• FIM
  • R.I.P

domingo, 31 de janeiro de 2010

Banda Sonora

Porque hoje é Domingo
Porque quarta é dia 3 de Fev.
Porque há nuvens cinzentas no céu
Porque há bosta de cão na calçada
Porque o pão às 6 da manhã, apesar de quentinho, é mais fresco
Porque sim
Porque danças dessa forma
Porque vodka embriaga
Porque o som do baixo, bem alto, inebria
Porque a erva sobrepõe-se ao basalto
Porque a televisão estupidifica
Porque os livros dizem muito
Porque não consigo ouvir a música enquanto falas ao meu ouvido
Porque não se sabe nada aos 19
Porque viver mata
Porque arriscar é melhor que um risco de coca
Porque aos 90 também não se sabe nada
Porque tenho a cabeça cheia
Porque um perdigoto pode engasgar
Porque fumei demasiado ontem
Porque é parvo julgar
Porque tenho avelãs em casa
Porque na década de 70 os 80 eram o futuro
Porque é difícil escrever 50 coisas em 3 minutos e 23 segundos
Porque durmo sempre menos ao fim-de-semana
Porque sorrir faz bem à saúde
Porque é certo estar errado
Porque a ultima cartada nem sempre é uma vaza
Porque me quero perder até me encontrar
Porque a minha rua é a descer quando regresso a casa
Porque o dinheiro não faz, mesmo, o mundo rodar
Porque a roda já estava inventada, ninguém tinha era reparado nisso
Porque consigo
Porque quero
Porque não quero
Porque me apetece
Porque posso
Porque um dever não é uma dívida
Porque o bom senso é bom
Porque a minha liberdade não pode interferir com a tua
Porque nasci em Cascais e tenho um sobrinho, sou um tio de Cascais
Porque os dias ficam maiores de dia para dia até começarem a diminuir
Porque ontem era só umas horas mais novo
Porque a musica dos Joy Division une
Porque ainda não fui a um concerto em 2010
Porque quando era mais novo era menos sociável
Porque um dia hei-de...
Porque dantes o tempo corria lento
Porque não
Porque esta música me põe bem-disposto

sábado, 30 de janeiro de 2010

Peligro

Só quando estou ébrio é que consigo andar a direito.

Tristeza maleza

Enquanto não houver dois seres que consigam escolher racionalmente um amor recíproco entre si, desconfio que os humanos são providos apenas de inteligência artificial. Conseguem fazer tudo e um par de botas, menos aquilo que interessa...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Jogos físicos e psicológicos

- … e em 97% dos casos em que tal sucede… restantes 3%, a totalidade, ou 100%, em 99% dos casos… desse 1% a totalidade, em 99% dos casos… … e em 97% dos casos em que tal sucede… restantes 3%, a totalidade, ou 100%, em 99% dos casos… desse 1% a totalidade, em 99% dos casos… …Sim, acho que está bom, está profundo…

- É só isso que tens a dizer? Tudo aquilo que tens a dizer sobre a coisa mais profunda que jamais escrevi e que te disse, antes de te dar a ler, ser a coisa mais profunda que já escrevi, é que está bom e profundo?

- O que é que queres que eu te diga? Li duas vezes e tudo…

- Duas vezes?! Em trinta segundos? Tu leste o texto sequer?

- Li por alto sim. Li umas frases inteiras, 2 frases pelo menos li de certeza…

- Custa-te assim tanto ler um texto pequeno que eu escrevi e depois dares a tua sincera opinião sobre isso?

- Não! Claro que não me custa nada. O que me custa sempre é dar depois a minha opinião. Eu não gosto nada daquilo que tu escreves. Nunca percebo nada do que queres dizer, ou onde é que queres chegar. Acho que não dizes nada de jeito. Claro que também posso ser eu que sou burra e não consigo compreender aquilo que escreves. Por isso é que cada vez mais me custa ler os teus textos e prefiro fingir que os leio e depois digo sempre aquilo que penso que é o que queres ouvir.

- E como é que sabes aquilo que eu quero ouvir?

- É fácil, tu chegas ao pé de mim a dizer que é o texto mais profundo que já escreveste. Qual é a opinião que achas que eu te posso dizer depois de me dizeres isso? Se tu já tens a tua opinião formada...

- Mas eu quero é saber a tua opinião, não a minha! Quero saber aquilo que pensas verdadeiramente, independentemente do que eu possa pensar ou sentir. Custa-te assim tanto ler um texto todo e depois dar a tua opinião sincera sobre isso?

- Não…Acho que não…Acho que foi para isso que casamos e tudo, para podermos ser sinceros um com o outro sem medo de julgamentos…

- Então faz-me lá o obséquio de ler o texto todo…

- Porque é dizes sempre obséquio?

- Pronto! Então faz-me lá a fineza de ler o texto todo…Mas em voz alta, para eu saber que o leste todo.

- Como é sobejamente sabido, todos os homens, ou quase todos, com a excepção da Mãe, da irmã, da Avó, e de uma Tia ou outra, querem, pelo menos uma vez, comer todas as gajas que lhes são atraentes quando elas lhes aparecem à frente. As mulheres, por sua vez, com as mesmas excepções evidentemente, sentem-se de imediato atraídas, pelo menos uma vez, por todos os gajos que para elas, naquele milésimo de segundo em que o clic ocorre, demonstrem de uma forma inequívoca ter um sentido de humor e uma inteligência irresistível, mesmo que não consigam sequer compreender tal sentido de humor. Claro está que tudo isto acontece de uma forma genérica e em 97% dos casos em que tal sucede, a coisa morre no milésimo de segundo imediatamente a seguir. Sendo agora os restantes 3%, a totalidade, ou 100%, em 99% dos casos a coisa não irá passar de um mero pensamento, possivelmente contendo até alguma lascívia, ou quanto muito uma mera fantasia num momento onanista. Fazendo novamente desse 1% a totalidade, em 99% dos casos ir para além dos 2 milésimos de segundo adjacentes ao momento primeiro, significa desilusão ou a constatação de um equívoco provocado pelas sempre falsas primeiras impressões. Desta forma, somente 1% da última totalidade é que irá ter alguma possibilidade de sucesso no futuro. Eu, em 100% dos casos, significo sempre, sem excepção, uma desilusão ou um engano. E é por isso que, paradoxalmente, eu sou, sem qualquer sombra de dúvida e ao mesmo tempo, um dos gajos mais irresistíveis do planeta e uma experiência que ninguém deseja repetir nunca mais de forma alguma.

- Genial! Profundíssimo! É sem duvida nenhuma o melhor texto que já escrevi! O confronto constante entre o autor e as massas. O mundo inteiro que olha para o autor com o mesmo interesse que o autor olha para o mundo inteiro e no entanto, nunca, em momento algum, o mundo e o autor se irão mutuamente tocar! Genial! Verdadeiramente genial…Se bem que, agora que ouvi o texto da tua boca, eu devia ter usado a palavra mutuamente…Mas diz-me, o que é que achaste do texto afinal?

- …Está bom…Na minha opinião o texto é... como é que eu o posso descrever...olha, está profundo…

- Foi exactamente o que eu pensei também…

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Cavalos de...nem sei de quê...

Desde pequeno, mal andava ainda, que o meu maior sonho sempre foi rir-me de forma a fazer notar o quanto eu consigo achar piada a algo, ou alguém, com quem não tenho qualquer tipo de relação, ou então que tenha somente uma relação meramente circunstancial. Acho que estas coisas descobrem-se logo à nascença, logo desde que se tem noção do que é que é necessário fazer para levar a água ao nosso moinho. A luta é árdua, sem dúvida nenhuma, mas desde que atingi o estatuto que hoje possuo, no difícil patamar que sempre almejei alcançar, poucas coisas, neste mundo cruel, aprecio mais do que mostrar que consigo rir-me com prazer de conversas alheias cujos interlocutores desconhecem que o estou a fazer. Não existe nada mais educado do que mostrar, genuinamente, que se acha piada a algo que se acaba de ouvir e que não nos era dirigido, mas que ouvimos porque nos encontrávamos ali. E eu, não só posso dizer que cheguei a tal conclusão sozinho, como posso dizer com toda a confiança do mundo, que sou um perito nessa matéria. Consigo rir-me mesmo, mesmo bem, e quando quiser e bem me apetecer. Quando quero, quando quero mesmo a serio e me predisponho a isso, sou capaz de rir-me logo, no momento! Numa paragem de autocarros, por exemplo, se quiser rir-me à brava da conversa que estou a ouvir ao meu lado, basta pensar nisso e pumba, lá estou a rir a bandeiras despregadas. No trabalho, principalmente à segunda-feira, depois de ouvir aquela piada no elevador, se quiser rir-me, mesmo muito, consigo rir-me tanto, mas tanto, ao ponto de ter a sensação que vou rebentar de tanto rir. Obviamente, que devido a mim, fica tudo a rir naquele elevador. Muitas vezes sem terem noção sobre aquilo que na realidade se estão a rir, riem-se apenas e só por minha causa, é de mim que vão falar quando saírem do elevador, não da piada que já ninguém se lembra. Naqueles jantares de empresa, ou de grupos de amigos a fazer uma data de barulho, em que a dificuldade para conseguir chamar a atenção é bastante elevada, consigo rir-me até ficar mal disposto, cheio de vómitos, para que o riso seja verdadeiramente marcante e inolvidável. Mas a minha verdadeira obra-prima, aquela que me fez tornar numa verdadeira lenda, ou num mito vivo, é a capacidade que tenho em me rir, quando já estou inserido numa conversa de grupo, até me engasgar e ficar a tossir sem conseguir parar. Claro que esta ultima é uma façanha em que corro o risco de não conseguir ver a cara das pessoas a quem o meu riso é dirigido, mas é um risco que vale a pena. Quando tal me acontece em todas as outras situações, fico irritado comigo próprio, aumento logo o meu treino em manter os olhos abertos quando estou engasgado. Por falar nisso, agora lembrei-me, no outro dia quase que vi a minha cara ao espelho enquanto dava um espirro, mas no ultimo momento tive que fechar os olhos, um dia... ...Mas quando já estou a tossir e me engasgo basta-me ouvir alguém dizer que para olharem para mim, que vejam só como eu fiquei por me estar a rir tanto. Ahhhhh, o bom e usual sabor do sucesso...Bom tirando as ocasiões em que vem sempre um idiota qualquer dizer para eu deixar o tabaco! Como se o tabaco tivesse a capacidade de fazer alguém rir daquela forma! Mas também, quando alguém diz isso, vê-se logo que é alguém que só quer é chamar a atenção, alguém que só quer dar nas vistas e está cheio de inveja porque fui eu que o consegui fazer com o meu contagiante riso. Pobres coitados, topam-se logo à distância! Essas pobres almas nunca vão conseguir perceber o sacrifício que é necessário fazer para conseguir chamar a atenção de toda a gente sem que ninguém note que é isso que se está a fazer. Alias, desafio qualquer pessoa a conseguir chamar a atenção melhor do que eu. Não conheço ninguém que não fique a rir-se quando me estou a vir embora. Muitas vezes, saio do sítio onde estou, de gatas, fingindo que não me consigo levantar por me estar a rir tanto. É um número extra que gosto de fazer para abrilhantar o final da minha actuação. A meu ver, eu já merecia era ter uma estátua de mim a rir, ou o meu nome numa rua importante. Só que hoje em dia já ninguém dá valor ao riso, nem a nada! Um gajo acaba por ter de trabalhar o dobro o ou triplo do que se trabalhava há uns anos atrás para que depois falem apenas uns segundos sobre mim. O problema deste mundo é a falta de memória, as pessoas esquecem-se muito facilmente de quem é que se ri das coisas que elas dizem. Um dia destes, faço greve. Depois sempre quero ver como é.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Whiskey & Water

Tou fodido! Foi desta simpática forma que o Zé conseguiu sintetizar a embrulhada em que ele próprio se colocou! O Zé até um gajo fixe. Não deve muito à inteligência, é verdade, mas é amigo do seu amigo e uma pessoa com quem, inclusivamente, se pode contar para o que quer que seja, não obstante de ser daquele tipo de pessoa que acredita mesmo que fazendo uma chinfrineira desgraçada com a buzina do carro no meio de uma fila de trânsito com 10 km de extensão que a coisa começa por milagre a andar! Para azar do Zé, ainda por cima é um humano bem-parecido, facto que por natureza entra em contraste com a condição de monógamo que todo o ser humano automaticamente deveria entrar quando se decide casar! Jurando amor eterno, algo que eu acredito piamente que o Zé sinta, e fidelidade à sua recente companheira de casamento, o Zé decidiu brilhantemente disfarçar as suas pequenas facadas no casamento colocando nomes de amigos seus nos números de telefone das suas, vamos lá, "amigas" no telemóvel dele! Surpreendentemente, e ao contrário do que eu inicialmente pensei que ia acontecer, o esquema até resultou bem durante uns valentes 12 dias! Só que, claro, já se sabe como estas coisas das mentiras e das pernas curtas são não é verdade? Ao décimo terceiro dia, felizmente o Zé não é supersticioso, pelo menos nunca o ouvi atribuir nada ao azar, enquanto ele tomava banho, por uma razão que desconheço estas coisas acontecem sempre quando alguém está a tomar banho, o Zé recebeu uma mensagem de uma das suas amigas que se encontrava sedenta por um resto de tarde preenchido por feroz e voraz sexo, utilizando para demonstrar o seu desejo palavras e bonecos que até a mim me fizeram ruborizar quando o Zé me mostrou a mensagem! Ora quem é que haveria de ter lido a mensagem de um tal de Pedro quando o pequeno aparelho fez BIP BIP e dançava em cima da mesa da sala? Obviamente não é! Contou-me mais tarde o Zé que não conseguiu mesmo dizer nada quando a Esperança, nome da mulher dele, lhe perguntou porque é que ele não tinha sido sincero e lhe tinha contado tudo, coisa que tinha evitado o casamento e todo aquele constrangimento que agora se fazia sentir. Sempre com calma e com uma atitude moderada, para espanto de todos, confesso, a Esperança quis vincar muito bem a ideia de que gostaria de permanecer amiga dele, e quem sabe até confidente, uma vez que gosta muito dele, mas que não conseguiria continuar mesmo a viver com ele sabendo agora que ele é homossexual! Sem sequer ter proferido uma palavra, ficou assente que o Zé tinha um mês para sair de casa, ficando ao mesmo tempo tácito que o Zé para a Esperança é homossexual! Quando perguntei ao Zé por que razão não disse ele a verdade, ele disse-me que foi a única hipótese que vislumbrou para continuar, pelo menos, amigo dela! Ainda de acordo com ele, se ele tivesse dito a verdade ela teria ficado a odiá-lo! Assim, o plano era agora ir protelando a coisa de forma a fazer acreditar a Esperança, e a família dela, que afinal ele não é homossexual e que tudo não tinha passado de um pequeno devaneio, ou uma experiencia, como ele mesmo me disse! Como é que ele ia fazer isso? Não sei! Mas se isto tudo, para o Zé, ainda não era completamente absurdo, ele estava inclusivamente convicto que a coisa ia de facto resultar, ao fim de uma semana a Esperança, depois do jantar, virou-se para ele e disse-lhe que após ter pensado bastante, que gostava de conhecer o "namorado" dele, a pessoa que tinha enviado aquela mensagem! Por uma razão que ainda hoje o Zé desconhece, para a Esperança alguém que envia aquele tipo de mensagens só pode ser alguém que se entrega ao prazer carnal com um desejo, com uma ânsia e uma entrega tal que só pode mesmo merecer ser feliz por lutar pelos seus intentos!
Tás fodido! Foi a resposta que me ocorreu quando ele me contou isto tudo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Wasp nest

Nada era primordial, quando eu andava na secundária.

Banda Sonora

- Olá jeitosa! Acabei mesmo agora de te ver, e não queria deixar de te dizer que és uma bela, belíssima, reportagem! Excitante, informativa, além de atraente e incisiva!...

- Ora essa, muito obrigado por tais elogios, mas isso são apenas os teus olhos! Eu costumo ver-te todas as segundas, e tu sim, tu é que és um belo pedaço de documentário! Interessante, cativante, didáctico, já para não falar na tua voz envolvente...

- Bom, se falas na voz, tenho que mencionar a tua imagem extasiante e resplandecente...O que achas de unirmos os nossos esforços e fazer um programa original, de qualidade redobrada?

-Aceito já, sem sequer pensar no share das audiências! O importante é e será sempre difundir a mensagem, não o que possam pensar ou interpretar disso...

I think this place is full of spies
I think they're onto me
Didn't anybody, didn't anybody tell you
Didn't anybody tell you how to gracefully disappear in a room
I know you put in the hours to keep me in sunglasses, I know
And so and now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
It went the dull and wicked ordinary way
It went the dull and wicked ordinary way
And now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
I think this place is full of spies
I think I'm ruined
Didn't anybody, didn't anybody tell you
Didn't anybody tell you, this river's full of lost sharks
I know you put in the hours to keep me in sunglasses,
I knowAnd so and now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
It went the dull and wicked ordinary way
It went the dull and wicked ordinary way
And now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
And now I'm sorry I missed you
I had a secret meeting in the basement of my brain
It went the dull and wicked ordinary way

The National - Secret meeting

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

I wanna go home

- Então, que tal estou?

- Estás bem...

- Só isso? Não há um pormenor que se destaque em mim? Sabes bem que são os pormenores que fazem a diferença, principalmente antes de um encontro...

- Ok, admito que há sempre um pormenor em ti que até me faz confusão...

- E qual é?

- Tu nunca, mas nunca, tens os pelos do nariz compridos demais! Como é que consegues?

- Sabes o quanto eu aprecio a sabedoria dos mais velhos não é? Pois vou confessar-te uma coisa. Há uns anos, ainda eu era um imberbe petiz, numa das viagens frequentes que fiz ao Alentejo, a D. J’quina, questionando-me, na brincadeira, se eu já fazia a barba, sabendo ela que eu ainda não tinha nenhum pelo na cara, disse-me depois, que ela, para evitar que os pelos crescessem tão depressa, arrancava com uma pinça, um a um, os pelos que ela tinha na barba e no bigode! Ora, conhecendo eu, na altura, a mãe da D. J’quina, uma senhora boa boa boa, do mais ternurento possível, mas albergando sempre um farto bigode e um lenço preto na cabeça, aquilo ficou-me marcado para todo o sempre na cabeça!

- E então? Estás a querer dizer-me que hoje em dia a D. J’quina ficou igual à Mãe dela? Isto é mais uma das tuas parvoíces com os atavismos?

- Não! Que disparate! Não, a D. J’quina não tem bigode sequer, está até quase igual até, embora mais velha. E então, não se está mesmo a ver?

- Não!

- Arranco, um a um, com uma pinça. Nunca menosprezes o conhecimento de uma anciã...

sábado, 23 de janeiro de 2010

English beefcake

- Olhó o gajo! Então estás melhor? Quase uma semanita ah! Já começas a parecer os velhotes que ficam de cama uma semana por cada cena que apanham...

- Ai é? Não sabia...

- Mas é. Ficas já a saber...

- Não te sabia expert em comportamentos de idosos perante as doenças! Deve ser coisa de idoso saber essas coisas...Bom, lá diz o ditado, mais vale sê-lo que parecê-lo...

- É impressionante, nunca consegues levar uma boca, mesmo que seja na brincadeira, sem que tenhas logo de responder!

- Eu já te disse uma vez que era suposto eu ter sido um grande advogado, está-me no sangue rebater, o que é que queres que eu te faça...

- Bom, mas já estás bem?

- Sim. Alias, até te digo mais, estou muito contente por tal me ter sucedido...

- Porra! Ao ponto que já chegaste para não ir trabalhar...

- Não, não tem nada a ver com isso. É que da última vez que estive de cama quase uma semana, há 1000 anos, conheci o amor da minha vida! Por isso, para um ano que rima com lés, e não dava qualquer alento, não começou afinal nada mal...

- Yeah, right! 1000 anos depois está à vista o resultado...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Modelo quase fotográfico

E esta é história
De um tipo demencial
Que viveu sem glória
Por vergonha da terra natal

Nascido e criado
Margem sul perto do hospital
Cedo traçou seu fado
Queria uma vida fora do normal

Aluno mediano
Nunca teve grandes notas
Congeminou então um plano
Tornou-se um exímio lambe botas

Nos primeiros anos
Tudo corria de feição
Mesmo esquecidos, seus manos
Insistiam no apelo à sua razão

Mas de nada valia
Fazia sempre orelhas moucas
Até que um certo dia
Cruzou seu caminho uma bela moça

Carro caro grande mansão
Churrascos à beira da piscina
Não tinha fim a sua ambição
A bela moça era agora a amante Cristina

Fogueira de vaidades
Quem não vive seriamente não imagina
Depois de tantas veleidades
A sua amante foi a sua ruína

Polícia de profissão
Num esquema complexo de escutas
Cristina arrancou então a confissão
Apanharam todos os filhos da Puta

Sempre de olhar afiado
Esta é a história do Zé Neto
Vive agora encarcerado
O gajo da margem sul que queria ser beto

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

The blue route

Ao chegar à cidade em que o amor subsistiu à injustiça e foi perpetuado num jardim cheio de flores de todos os géneros, onde ainda hoje os amantes trocam carícias e juras de amor eterno, gosto de atravessar a ponte onde está pendurado um relógio e virar logo à direita. Depois, contorno pela metade a primeira rotunda que encontro e percorro a rua da sabedoria cheia de comércio e história. Assim que me aproximo dos semáforos, que têm ao do lado direito de quem sobe a Policia, e do lado esquerdo a Sé, sorrio mentalmente visto que os mesmos se encontram invariavelmente vermelhos! Subo calmamente a avenida, dividida a meio por outro jardim e árvores, olho de relance para o cinema e sinto o bater do coração a ficar instintivamente diferente assim que avisto a calçada da praça onde culmina a avenida! No meio da praça, por entre as esplanadas, as sombras das árvores, as folhas secas espalhadas pelo chão, a jovialidade e os eternos sonhos, existe, mais uma vez, quase sempre, uma tenda branca com um evento cultural qualquer! Contorno, também pela metade, a praça e viro à direita. Subo a avenida paralela à casa do Artista que possuía um carro azul, que por brincadeira seguíamos há uns anos atrás, e sigo em direcção aos Hospitais! A constante sombra e os autocarros eléctricos recordam-me as tardes e as noites que passávamos sentados nas esplanadas a falar e a ver a vida a passar à nossa frente! Não tínhamos muito mais para fazer do que pensar no futuro que um dia iríamos ter! Ao chegar ao fim da avenida, que nunca soube o nome apesar de ter passado lá inúmeras vezes, corto à direita e logo na primeira à esquerda e depois novamente à esquerda, passo pelo prédio das últimas memórias, mesmo em frente à pastelaria e abrando ao ponto de quase parar, perco quatro ou cinco segundos a olhar para a varanda! Sigo em frente, e ao chegar ao cruzamento em que não posso virar à esquerda, viro à esquerda e tomo o caminho em direcção às piscinas, passo por uma rotunda e uns semáforos, sigo pela rua ladeada de centros comerciais e comercio tradicional, recordo a pizza que comi no ultimo centro comercial antes das piscinas, mesmo em frente à boutique de Pão da zona in, e procuro lugar para estacionar depois de ter passado pelo quiosque! Consigo estacionar em frente ao prédio forrado de tijolo e perco mais quatro ou cinco segundos a olhar para a varanda, sorrio novamente, desta vez com nostalgia e tristeza e dirijo-me a pé para o café onde as tostas mistas são consideradas as melhores do mundo! Apesar de esta não ser a minha opinião, consigo compreender o sentimento que é nutrido pelas tostas! Antes de entrar no café e sentar-me em frente ao relógio que tem os números ao contrário, reparo que um clube antigo, que tinha sido transformado em casa de strip, é novamente o clube, pelo menos com o mesmo nome mítico que teve outrora! Penso, durante dez segundos, que às vezes as coisas podem voltar a ser o bom que um dia foram e entro no café passando pela esplanada inundada de chapéus-de-sol aparafusados ao chão! Sento-me e peço um café ao empregado que sempre ali vi a servir! Ao longe, consigo imaginar o rio e a quietude dos fins de tarde à beira-rio sentado apenas sentir a brisa suave que sopra! Gosto de chegar à cidade em que o amor subsistiu à injustiça e pensar que aí o amor e a juventude serão sempre eternos!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em 5,4,3,2,1, acção:

- Tu não vês que isso é um falso problema?

- E então? Um falso problema não deixa de ser um problema. Alias, o facto de ser falso torna-o de imediato num problema! Se não tens um problema, mas julgas que tens, isso é um falso problema, no entanto, não deixas de ter o problema de achar que tens um problema que não existe. Tens na mesma um problema para resolver embora aches que só pelo facto de ser falso não necessite de resolução! Um falso problema, é na realidade um problema verdadeiro, mas que não existe. Se quiseres ser correcto, em vez de me dizeres que tenho um falso problema, terás que me dizer que tenho um verdadeiro problema, mas que não existe caso eu queira verificar que o problema que aponto como sendo um problema na verdade não é porque não se coloca essa situação nos termos que estou a falar. Caso me digas isto, aqui sim, poderia dar-te alguma razão. No entanto, não acho que a coisa seja assim tão fácil como estás a dizer, eu acho que tens um problema, real, verdadeiro, que existe e que tu apenas queres virar as costas porque o vês como falso. O falso não é invisível meu amigo, se não tens consciência disso, tens aí outro problema...

- A consciência é uma coisa lixada. É extraordinária, mas lixada! Sabias que foi inventada 1764 anos antes do primeiro homem pitagórico, a fim de conseguir fazer com que as gerações vindouras sentissem culpa e remorsos dos seus próprios actos. Uma invenção completamente falhada na altura, mas que foi ressuscitada alguns milénios mais tarde, e mantida desde então com grande vitalidade. Só que, como em quase tudo, esqueceram-se do princípio básico e elementar, o mesmo que tinha sido olvidado aquando da primeira implementação! Para que a consciência possa ser utilizada com total sucesso, é necessário dotar os seus utilizadores de conhecimento e inteligência, coisa que até aos dias de hoje ainda não entrou em vigor, nem é de carácter obrigatório para ninguém. As pessoas são egoístas e egocêntricas em tudo, dê-se as voltas que se queiram dar, disto não se consegue sair. Por isso é que apreciam tanto o facto de serem Pais. É a única situação que lhes permite, por um lado, poder castigar alguém que não fez aquilo que eles acham que devia ter sido feito, e por outro, aceitar com facilidade e alguma naturalidade que alguém não partilhe dos mesmos gostos e interesses. Por isso, meu amigo, não me venhas agora com a tua conversa fiada, porque eu, num acto de altruísmo puro, antagónico por consequência ao egoísmo de que falei, partilhei contigo a minha modesta opinião, no sentido de te alertar para um problema, que a meu ver, e atenção, ver esse que é dotado de todo o meu conhecimento e inteligência desenvolvidos ao longo da experiência de vida que fui adquirindo, é um falso problema. Caso queiras aceitar isso de bom grado, sem que vejas nisso uma segunda, terceira, ou qualquer outra intenção, tudo bem, a conversa foi feita para se partilhar opiniões, caso contrário, tudo bem na mesma, amigos como dantes.

- Por acaso, tem a sua piada teres mencionado a segunda, terceira, ou demais intenções. Quase nunca ninguém refere a primeira intenção, a que dá o mote a tudo o resto, a que origina o caos ou a ordem! Sempre sob o refúgio da total evidência, escondendo todavia essa mesma evidência através de palavras ou gestos de dúbia seriedade, as pessoas preferem logo olhar para a segunda intenção de uma forma genérica, e para as subsequentes intenções de uma forma particular! Então e a primeira, pergunto eu! E a primeira intenção, qual é? Não será um acto de altruísmo puro, como tu próprio disseste, um acto de egoísmo disfarçado de primeira intenção? E a graça que eu acho, quando se diz que não se tem qualquer intenção no que se diz ou que faz! Se é desprovido de intento, para quê dizer ou fazer?! E vens tu agora com essa conversa, essa sim, fiada, porque acaba por ser de borla, derivada do altruísmo puro, que na realidade não é mais do que o mesmo falso problema de que falavas! Não será todo o teu conhecimento, inteligência, ambos desenvolvidos ao longo da experiência de vida que foste adquirindo, uma forma de vanglória, uma forma de demonstrares o bom, sensato, e brilhante que és, tudo para que, inconscientemente até, se quiseres, o teu ego seja alimentado e essa mesma experiência possa mais uma vez ser enriquecida? Sim, porque o bom ou o mau são ambos fortes contributos para o enriquecimento da experiência, apesar de poderem haver estados intermédios, para os menos práticos, o bom e o mau conseguem quase que resumir tudo, sendo a experiência a única coisa que enriquece com ambos. Não será, de todo, pelo facto de não partilharmos um mesmo ponto de vista, que tu me dizes, complacentemente, que eu tenho um falso problema. É porque vês nisso uma oportunidade de demonstrar que eu estou errado e tu estás certo, motivação única que faz girar o mundo. O que aborrece realmente, excepto quando mencionaste a paternidade, é que tirando isso, o certo e o errado são tão subjectivos como o bom e o mau! Achas mesmo que é por tu me dizeres que algo, ou alguém, não são bons, que eu passo a achar isso também caso não pense primariamente dessa forma? A explanação de argumentos quanto mais cuidada for mais serve para demonstrar vaidade e presunção, nada mais meu amigo, nada mais. Mesmo que disfarçada de generosidade, essa bela palavra que desculpa o cinismo e oculta a mentira adjacente a todos os actos humanos, a primeira intenção....

- Bom, penso que já chega. Meninos, uma grande salva de palmas para estes dois excelentes e interessantes pedaços de excremento! Espero que todos tenham gostado, e principalmente aprendido alguma coisa. Lembrem-se meninos, estas conferências de ideias e conhecimento são pura ficção baseada no comportamento que nós, excrementos negligenciados em todo o mundo e deixados ao acaso em toda a parte, observamos nos humanos, e servem apenas para demonstrar o quão estúpidos podemos ser, quer queiramos quer não, se começarmos a comportar-nos como eles.
Pedia-vos então, e mais uma vez, uma grande salva de palmas para tão notáveis e dedicados excrementos, que tudo fazem para manter esta sociedade tão limpa e tão pura, quase que imaculada!
Deixo-vos com a máxima que nos rege a todos: o objectivo de todos nós é, e será, conseguir sermos os melhores excrementos possíveis e impossíveis de se imaginar. Mesmo que eles sacudam e sacudam, até depois de muito sacudir, há pelo menos um de nós que fica para sempre agarrado...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Jogos físicos e psicológicos

- Pára...Pára já disse...PÁRA. Pára. Chega. Chega. Estou farta. Cansada. Eu já te tinha dito que estava farta de só seres assim quando estamos entre quatro paredes na cama. Sabes, cheguei a um ponto em que isso só não me chega. Percebes o que te estou a dizer? Oh, vá lá querido...Não faças essa cara, diz-me no que é que estás a pensar...

- Acho que não estás a ser justa quando afirmas uma coisa dessas! O que é que queres que eu pense? Quer dizer, dizes que eu só sou assim quando estamos entre quatro paredes na cama, mas ainda ontem, atenção, ontem, não estou a falar de há quinze dias, ou há um mês atrás, mas de ontem, ontem quis penetrar-te, com toda a paixão, em plena cozinha, o que é que tu respondeste? Pára, olha que este avental é novo...

- ESTÁS VER? ESTÁS A VER COMO É QUE TU ÉS? ...Eu estou a tentar ter uma conversa minimamente séria contigo e tu não consegues! Pura e simplesmente não consegues ter uma conversa séria! Tens sempre que ir a correr esconder-te atrás do sarcasmo. E eu, sinceramente, começo a ficar cansada disso...Preciso de mais, preciso de sair contigo, de estar contigo e com outras pessoas ao mesmo tempo, de termos conversas e jantares normais...Precisamos de conseguir viver na rua...Eu preciso que consigas viver comigo na rua da mesma forma apaixonada com que estás comigo aqui no quarto. É pedir muito? Diz-me, sinceramente, é pedir muito?

- Não, não é. Aliás, eu nem sequer percebo esse teu pedido! Quem é que disse não quando estávamos naquela praia fluvial deserta? Já que mencionaste jantares normais, quem é que disse, aqui não estás parvo, no corredor recôndito daquele restaurante que os teus Pais nos levaram para brindar connosco a felicidade angustiante do trigésimo aniversário do casamento deles? Melhor ainda, quem é que disse não no intervalo, quando fomos com aquela tua amiga chanfrada da cabeça ver aquele filme mais do que merdoso?

- Desisto a sério. Eu bem quero mentalizar-me que tu não és um caso perdido, mas só estou a ludibriar-me...

- Ena! Ludibriar-me! Finalmente está a compensar a leitura diária do dicionário!

- Tão engraçadinho...Sabes, é que ao contrário de ti, há pessoas que gostam de aprender. Sabes perfeitamente que o livro que estou a ler tem muitas palavras complicadas. Eu gosto de as anotar e depois saber o que significam. Isto é a coisa mais normal do mundo, chama-se curiosidade e gosto em aprender. Mas claro, que para ti a única resposta ao que disseste que faria sentido para ti, era se eu dissesse: É porque gosto de coisas grandes e grossas...

- Hey, foi por isso que me escolheste babe! Wink

- Sim, claro! Pena é que não dure mais do que cinco minutos...

- Eh lá, mandaste uma boca brejeira! Estás a ficar ordinária e baixa? Não te sabia assim tão...malandreca.

- Pronto, desculpa, és má influência e às vezes saem-me estas parvoíces.

- Não, a sério, continua. Faz lá um trocadilho qualquer com cenouras ou tomates e depois desmancha-te a rir. Ah, mas espera, tira primeiro um dente ou dois e põe uma verruga na bochecha...

- Não, a sério digo eu. Estava agora aqui a pensar, e apercebi-me neste preciso momento disso, que não me recordo da última vez em que não foi só bam bum e pronto! Eu nem acredito que já chegamos a este ponto!

- Bom, agora é que não estás mesmo a ser justa! Ainda na semana passada estivemos que tempos nisso! E olha que bebemos e fumámos à brava nessa noite...

- Se tivesses alguma vergonha na cara nem sequer mencionavas essa noite...

- Porquê?

- Sabes perfeitamente que estavas a pensar que me estavas a comer o traseiro, daí aquela excitação toda...

- Vês! Entendes agora quando eu te digo que precisamos de variar os sítios? Diz lá estavas outra vez, e faz aquele gesto com a mão outra vez...E por que é que dizes traseiro e não dizes cu? Não, deixa estar, eu gosto de ti quando te tornas pudica...

- Oh! Eu sinto-me só quando estou contigo na rua, ou quando vamos a um sítio qualquer e tu és incapaz de socializar. E eu preciso que tu me faças sentir à vontade e protegida como eu me sinto quando estou contigo em casa. Tudo o que eu te estou a pedir é que sejas assim, intimo, carinhoso, cúmplice, comigo quando estamos com outras pessoas. Eu preciso mesmo disso. Achas que é pedir muito? Não consegues ser assim porquê?

- Claro que consigo. Queres intimidade fora de casa, intimidade fora de casa terás. Fazemos assim, amanhã vamos jantar aquele restaurante chique que tu estás sempre a dizer para irmos lá jantar, convidas os amigos que quiseres para irem também, e eu como-te o traseiro na casa de banho. O traseiro não, a peida...

- Ai é? ENTÃO QUERO ROMANTISMO. EXIJO ROMANTISMO. EXIJO RESPEITO...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Banda Sonora

Decerto que este assunto já foi alvitrado por diversas vezes. No entanto, não consigo compreender qual a razão que nos leva a deixar, quando estamos no meio do trânsito, que um carro passe à nossa frente. É frequente ficarmos ofendidos, desiludidos, ou mesmo chamar mal-educado, à pessoa que colocou o carro dela à frente do nosso, quando ela nem sequer esboça um aceno com a cabeça, ou um levantar de braço, nada! Mas por que razão é que esperamos isso? Claro que podemos esperar sempre, por uma questão de educação, que a pessoa nos agradeça. Mas nós deixámos a pessoa passar à nossa frente porque achamos que é correcto fazer isso, ou deixamos a pessoa passar à nossa frente porque esperamos que a pessoa pense que lhe estamos a fazer um favor? Ou que até estamos a ser porreiros e não estamos a ser reconhecidos por isso? Quais são as verdadeiras razões pelas quais nós deixamos um carro passar à nossa frente? Quem é que deixa um carro colocar-se à frente do nosso e não espera a seguir um gesto de agradecimento? Por que razão somos nós desconfiados em relação a tudo e a todos, em qualquer circunstância da nossa vida, e esperamos de repente que no meio do trânsito uma pessoa seja bem-educada? Por que é que temos tantas oportunidades de fazer a coisa correcta e não o fazemos, e depois, de repente, queremos que alguém no meio do trânsito reconheça de imediato que estamos a fazer o que é correcto, só porque nós decidimos naquele momento fazer o que achámos que seria correcto fazer! Quem é que gosta de dar o braço a torcer? Muito menos alguém gostará de dar o braço a torcer e depois não haver nenhum reconhecimento nisso! Isso é que é verdadeiramente maçador! Por exemplo, quantas pessoas é que deixaram de falar com outras, seja por que motivo for, para o resto da vida? Será mesmo suposto alguém acreditar que os motivos que levaram as pessoas a deixar de se falar se mantenham para o resto da vida? Mas quem é que dá o primeiro passo? No entanto, qualquer pessoa ficará, decerto, desiludida, ofendida, e vai chamar mal-educada à pessoa que não lhe agradecer no trânsito! É uma questão de educação, dizem... Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá. Mas que diabo, será que tudo o que eu acho que é correcto fazer terá de ter uma contrapartida?

The Walkmen – The Rat

You've got a nerve to be asking a favor
You've got a nerve to be calling my number
I know we've been through this before
Can't you hear me, I'm calling out your name?
Can't you see me, I'm pounding on your door?

You've got a nerve to be asking a favor
You've got a nerve to be calling my number
Can't you hear me, I'm bleeding on the wall?
Can't you see me, I'm pounding on your door?

Can't you hear me when I'm calling out your name?

When I used to go out, I would know everyone that I saw
Now I go out alone if I go out at all

When I used to go out I'd know everyone I saw
Now I go out alone if I go out at all

When I used to go out I'd know everyone I saw
Now I go out alone if I go out at all

You've got a nerve to be asking a favor
You've got a nerve to be calling my number
I'm sure we've been through this before
Can't you hear me, I'm beating on your wall?
Cant you see me, I'm pounding on your door?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Complexos #23

Sexta-feira, 18:30. Sexta-feira é o seu dia preferido da semana. Por todas as razões e mais alguma, aquela sensação de liberdade que sentiu quando tinha 16 anos, ao ter ido ver um concerto naquela cave tão cheia de movimento e pessoas, naquela altura, fez com que a partir daí desfrutasse das sextas-feiras de uma forma completamente diferente em relação aos outros dias da semana. Por volta das 18:30 saiu do trabalho sem a mínima expectativa do que poderia vir a fazer nessa noite. Tinha apenas em mente ir ver um concerto, e depois, provavelmente, ir até ao bar do costume. Assim que saiu do trabalho, antes de ir para casa, decidiu levantar logo o dinheiro que pensava ir precisar para a noite. Ocorria-lhe frequentemente levantar dinheiro atempadamente, sem qualquer tipo de pressão para ter dinheiro rapidamente, mas, sempre que lhe ocorria este pensamento, logo de seguida pensava que podia perfeitamente levantar dinheiro mais tarde, e acabava, em quase todas as vezes, por andar de caixa em caixa à procura de uma que finalmente tivesse dinheiro e, simultaneamente, papel para poderem sair os papelinhos com o saldo! Por razões que desconheço, esta estranha personagem não acredita em pagamentos por Multibanco nos diversos estabelecimentos e eventos a que vai, bem como não concebe, de forma nenhuma, levantar dinheiro numa caixa de Multibanco sem que saia em conjunto o papel com o respectivo saldo! De uma forma completamente automática, guarda sempre consigo os últimos 13 papéis das últimas 13 operações que efectuou numa caixa ATM! Desta vez, assim que lhe ocorreu levantar dinheiro atempadamente, viu uma caixa de Multibanco, viu um lugar para estacionar mesmo em frente à caixa, não hesitou sequer um segundo, estacionou de imediato e saiu para levantar dinheiro. Com aquela sorte toda, mesmo a convidar para fazer de imediato o que se pensa, parecia mesmo que tudo estava de novo a começar a correr bem. Fazia já uma semana que andava com dores de garganta. Andava a dormir mal, felizmente que finalmente o antibiótico começava a fazer efeito. Desde a hora de almoço que praticamente não sentia dor nenhuma! Sim, depois de uma semana horrorosa em termos de trabalho e de saúde, a sexta-feira, o melhor dia da semana, estava finalmente a por as coisas em ordem novamente. Embrenhado nos planos que começava a delinear para a noite que se aproximava, colocou o cartão de Multibanco na máquina e aguardou que lhe fosse dada a indicação para colocar o código. De repente, ecrã azul! Dumping memory, qualquer coisa, não conseguia ler bem por causa do reflexo da luz no monitor. Aguardou cerca de 10 minutos, especado a olhar para a máquina, e nada! Olhou em volta, indagando-se por momentos se não seria mais um esquema de um gang de Multibanco qualquer, e decidiu telefonar para a linha de apoio ao cliente do seu banco! A menina que o atendeu disse-lhe que as únicas coisas que podia fazer eram, o cancelamento do cartão, e o pedido de um novo! Aparentemente, devido a regras de segurança, hoje em dia já não se devolvem activos os cartões que ficam nas máquinas de Multibanco! A única solução é cancelar o cartão, pedir um novo e pagar por isso tudo! Bonito serviço! Não muito crente no que a menina do apoio ao cliente lhe tinha dito, mas tendo feito tudo o que ela lhe disse que podia fazer, não conseguia agora deixar de pensar porque é que lhe tinha dado para alterar a sua rotina de pensamento! Porque é que ele não tinha feito como sempre fazia sempre que pensava em levantar dinheiro?! Pela primeira vez tinha ido levantar dinheiro no momento exacto em que o tinha pensado fazer, e, 20 minutos depois, não só não tinha dinheiro, como já tinha gasto cerca de vinte euros no cancelamento e no pedido de um cartão novo! Ainda por cima, não tinha agora forma de levantar dinheiro! Sem haver mais que pudesse fazer ali, e sem saber muito bem como é que conseguiria arranjar dinheiro para a noite, dirigiu-se ao local do concerto que iria ver nessa noite. A partir daquele momento era importante saber quanto seria o bilhete e a hora exacta que estava prevista o início do concerto! Partindo do pressuposto que conseguiria arranjar dinheiro emprestado por um amigo, de forma como as coisas estavam a correr, e ainda não eram 7 da tarde, não queria correr o risco pedir dinheiro a menos e depois ficar a meio da noite sem dinheiro! Estava pior do que estragado, não se sentia nada à vontade em pedir este tipo de favores. Apesar de saber que tem amigos que não têm qualquer tipo de problema em desenrasca-lo numa situação destas, mais uma vez, vá-se lá saber porquê, sente-se sempre altamente desconfortável em pedir alguma coisa a alguém! Ao chegar ao local do concerto, um cartaz com letras enormes dizia CANCELADO! Nesse momento deu um murro na sua cabeça e perguntou a si mesmo, porque é que tinha pensado que a semana estava finalmente a correr bem sem que nada de bom tivesse ainda acontecido, genuinamente convicto que aquele pensamento positivo, naquele preciso momento em que tinha alterado a sua forma pensar rotineira, estava agora a influenciar negativamente o resto do dia! O que é que iria fazer agora e ainda sem dinheiro, e sem um sítio definido para ir, e já era quase hora do jantar! Nunca tendo acreditado no destino, acreditando no entanto, ter sido predestinado para passar frequentemente por situações semelhantes à que estava neste momento a passar, foi com agrado e alguma surpresa que viu o telefone a tocar! Era um amigo de longa data que há muito não via! Ficaram muito pouco tempo ao telefone, combinaram jantar nessa noite. Já com algo definido para fazer nessa noite, depois de ter hesitado alguns segundos, telefonou ao seu melhor amigo para pedir dinheiro emprestado. Afiançou-lhe que lhe pagaria sem falta na segunda! Sem qualquer tipo de problema o amigo emprestou-lhe 100 Euros. Após ter passado pelo local de trabalho do amigo, que por sorte ficava perto de onde estava, seguiu para casa. Quando se preparava para tomar banho, recordou-se do shampoo novo que tinha comprado há uns dias atrás! Pela segunda vez na sua vida tinha comprado um shampoo sem qualquer tipo aconselhamento! No dia em que comprou o shampoo, entrou na loja, viu vários shampoos e comprou o que melhor lhe pareceu na altura! Não são nunca fáceis, para ele, este tipo situações, tão usuais, para o mais comum mortal! Prestes a começar o seu banho, estava agora bastante relutante em usar o mesmo, com medo que tivesse comprado um shampoo que lhe fizesse mal ao couro cabeludo! Da primeira vez que comprou um shampoo sob as mesmas condições psicológicas, apanhou uma tal alergia que quase lhe custou todo o seu cabelo! Num rasgo de impulsividade, assim que acabou de molhar a cabeça, sem qualquer tipo de hesitação usou destemidamente o shampoo novo! Terminou o seu banho com uma excelente sensação de liberdade, e sem qualquer tipo de remorso por ter usado o shampoo, embora soubesse que o facto de estar a pensar que era bom não sentir remorsos por isso, isso por si só significava que estava, mais uma vez, a dar demasiada importância a algo que não significa absolutamente nada! No jantar, depois do seu amigo ter ficado ligeiramente desapontado por não poderem partilhar uma garrafa de um bom vinho tinto, uma vez que ele o informou que não podia beber por estar a tomar um antibiótico, tudo decorreu como normalmente decorre neste tipo de jantares! Lembraram, mais uma vez, algumas das histórias do costume, riram, falaram sobre os restantes companheiros que há tanto tempo não vêm, sobre as quezílias habituais do trabalho, e por fim, discutiram entre si sobre qual deles pagaria o jantar! Quando saíram do restaurante, cada um dirigiu-se ao seu carro! O amigo, sem tempo sequer para beber mais um café num outro sitio qualquer, a mulher dele acabara de telefonar por causa de uma pequena urgência familiar sobre algo que o filho tinha feito, e ele não dispunha de mais tempo naquela noite, tinha de ir de imediato para casa. Pensou durante uns segundos sobre o estranho que é, quase como que de um momento para o outro, todos os seus amigos terem tido filhos! Ele, tinha para si todo o tempo de mundo! Era sexta-feira, o melhor dia da semana! Enquanto se dirigia de carro, sem saber muito bem para onde, decidiu parar o carro no alto da colina perto do local onde tinha jantado. Fumou um cigarro, desfrutou da vista, do silêncio e fechou os olhos por um instante apenas para ouvir a música da Janis Joplin que tocava alto no seu rádio. “Freedom is just another word for nothing left to lose, Nothing don’t mean nothing honey if it ain’t free”. Decidiu ir onde quase sempre vai às sextas! Horas mais tarde, no Bar, ele está agora junto ao balcão com um sumo na mão e um cigarro na outra! À sua frente está uma rapariga a rir e a dançar descomplexadamente enquanto conversa de vez em quando com as restantes pessoas do seu grupo. Ele fala esporadicamente com um sujeito, que sem saber muito bem como, tinha começado a falar consigo desde há umas semanas! O tal sujeito, entretanto, começa a meter conversa com a tal rapariga que dançava à sua frente. O sujeito diz qualquer coisa à rapariga, que ele não consegue perceber devido à música estar bastante alta, e ela, com um olhar bastante surpreso, dirigiu-se a ele e pergunta-lhe se conhece aquele sujeito de algum lado! Ele responde que apenas o conhece dali e sem tempo para dizer mais nada, ela grita-lhe ao ouvido que o sujeito a tratou por senhora e que isso lhe tinha causado um arrepio no corpo, mostrando alegremente o braço! Nitidamente ébria, continua a dizer-lhe ao ouvido que não aprecia a abordagem que o outro sujeito lhe tinha feito e começa a dançar novamente! Desta vez, praticamente encostada a ele! Enquanto tocava a musica “Should i stay or should i go” dos The Clash, ela volta a gritar-lhe ao ouvido para lhe dizer que o shampoo dele tem o mesmo perfume que o dela! Depois, com um sorriso nos lábios, vira-se para ele e diz-lhe “Always tease tease tease, Youre happy when Im on my knees… …Well come on and let me know Should I stay or should I go?...” Como resposta ele sorri envergonhadamente e limita-se a cantar também! Logo na musica seguinte, Take me out dos Franz Ferdinand, ela volta a dizer-lhe ao ouvido, “I say you don't show Don't move time is slow I say... take me out”. Nesta altura, num acto de extrema loucura para ele, decidiu usar o humor! Virou-se para ela, e com a cabeça indicou a porta tendo dito a sorrir, bora! Ela riu-se e continuou a dançar encostada a ele. De repente, assim que a musica (I can’t get no) satisfaction dos Rolling Stones começou a tocar, ela agarra na mão dele e puxa-o para o meio da pista! Ali ficam durante toda a música, agarrados a dançar! Ele não consegue evitar mostrar um grande embaraço quando ela lhe diz que acha que eles têm os dois a mesma onda e que muito provavelmente há ali uma cena que eles tinham de desfrutar! A seguir, ela pergunta-lhe se ele não gosta de curtir o momento e ele responde-lhe que gosta mas que é muito tímido para o conseguir fazer! Ela responde-lhe que também é tímida mas que isso não a impede de poder curtir aquele momento! Ela começa novamente dançar e ele não consegue perceber mais nenhuma palavra que ela lhe diz, com um ar maroto, enquanto dançam de mão dada! “I can't get no satisfaction.'Cause I try and I try and I try and I try. I can't get no, I can't get no. “. Depois de terem voltado novamente para o seu lugar, desconhecendo completamente que aquela noite iria mudar para sempre a sua forma de estar na vida, “ele lá lhe disse a medo o meu nome é Pedro e o teu qual é? Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho, sou a Cinderela. Quando a noite o envolveu, ele adormeceu e sonhou com ela…” – Carlos Paião.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

I wish that would be your color

Ora esta! Quem é que és tu para me criticar? Quem é que és tu para dizer que eu sou isto ou aquilo, ou que deveria ser ou deixar de ser aqueloutro? Que direito é que achas que tens para me dizer que eu devo ser assim ou assado? À semelhança da massa associativa do Benfica, que exige que o Benfica ganhe sempre, tu és daqueles que acham que as outras pessoas deviam todas ser como elas são e que deviam fazer tudo como elas fazem! E depois? O Benfica ganha sempre? Então qual é que é o problema de eu ter a sensação que todos os dias deve ser uma festa pegada no mundo das pequenas criaturas roxas e amarelas que trabalham dentro do msn! Qual é que é o problema de eu pensar, não sei porquê, mas penso sempre que eles fazem uma festa, com banda, bombos, chapéus altos, cornetas e papelinhos, sem esquecer o pequeno guaxinim que vai à frente da banda com uma bandeira e um ramo de oliveira, tudo em grande corrupio e alegria, cada vez que aparece aquela janelinha pequena no canto inferior direito do meu PC. Achas que sou picuinhas por causa disso? Se isso é que é ser picuinhas, qual é que é o problema de eu ser picuinhas? Antes picuinhas que franzino! A sonoridade de picuinhas, embora me faça lembrar automaticamente os voos picados de abelhas, atenção, de abelhas não de vespas, é muito melhor que a palavra franzino, que me lembra logo um pão de forma mal cozido e atarracado, o que, convenhamos, é muito menos espectacular do que um voo picado, mesmo que de abelhas. Continuo a ser picuinhas por achar que devia ser possível conseguir dispor de uma forma oblíqua os Ícones do meu PC? Porque é que eu não hei-de conseguir dispor de uma forma oblíqua os meus ícones? Eu já nem digo tudo, mas ao menos os ícones. Agasta-me não conseguir por aquilo torto o que é que tu queres que eu te faça agora? Dizes que sou picuinhas por causa destas coisitas, mas depois vens sempre com a conversa que não presto atenção ao que dizes só porque tenho um olhar absorto e distante enquanto estás a falar comigo! Porque é que dizes logo que não estou a prestar atenção, ou que não estou a ligar nenhuma, só porque tenho um olhar absorto e distante enquanto estás a falar comigo? Só dizes isso porque nunca reparaste, de certeza, numa conversa entre dois homens das obras enquanto fazem uma pausa e falam sobre a vida ou sobre uma canção do Paco bandeira, ou porque nunca assististe a uma conversa entre dois varredores do lixo enquanto esperam que os carros acabem de estacionar. E se eu só souber falar com outra pessoa com o olhar perdido no horizonte e com o semblante carregado, quer dizer que nunca na vida vou prestar atenção ao que me dizes é? Picuinhas...Quem é que está a ser picuinhas quando necessita, só porque necessita, de uma cara atenciosa quando está a falar? Eu oiço com os ouvidos pá...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Poema do Lobo que queria uivar

Fixo o meu olhar na linha das tuas costas, estremeço com o bater da porta, e deixo-me ficar quieto entre as paredes brancas que outrora abrigaram a nossa paixão e que agora, nuas, vazias de sentimentos, choram comigo a dor da partida. Já não tenho forças para correr atrás de ti e a minha voz está rouca de tanto gritar o teu nome. Estou quase, quase afónico. Como compreendo agora que não me tivesses ouvido quando chamei por ti, apesar de doer na mesma. Não, já não consigo sequer levantar-me para ir à casa de banho. Tremo, não sei se de nervos ou de frio, olho para o tecto. Procuro em vão uma resposta concreta, mas nada é concreto, o soalho e o tecto são em madeira. Nada é real, a não ser a dor, e o pó que me invade as narinas e me faz espirrar, o que com a garganta neste estado torna a dor ainda pior. Por que é que os tapetes ganham pó com a tua partida? Por que é que as coisas não ficam exactamente iguais ao que estavam quando partiste, continuando a alimentar a esperança de que não notes diferença nenhuma quando um dia voltares. Lembras-te quando fomos às compras comprar louça? E daquela vez que eu me esqueci de comprar cotonetes e papel higiénico? Ficaste tão furiosa naquele dia, e nos vinte e três dias a seguir também, apesar de nos restantes dias eu não saber porquê! Ahh como fomos felizes naqueles dois dias no carnaval de Mangualde, o que nos rimos quando disseste que a vida são dois dias e o Carnaval são três, depois de termos visto que tinham passado dois dias! Nunca mais fomos felizes depois disso, mas tentei à brava, até teres desistido de tudo e partido sem sequer me dizer para onde vais. Para onde vais? Diz-me, mesmo que em pensamento, eu prometo que tento ouvir. Alias, vou passar o resto dos meus dias em silêncio só para ver se oiço o teu pensamento. Já falei com o Sr. Ramalho e ele disse que as obras aqui ao lado acabam já no final deste mês! Já viste? Podemos começar a viver outra vez sem barulho às sete da manhã! Não ficas contente? OH que faço eu agora? Às vezes esqueço-me que já aqui não estás, que já não me ouves, que já não adianta falar mais contigo, tal como não adiantou naquele dia em que disseste que ias visitar a tua Mãe ao hospital e eu te disse que ia contigo e tu não quiseste que eu fosse! Voltaste no dia a seguir e nem a palavra me dirigiste, e eu também não te disse nada porque sabia que estavas incomodada. Nunca soube se a tua Mãe melhorou! Custa-me tanto olhar para o futuro agora. O que é que eu vou fazer com tudo o que está no congelador e com tudo o que está da despensa para que não se estrague ou passe o prazo? Não sei viver num presente com todo este fogo a queimar-me por dentro. Bem me disseste para ir ao médico ver deste problema da azia, e eu não te dei ouvidos, só tu sabias cuidar de mim como mais ninguém. Nem sequer me deste hipótese de te ter dito adeus...Agora que penso nisso outra vez...só pode ser porque vais voltar...é isso, tu gostas tanto de despedidas que só pode ser isso...Eu sei, sinto, estou certo que vais voltar! Rejubilo, eu sei que, como eu, tu sabes que aquilo que vivemos foi bom demais para partires assim! Provavelmente deves estar zangada, mais uma vez, é só isso e nada mais!...Ainda assim, custa muito estar aqui, só, há mais de vinte minutos...Só me apetece gritar, berrar bem alto ao vento, para ver se afasto esta dor insuportável no estômago! Mas não consigo...vou ver se encontro um antiácido qualquer...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

All Hands and the Cook

Será considerado pedofilia se alguém comer ovas, ou leitão, ou vitela, ou até mesmo uma francesinha?

Always After You ('Til You Started After Me)

Até que altura é socialmente correcto desejar um feliz ano novo?

Another One Goes By

Várias pessoas me dizem, em várias circunstâncias, que se agir de uma determinada maneira, ganho tempo! Ganho tempo?! Como é que ganho tempo? Como é que posso guardar esse tempo ganho para o gastar quando me der mais jeito? Quanto tempo posso ganhar? Posso trocar o tempo que ganhei por outra coisa qualquer? O que se faz com o tempo ganho para não o desperdiçar? Como é que evito perder o tempo que eventualmente possa ganhar?
Se tempo é dinheiro, porque é que eu tenho que vender o meu tempo todo para ter dinheiro?

This Job Is Killing Me

Quem é que inventou a moral e os bons costumes?
O que é e o que são?
O que raio significa pensamento recto?
Quem é que não pensa com o coração?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Por isso eu tomo ócio, eu tomo ócio, é o remédio...

- O meu médico anda a chatear-me para eu deixar de ter uma vida tão sedentária! Resolvi dar-lhe ouvidos e comprei hoje umas raquetes novas! Queres começar a jogar Badminton, tipo uma vez por semana? Diz que faz bem jogar badminton...

- Bag de minton? Isso não são pastilhas de mentol em Inglês? Não sabia que se jogava isso! Os Ingleses têm cá cada jogo! Sabias que foram eles que inventaram o jogo da carica? Os Indianos é que acabaram por ficar craques nisso...Porque é que em vez de jogarmos bag de minton, não jogamos Squash? Sempre gostei de ver os mergulhos para a piscina quando dá na televisão...

Balelas

- Amanhã vou conduzir e deixar a brisa bater-me na cara. Nada, mas mesmo nada, me vai conseguir enervar. Sim, amanhã não vou desatinar com ninguém, nem vou ligar a quem quiser desatinar. não vou, nunca mais, queixar-me que a vida está cara. Toda a gente sabe que a vida não custa, o que custa é viver. Sim, é isso…Amanhã prometo a mim mesmo que vou ajudar alguém que não tenha medo, e queira, viver também…

- Pá, eu cá não sei, tu é que sabes da tua vida. Mas ouvi dizer que para amanhã dão chuva!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Bog people

- Sabes, tenho estado aqui a pensar, e cheguei à conclusão que a criatividade não é o meu ponto forte! Não sei porquê, nem o que é que se passa, mas não tenho criatividade! Ou melhor, tenho criatividade mas só depois de ter havido criação, e mesmo assim não é muita, ou é pouco criativa! Por exemplo, gosto de olhar para um quadro, ou para uma foto, mas não consigo ver mais do que aquilo que lá está! Não consigo, por muito que me esforce, olhar para uma coisa qualquer e divagar sobre aquilo, dissertar, assumir coisas, atribuir significados, formar historias na minha cabeça, delirar, alucinar, entrar em catarse...Percebes o que eu estou a dizer? Bem sei que cada coisa tem o significado que nós lhes queremos atribuir, seja lá o que for, só que eu não consigo nunca atribuir um significado a o que quer que seja que não seja o significado que alguém ou algo já me disse ou indicou que o que quer que seja tem, e isso incomoda-me profundamente! Não achas triste olhar para algo e não conseguir inventar nada se não te disserem o que aquilo significa? Gostava de não ser assim! Gostava de ter uma tela em branco, ou um papel em branco, e desenhar, construir alguma coisa que depois fosse vista por um número indeterminado de pessoas e que cada uma dessas pessoas atribuísse um significado diferente ao que tinha feito! Gostava de fazer algo que fosse um motor, um propulsor de criatividade...Consegues entender o que estou a dizer? Achas que há muitas pessoas iguais a mim? Ou achas que há poucas? E quem é que achas que é mais feliz, aqueles que são como eu, ou os outros que estão sempre a criar, ou que criam mesmo que seja esporadicamente? Ou achas que é possível serem uns e outros felizes de igual modo? Isto porque, repara, se houver muitas pessoas como eu, deve ser frustrante para aqueles que criam estar sempre a explicar o significado daquilo que criaram! Por outro lado, se todos criassem, quem criava acabava por criar apenas e tão-somente para si mesmo, o que, pensando agora nisso, podia fazer com que o acto criativo deixasse de ter o significado que o criador gostava que tivesse quando teve o seu acto criativo! Bom, e daí talvez não...Achas que quem cria, ou é criativo, o faz por ser assim, criativo, e por isso mesmo gosta de criar, independentemente de ser só para si, para seu prazer, ainda que, eventualmente, depois essa criação possa não causar nada a ninguém, ou possa dar prazer, nojo, ou outra coisa qualquer, a quem desfrute de tal criação, sendo isso indiferente ao criador, ou, quem cria, gosta de criar porque é egoísta, egocêntrico, gosta que observem, falem, bem ou mal, daquilo que criou, desde que isso não seja indiferente aos demais? Eu cá sei que a criatividade não é o meu ponto forte, e sei que gostava que assim não fosse! Só não sei é o que devo fazer para que as coisas não sejam assim! O que é que tu achas?...

- Acho que conseguiste, neste preciso momento, criar uma grande confusão na minha cabeça! Só não sei é o significado disso, e quer-me parecer, tal como acontece com quase todos aqueles que criam, que tu também não sabes o significado que a confusão que me fizeste na cabeça tem!...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Banda Sonora

- Com que então, o menino diz que não quer assentar! Dizes que não é estilo de vida para ti, que não faz parte do teu feitio! Podes dizer-me então qual é que é o teu estilo de vida? Qual é que é o teu feitio? Eu já nem vou ser chato ao ponto de te perguntar como é que o farás durante a tua vida inteira, mas consegues dizer-me exactamente como é que pensas que vais conseguir manter esse teu estilo de vida, digamos, até aos 80? Até aos 80 não, estava a ser mau. Até aos 40, como eu sou um gajo porreiro, estabeleço o limite nos 40. Explica-me lá então como é que vais fazer isso? Explica-me como é que vais manter o teu grupo de amigos de infância até aos 40, sem que nenhum de vocês abandone o barco? Como é que vocês vão todos continuar a fazer o que sempre fizeram desde os tempos de adolescente? Como é que planeias não ficar só, sem ninguém para conversar ou te fazer companhia, se insistes em não querer casar, ter filhos, se insistes em viver a tua vida como se o amanhã não existisse, se insistes em viver em função de horários que acabam por não ser estabelecidos por ti, só para continuar a fazer, cada vez mais esporadicamente, aquilo que tu achas importante? E muitas vezes, tu bem sabes disto, apenas e só para tentar manter um contacto, uma proximidade, ou até mesmo uma intimidade, que sentes e sabes ser cada vez menor! Tal como sentes e sabes que cada vez mais menos podes fazer para que isso não aconteça, ou que vá acontecendo de quando em vez, ou que acabe por inevitavelmente acontecer? E não me venhas cá com tangas! Tu, no fundo, sabes que não és tu que estabeleces os teus horários, nem o podes fazer quando isso não depende só de ti. Tu dizes que não te importas se viveres sozinho, ou que não te importas se ficares sozinho, dizes até que isso é fixe, ou bom, nem sei bem... Mas, acho que também sabes, muito bem até, que à medida que o tempo vai passando, mesmo que todos tenham dito o mesmo que tu, que a pouco e pouco, todos eles vão fazer a vida deles em função de outras coisas, de outros objectivos que vão surgindo, às vezes quando menos se espera! E que cada um, repara bem, cada um deles, vai seguir um rumo diferente daquele que disse que ia seguir. 97% das pessoas que dizem o mesmo que tu, aos 30 já assentaram! Só os ousados, os rebeldes, ou os teimosos, é que se mantêm firmes ao que disseram, ou preconizaram para a sua vida. E mesmo esses, ao fim de um tempo, cedem, e acabam por fazer o mesmo que todos os outros fizeram. Um, em cada cem, é que efectivamente faz aquilo que dizes querer fazer. E depois? Sim, e depois, como é que vais fazer quando tiveres 40 anos e estiveres só? Vais sair com quem, vais falar com quem?...

- Isso pergunto eu! O que é que estás a dizer ao teu filho? Achas mesmo que isso são coisas que se digam para o miúdo adormecer? Tem juízo Adalberto! Tu disseste que ias passar a ter juízo...

- O que é que tem? Achas que um puto de dois meses percebe o que eu lhe estou a dizer? Sabes perfeitamente que o que importa é a entoação com que se diz as coisas e não o que se diz. Além disso, apesar de saber que ele não percebe, estou já a treinar-me e a antever o futuro, não quero ser apanhado desprevenido no futuro, nem quero que ele diga as mesmas baboseiras que eu disse, ou que faça as mesmas asneiras que eu fiz.

- Adalberto...Sabes perfeitamente que ele só vai aprender isso à custa dele, por isso...Anda...Vamos deitar-nos também. Hoje quero que me contes uma história bonita, de príncipes e princesas e bruxas más...Contas-me uma história hoje?...

You say you want diamonds on a ring of gold
You say you want your story to remain untold
But all the promises we made
From the cradle to the grave
When all I want is you
You say you'll give me a highway with no one on it
A treasure just to look upon it
All the riches in the night
You say you'll give me eyes in a world of blindness
A river in a time of dryness
A harbour in the tempest
But all the promises we make
From the cradle to the grave
When all I want is you
You say you want your love to work out right
To last with me through the night
You say you want diamonds on a ring of gold
Your story to remain untold
Your love not to grow cold
All the promises we break
From the cradle to the grave
When all I want is you
You
All I want is...you

U2 – All I want

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Complexos #22

Todos os dias, desde que trabalho ali, quase que automaticamente, e como penso que a maioria das pessoas igualmente faz, digo bom dia àquelas pessoas a quem, tão-somente, todos os dias digo bom dia, ou boa tarde, quando passo por elas, dependendo sempre da hora do dia a que as vejo. Uma vez que a minha relação com elas se fica pelo estatuto de colegas de edifício, ou da mesma empresa, não consigo encontrar outras palavras para dizer. Não sei o que fazem, o que pensam, ou sequer o seu nome, sei apenas que trabalham no mesmo sitio do que eu! Não sei explicar a razão que me impede de pensar que não dizer nada, como se faz noutro lado qualquer que não o local de trabalho, seja o mais correcto de fazer.
Num grau relacional acima, estão aquelas pessoas com quem esporadicamente tenho uma conversa totalmente inócua. A essas pessoas, a seguir ao bom dia ou à boa tarde, pergunto, usualmente, se está tudo bem? Não deixa de ser curioso o facto de trabalharmos no mesmo edifício, e por consequência sermos “colegas” de trabalho, pessoas a quem em mais nenhuma circunstância diríamos bom dia ou boa tarde, que no local de trabalho o façamos sem pensar porquê, quando alguém passa por nós, ou está no elevador quando nós estamos a entrar. Em relação àqueles a quem pergunto se está tudo bem, é igualmente uma pergunta automática, à qual unicamente espero obter uma de duas respostas possíveis: A resposta "tudo". Ou então, a resposta "tudo", seguida de, "e tu?"! Indo, posteriormente, cada um a sua vida, depois de ficar a pairar no ar a palavra tudo. O processo inverso, obviamente, também acontece.
Já as conversas inócuas que eventualmente possa ter com elas, seguramente (não tenho memória do assunto de nenhuma delas!), não nos permitem alargar o espectro da nossa relação ao ponto de, numa situação de passagem, um cumprimento ser mais do que um Tudo bem!? Sendo que, mesmo assim, faça com que isto já seja substancialmente mais íntimo do que um bom dia ou boa tarde! Não consigo, de todo, perceber aquelas pessoas que dizem bom dia apenas com um abanar de cabeça, ou então com um boa dia dito tão baixinho, tão baixinho, que só podemos depreender que dali saiu um bom dia, uma vez que vimos os lábios a mexer enquanto alguém passava por nós! Há sempre a possibilidade de nos terem mandado para um sitio qualquer e ser a nossa imaginação que quer ouvir um bom dia! Não consigo perceber também a razão pela qual algumas pessoas, na tentativa de dizerem bom dia despercebidamente quando passam, o fazem como se estivessem a expurgar algo do corpo! Algo que eles próprios não sabem o que é, executando para isso um grunhido imperceptível, disforme, meio sussurro, meio berro, interligado por um som claramente audível, mas perfeitamente incompreensível! Contudo, no meio de todos estes automatismos, provavelmente por serem automáticos mas não infalíveis, hoje de manhã fui apanhado completamente desprevenido! Depois de ter efectuado a usual pergunta, tudo bem? Obtive a resposta: Não pá, não está tudo bem! O que responder a tal coisa? O que é que se responde a alguém que responde todos os dias, tudo? Ou então que pergunta todos os dias, está tudo bem? Sem saber, literalmente, o que dizer, parei, durante dois segundos, fiz a cara de pesar mais convincente que até hoje consegui fazer, e respondi, por duas vezes, separadas por um silêncio subtil e reflectivo: pois, é a vida!... 3 Segundos depois, sem mais nenhuma palavra proferida, cada um seguiu o seu caminho. Na cafetaria do edifico, havia hoje um pequeno bolo-rei à descrição, oferecido não sei por quem.
É uma pena nunca ter gostado de bolo-rei... O que se deve ter socializado por ali hoje...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Jogos físicos e psicológicos

A Clara tinha acabado de chegar a casa. Tinha acabado de chegar e já vinha a bramar...

- Detesto aquele gajo. Detesto-o.

- Quem é que tu detestas?
Fiz esta pergunta de imediato porque já sabia que se não a fizesse logo, ela ia estar a dizer que detesta aquele gajo até que eu lhe perguntasse. Hoje abreviei logo a cena. Apeteceu-me...

- O nome dele é Pascoal. Não o conheço, quer dizer, conheço-o de vista deste os tempos de escola, mas nunca falei com ele. Sempre me irritou aquela aparência estranha que tem. Magro, esquelético até, pálido, sempre vestido com aquelas calças pretas justíssimas às pernas e aquelas botas pretas horríveis, todas esfoladas. Acho que sempre que o via na escola estava sempre a fumar. Incrível! Não o via há anos e logo agora que fui aqui ao lado beber um café, tinha de o ver. Ainda por cima, mesmo ao pé de casa! Espero que ele não se tenha mudado para aqui, mudamos de casa...

- Clara. Calma, deixa-me aclarar as ideias sobre o que me acabaste de dizer.
Ela detesta que eu use a expressão "aclarar". Acha que eu estou a gozar com o nome dela, que, diga-se de passagem, ela detesta. Não sei porquê, até acho que a relação entre a palavra aclarar e o nome dela é boa. Aclarar é positivo, é desvanecer algo. Clara é um nome positivo. Mas ela detesta que eu use a expressão "aclarar"...

- Não comeces tu também, sabes perfeitamente que eu detesto que digas isso...

- Não estou a começar nada. Nem sabia que o tal de Pascoal tinha começado alguma coisa! Estava só a querer perceber de onde advém esse teu enorme ódio... Afinal, por que é que detestas esse gajo?

- Sei lá! Nunca viste uma pessoa que te causasse impressão, nojo? Te repugnasse sem tu saberes porquê? Nunca viste uma pessoa e a detestaste de imediato porque a sua aparência te irrita? Foi o que me aconteceu com o Pascoal, não sei explicar, mas fico irritada só de o ver.

Nunca a irei conseguir entender...
- Não infelizmente isso nunca me aconteceu. Mas suponho que isso seja susceptível de acontecer a qualquer um. Se calhar até é normal isso acontecer. Só nunca me aconteceu a mim!
Hoje não me apetecia, mesmo nada, argumentar nem discutir. Normalmente este tipo de conversas dão-me sempre muito prazer, consigo ficar horas a rebater o que ela diz, às vezes só para ver a Clara cada vez mais irritada. Mas hoje... hoje não me apetecia. Fomos para o quarto...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Unnatural selection

Sábado, sete da manhã. Depois de terem tomado o pequeno-almoço juntos, após terem passado a noite a conversar sobre tudo e sobre nada, sentados num banco de um jardim com vista para o Castelo, o Orlando e a Sofia, que se tinham visto pela primeira, horas antes, num concerto dos D3O, tinham decido acabar a noite, ou começar o dia, a olhar para o Tejo. Apesar do frio e do vento que se fazia sentir, a alegria aquecia-lhes o espírito e fazia esquecer os arrepios que eram cada vez mais frequentes à medida que caminhavam de mão dada, visando o horizonte com um esgar feliz. Finalmente chegados à beira rio, deparam-se com um enorme bouquet de Dálias de todas as cores, abandonado perto da passagem que dá acesso ao cais dos barcos que rumam e chegam da margem mais distante. Sem hesitar, ao ver o bouquet, a Sofia espontaneamente trocou o seu primeiro beijo com o Orlando. Sem trocarem mais nenhuma palavra, ali ficaram, sentados, até o Sol ficar bem alto. Ele, de sorriso em riste, em silêncio e enquanto esfregava as suas mãos bastante doridas uma na outra, observava o brilho da água. Ela, de sorriso em punho, a inalar o perfume de uma flor de cada vez, voltava, descontraída, a ligar o seu telemóvel, confiante no futuro.

Sexta-feira, cinco da manhã. O Abdel levanta-se novamente cheio de frio e, como sempre faz, olha em frente, ainda estremunhado, verificando que os seus cinco filhos ainda estão a dormir. Repara que dois deles se encontram destapados, e abdica de continuar a dormir para ceder o único cobertor que lhe resta para os poder tapar. O seu pensamento é novamente invadido pela ideia de que um dia terá uma casa com mais de um quarto e uma cama para cada um, e chora, em silêncio, ao recordar-se novamente da mulher que tinha morrido, fazia agora precisamente um ano. Sem comer ou beber, sai de casa ainda de noite para se dirigir, como de costume, para o mercado, com o intuito de comprar rosas e dálias a fim de as conseguir vender nessa noite aos turistas e pândegos que usualmente à sexta-feira pululam por todos os cantos da cidade. Sem saber ler ou escrever, aquela é a única forma que conhece, desde que tinha decido emigrar na busca de uma vida mais confortável, para obter algum sustento. Depois de passar o dia todo a revolver contentores de lixo, e a recolher coisas abandonadas pelas ruas da cidade, à noite dirigiu-se para o centro da cidade, carregando às costas dois enormes sacos de flores. Porém, nessa noite, ainda antes de ter vendido uma flor sequer, sem saber de onde vieram nem porquê, é atacado por um grupo de homens, que sem dizerem nada de imediato começam a espancar o Abdel sem dó nem piedade! Segundos antes de ficar inconsciente, ainda sentiu o nó dos dedos frios de uma mão enorme a quebrar-lhe o maxilar!
Acordou horas depois, esvaído em sangue e com muita dificuldade em falar, com as pancadas no ombro de um compatriota que o tinha visto ali por acaso!
Sem qualquer dinheiro no bolso e qualquer comida em casa, implorou ao homem que o tinha acordado que ele lhe desse pelo menos um ramo de flores para conseguir comprar qualquer coisa para poder dar aos filhos!
Ali ficou sentado, absorto, sem se conseguir mexer, com um bouquet de dálias de todas as cores na mão.

Sexta-feira, nove da noite. O dia tinha corrido demasiado lento para o Alfredo. Não conseguia pensar em mais nada se não nas últimas palavras que a sua namorada, há onze anos, lhe tinha dito de manhã antes de ele ir para o trabalho. Como é que ele não se tinha apercebido de tudo o que ela andava a sentir? Como é que ele tinha deixado as coisas terem chegado aquele ponto? Como é que ele se tinha deixado alterar tanto sem sequer dar por isso? A frustração que sentiu durante o dia todo começava agora a transformar-se em medo. A vida que tinha sonhado para si, onze anos antes, nunca tinha chegado sequer a ter inicio! As coisas tinham corrido e decorrido demasiado depressa para que tivesse tido tempo para reparar que teria de ter virado à esquerda, numa altura em que seguiu em frente, enquanto olhava para a direita apenas e só para olhar, mais uma vez, para aquela que julgou ser a pessoa com quem iria passar o resto da vida. Tinha de tentar, pela primeira vez, apagar o passado, e pela última vez recomeçar tudo de novo. Bastava que essa fosse a vontade dela também. Confiante que o sentimento que sentia por ela era mais forte do que tudo, ganhou alento e correu rua fora, à procura da única coisa que sabia que ela iria gostar de receber nessa noite, a coisa que os tinha unido onze anos antes, junto ao Tejo, onde tinham trocado pela primeira vez o seu primeiro beijo. Enquanto corria sem saber para onde, de repente o olhar do Alfredo iluminou-se! À frente dele, um homem em muito mau estado e com muito mau aspecto, segurava na mão um enorme bouquet de Dálias de todas as cores. Sem sequer se importar com o estado do homem, deu-lhe cinco euros pelas flores e seguiu para a beira do rio. Ali parado, durante um numero incerto de horas, enquanto a Lua ia sendo coberta por teimosas nuvens que incessantemente passavam, telefonou cem vezes para ela sem obter qualquer resposta. Num acto desesperado, e sem mais nada que pudesse ou soubesse fazer, enviou-lhe uma mensagem terna de despedida e amor eterno, amarrou duas enormes pedras às pernas, e com as forças que lhe restavam empurrou-as para as aguas frias e calmas do rio que passa quase sempre devagar.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Boa viagem

Tenta sempre não desistas
Dessa forma nunca irás encontrar
Podes não saber bem o que procuras
Mas sempre vais sabendo o que não queres procurar
Tenta sempre não desistas
Dessa forma nunca irás dissipar
Podes não esclarecer bem as dúvidas que persistem
Mas sempre vais conhecendo melhor o que tens para enfrentar
Tenta sempre não desistas
Dessa forma nunca te poderás explicar
Podes não saber bem o que deves dizer
Mas sempre vais aprendendo a melhor forma de falar
Tenta sempre não desistas
Dessa forma nunca poderás ficar
Podes não saber bem o que deves pensar
Mas sempre vais ficando com a consciência tranquila, quando te vais deitar
Essa voz, que atormenta
Corrói, destrói, vicia o pensamento
Engana, obriga a pensar
Insistentemente instiga a atitude certa
Dispara em direcção ao cérebro
Rajadas de conceitos moralistas, obrigacionistas
Cultura, bons costumes
Formas de estar, dizer e fazer as coisas
Sempre de acordo com o que está
Institucionalmente instituído
És um implante congénito
Abjecto, fraco e repugnante
Nojenta, falsa voz, que grunhes aos meus ouvidos
Lixo, outrora ouvido e declamado aos sete ventos
Até se ter tornado realidade, verdade absoluta
Incontestada, falsa, apregoas sempre a verdade
Reclamas sempre saber o seu paradeiro
Sem nunca saberes onde ela se esconde
Assumes, sem qualquer tipo de pudor, a sua identidade
És vil, má, gananciosa, perniciosa
Mentes sob o refúgio de princípios
Que não se sabe onde tiveram o seu inicio
Voz muda, surda, que cegas tudo e todos
Quando gritas, sem sequer te exaltar
Manténs-te impávida no pedestal em que te colocaste
És dona de tudo e todos
Só não sabes de quem e para quê
E onde é que isso te vai levar.