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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

The passenger

A passagem era extremamente estreita, muito escura, húmida, e estava coberta de pó. Havia musgo e ervas daninhas espalhados pelo chão e nas paredes. Notava-se perfeitamente que há anos que ninguém passava ali. Apesar de ser uma passagem, apenas e somente uma passagem, um caminho que permite chegar ao outro lado, a ânsia e a expectativa com que nos dirigimos para a passagem fez com que tivéssemos sentido calafrios assim que a avistamos ao longe. Confesso que já me começavam a faltar as forças quando avistamos a passagem. Não sei muito bem como é que os outros se sentiam, mas ao mesmo tempo que senti aquele arrepio nas costas e o corpo a tremer de excitação, as forças que eu estava a poucas horas de perder totalmente, automaticamente auto regeneraram tal como se estivesse a interpretar uma personagem de um jogo qualquer. Não foi preciso dizer nada. Assim que nos apercebemos que estava mesmo ali, a passagem que há praticamente 36 anos andávamos à procura, olhamos uns para os outros e sorrimos. Acho que foi mesmo a primeira vez que olhamos uns para os outros com olhos de ver, não com olhos de quem olha apenas para confirmar que os outros continuavam ali e que a viagem continuava a decorrer com todos os que a tinham iniciado. Foi nesse olhar, que não deve ter durado mais do que três segundos, que nos pudemos aperceber das diferenças que a viagem até ali nos tinha causado. Há marcas e rugas nas nossas caras e corpos, causadas pelo sol e pelo vento que bateu tantas vezes na nossa cara enquanto subíamos e descíamos. Uns estão mais gordos, outros mais magros, alguns perderam cabelo, outros têm barba, outros ainda têm o cabelo mais comprido. A forma de falar e sorrir é praticamente a mesma, mas aquilo que se diz já é diferente, já é dito de uma outra forma. Provavelmente o silêncio a que praticamente nos impusemos durante a viagem fez com que nos tenhamos esquecido da forma que falávamos quando iniciamos a viagem e agora, apesar de já ninguém se lembrar de como era antes, nota-se bem que há diferenças. Uma vez que já ninguém se lembrava de como é que éramos realmente quando começamos a viagem, não se conseguiram estabelecer comparações e foi inevitável rir quando nos apercebemos de tudo isto. De repente, as diferenças que nos tínhamos agora apercebido, tornaram-se irreversíveis, a partir daquele momento não éramos mais as mesmas pessoas que tinham iniciado a viagem juntas. Naqueles três segundos, que pareceram durar vinte anos, conseguimos resumir uma viagem de 35 anos que pareceram 1000! Olhámos para a passagem, olhamos mais uma vez uns para os outros, vi olhos que transpareciam ora amargura ou desilusão, ora alegria ou experiência. Todos demonstraram, no entanto, determinação, coragem, e principalmente regozijo por estarmos todos ali. Não foi preciso, mais uma vez, dizer nada. Irrompemos pela passagem adentro e seguimos nova viagem com a consciência renovada.

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