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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Banda Sonora

Ao tempo que o Zé me anda a dizer que eu tenho de arranjar uma frase. Eu nunca lhe ligo nenhuma, acho que ter uma frase é estúpido...ou melhor, não é estúpido, tira é a espontaneidade toda à coisa. Além disso, como é que uma mesma frase se aplica a todas as pessoas, se as pessoas são todas diferentes? Bom, cada vez que eu digo isto ao Zé, ele responde-me sempre com a frase "todos diferentes, todos iguais". Ao que eu lhe respondo sempre com um: Yá, yá, é isso mesmo... Provavelmente é um trauma que tenho, não sei... ...Rais’partam o Marocas! A culpa de eu ser assim é toda dele, tenho a certeza absoluta. O cabrão fez-me duas cenas que nunca mais me hei-de esquecer. A primeira foi com a chinesa. Ela era bonita para caraças! Ainda deve ser, não sei, não a vejo há anos. Mas quando andávamos na secundária, a chinesa era sem dúvida nenhuma a miúda mais gira da escola! O que é um totó como eu fazia quando via a chinesa? Olhava feito parvo, como é óbvio, embevecido, com o sol a reflectir no cabelo preto que ela usava sempre solto. Ainda por cima eu morava mesmo ao pé do liceu, portanto a quantidade de vezes que eu devo ter ficado especado a olhar para ela deve ter ultrapassado, sem qualquer tipo de dúvida, todos os limites do razoável. Cada vez que ela passava, matematicamente ali ficava eu, embevecido apenas, a olhar. Nunca, mas mesmo nunca, me ocorreu nada para lhe dizer em todas as vezes que ela passou por mim. Não me passava pela cabeça que ela me visse sequer! Como tal, eu olhava para ela, apenas porque ela era tão bonita, divertida e simpática, sem me ocorrer qualquer pensamento pecaminoso nem nada... Pura e simplesmente ficava a olhar para a chinesa enquanto ela passava a sorrir ao mesmo tempo que falava com as amigas, estando eu ali, acompanhado por um enorme balão de vazio sob a minha cabeça. Ora o que é que um dia a chinesa, que é uns dois, três, anos mais velha do que eu, se lembrou de fazer quando eu estava mais uma vez a olhar para ela, após ter gesticulado com a cabeça para elas passarem, a fim de lhes dar prioridade de passagem na rua estreitinha, apelidada de “O atalho”, e que desembocava praticamente na escola, mesmo atrás do prédio onde eu morava? Isso mesmo. Olhou para mim, sorriu e disse-me: És tão giro! Como é que te chamas? Corei. Alias, todo o sangue que tinha foi de certeza parar à minha cara. No preciso momento em que lhe disse, a gaguejar, que o meu nome é Pedro, e o teu? Passou o Marocas! Eu ainda estava surpreendido por ter conseguido articular uma frase completa quando o oiço dizer o seguinte:

- Foda-se chinesa, andas a desmamar putos agora é? E tu Pedro, deixa estar que eu vou dizer ao teu Pai o que é que tu andas a fazer, estás fodido vais ver...

Soube, mais tarde, que o imbecil do Marocas (nome mais beto não deve existir!) tinha, tal como todos os gajos da escola alias, uma paixão por ela, e aquela foi a reacção dele quando a ouviu dizer-me aquilo. Eu nem o tinha visto atrás delas quando lhes dei passagem! Apesar de eles serem os dois na mesma turma, nunca namoraram. (Bem feito!).
Claro que naquela altura o “status” e o modus vivendi de um estudante do secundário era a coisa mais importante do mundo. (Ainda bem que só aprendi a dizer modus vivendi muito mais tarde, a porrada que por certo teria levado se tivesse a audácia de mencionar tal coisa naquela altura!) Como tal, baldar às aulas, andar à chuva e ir para as aulas com o cabelo molhado, ser mau aluno e ser expulso das aulas, e principalmente andar com gajas (no caso dos gajos, ou gajos no caso das gajas), mais velhas era tão-somente o supra-sumo do altamente estiloso, ou, como se dizia na altura, impec! Resultado? Nunca mais a chinesa falou comigo depois desse pequeno episódio. Como se de uma transferência de sangue se tivesse tratado, depois do Marocas ter proferido tal ignomínia, a cara dela ficou vermelha, e parece que ainda a estou a ver a correr pela rua abaixo sem ter dito mais nada.
Não estava escrito na estrelas, é o que eu digo para mim mesmo ainda hoje em dia...Se ela realmente tivesse algum interesse em mim não teria desatado a correr daquela maneira...Por outro lado, o que ainda hoje em dia também me atormenta, é que ela é que se meteu comigo em primeiro lugar, tendo, se calhar, depois daquele episódio ficado à espera que fosse a minha vez de lhe dizer alguma coisa...Nunca irei saber...O que sei é que continuo, invariavelmente, acompanhado pelo meu velho amigo enorme balão de vazio cada vez que troco um olhar mais prolongado com uma moça que me cativa a atenção. Não sei, se calhar o Zé tem mesmo razão! Arranjar uma frase, neutra vá, é capaz de ser a melhor forma de ultrapassar o momento em que apenas ficar a olhar já começa a ser embaraçoso e urge dizer qualquer coisa...

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