• FIM
  • R.I.P

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Just Like Fred Astaire

Olha! Ali vem ela outra vez. Desde que trabalho aqui, nem sei bem há quanto tempo, geralmente perco a noção do tempo que passa nos sítios onde trabalho, vejo-a ali em baixo, sozinha, a fumar um cigarro. É matemático! Às duas e meia da tarde, e às cinco, lá vem ela. Encosta-se à parede junto à janela, e ali fica a fumar. Por vezes, vem nitidamente a ouvir uma música qualquer que está a tocar na sua cabeça. Consigo perceber a sua ligeira dança, o seu ligeiro balançar de corpo. Mexe no cabelo durante alguns instantes, e depois sorri, como se de repente se tivesse apercebido que está sozinha, no átrio do local de trabalho, a dançar. A maior parte das vezes fica só a contemplar alguma coisa, a paisagem, alguém que passa, o fumo que lentamente vai expelindo, só, embrenhada nos seus pensamentos. Enquanto estou a olhar para ela, revejo-me em todos os seus movimentos. Chego mesmo a pensar que ela, no preciso momento em que estou a pensar nisto, está a pensar exactamente no mesmo. Como se fossemos o espelho um do outro, em lados opostos de um edifício, comunicando apenas através da sintonia de pensamentos e com movimentos corporais, ora simétricos, ora paralelos. Por vezes, sinto que a conheço profundamente. Sinto que bastava chegar ao pé dela, como quem partilhou a vida inteira através de um só olhar, e perguntar-lhe no que é que acredita. Nunca consegui perceber se ela alguma vez me viu, ou vê, também a fumar, sempre que ela ali está, do outro lado edifício. Será que ela também se questiona sobre o que estarei a pensar? Será que ela pensa que devo ser maníaco, parvo, ou simplesmente desocupado, por eu estar aqui a fumar, sozinho, sempre que vem fumar um cigarro às duas e meia e às cinco da tarde? Será que, como eu, ela vem fumar mais vezes por dia, algumas na esperança de eu lá estar a fumar?! Ou será que ela só fuma dois cigarros por dia, precisamente, e por um motivo qualquer, às duas e meias e às cinco?! Tem dias, principalmente se estiver a chover e pequenas gotas de chuva estiverem a escorrer lentamente pela janela abaixo enquanto o vento abana as oliveiras lá fora e o céu cinzento-escuro a alterar-se constantemente devido ao rápido movimento das nuvens, que acho que tudo não passa de um teledisco de uma musica qualquer do Peter Cetera. Tem outros, que tenho pena de não saber linguagem gestual para poder comunicar com ela à distância. Tenho quase a certeza que ela sabe linguagem gestual. É tão fácil, ter uma vida totalmente repleta, em oito minutos, e depois voltar para o trabalho.

1 comentário:

Tindergirl disse...

Gosto tanto deste post :)