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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Debaser

Assim que fechou a porta de casa, receosamente, para não dar aos vizinhos uma justificação de dizerem, mais uma vez, mal dela, atirou, um para cada lado, desinteressadamente e pelo corredor fora, os sapatos de salto alto que tinha comprado há uns dias atrás numa loja fina da baixa. Limpou, com todo o cuidado, os restos de folhas partidas, pequenos grãos de areia e pó, que estavam no fundo, da parte de fora, da mala preta Louis qualquer coisa, e deixou-se escorregar pela porta abaixo, prostrada num pranto, fazendo até, numa das saliências do fino ferro da fechadura que atravessa a porta da rua longitudinalmente, um pequeno rasgo no vestido azul de malha que envergava nesse dia. Fazer-se de ébria, e esporadicamente de maluca, era a única maneira que tinha conseguido arranjar para conseguir fazer-se notar, de alguma forma, aos demais transeuntes que por ela passavam na rua. Naquele dia, a consciência de tal comportamento, inexplicavelmente para si, fê-la, pela primeira vez desde que se tinha até sentido orgulhosa da primeira ocasião em que tinha conseguido chamar a atenção de dois homens que passeavam pacatamente pela praça solarenga naquele Domingo, ter pena de si mesmo. Esteve uns minutos a chorar compulsivamente, até que de repente se levantou. À medida que se ia despindo e deixando a roupa espalhada pela casa, ao mesmo tempo que encetava uma pequena viagem, primeiro à cozinha, e depois à sala, dirigiu-se para a casa de banho. Aí, já nua, abriu a torneira da banheira e deixou a mesma encher quase até acima. Mergulhou suavemente no monte de bolhas que os sais e produtos naturais de beleza tinham provocado na agua, e recostou-se confortavelmente, deixando o calor da agua aquecida e o quente da alma em chamas, liquefazer-se e evaporar-se lentamente, enquanto o liquido da garrafa de whiskey de malte 20 anos, esquecida lá em casa no fogo de uma discussão por um dos inúmeros desgostos amorosos, desaparecia no horizonte. Finalmente tenho o proveito, da fama que granjeei. Nunca na vida, eu me embebedei! Balbuciava, enquanto caía para a frente sem qualquer força para se conseguir voltar a erguer.