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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Complexos #28

No preciso dia em iniciava a minha vida noutra cidade, decidi (a necessidade de mudar, de continuar em frente mesmo que não seja isso que apeteça tem destas coisas) usar, pela primeira vez, um fato de fazenda cinzento para ir trabalhar. Não sei se por coincidência, ou porque a fazenda aumentou de alguma forma a minha sensibilidade nas nádegas, tive um pequeno ataque de tesão quando senti o rabo de uma bonita mulher a roçar o rabo dela no meu enquanto íamos aos encontrões no autocarro. Primeiro senti um rubor digno de uma criança inocente que é apanhada a fazer uma asneira, mas logo depois, e sem ter feito qualquer tipo de esforço para isso, senti-me bem, à vontade até, ainda que ligeiramente encabulado depois de termos trocado um olhar cúmplice como se só nós os dois soubéssemos o que se estava a passar. Sem combinarmos nada, pelo menos através de palavras, saímos na paragem a seguir. Já em terra firme, iluminados pelos raios de Sol que resplandeciam na praça cheia de gente que andava de um lado para o outro em passo apressado, sorrimos e dirigimo-nos para uma esplanada, com vida própria, perto da paragem. Após uma pequena conversa circunstancial, em que soube que o nome dela era Maria, fizemos o nosso pedido ao empregado que entretanto se tinha dirigido a nós em francês. Mal o empregado virou costas, depois de ter feito uma pequena habilidade com o abre-garrafas, dei por mim a pensar na vez em que tinha concretizado o sonho de uma vida ao dar um beijo na rapariga mais bonita da sala onde me encontrava! Desde pequeno que sonhava que um dia a miúda mais bonita se iria apaixonar por mim tal como eu já me teria apaixonado por ela assim que os meus olhos a tinham visto. Só que afinal a coisa não correu bem, parece que eu não era bem aquilo que ela pensava que eu era, ou pelo menos foi isso que ela me disse quase onze anos depois de a ter visto pela primeira vez.
Enquanto entretinha a minha mente a pensar no meu passado, olhei para a minha frente e dei-me conta, novamente, do que me estava a acontecer em tão inusitado encontro! Ficámos então ali, em silêncio, a olhar um para o outro, como se nos conhecêssemos há cerca de quatrocentos e vinte e três anos, mais coisa menos coisa.
Deviam ter passado uns cinco minutos desde que o empregado nos tinha trazido o pedido, quando toda aquela situação me começou a enfadar de morte. Sem saber muito bem porquê, de repente tive quase a certeza que estar ali, naquela esplanada, naquele momento, com uma gaja que não conhecia de lado nenhum a beber um batido de morango com banana, tinha sido a maior asneira que cometi na minha vida.
Ela, que ao contrário de mim não parecia estar incomodada com a situação, começou a balbuciar qualquer coisa que metia as palavras destino e feitos um para o outro!
Não sei porquê, mas aqui as coisas acontecem e sucedem-se tal e qual como nos filmes, disse eu ao mesmo tempo que um autóctone passava por nós com um ar de quem está a passear. Ah, isso é porque nós aqui vivemos na terra do sonho, disse-me ela ao olhar também, sem qualquer tipo de curiosidade, para o incauto transeunte.(Embora para mim ele seja um mero autóctone, ele, para ela, não passa de mais um transeunte. Suponho que as coisas sejam sempre assim quando se vê a coisa sob o ponto de vista de um forasteiro e também sob o ponto de vista de um autóctone). Então quer dizer que nada disto aqui é real? Perguntei eu espantado por estar sentado com uma estranha numa esplanada na terra do sonho, julgando eu que estava de facto ali! Isso depende sempre! Disse ela. Depende do quê? Depende da forma como se olha para a coisa. São os filmes que fazem a realidade, ou é a realidade que se torna em filme? Disse-me ela enquanto colocava a palhinha na boca para sorver mais um pouco do seu batido, deixando a questão no ar, feliz e contente. Fiquei ali a pensar durante uns segundos. Por acaso, muitas vezes, tenho a sensação que pertenço ao rol dos inúmeros figurantes que costumam ser contratados para participarem nos filmes de acção, ou nos denominados épicos! Nada do que eu faço, ou digo, hoje, continuei a dizer, tem a importância, ou a não importância, que eu lhe dou. Só saberei a real importância de tudo isto daqui a uns tempos. Só daqui a uns tempos é que saberei se foi ou não um erro tudo aquilo em que eu hoje acredito não ser um erro ou ser um erro. Tomar as coisas como certas, estar certo do que é certo, estar certo do que penso e conheço, inclusive pessoas, e pensar que vai ser sempre assim, tal e qual como foi e é, é um erro enorme que agora, neste momento, apercebi-me que não posso cometer, porque o passado não passa agora de um sonho, ou de um pesadelo, mesmo tendo existido realmente antes!
Olhei em frente novamente, e o batido, em conjunto com a rapariga, tinha desaparecido!

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