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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Banda Sonora

Quando era puto queria tanto crescer. Eu era daqueles putos (e atenção, só digo que era daqueles putos porque continuo a ter a ténue esperança de terem existido, e ainda existirem, putos que foram, ou são, com eu fui) que preferia estar perto de um conjunto de adultos, a ouvir as suas conversas, até mesmo tentar fazer parte dessas conversas, e ao pé deles permanecia horas e horas, fascinado com o mundo dos adultos. Provavelmente devido a tal fascínio pelo mundo dos grandes, lembro-me de ser altamente responsável quando era apenas um imberbe petiz. Por exemplo, nunca corri pela estrada fora atrás de uma bola, pensava logo no ditado atrás da bola vai sempre uma criança. Nunca subi a uma árvore sem me certificar que não iria cair ou partir inadvertidamente um ramo. Nunca entrei pelo mar adentro à maluca, considerava sempre a possibilidade de me poder afogar. Nunca me passou pela cabeça correr descalço pelo campo fora porque me podia aleijar num pé, ou até mesmo cortar-me! No entanto, como todos os putos (penso eu!), tive uma paixão assolapada, logo na primeira classe, pela Patrícia. Ela, tal como eu, era pequena, tinha o cabelo comprido, ostentando sempre duas tranças, usava regularmente vestidos compridos, e tinha o sorriso mais bonito do mundo. Inexplicavelmente, cada vez que estava ao pé dela, dava-me para correr como se o mundo fosse acabar no espaço de um minuto! Raramente consegui trocar mais do que duas palavras com ela, ainda que tenhamos andado juntos na mesma turma desde a primeira à quarta classe. Alias, nem mesmo já na quarta classe, quando durante um intervalo perto do fim do ano lectivo a Otília e a Marta se meteram comigo e com o Carlitos, enquanto nós disputávamos uma renhida partida de bilas, querendo elas que nós lhes déssemos um beijo, eu à Otília e o Carlitos à Marta (coisa que lá fizemos sem eu e o Carlos sabermos a razão que nos levou a dar um beijo nelas), senti a confiança necessária, dada a experiencia adquirida em falar com raparigas, para poder falar com a Patrícia. Com a ida para o ciclo preparatório, e posteriormente o secundário, embora partilhando sempre as mesmas escolas, nunca mais fomos da mesma turma e a nossa relação acabou por se resumir a uns “Olá Tudo bem”, acompanhados de um sorriso, quando esporadicamente passávamos um pelo outro. (No fundo a nossa relação sempre se resumiu a isso desde que a vi no primeiro dia de aulas na primeira classe!) Soube, anos mais tarde, que ela namorou, e penso até que casou, com o Chico Pastilhas, um dos piores jogadores de hóquei em patins do mundo, que tinha como costume, cada vez que entrava em campo, mandar um beijo para a plateia inundada pelas cerca de 30 pessoas que costumavam assistir aos jogos de juniores. No meio dessas 30 pessoas estavam sempre os 4,5 amigos do Chico, que, todas as vezes que ele enviava o beijo para o éter, gritavam a plenos pulmões “Ofélia, onde é que estão as minhas cuecas?”. Suponho que fosse uma piada só deles, nunca entendi tal coisa. Sem me aperceber muito bem, rapidamente chegamos todos à idade adulta! Nunca mais vi a Patrícia depois de termos terminado o secundário. Hoje em dia, que já sou um adulto, não me apetece nada ser adulto. Ainda hoje ao almoço, o gajo que estava sentado à minha frente, depois de dizer para o gajo sentado ao lado dele que ele não anda de Mercedes e por isso é que não “come” gajas boas (errrrr!) enquanto na rua uma bonita mulher saía de um Mercedes e se despedia do seu namorado, ou marido, o gajo do lado apenas lhe respondeu “temos pena”. Perante tal resposta, ele vira-se e diz “Pena têm as galinhas...e no rabo...” desatando depois a rir com aquilo que tinha acabado de proferir! (duplo errrr!). O que raio é que eu via nas conversas dos adultos quando era um puto?

2 comentários:

Anónimo disse...

Alimentas a esperança que ela um dia passe por aqui e leia este texto.

Isso só acontece nos filmes.
E não em todos. Tem de entrar o Kianu Rives.

AP disse...

Não alimento nada :) Se vós haveis escutado a música com atenção, haveis verificado que agora somos adultos comprometidos, e cada um seguiu para seu lado...

Só conheço filmes com o Keanu Reeves, nunca vi nenhum filme com o Kianu Rives, por isso não poderei opinar sobre os filmes de tal senhor.