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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Linhas Cruzadas

Hoje ao almoço, a propósito já nem sei bem do quê, falávamos que o local onde se nasce e cresce é determinante para a definição da personalidade e da pessoa. Desde puto que tenho uma facilidade enorme em apanhar sotaques e pronúncias dos mais diversos locais em Portugal. Provavelmente porque tenho parte da família proveniente do Alentejo, outra parte da região Oeste, onde ainda hoje consigo apreciar sempre quando oiço alguém dizer “ Aínha Mãe” querendo tal coisa dizer a minha Mãe, e depois porque os vizinhos do prédio onde vivi, desde que nasci, com os meus Pais e irmã, até um dia ter de ter seguido a minha vida, eram provenientes de várias zonas do País. Claro que como em todos os bairros, havia vizinhos de que gostava muito, outros pouco, outros nada, e alguns com quem sequer nunca falei. No meio de toda esta gente, houve sempre um casal que desde puto conseguiram popular o meu imaginário pelas mais díspares razões. Primeiro porque ela, a Sameiro, vinha de Braga, com aquele pronúncia nortenha bem acentuada que nunca perdeu e sempre me encantou, e por certo contribuiu em muito para a minha tal facilidade em apanhar os sotaques, e ainda por cima tinha uma irmã chamada Zuca, nome que para um puto pequeno é um delírio. Depois, porque a Sameiro se tinha casado com o Toi, que veio do Alentejo. Ambos, sem sequer se conhecerem, rumaram a Lisboa na busca de uma vida melhor, ainda jovens, conheceram-se, casaram, e por Lisboa ficaram. Recordo-me perfeitamente de a Sameiro me contar esta história numa das inúmeras vezes que fomos ao Sr. Pires (Cuja esposa se chamava Especiosa e a filha Zita!) tomar café depois do almoço, ritual alias cumprido centenas de vezes durante os meus anos de pré Adolescência. Nessa altura, depois do almoço, ora era a Sameiro a ir bater na janela da nossa casa para chamar a minha Mãe, ou era a minha Mãe, ou mesmo eu ou a minha irmã, a ir chamar a Sameiro. De todas as histórias e conversas que me recordo dessa altura, a que sempre mais me fascinou era história por ela contada n vezes, sempre com um sorriso, boa disposição e sem demonstrar qualquer tipo de remorso, de ela ainda pequena ter apostado com o irmão que ele não era capaz de lhe cortar o dedo indicador com um machado! O irmão dela, depois de alguns minutos de reticência, zumba, sem hesitar cortou-lhe o dedo! E pronto, a Sameiro ficou desde esse dia apenas com 9 dedos nas mãos! As horas que eu devo ter passado a olhar para a mão direita dela a pensar na forma com ela tinha ficado sem o dedo! O tempo passa, as pessoas crescem, envelhecem, e a vida continua, é mesmo assim, é o que todos estes clichés significam. O que é facto é que as coisas são mesmo assim, quer se queira, quer não. Soube há bocado, através de um telefonema da minha Mãe, que a Sameiro acabou por morrer ontem à noite, vítima de cancro, e eu não queria deixar de anotar neste blog que ela também fez, e fará, pelo menos enquanto as minhas memórias perdurarem, parte da minha vida.

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