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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Vim-me, disse ela

Chega! Na ideia dela a palavra chega chegava para se mentalizar que tinha chegado a altura de definitivamente começar a agir! Chega! Disse ela para si mesmo, olhando de seguida em seu redor para se certificar que mais ninguém tinha ouvido o seu grito de revolta. Enquanto deixava, propositadamente, descair ligeiramente a alça direita do seu wonderbra e, decidida, começou a andar com menos pressa do que costuma fazer, bamboleando suavemente as ancas avenida abaixo, segura de si mesma, como jamais se tinha sentido.
Duas horas antes, dentro do elevador que subia lentamente até ao nono andar, o seu coração batia desenfreadamente. As grades sujas de metal, preenchidas por pequenos desenhos disformes e desconexos de óleo ressequido, que serviam de porta a um ascensor tão velho como o próprio prédio, fizeram-na recordar de imediato a prisão em que a sua vida se tinha transformado. Enquanto subia, voltava a questionar-se pela milésima vez se de facto o devia fazer. Um impulso compeliu-a a carregar no botão para parar de imediato a viagem. Entre o sétimo e o oitavo andar, o silêncio que habitualmente se fazia sentir naquela área do antigo prédio verde Alface era agora substituído pela respiração ofegante de uma mulher que se pôs a pensar.
Veio-lhe à cabeça a Jennifer Rush e o mega êxito Power Of love! Recordou-se de como aquele videoclip, bem como o penteado da Jennnifer lhe tinham alterado a vida! Sim esses tinham sido os tempos! Nessa altura a sua vida pertencia-lhe, tal e qual como um gato pardo pertence ao seu dono. Como é que a sua vida tinha agora chegado a tal ponto? Não conseguia saber! Uma lágrima começou a cair lentamente pela sua cara abaixo, depois outra, e mais outra! Prostrou-se num pranto, deixando o seu corpo escorregar pela parede, até cair desamparada no chão. Com o impacto da queda repentina, o velho elevador não aguentou e começou a cair desenfreado prédio abaixo! Nos milésimos de segundo em que a queda ocorria, não teve qualquer flashback de toda a sua vida, não pensou nos seus filhos ou na sua família, nos amigos, nas dívidas, no emprego, mas sim na última vez em que se tinha verdadeiramente sentido livre. Num misto de pânico e prazer, aquela memória recôndita tornou ainda mais ofegante a sua respiração! Agora nada mais interessava. Já nada mais interessava a não ser aquele momento em que se tinha entregado totalmente e sem qualquer tipo de pudor à sua própria vontade, na única vez que teve coragem de confrontar o receio de que a liberdade a pudesse aprisionar para sempre numa viciante adrenalina. Completamente embrenhada, não deu conta do seu corpo ter começado a levitar! Subitamente, um gemido enorme de prazer irrompeu prédio acima ao mesmo tempo que o ascensor, já perto do rés-do-chão, parava suavemente. Sem forças, caiu inanimada no chão e ali permaneceu, durante cento e dezanove minutos, após ter dito para si num tom de voz muito baixo, vim-me.

1 comentário:

joaninha versus escaravelho disse...

Andas muito feminista. :)