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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Society

É engraçado como nos trajectos que fazemos habitualmente várias vezes ao dia nos conseguimos abstrair do facto que vamos a conduzir e o nosso pensamento diverge. É quase como se o carro soubesse o caminho e as mudanças do carro fossem automáticas! Foi num desses momentos que eu hoje, quando ia almoçar, verifiquei que o semáforo estava verde e achei que não havia necessidade de abrandar. É já muito perto do semáforo, apesar do sinal estar vermelho para os peões, que vejo que está uma mulher a atravessar a estrada. Ela repara que eu não abrandei e pára mesmo no meio da estrada! Travei de imediato o carro, como não ia a grande velocidade não foi uma travagem brusca ou barulhenta, e ainda fiquei a uns metros da passadeira à espera que a pessoa terminasse de atravessar. Ela, ainda no meio da estrada, olha para o carro e depois para mim, pede-me desculpa e segue o seu caminho.
De repente, naquele segundo que ela olhou para mim, regressei ao dia em que fiz 15 anos. Tive novamente aquela sensação na barriga, meio cócegas, meio aperto no estômago, senti o coração palpitar. Dou comigo a dançar no meio da sala da casa da rapariga com quem eu, pela primeira vez, troquei um beijo na boca. A música que se ouviu nessa tarde, vezes sem conta, foi a música “Eternal Flame” das Bangles. Era a música que naquela altura se colocava a tocar no gira discos para que os casais pudessem dançar um slow. Essa música passava também muitas vezes nas matinés das discotecas, e era muito popular na altura. Eu não posso dizer que ela foi a minha primeira namorada, a minha relação com ela foi sempre muito estranha, infantil e inocente, além disso, o “status” de um rapaz naquela altura, tal como hoje em dia, era muito importante, e ninguém com 15 anos revela os seus sentimentos ou diz a verdade sobre o que na verdade sente e faz. Por experiência própria, e mesmo através de observação, as pessoas normalmente não se sentem à vontade para exprimir nem por palavras, nem mesmo por gestos ou actos, o que verdadeiramente sentem. Muitas vezes, os adultos nem sequer sabem muito bem o que sentem, nem saber exprimir o que sentem, quanto mais um puto de 15 anos. Alias, na maior parte das vezes, exactamente porque não se consegue exprimir o que se sente, somos agressivos e irracionais! É sempre muito melhor a agressividade para nos proteger do que dar-nos a conhecer verdadeiramente!
Eu vi-a pela primeira vez numa viagem que fizemos ao norte, na altura em que eu jogava hóquei. Ela era a filha do director do clube, e como a viagem iria ter a duração de 5 dias, o director aproveitou para dar um passeio com a família. Trocamos alguns olhares logo no primeiro dia, e nos dias seguintes, graças a uma amiga dela que foi também, começamos a falar. Não me recordo de nenhuma das nossas conversas nessa viagem, só me lembro que até ao fim da época desportiva, ela passou a ir ver os nossos jogos e sempre que nos víamos não fazíamos muito mais do que trocar alguns olhares e por vezes algumas palavras, mas sempre tudo muito rápido. Ela morava perto do pavilhão onde jogávamos e treinávamos, e eu morava bastante mais longe. Como tínhamos aulas e não havia nem telemóveis, nem MSN, ou outra coisa qualquer semelhante que permitisse comunicação, apenas nos víamos quando havia jogos ou treinos. Quando a época acabou, já em Julho, era tradição no clube fazer um míni torneio entre todas as equipas de todos os escalões. Foi então no dia em que fazia 15 anos, quando os jogos desse torneio terminaram, que descobri que ela também fazia anos no mesmo dia que eu. Apesar de não me lembrar bem da sequência de todos os acontecimentos, recordo-me de termos ido todos para casa dela festejar o aniversário dela. Depois disso, só tenho memória de termos dançado na sala dela, de termos começado a namorar nesse dia e pouco mais de duas semanas depois termos terminado o nosso namoro na praia. Durante as duas semanas que namorámos, como já não havia jogos, consegui vê-la duas vezes! A primeira vez, fui a pé com um amigo a casa dela. Nessa vez, ela falou comigo pela janela e eu na rua. Nesse encontro ficou combinado encontrarmo-nos na praia no dia seguinte. No dia seguinte, fui de comboio com outro amigo, a fugir ao pica, até à praia perto da casa dela. Por todos os motivos, e por nenhum em especial, terminamos a nossa “relação”! Voltei depois para a casa com o meu amigo, a pé. A sensação aflitiva que tivemos ao andar de comboio sem bilhete na viagem para a praia, impediu-nos de repetir a proeza na viagem para casa. Até hoje não me recordo de a ter visto mais do que 5,6 vezes, tendo passado vários anos até a ter visto pela primeira vez depois do encontro na praia. Nessa altura ainda trocamos algumas palavras, embora ela, e eu também de certeza absoluta, estivesse bastante embaraçada. Não espero, obviamente, que ela se recorde da sequência dos acontecimentos tal e qual como eu os recordo, nem faço a mínima ideia do que significou aquele dia para ela. Confesso que durante todos estes anos apenas dediquei algum tempo a pensar nela, sempre que possa ter tido com algum amigo uma conversa sobre a nossa adolescência, ou então, tal como hoje aconteceu, quando a vejo. Hoje, ali estava ela a atravessar a estrada quando eu tive de travar o carro! A única palavra que foi dita neste encontro, foi o obrigado que ela desenhou com os lábios depois de eu ter travado o carro. Fiquei com a música a soar-me nos ouvidos, quando arranquei novamente...

3 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Estive em Coja na Taverna ontem à noite. Continua a ser um dos melhores bares do mundo. :)
(não tem nada a ver com o teu post...)

AP disse...

:) ainda não fui lá este ano!

joaninha versus escaravelho disse...

Quando fores avisa. :)