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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

É como daquela vez

É como daquela vez, nunca mais me esquece...É assim, desta forma e com esta frase, que ele começa tudo o que diz. Diga-se o que se disser, cada vez que ele pretende dizer alguma coisa lá está mais uma vez a bela da analogia narrada do principio ao fim sem qualquer tipo de hesitação! Apesar de ser estranho, a necessidade de estabelecer uma comparação com o que se está no momento a passar ou a dizer, a coisa até poderia ser suportável não fosse o caso de ser, em todas, mas todas, as vezes a mesma! Admito porém, que na primeira vez que a ouvi, algumas horas depois de o ter conhecido, que achei graça. Teve graça sim senhor, e até me pareceu adequada ao momento tal analogia. Na segunda vez, poucos minutos depois, nem sequer achei estranho, imbuído pela risota que pouco tempo antes reinava, e precisamente por causa disso, pensei para comigo que estaria a aproveitar a embalagem e quis usufruir, durante mais alguns minutos, da glória que uma graçola aplicada no momento certo proporciona. Quase toda a gente se riu novamente. Diria até, a bandeiras despregadas, como se tivesse sido a primeira vez que tinham ouvido aquelas palavras! Não liguei, ou melhor, depois de ter pensado o que pensei, achei que tudo aquilo seria normal. No dia a seguir, naquela que foi instituída como a primeira pausa do dia, numa situação em tudo semelhante à do dia anterior voltou a afirmar exactamente a mesma coisa! Enquanto eu começava a pensar numa forma de lhe dizer que ele já tinha nos tinha dito aquilo, para meu espanto a risota foi mais uma vez quase geral! Ainda assim, depois de todos terem parado de rir, comecei novamente a engendrar uma forma simpática de lhe dizer que aquela piada já não era nova. Desisti de vez, quando percebi que não ia adiantar nada, já que estavam novamente quase todos a rir mesmo sendo aquela a quarta vez, num espaço inferior a vinte e quatro horas, que a mesmíssima coisa, palavra por palavra, era dita! Dirigi-me para o meu lugar sem ter proferido uma palavra sequer durante todo o tempo da pausa instituida. Senti-me verdadeiramente consternado por estar a viver tantas situações exactamente iguais em tão curto espaço de tempo! Não é que seja possível sentir-me consternado de uma forma que não seja verdadeira, mas ao dizer, verdadeiramente consternado, para mim mesmo, sinto que a consternação é real e palpável, enquanto se dissesse apenas consternado, tudo não poderia passar de uma mania minha, e eu tenho a certeza que não é. Sem conseguir fazer mais nada, olhei à minha volta e tentei recordar-me da roupa que eles traziam no dia anterior para me poder certificar que não estava, por algum acaso, a viver o mesmo dia. Ou então, a possibilidade de tudo não passar de um sonho esquisito! Depressa desisti desta ideia quando me lembrei que no dia anterior a coisa se tinha passado de tarde. Partilhei mais três pausas com eles durante esse dia. Já não sei o que é que se tornou mais insuportável, se o facto de ele continuar a dizer a mesma piada, como se nunca tivesse sido dita antes, ou o facto de quase todos se rirem a valer em todas as vezes, e reagirem tal e qual como se fosse a primeira vez que a estavam a ouvir! Com o passar dos dias fui-me apercebendo que todos tinham, e têm, um comportamento diário semelhante. Há aquele diz sempre a mesma piada sob a forma de comparação, há o outro que se ri sempre, e da mesma forma, mais alto do que toda a gente, há o que solta um guinchar inominável, que ao principio pensei ser um tique nervoso, mas que agora sei que é o riso dele, há o que pede sempre de uma forma absolutamente irritante um galão descafeinado com leite frio e uma sandes de queijo com pouca manteiga, ao menos podia pedir de vez em quando a sandes em primeiro lugar, ou dizer hoje não quero manteiga, ou então hoje quero muita manteiga, ou até mesmo beber um galão normal, não sei, mas podia fazer qualquer coisa de diferente, não ser outro autómato! Hoje, passados quatrocentos e trinta e sete dias, tem dias que me rio a valer por estar a ouvir mais uma vez a piada analógica, como hoje em dia eu lhe chamo, outros que não tenho paciência e nem sequer as pausas faço. Já cheguei, há duzentos e trinta e oito dias atrás, à conclusão que os dias são todos iguais, sendo que a única coisa que difere de dia para dia é a roupa de alguns, não de todos, mas de alguns, de resto, é tudo sempre igual. Só ainda não consegui perceber foi uma coisa. Ainda não consegui perceber se ele diz sempre "É como daquela vez, nunca mais me esquece..." porque não se lembra que já o disse o mesmo numero de vezes que já se esqueceu que o disse, e se assim for, por que é que ele se esquece de tudo menos da maldita piada, ou se diz a piada, começando sempre com a frase "É como daquela vez, nunca mais me esquece...", porque se está a queixar, efectivamente, que nunca mais se esquece e apenas o diz com esperança que ao dizê-lo mais uma vez, o esquecimento definitvo do raio da piada finalmente aconteça, tal como aparentemente acontece com todos os outros! É como daquela vez, nunca mais me esquece...

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