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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Banda Sonora

Agora já consigo ver-me. Estou ali, debaixo daquele enorme candeeiro apagado, que quase ocupa completamente o tecto do edifício A sala está repleta de fumo, de pessoas absortas, cinzenta, e a música inunda-me todos os sentidos. Estou parado, de olhos fechados, e no preciso momento em que me consigo descobrir no meio da multidão, não consigo sentir mais nada para além daquele violino, da bateria, do baixo e da voz grave que despeja palavras roucas em todos os sentidos. Ao meu lado, comigo, de mão dada, está ela. Consigo agora, também, vê-la, olhar para ela, ali, mesmo ao meu lado, a abanar negativamente a cabeça, desiludida, enquanto olha para mim, ao mesmo tempo que a musica, a mesma musica que me preenche naquele preciso momento, passa por ela, sem que consiga dar-se conta da maravilhosa sensação que é deixarmo-nos levar pela musica, pela emoção, pela excitação que provoca deixarmo-nos levar. No momento em que olho para ela, só me apetece agarra-la, beijar-lhe a boca, o pescoço, as orelhas, afagar-lhe o cabelo, acariciar-lhe os seios tal como fazia quando nos estávamos a descobrir mutuamente. Era capaz de estar horas e horas seguidas apenas a beijar-lhe os seios, enquanto sentia o pulsar cadente do seu coração e da sua carne tenra envolvida na mais suave e alva pele, ao mesmo tempo que sentia a sua respiração, cada vez mais rápida, a passar sobre mim. No entanto, ali está ela, quase parada, ao meu lado. A sua mão suada, apesar de agarrada à minha, quase não tem vida. Consigo agora, só agora, aperceber-me do quão triste, infeliz, estava ela, ali, ao meu lado, enquanto eu, tão feliz, estava ao seu lado também. Ela olha para mim, desenha com os lábios a palavra Amo-te, e volta a cabeça na direcção do palco. Não diz mais nada. Apenas olha novamente para mim e fica quieta, só, à espera apenas que a música termine e que todas aquelas pessoas se vão embora, que a sala fique vazia, e que tudo acabe o mais depressa possível...

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