casa, tinha na caixa do correio uma carta. Vi que a carta era do Guilherme e abri a carta. Ele contava-me na carta que tinha, durante a noite de sexta para sábado, cortado a nogueira que estava na praça. Ele sabia que ao cortar a nogueira no Sábado de manhã, quando as pessoas começassem a passar pela praça, elas iriam ficar por ali para ver quem tinha feito aquilo e porquê. A azáfama que ele tinha pensado que ia existir existiu mesmo, e no Sábado à tarde, quando o Guilherme às 15:45 tirou a quinta foto, teve que pedir a um senhor para se desviar da frente. A praça tinha ficado cheia de gente no Sábado à tarde, o Guilherme tinha tirado a foto, e a foto tinha saído igual às outras quatro. Na carta, o Guilherme deixou escrito que a teoria dele para que as fotos tivessem saído todas iguais se devia ao facto de ele não acreditar em recordações através de fotos e que a partir do momento em que tinha iniciado aquele projecto, a única coisa que ele conseguia fazer era transpor a memória que ele tinha tido quando tirou a primeira foto para as restantes fotos. Lembrou-me ainda na carta que tirando ele mesmo, só o dono da loja tinha tirado uma foto. Portanto, para ele, a máquina nas mãos dele apenas iria tirar uma foto, e sempre igual à memória que ele tinha da primeira foto que ele tinha tirado. Despediu-se de mim na carta e disse que ia correr o mundo sem qualquer destino traçado, a fim de conseguir fortalecer e aumentar as suas memórias. Deixou-me, em conjunto com a carta, a chave da casa dele para que de vez em quando lá fosse ver se tudo se encontrava em ordem. Quando acabei de ler a carta, nada daquilo fazia sentido para mim! Por que é que ele tinha decido ir assim embora? Por que é que ele tinha cortado a nogueira se o problema estava naquela máquina? Por que é que ele não a trocou por outra e tirou uma nova foto? Por que é que ele não tirou uma foto noutro sitio, ou noutra hora qualquer? O que é que afinal se tinha passado? Nunca soube. A única coisa que sei, é que hoje é dia 22 de Junho e faz precisamente um ano em que o projecto começou. Hoje deveria ter sido tirada a ultima foto do projecto, e deviam ter sido tiradas 365 fotos e foram apenas tiradas cinco, seis se for contabilizada a foto da porta da loja. Hoje, fui lá a casa buscar a máquina. Quando li a carta tinha decidido, não sei porquê, continuar eu o projecto. Depois pensei que com aqueles dois dias em que tinha estado fora o projecto tinha perdido a continuidade, como tal continuei com a minha vida de sempre. Apesar de me lembrar disto quase todos os dias, tenho sentido menos necessidade de saber a explicação para o sucedido. Hoje, apenas por graça, não sei, como fazia um ano desde o início do projecto, decidi tirar uma foto na praça a um metro do sinal de trânsito que lá está, às 15:45. A foto saiu igual às outras cinco!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O projecto - capitulo 2

No dia a seguir, às 15:30, lá estávamos eu e o Guilherme exactamente no mesmo sitio. O Guilherme refez a marca do dia anterior, colocou o tripé, a máquina, e sentamo-nos no chão à espera das 15:45. Não dissemos uma palavra, ficámos só ali à espera que passasse o tempo, nem sequer notámos quem passava e o que é que se passava na praça, ficámos apenas ali, sentados no chão à espera da hora para tirar a foto. Eram 15:44 o Guilherme pôs-se em pé, chegou-se junto à máquina, quando soaram as 15:45 ele tirou novamente a foto. Nos segundos que demoram para a fotografia a ficar nítida, a nossa expectativa era enorme, como é que seria que iria ficar a foto hoje, eu ainda tentei discutir com o Guilherme o facto de ele fechar os olhos no momento em que carrega no botão da máquina, mas não deu tempo para mais. A fotografia ficou nítida e podíamos ver agora a segunda foto. Olhámos um para o outro com um ar de espanto, pelo menos era esse o semblante do Guilherme, e ficámos uns bons 5 minutos a olhar para a foto. Na foto estavam a passar a mulher do dia anterior com o mesmo vestido, os mesmos óculos, o Sr. Matias lá estava também, no mesmo sítio a atravessar a praça, a Rosa a passar, e o Mota com a boca aberta! A primeira coisa que nos ocorreu depois de termos estado 5 minutos a olhar para a foto, foi que todas aquelas pessoas provavelmente tinham alguma coisa para fazer àquela hora e que devido a isso era muito possível estarem as mesmas pessoas na foto. A mulher eu não conhecia, não sei o que ela faz. O Sr. Matias pensámos que ainda fazia parte da guarda e que provavelmente se dirigia à esquadra para pegar ao serviço. A Rosa provavelmente ia para a escola. E o Mota andava sempre por ali. Corremos para casa do Guilherme para podermos comparar as fotos. Eram iguais! A mulher do vestido preto estava exactamente com a mesma expressão triste, reparávamos agora que ela tinha calçado uns sapatos pretos, daqueles com fiozinhos que se apertam nas pernas, em que os fios estavam exactamente na mesma posição nas duas fotos. A Rosa, tinha também a mesma roupa! Estava de costas e era a perna direita dela que estava à frente no sentido em que ela se dirigia. A praça é coberta por blocos de cimento, as divisões entre os blocos são bastante nítidas, e conseguia-se ver na foto que ela estava, tal como a mulher de preto e o Sr. Matias, no mesmo bloco nas duas fotos. O Sr. Matias, que se conseguia ver muito bem na foto, atravessava a praça nas duas fotos exactamente da mesma forma, a mesma roupa, a mesma expressão. Já não era a mesma expressão que ele tinha quando dizia, ai esta rapaziada, não era uma expressão triste nem alegre, era uma expressão de indiferença. Enquanto analisava a expressão do Sr. Matias, comecei a pensar na expressão dele e até me esqueci do que nos tinha acontecido. Foi o Guilherme que me chamou e me disse que o Mota também tinha a boca aberta e o braço direito levantado, exactamente da mesma forma nas duas fotos. Claro que a roupa também era a mesma, mas a roupa do Mota era todos os dias a mesma!
A primeira hipótese que tínhamos pensado já não fazia sentido, mesmo que aquelas 4 pessoas, 3 delas com compromissos ou outra coisa qualquer, tivessem que estar todos os dias às 15:45 na praça, era muita, mas mesmo muita coincidência que estivessem à mesma hora a fazer exactamente o mesmo que no dia anterior!
Estivemos horas a olhar para as fotos e a tentar arranjar explicações, não conseguimos achar nenhuma explicação lógica e decidimos que a prova dos nove seria a foto do dia a seguir. Combinamos não falar disto a ninguém e fui para casa. Passei o resto do dia e da noite a tentar não pensar naquilo que tinha acontecido mas não consegui. Olhei de 5 em 5 minutos para o relógio até ao dia a seguir às 15:40. No dia a seguir, fomos para a praça às 14:00, sabíamos que provavelmente ia ser pior estar ali à espera, mas queríamos ver se a mulher de preto entrava no café, se víamos o Sr. Matias, a Rosa ou o Mota. Não vimos ninguém, era quinta-feira, dia de trabalho, e normalmente a praça àquela hora estava vazia. Para tentar desanuviar o ambiente disse ao Guilherme que o sítio que ele tinha escolhido para o projecto até era bom, mas que a hora que ele tinha escolhido era uma porcaria, que àquela hora quase nunca iria apanhar ninguém nas fotos. O Guilherme olhou para mim com uma cara, que eu apercebi-me de imediato que não fazia sentido o que tinha dito e calei-me. Às 15:44 fomos para perto da máquina. Soaram as 15:45 e o Guilherme tirou a foto. Desatinei mais uma vez por ele ter fechado os olhos ao tirar a foto, ele ripostou dizendo que fechar os olhos fazia parte do projecto e que se eu queria ver como a foto ia ficar, porque é que estava a olhar para ele em vez de olhar para onde a máquina aponta. Com esta pequena discussão, esquecemo-nos de ver quem é que tinha passado na praça depois de a foto ter sido tirada, quando olhámos não vimos ninguém A foto ficou nítida, pusemos a cabeça em cima da foto e tivemos logo a certeza. A foto era de novo igual às outras duas!
Não sabíamos o que pensar, era impressionante o que estava a acontecer. Fui ao café a correr e perguntei ao dono do café, o Sr. Albano, quem era a mulher de preto que tinha acabado de sair do café. O Sr. Albano olhou para mim e perguntou-me se eu estava maluco. Ele disse-me que estava sentado naquele banquinho onde ele se senta, desde que eu me lembro de ir àquele café, e que não se tinha levantado dali há mais de uma hora! Fiquei perplexo, corri novamente até ao Guilherme e contei-lhe. O Guilherme então lembrou-se de um pormenor que nos deixou cheios de esperança de resolver o mistério. Tanto eu como ele não percebíamos nada de máquinas fotográficas, mas ele pensou que se calhar a máquina, como era nova, tinha um defeito qualquer e que provavelmente tinha ficado com uma coisa tipo negativo lá dentro em que cada vez que se tirava uma foto, a máquina revelava sempre a mesma foto. Depois de ele dizer isto, culpamo-nos por nenhum de nós ter olhado para a praça depois de ter sido tirada a foto, para ver se efectivamente as pessoas tinham passado lá ou não e depois culpamo-nos por não nos termos lembrado do problema da máquina antes.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O projecto - capitulo 1

- É hoje. De hoje não pode passar...
Foi desta forma que o Guilherme decidiu dar início ao seu ambicioso projecto. Há já alguns meses que o Guilherme andava a pensar nisto. Ele sabia que não era a ideia mais original do Mundo. Alias, ele sabia que não era uma ideia nada original, já n pessoas o tinham feito e ele estava plenamente consciente que não iria trazer nada de novo ao mundo. No entanto, este projecto, como ele lhe chamava, era de extrema importância para ele, dada a forma como, até então, levava a vida dele. O Guilherme, tal como a maioria dos meus amigos, era muito conservador no que a bens materiais se refere. Tinha sempre um armário cheio de roupa, papeis e não sei mais o quê, a que não dava uso nenhum. De quando em quando, conscientemente, espalhava alguns objectos desse armário por sítios mais recônditos da casa dele e deixava-os lá. Como costumava mudar com alguma frequência a disposição dos móveis, e mesmo de casa, quando essas modificações aconteciam ele encontrava novamente os objectos que tinha espalhado e recordava tudo o que aquele objecto significava para ele. Eu sempre achei isto uma parvoíce, mas para o Guilherme, o efeito que aqueles objectos, papeis, roupas, etc, tinham para ele era o efeito semelhante a uma foto antiga, que trás sempre memórias, por vezes até já esquecidas. Ele chegava mesmo a chamar-lhes fotos tridimensionais, reais, verdadeiras, com cheiro, palpáveis, tudo coisas que as fotos não têm. Para ele, tudo teria que ficar registado no corpo, na cabeça, na alma, no que lhe quiserem chamar. Para o Guilherme era muito mais importante ver um objecto e lembrar-se de si, dos amigos, de momentos, tal e qual como ele os recordava, do que ver uma foto.
Foi numa discussão sobre a importância das fotos, e sobre o que as fotos podem significar, que um dia ele, já meio irritado, decidiu, só para não me ouvir mais, que fotos dele e de amigos não tirava nem queria, mas que iria durante um ano fotografar um sítio qualquer e sempre no mesmo sítio à mesma hora. Eu nem me consigo recordar do motivo daquela discussão parva, nem porque é que ele decidiu aquilo, o que é certo é que se passaram meses depois daquela conversa e eu já nem me lembrava de a ter tido quando ele me disse:
- É hoje. De hoje não pode passar. Vou começar hoje a fotografar todos os dias às 15:45 a praça. Vou fotografar a praça todos os dias a um metro do sinal de trânsito que lá está, virado de costas para sul.
E pronto, nem me deu oportunidade de dizer nada. Fez-se ao caminho da praça com uma máquina fotográfica e um tripé na mão. Estávamos a 22 de Junho e eram sensivelmente 15:32.
O Guilherme detestava esperar, fazia-lhe comichões. Então resolveu comprar uma daquelas máquinas em que as fotos saem logo da máquina. Ele estava tão empenhado no que estava a fazer que comprou um tripé e tudo! Mediu um metro a partir do sinal de trânsito, fez uma marca no chão, colocou a máquina por cima do tripé e sentou-se ao pé do mesmo.
Ele tinha escolhido uma vista da praça em que era possível ver o relógio na torre da Igreja, que é um daqueles relógios antigos que tocam de quarto em quarto de hora. Virado no sentido que ele estava, à esquerda havia uma nogueira enorme. A árvore já devia ser bastante antiga e por isso proporcionava bastante sombra, era realmente imponente! Com a vista meio tapada pela árvore, havia mais ao fundo um café com uma esplanada na praça, tinha duas portas e uma delas estava virada para o Guilherme. Ao lado do café, havia umas escadas estreitinhas que começavam a fazer esquina a meio com uma retrosaria, e a fazer perpendicular com o café havia uma casa enorme e antiga. Dizem que pertenceu a um conde qualquer, eu nunca soube muito bem a história da casa, só sei que não vive lá ninguém há anos e que a casa apesar de bonita ainda, alguns vidros partidos das janelas começam a dar-lhe um ar decadente.
Eram 15:44 e o Guilherme levantou-se para tirar a foto. Quando o relógio assinalou o minuto 45, foi tirada a primeira foto.
Naquela foto, tirando o relógio na torre da igreja, que ficava muito alto e a máquina não podia alcançar, podia ver-se tudo o que já descrevi em conjunto com uma mulher vestida com um vestido de alças preto, uns cabelos longos, com óculos escuros. É uma mulher extremamente bonita e sexy, nunca a tinha visto por ali. Naquela altura lembro-me de pensar que pelo menos a foto tinha servido para alguma coisa, tinha visto uma mulher lá na aldeia que nunca tinha visto, ainda por cima bem bonita! Conseguia-se ainda ver na foto o Sr. Matias a passar. O Sr. Matias, era o guarda, quando éramos putos chamávamos-lhe Serôdio, ele não percebia porquê e ria-se, ao mesmo tempo que se ria dizia sempre, ai esta rapaziada! Na foto, o Sr. Matias tinha o bigode bastante mais branco e foi também nessa foto que reparei que o Sr. Matias estava muito mais velho do que eu me recordava. Por fim, foram também captados na foto a filha da D. Almerinda, a Rosa, que tem agora 14 anos, e o Mota, que andava pela rua a gritar que queria um café. Por acaso até ficou giro, o Mota ficou de boca aberta e dá logo a entender na foto o estado de espírito que ele tem sempre!
Para o Guilherme, ficava registado na memória dele aquele momento. Mostrou-me depois com orgulho a primeira foto que tinha tirado na vida. Devo admitir que até ficou gira e que comecei a achar graça àquilo, pareceu-me que ia ser uma coisa gira de se fazer. Decidi ir com ele no dia a seguir tirar a foto. Ele concordou que eu fosse com ele, mas avisou-me logo que eu não podia interferir na vida da praça, a partir do momento em que eu sabia que ia ser tirada a foto, eu não podia de forma alguma aparecer no campo de visão da máquina. Acedi ao que ele disse e fomos para casa.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Banda Sonora

Não aqui não. Sabes perfeitamente que não gosto de demonstrações de carinho em público, não gosto que fiquem a olhar para nós. Há sempre alguém que diz: Olha-me lá para aquilo!
Não aqui não. Sabes perfeitamente que dar-me um beijo à socapa, a pensar que ninguém está a ver, não existe! Há sempre alguém a ver o que quer que seja.
Não aqui não. Sabes perfeitamente que o facto de todas as tuas amigas te dizerem o quão espectacular eu sou, o quão elas gostavam que eu fosse o namorado delas não vai fazer com que eu queira também. Só tu me conheces mesmo, só tu sabes como eu sou quando estamos dentro do quarto.
Não aqui não...

- Então? Em que pensas? Tens estado tão calado a noite toda?

- Eu sou sempre assim, tu sabes...

- Sim, mas hoje pareces-me mais distante, mais absorto do que é costume! Diz-me lá em que é que estás a pensar?

- Em nada de especial, a serio...Perdi alguma coisa de interessante que alguém tenha dito?

- Não. Está tudo com as mesmas conversas do costume, com as mesmas piadas do costume, sempre a entrarem com o pobre do Manel! Coitado do Manel, ninguém reparou ainda que ele já não é o puto que era, que está muito mais adulto... e bonito também! Por acaso reparei nisso hoje! Já tinhas reparado que o Manel está tão diferente do que era?

The National - Afraid of everyone

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Complexos #27

Apesar de ela me ter dito que precisava de ir ao shopping num instante, coisa completamente inusitada para mim naquele momento, anuí, graciosamente, e sem demonstrar o meu desagrado, alegremente, e em amena cavaqueira, lá nos pusemos ao caminho do dito! Ok, confesso que a utilização da palavra shopping em vez de centro comercial me aborreceu logo um bocadito. Isso em conjunto com o facto de dizer que seria num instante, ainda mais ansioso me colocou. Qual é rapariga que demora um instante num centro comercial? Ora o que é que eu, instintivamente, faço quando entro em tal estado? Tento dizer piadas...Olha ali uma loja da Swatch! Nunca percebi por que é que nunca fizeram um relógio em forma de rabo! Disse-lhe eu quando tinham passado precisamente trinta e quatro minutos após a nossa entrada naquele edifício, e ainda sem eu ter percebido a razão que nos tinha levado a entrar. Em forma de rabo! Porquê? Perguntou-me logo ela de imediato enquanto lia desinteressadamente um panfleto qualquer sobre como ajudar crianças necessitadas. Porque Swatch, em Português, quer dizer olha o rabo! Disse eu entusiasticamente. Ah? Disse ela já com a sobrancelha direita levantada, como se de repente tivesse ficado alerta! Nunca consegui perceber tal coisa nelas. Um gajo pode estar horas a falar, que elas não estão nem aí, pelo menos aparentemente, para o que estou a dizer. De repente, quando me sai uma estupidez qualquer, fruto, exactamente, desse não estar nem aí, pumba, é nesse preciso momento que o sobrolho mostra a sua expressividade e o ribombar dos sinos de alerta ecoam por todo o cérebro delas! Então não percebes? S (rabo) watch (olha). Tentei eu, com cara de pionés, explicar-lhe a coisa. Porque é que vocês gajos só pensam nisso? No quê? Em rabos, e sexo, a coisas afins? Mas...Eu não estava a pensar em nada disso! Era só uma piada, um trocadilho, com o nome da marca. Além disso, e seguindo a tua linha de raciocínio, que os gajos só pensam em rabos, e sexo, e coisas afins, se o intuito da marca, em várias ocasiões e circunstâncias, é ajudar crianças, queres melhor artigo para vender a gajos do que uma bela peida o dia todo no pulso de um gajo? Qual seria o gajo que não gostaria de ostentar no seu pulso, presa por uma bracelete de cabedal, a peida da Shakira, ou da Charlize Theron? O mesmo se aplicando a elas. Relógios com os rabos daqueles actores, ou cantores que elas gostam! Ou para gays e lésbicas, como presente mutuo de casamento, onde cada um dos cônjuges usaria a peida do outro no pulso! Já viste bem a quantidade de casas que se poderiam construir à pala disso? Eu nem sei por que é que optei pela profissão que tenho quando devia era ter seguido, sem dúvida nenhuma, marketing! Disse-lhe eu já completamente perdido em devaneios. Isso não faz sentido nenhum, disse-me ela enquanto pousava o panfleto numa bancada onde dois putos, uma miúda e um miúdo de vinte e tal anos cada um, tentavam vender um cartão de crédito a um casal vestido com fatos de treino iguais e dois putos ranhosos, filhos do casal presumi eu, corriam para cima e para baixo aos encontrões entre si. Pois não. Disse-lhe decididamente. Sabes, é que eu só aprecio nonsense.
Sabes qual é a música preferida dos tornados? Qual, perguntou-me logo ela muito encantada e animada com a ideia do nonsense a polvilhar-lhe o espírito. Adivinha quem voltou. Respondi-lhe eu ao mesmo tempo que entravamos finalmente numa loja qualquer para que ela pudesse perguntar ao empregado se tinham aquele artigo no número dela.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Raiva acumulada #8

- Olá! Bem, para quem disse que chegava aqui por volta da uma da tarde, já são sete, não está mau o atraso! Já é costume em ti, mas hoje acho que bateste o recorde! E então como é que correu a entrevista?

- Qual entrevista?

- Então não ias a uma entrevista qualquer hoje, para um emprego?

- Não fui a entrevista nenhuma! Fui foi a uma parafernália de testes psicotécnicos que culminariam numa revelação dos resultados dos mesmos, ditos, claro, de uma forma simpática, algures no meio de uma amena conversa! Se achas que isto é uma entrevista, então temos conceitos diferentes de entrevistas! Para mim, uma entrevista é composta por uma, ou mais pessoas, a fazerem perguntas, e outra, ou outras, a responderem…

- Porque é que tu nunca consegues dar uma resposta sem ser a desatinar! Porquê? Estava só a perguntar como é que correu, mais nada! Ficaste com o emprego ao menos?

- Não! Acho que ele pensou, a meio da conversa amena, que eu estava a mentir ou a desatinar, não sei!

- A mentir! Numa uma entrevista de trabalho? Tu, a mentir?! Porquê?

- Eu não lhe menti! Eu não te disse que menti! Eu disse que ele pensou que eu estava a mentir, ou a desatinar! Eu só lhe disse que sou um actor das 9 às 17. Acho que ele achou isso fora do normal, no mínimo!...

- Um actor! TU?! Porque raio é que foste dizer que és um actor?! Tu nunca fizeste teatro ou cinema!!!

- Então para ti um actor, só pode ser actor se fizer teatro ou cinema?!

- Pronto! Lá estás tu! Independentemente do que eu acho o que faz ou deixa de fazer um actor, isso não interessa agora, porque é que disseste que és um actor, se tu não és?!

- Interessa sim senhor! Porque tu achas e pensas mesmo o que disseste! Porque é que dizes que não sou um actor?! Só porque nunca fiz teatro ou cinema? Um actor, que eu saiba, é uma pessoa que representa, que se faz passar por uma outra pessoa, por um animal ou um objecto, assumindo sempre, ser o que na realidade não é. Claro que podem haver algumas características comuns entre a personagem e a pessoa, mas, o actor quando representa, assume, necessariamente, ser alguém ou algo, que não ele próprio.

- Mas que raio de conversa é essa agora?! Tu és actor do quê?

- Eu é que te pergunto a que ponto é que tu me conheces verdadeiramente para dizeres que me conheces? Quem é que te disse a ti que eu não estou a representar neste momento e tu nunca sequer me conheceste?

- Mas porque é que havias de estar a representar?! Agora? Neste momento?! Porquê?! Porquê representares comigo?

- É isso que eu te estou a perguntar. O que é que te leva a pensar que eu não representei contigo uma personagem durante estes anos todos? O que é que te leva a dizer que me conheces ao ponto de dizeres que eu contigo não preciso, ou não tenho necessidade de representar?

- Se eu estou a perceber bem o que me estás a dizer, estás a por em causa os 10 anos de amizade que temos! Estás agora, ao fim deste tempo todo, a dizer-me que andas a representar comigo e que eu não te conheço! É isso que me estás a dizer?!

- Eu não estou a pôr em causa absolutamente nada! Não estou a pôr em causa nenhuma amizade! Tu é que estás! O que eu estou a dizer é que tu podes ser amigo de uma personagem que eu inventei e que eu posso apenas ser essa personagem quando estou contigo. Posso até, dizer que o mesmo se pode passar em relação a ti! Eu posso dizer que tu comigo és uma personagem, que não és tu próprio! Seja lá o que for ser eu próprio…

- Na na na! Não me venhas com conversas maradas, nem dar a volta ao texto como é teu apanágio! Tu é que puseste em causa a nossa amizade! A mim, nunca me passou pela cabeça representar com ninguém, muito menos com quem eu penso que é meu amigo e de quem eu considero ser amigo também!...

- Nunca te passou pela cabeça, mas já o fizeste, quer queiras quer não. Tu mudas o teu comportamento perante as situações ou perante as diferentes pessoas com que te deparas no teu dia a dia. Isso para mim é representar…

- Mas não é de propósito! Há pessoas com quem tenho mais confiança e me sinto mais à vontade e outras não! Isso é normal…

- Ai é?! Se não fosse de propósito, não alteravas o teu comportamento, a maneira de falar, etc! E mesmo com as pessoas que conheces, por certo que não tens o mesmo comportamento com todas elas! Não és de certeza a mesma pessoa que és aqui comigo quando estás em tua casa, com a tua mulher. Alem disso, não terias tido logo a consciência ao ponto de dizer, assim tão prontamente, que não é de propósito que o fazes. Tu sabes que é…

- Isso, são reacções naturais às tais situações ou pessoas de que tu falas! As pessoas têm diferentes formas de reagir perante as coisas, não são actos pensados, nem representações encenadas! Daí eu ter noção do que falas, e saber que não é de propósito. Alem disso, porque é que estamos a falar disto agora?! O que é que isto tem a ver com o que disseste em relação à nossa amizade? Andas a representar comigo o não?

- Estamos a falar disto agora, porque me irrita as pessoas dizerem que se conhecem muito bem umas às outras e quando acontece alguma coisa fora do que a maioria das pessoas considera fora do normal, elas dizem “ nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa destas, eu conheço-o há tantos anos e nunca o vi fazer tal coisa.”, e coisas do género…

- Sim, e foi isso que eu fiz agora?! O que é que te diz essas pessoas dizerem isso? Tu é que chegaste aqui e me disseste que foste para uma entrevista de trabalho dizer que eras actor das 9 às 17! Não percebo porque é que o fizeste! Achas mesmo isso normal?

- Sim. Eu não tenho que reagir da forma que sei que esperam que eu reaja! E não penso que por não reagir da maneira que seria expectável, isso seja uma razão ser considerado anormal, ou para dizerem logo o que dizem, ou por outra, o que de imediato pensam mas que por vezes dizem outras não dizem! Só porque não reajo da forma que estavam à espera que eu reagisse?! Nós somos regulados pela generalidade das reacções que não sei quem foi tendo ao longo do tempo, as tais reacções ditas normais e que têm, quase obrigatoriamente, de serem frequentes na maioria das pessoas! Caso isso não aconteça, quer se queria quer não, seja lá porque razão, essas pessoas são consideradas pessoas anormais! Isso irrita-me! Foi por isso que hoje não fiquei com o emprego se queres saber a verdade…

- Bom, como tu estás hoje! Acho melhor ires até casa. Já vi que hoje não se consegue falar contigo! Primeiro dizes-me que disseste que és um actor das 9 às 17, depois já dizes que não ficaste com o emprego porque tens reacções diferentes da maioria das pessoas! Acho que foste de vez para o lado do inimigo!

- Eu não sei porque é que me dou ao trabalho de falar contigo! Não percebeste nada do que estive para aqui a dizer! Ainda por cima, rematas a dizer que devo estar maluco, tudo porque não percebeste nada do que eu te disse! Quando não se percebe, não somos nós que não percebemos, os outros é que são parvos! Ora aí está uma reacção normal! Se achas que eu estou maluco, é porque não me conheces mesmo! Vou, efectivamente, até casa…

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sem moral

Lembro-me dos dias, quando era chavalo
Daquilo que dizias, quando davas no cavalo
Não tinha paciência para a tua inocência
Não é nenhuma ciência conseguir ver que a carência
Provocada pela ausência, e por toda a violência
Não te daria sapiência, valeu-te por uns tempos a bela insolvência
Transformaste-te num gajo que nunca tem trabalho
Arrastas-te pela vida mandando tudo para o caralho
Mentes, insistentemente, com o teu único dente
Ausente, invariavelmente, da realidade e do presente
Passas os dias, sempre a deambular, com as mãos a tremelicar
Mendigas guita às tias, e a todas as pessoas, que por ti vês passar
Ignoras por completo, o asco, e a impressão que provocas
Fodeste o teu intelecto, agora fazes um esforço herculeano se te queres por de cócoras
Ainda me lembro, quando eras chavalo
Daquilo que dizias, quando davas no cavalo
Não tinhas Mãe, Pai, irmãos ou avós que cuidassem de ti
Eu só preciso de alguém, o que vai ser de mim, era o que indagavas, quando te conheci
Só que eu sou a sociedade, que tolhe sem piedade, todos aqueles que dependem de mim
E para mim apenas é verdade, o dinheiro, a falsa felicidade e tudo o que é delfim
Não prezo a amizade, nem a solidariedade, muito menos a piedade e coisas dessas assim
Só olho para o meu umbigo, dou importância ao egoísmo, só faço o que eu quiser
Separo o joio do trigo, puxo veementemente o autoclismo, e salve-se quem puder

terça-feira, 18 de maio de 2010

I’m free to sing my song though it gets out of time



casamento
(casar + -mento)

s. m.
1. Acto!Ato ou efeito de casar.
2. Contrato de união ou vínculo entre duas pessoas que institui deveres conjugais. = matrimónio
3. Cerimónia ou ritual que efectiva!efetiva esse contrato ou união. = boda
4. Fig. União, associação, vínculo.
5. Reg. Passa de figo recheada com pedaços de noz ou de outros frutos secos.
casamento de mão esquerda: mancebia.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lemonworld

Duas gotículas de suor escorreram suavemente pela sua face direita e caíram desamparadas em cheio na mesa. De braços caídos e com as costas curvadas sem tocarem no encosto da cadeira, no preciso momento em que caíam, o seu olhar finalmente derivou, a fim de poder contemplar a lenta evaporação das duas pequenas gotas que formavam agora duas manchas na madeira quase podre da mesa de jantar! Há muito tempo habituado ao baloiçar desengonçado da cadeira, cujas pernas, devido ao uso permanente, abanavam intensamente, raramente dava conta do que quer que fosse enquanto ali estava sentado a pensar. Sob o ritmo hipnótico e constante do bater exacto dos ponteiros do grande relógio de parede que jazia no meio da sala, passava horas e horas a deambular entre pensamentos desconexos e abstractos. Durante esse tempo, de trinta em trinta minutos, os únicos sons que se ouviam eram os do velho relógio a regurgitar automaticamente uma melodia desafinada e imperceptível que ecoava pela casa fora e que perecia, inevitavelmente, ao embater com estrondo nas paredes. Sempre que tal acontecia, e sem que ninguém desse por isso, outra minúscula fenda abria-se de rompante, e silenciosamente, passando a existir numa parede que outrora tinha sido branca! Estranhamente, apesar da sua idade e de todas as maleitas que a sua estrutura já possuía, o velho relógio continuava a cumprir a sua função na perfeição! Naquele dia, porem, aquelas duas gotículas de suor fizeram-no pensar de imediato e conscientemente no conta gotas da sua avó! Recordou-se do quarto azul clarinho, da colcha roxa com flores brancas de renda, da luz ténue do pequeno candeeiro da mesa-de-cabeceira, do lenço azul-escuro enfeitado com flores vermelhas no rebordo que ela trazia sempre na cabeça amarrado ao queixo com um pequeno nó, e da cara concentrada que fazia enquanto contava mentalmente o número de gotas de remédio que eram necessárias colocar num copo de água. Jamais se esquecera da boca da sua avó sem a dentadura! Soltou um pequeno sorriso ao recordar-se dos pedidos para dizer a palavra avião que usualmente fazia quando via a sua avó sem os dentes! Sorriu novamente, já sem saber por que razão, e voltou, inconscientemente, a centrar-se no bater dos ponteiros do relógio.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

All along the watchtower

A expectativa que uma pessoa cria em mim, quando antes de dizer o que tem para dizer diz, "como eu costumo dizer", ou então, "quem me conhece sabe que eu digo sempre", dizendo seguidamente a frase que costuma dizer. Fico sempre com a respiração suspensa, foco toda a minha atenção na pessoa, fico parado, somente com os ouvidos alerta. Que costumará esta pessoa dizer? É a pergunta que me invade, no milésimo de segundo em que tudo isto se desenrola...Um dia gostava de poder falar com a sabedoria popular e poder constatar que é efectivamente tão sabia como a sua fama quer fazer parecer, mas acho que seria muito difícil conseguir falar com todas as pessoas do mundo ao mesmo tempo
A maioria das pessoas nem se apercebe que esta a usar tal sabedoria. Algumas até acham que a expressão que utilizam é da sua autoria, que foram mesmo elas que a inventaram! Só que, caso seja assim mesmo, isso não poderá ser sabedoria popular. Provavelmente, se a expressão pegar e for devidamente divulgada, poderá vir a ser, mas ainda não é. A sabedoria popular tem muitos anos, sabe muito! Hoje em dia usufruímos da sabedoria popular que começou a reunir conhecimento há uns quinhentos, ou mil anos atrás. Mais coisa, menos coisa. As expressões que hoje em dia são inventadas, daqui a uns duzentos anos, depois de terem passado por todo o processo normal de evolução, talvez possam começar a ser usadas, em conjunto com as que já existem, como sendo expressões dignas da sabedoria popular. Mas nunca agora. Agora, no máximo, quando uma pessoa me diz "como eu costumo dizer", ou então, "quem me conhece sabe que eu digo sempre", posso assistir ao nascimento de uma dessas expressões, ser um dos que vai contribuir para a sua difusão, contribuir activamente para a sabedoria popular, trabalhar em prol das gerações vindouras, tal como outros trabalharam para mim para que eu pudesse hoje não só ter respeito por tal sabedoria, como regozijar-me com expressões do género; "Tem pelo na venta", ou "Sangue na guelra". Coisas que para mim, analisando a frase, são absolutamente parvas de se dizer, todas as pessoas têm pelos no nariz, ou todos os peixes têm sangue na guelra, mas que alguém um dia disse com um intuito tendo depois muitas pessoas repetido isso, e hoje em dia têm o significado que têm! Sendo frases parvas, são expressões esclarecedoras, que transmitem uma imagem, ou um pensamento. Só que, no máximo, consigo apenas gostar da ideia de que isso seja um dia uma realidade. Nunca saberei se uma expressão que oiça de alguém fará parte, ou não, da sabedoria popular. A não ser que, tenha a sorte, porque isso acontece, eu sei, de conseguir ouvir de alguém a expressão que será o Cristiano Ronaldo das expressões da sabedoria popular, e atinja os patamares que as outras atingiram em duzentos, trezentos anos, no espaço de cinquenta, sessenta anos. Quem sabe, num é?...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Milagre I

No mesmo dia em que estreia, mais uma vez, uma nova, e já estafada, versão de Robin Hood, em que toda a gente já sabe que é um bacano do povo que rouba aos ricos para dar aos pobres. Por coincidência, estreiam hoje também as novas medidas anunciadas pelo governo. Uma nova e inovadora versão do filme, muito mais real e actual, e com um orçamento muito mais baixo, roçando mesmo os custos completamente nulos, e com aquele twist surpreendente no fim, em que o herói principal se transforma num vil vilão que passa a vida a roubar descaradamente, e sem qualquer tipo de pudor, os mais pobres, preservando totalmente, no entanto, a qualidade de vida dos seus congéneres...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Boa viagem #1

Então? Já consegues ter a consciência tranquila quando te vais deitar?
E as vozes que dizias ouvir, já pararam de te atormentar?
Ainda pensas em desistir sem sequer ter pensado em tentar?
Ou achas que já é altura da tua atitude mudar?
Ainda achas que tens razão sem ouvir mais ninguém?
Ainda pensas que sendo assim consegues mesmo ser alguém?
Perniciosa personagem maléfica, de aparência sinistra
Que te pavoneias pela rua à espera que ninguém te resista
Odeio o teu perfume pestilento, que contamina todo o ar
És Infecto, um sórdido ser, só sabes sorver ou julgar
Achas mesmo que os teus conselhos
São sabedoria ou provocam ilusão?
Achas mesmo que a meter sempre o bedelho
Alguém vai acabar por te dar razão?
Vai para o caralho com as tuas criticas, tu que não sabes sequer ouvir
Vive só, a tua vida fatídica, deixa os outros aprender a sorrir
Estou farto demais de ti e cansado demais para desistir
Estou demasiado velho para fugir e muito novo para ruir
Estou farto dos anos que passaram a ouvir-te sempre mentir
Hoje, não resta absolutamente nada, tenho que o admitir
Agora, neste momento, tens um minuto para decidir
Se queres continuar a jorrar ou se passas também a engolir
Se não lograres este ensejo e ousares só expelir
Não me resta outra alternativa, senão a de te destruir

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bâmbi

A tua incongruência torna-se ridícula de tão evidente que é. Pior ainda, é o facto de nem sequer a admitires, ou seres capaz de a ver! Persistes e insistes na visão redutora que defendes até à morte, de tudo o que te rodeia, e achas mesmo que a única coisa possível de existir é somente aquilo que vês e sentes. Não concebes nada mais para além da tua vontade, apesar de nunca a conseguires realizar! És completamente incapaz de analisar o teu passado ou o teu futuro, da mesma forma que és totalmente incapaz de qualquer tipo objectividade. Não fazes a mínima ideia do que aprendeste ou sabes, mas achas mesmo que sabes tudo. Consegues contradizer todos aqueles cujo sonho seria voltar novamente a serem ignorantes depois de tristemente terem obtido o conhecimento que os impede de serem felizes. És ignorante e infeliz, no entanto, sempre com um sorriso nos lábios e um sonho obsoleto no coração de pedra que tens. És uma pessoa negra e maliciosa, embora vistas todas as cores, e falsa, quando dizes ao mundo o contrário disso. Não passas de uma pessoa frustrada e miserável, ainda que possuas todos os bens materiais que negavas querer e invejar, subterfúgio aliás, regularmente usado por ti, com um único propósito de esconder toda a tua mediocridade e futilidade no que ao que te importa realmente diz respeito. Não és mais do que uma imagem num espelho rachado, pendurado numa parede decomposta, onde apenas consegues ver, com total orgulho e altivez, o reflexo de uma mesquinha ganância e ambição. Com a vida que tens, irás cair de podre numa floresta negra de árvores mortas, coberta de névoa e mal, enquanto corvos alegremente arrancam as tuas sementes e as espalham aos sete ventos, e abutres te comem o resto da carcaça pérfida em que te tornaste um dia. Nem um grito de dor sequer será por quem quer que seja ouvido.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nó cego

O desejo, a volúpia de A.L., bem como o toque aveludado da sua pele
Contrastam com a falta de almejo, e o desperdício de ensejo, do inquieto Daniel
As pernas entrelaçadas, as quatro mãos coladas, o constante frémito contido
Conduzem somente ao engano, onde apenas num outro plano, conseguirá ser compreendido

Encontros, desencontros, confrontos que apanham desprevenidos os mais incautos
Atitudes, plenitudes, vicissitudes que ocorrem sem possibilidade de aprender com antigos autos

Consumido por diversos temores, antigas e pesadas dores, e outros horrores que tais
A mente de Daniel, inundada por um vil fel, torna-se incapaz de assimilar mais
A.L., sem capacidade de reconhecer tais maleitas em Daniel, a ele se entrega carnal e espiritualmente
Cega, por uma paixão digna de Julieta ou Rapunzel, não consegue nunca antever quão ele está ausente

Encontros, desencontros, confrontos que apanham desprevenidos os mais incautos
Atitudes, plenitudes, vicissitudes que ocorrem sem possibilidade de aprender com antigos autos

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Raiva acumulada #7

- Bom, de acordo com os resultados dos testes que efectuou, o senhor é um poeta, gosta de poesia, das artes, encara a sua vida com grande optimismo, mas...

- Não... quer dizer, sim e não...

- Não?! Como assim, não gosta de poesia, de artes… não é optimista?!

- Não. Não sou um Poeta. Creio mesmo que o facto de encarar a vida com optimismo, ou ter uma visão poética de algumas coisas, gostar de artes, etc, não querendo com isto dizer que não sou pragmático, queira dizer que sou um poeta! Também não quero dizer que só sou pragmático e que não tenho optimismo ou que não gosto de poesia, ou do que quer que seja relacionado com o mundo artístico! Alias, considero-me um actor profissional. No fundo… não consigo compreender como é que chega tão facilmente a essa conclusão! Li algures, no início disto, que posso reclamar sempre que sinta necessidade disso, e estou, desta forma, a expressar o meu protesto em relação às conclusões que chegou!

- Devo dizer-lhe que não é nem facilmente, nem de ânimo leve, que chego a esta conclusão. Deve-se, isso sim, a estudos efectuados durante anos a fio. Estudos, que permitem hoje em dia, chegarem com bastante fiabilidade de resultados a uma conclusão concreta. Mas, permita-me que lhe diga, que este não é o momento próprio para este tipo de explicação. Os testes estão feitos e os resultados obtidos. Diga-me, a que se deve o seu protesto? Acha que no meio do seu processo houve alguma irregularidade que lhe permita pensar que nós estamos errados? Recordo-lhe que ainda não revelei os resultados! Estava apenas a tentar começar de uma forma simpática, a nossa conversa final…

- Pois, acha que não é o momento para explicar a forma como chegam aos resultados, mas já lá chegaram! Resultados esses que foram obtidos a partir de estudos feitos durante anos, sabe-se lá por quem! Acha que as pessoas são todas iguais? Acha que existem n tipo de reacções iguais que se distribuem de igual forma pelas várias pessoas?

- Bom, bom, penso que estamos a dispersar-nos e a fugir da questão que nos faz estar a ter esta conversa. Como já lhe disse, este não é o momento próprio para este tipo de questões. Presumo então, à parte dessa pequena questão com a forma como os resultados são obtidos, que não tenha nenhum problema com a forma como decorreu todo o seu processo de selecção. Como sabe, o atraso já vai longo e urge terminar, o quanto antes, o seu processo de selecção. Disse-me que se considera um actor?

- Não quer responder, é o que é! Chegam a conclusões, sabe-se lá como, e depois dizem e fazem o que querem! Mas tem razão, o atraso já vai bem longo, eu também me quero ir embora! Era para sair daqui ao meio-dia, já são 6 da tarde! E é verdade sou um actor sim senhor…

- Então?! Isso só vem de encontro ao que lhe estava a dizer! É por isso que ficou espantado? Não esperava que acertássemos logo à primeira?!

- Não se esteja a rir, que eu não acho mesmo graça nenhuma à forma como vocês chegam às conclusões! Alem disso, o senhor está a partir do princípio que acertou! Em segundo lugar, um actor pode não gostar de artes ou poesia...

- Então mas isso é um contra-senso! Um actor escolhe essa carreira porque gosta da arte de representar!!!!

- Sim, mas pode ser um actor da vida real, que é o meu caso…

- Um actor da vida real?! Como assim?

- Eu, todos os dias às 09:00 da manhã começo a representar e ás 17:00, paro. Sempre com uma hora de almoço entre as 13 e as 14.

- O quê?! Nunca tinha ouvido falar em tal! Onde é que o senhor representa?!

- Não está a ouvir o que lhe estou a dizer! Eu sou um actor da vida real. Tipo um gajo que está no Big Brother. No programa, eles estão numa casa, a viver a vida deles, mas na realidade, estão a representar a vida deles como se eles fossem realmente assim, não deixando, no entanto, de ser a vida deles!

- E então o que é que isso quer dizer?! Caso efectivamente o senhor faça isso no seu dia a dia, Isso não lhe dá um salário! E, para alem disso, só revela que é uma pessoa que não gosta de se expor perante os outros…

- Das 09, às 17, tirando a hora de almoço, sim. Não me exponho perante os outros enquanto represento! Sou um actor da vida real nesse período de tempo! Acha que um actor se expõe assim perante os outros?! Pronto, está bem, há sempre uma parte de nós em cada papel, ok, mas é sempre mínima! Um bom actor, transforma-se noutra pessoa! É alguém que na realidade não é. E, mais uma vez, está a retirar conclusões que não sabe se são verdadeiras ou não… …

- Já não estou a compreender nada! Está a tentar dizer-me o quê então???

- É muito simples. Confesso que não esperava que me dissesse, que de acordo com os resultados que obteve, eu era uma pessoa que gosta de artes! Isto porque, todos os dias escolho uma personagem diferente para representar e, hoje tinha escolhido ser um actor à procura de um emprego! Gosto da ideia de representar aquelas pessoas que quando não conseguem vingar na arte de representar tentam arranjar um emprego normal a fim de encontrarem a normalidade na sua vida. Fiz-me entender?

- Eu acho que o senhor deve sofrer de alguma perturbação! Onde é que quer chegar?

- Não conseguiu ver essa perturbação nos resultados dos testes? Então é porque não a tenho! Como é que me diz agora que eu devo ter alguma perturbação? Ainda por cima sem certezas nem resultados para analisar…

- Bom, estou farto! Eu sei que a boa educação deve sempre prevalecer, mas isto é demais! Estou aqui em representação do cliente que contratou a empresa para a qual eu trabalho a fim de se conseguir reunir o melhor candidato ao lugar disponível. O senhor, perante as condições de admissão que lhe foram transmitidas, anuiu e fez todos os testes que lhe foram pedidos. Esta é a altura em que encetamos, como já lhe tive oportunidade de transmitir, a ultima fase da selecção. Fase esta, em que eu lhe transmito os resultados dos testes e tenho uma conversa consigo para avaliar o seu perfil e constatar se o senhor é, ou não, a pessoa indicada para o lugar. Neste momento e já passaram vinte minutos desde que estamos aqui, eu ainda não lhe transmiti os resultados nem tive a conversa consigo e já acho que o senhor não é a pessoa indicada para o lugar.

- Quando o senhor há pouco me perguntou se eu achava que tinha havido alguma irregularidade no processo, este momento conta? É que eu tenho a sensação que sem saber os resultados e sem ter a tal conversa consigo, o senhor não me pode dizer que eu não sirvo para o lugar! Como é que pode, ou consegue chegar à conclusão, que eu não sirvo para o lugar?

- Chega, está dispensado. Pode sair, depois informamos se ficou ou não.

- Assim! Sem mais nem menos! Não me vai dizer sequer os resultados? Isto, partindo do principio, claro, que esta já foi a conversa! Desculpe lá estar a insistir nesta questão, mas é que como já lhe disse, sou um actor da vida real e hoje tinha decidido ser um actor frustrado à procura de emprego. Já passa muito das 17 e como tal já não posso voltar à personagem! É um objectivo sabe, que impus a mim próprio. Não posso ser a mesma pessoa dias seguidos. Posso voltar a ser o actor frustrado outra vez, mas só daqui a 10 dias, que é o prazo mínimo para poder ser a mesma personagem. Como ainda fiz os testes encarnado na personagem, tenho curiosidade em saber os resultados! Fiquei deveras curioso com o facto de ter chegado à conclusão que eu gostava de artes!

- SAIA JÀ…

- A educação deve sempre prevalecer, foi o que disse há pouco! Diga-me, a quem é me devo dirigir para fazer queixa de si? Acho que todo este processo foi mal conduzido e que fui altamente prejudicado. Saio daqui sem saber os resultados, sem o emprego e com o senhor aos berros comigo sem razão aparente! Eu, tal como o senhor, também acho que a boa educação deve sempre prevalecer…

- O senhor dirija-se a quem quiser, faça queixas a quem quiser, não me interessa. SAIA.

- Responda-me só a isto, está aborrecido porque os resultados dos testes não correspondem à realidade ou porque os testes acertaram e o senhor não consegue lidar com a realidade?

- Boa tarde. Até um dia, obrigado.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Conversation16

...Detesto porque detesto andar de cacilheiro. Se eu morasse do outro lado hoje não vinha trabalhar de certeza absoluta. Quer-se dizer, se eu morasse do outro lado, se calhar não dizia isto. Sempre gostava de saber quem é que tinha coragem de dizer uma coisa destas se todos os dias tivesse de ir e vir pálmada! Isto até me faz lembrar aquela vez em que o Pires teve um granda Paio. Então não é que o gajo, depois de ter quebrado o barreiro e ter conquistado a cova da Piedade, sem o marido dela saber claro, conseguiu, mesmo à rasquinha, esconder-se atrás do laranjeiro, aquele ali perto da janela do quarto, assim que o homem dela chegou a casa de surpresa! Eu até percebo o Pires, afinal dizem, as más línguas, que o marido dela é maluquinho de corroios! Mas eu nunca cheguei a perceber porquê! Então mas agora um homem, só porque optou por ter a profissão de fogueteiro, e porque anda sempre com uma cruz de pau na mão, tem logo de ser apelidado de maluquinho? Que eu saiba, nunca o vi meter-se em sarilhos nenhuns, nem grandes, nem pequenos. Tal como nunca o vi escondido atrás da moita, como muitos que andam por aí, à espera só para fazer mal, ou pior, para espreitar as pessoas que vão fazer xixi à socapa...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Time is running out

Não me recordo de alguma vez ter visto um mendigo careca!

Unnatural selection

Acabei por não perceber, quando a minha médica me disse para, e sobretudo, não perder a criança que há dentro de mim, se era ou não uma dica contra a masturbação!

sábado, 1 de maio de 2010

Amor é...

Sabado de manhã. Acordo com a claridade a bater-me na cara e sorrio quando vejo que ela ainda se encontra a dormir profundamente. Dou-lhe um beijo nas costas, desvio com cuidado o cabelo dela e beijo-lhe com ternura o pescoço. Ela agita ligeiramente a omoplata, acena que sim com a cabeça, balbucia qualquer coisa imperceptivel enquanto mexe a perna para debaixo do lençol e prossegue no seu sono profundo. Levanto-me, com cuidado, e sem calçar os chinelos dirijo-me para a sala enquanto olho para trás e a vejo, agora da porta da sala, deitada, com os braços a agarrar a almofada e o cabelo a cobrir-lhe a cara.
Vou buscar um cigarro à varanda, procuro por uns instantes o isqueiro que não sei onde está, e vou à cozinha buscar os fosforos. Acendo o cigarro na cozinha, inalo com prazer a primeira baforada do dia, e depois de expelir o fumo decido voltar para a sala olhando novamente para o quarto para verificar que ela se encontra exacatamente na mesma posição desde a ultima vez que tinha olhado para ela. Entro na sala, ligo o sistema de som dolby surround, coloco o botão do volume no quarenta e três, o meu numero preferido, numa escala de 45, pressiono o botão play, e sento-me calmamente na varanda com o intuito de terminar o meu relaxante cigarro enquanto curto o jogo de ténis entre os berros do vocalista dos Cradle of filth na sala e os dela no quarto, sem fazer a minima ideia do que irá ela fazer para se vingar...