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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Raiva acumulada #9

- Olá…

- Olá, então a entrevista, como correu?

- Não era bem uma entrevista, mas acho que correu bem! Bom, pelo menos, acho que o deixei a pensar no que lhe disse...

- A pensar! Como assim?! Deixaste-o a pensar?!

- Acho que sim! Não sei, só acho, mais nada!

- Foste para lá desatinar, não foste?

- Não! Foi tudo normal e fiz tudo normalmente como tu gostas! Só houve uma coisa que ele me disse que me chateou, mais nada.

- O quê?

- Ele disse-me que estava lá na qualidade de entidade contratada para seleccionar a pessoa indicada para o cargo…

- E por que é que isso que te chateou?

- Foi a afirmação em si! Em primeiro lugar não compreendo bem o sentido da afirmação! O que é que ele quer dizer com isso?! Estará a querer desculpabilizar-se?! É que se ele faz a afirmação para dissociar o factor profissional do factor pessoal, a fim de me dizer indirectamente que não é nada de pessoal tudo bem. Agora se ele o diz, só para me demonstrar que indirectamente é ele quem manda ali, e, ou eu me porto bem e digo o que ele quer ouvir, ou ele não terá pejo nenhum em não me contratar, isso comigo não resulta! Em segundo lugar, não percebo por que é que ele faz essa afirmação, numa altura em que já fiz não sei quantos testes psicotécnicos, em que, penso eu, os resultados que dali advêm não podem deixar de forma nenhuma, qualquer tipo de margem para escolhas com base no factor pessoal! Por falar nisso, achas que eles publicam os resultados deste tipo de testes, num sítio público qualquer?

- Não acho que não! Por que é que haveriam de os publicar?! Quem é que quer saber dos resultados de uns psicotécnicos a não ser as pessoas que vão contratar a pessoa, e a própria pessoa, evidentemente?! Para além disso, acho que ele só te disse que estava ali na qualidade de entidade contratada, muito provavelmente porque queria dar um sentido profissional à coisa. Sabes como é, dar a impressão de que é uma pessoa muito importante...

- Olha! Não tinha pensado nessa hipótese! Que até é, talvez, a mais provável! Apesar de essa mania me fazer uma confusão desgraçada à cabeça, admito que é muito comum as pessoas dissociarem-se, em certas ocasiões, de cargos ou lugares que ocupam! Dizem que estão ali na qualidade de não sei o quê e não na qualidade do não sei que mais! Não consigo entender, por mais que tente, perceber essa dissociação! Qual qualidade?! E por que é que é uma qualidade e não um defeito?! Se essas pessoas são sempre a mesma pessoa, como é que elas conseguem diferenciar a sua lógica de raciocínio para as diferentes qualidades que assumem, se a forma delas pensarem está intrínseca ao seu ser?

- Pronto, já vi tudo! Começaste com esse tipo de conversa para o homem, o homem irritou-se e tu ficaste contente com isso e vieste embora! Não foi?

- Não! Não foi. Por acaso, nem sei como é que me contive, mas não lhe disse nada a este respeito. Achei por bem não dizer nada uma vez que estava numa entrevista para um emprego. Tenho a perfeita noção de que se eu lhe dissesse alguma coisa a este respeito ele não entenderia o motivo de eu lhe estar a falar sobre isto naquela altura.

- Ai sim?! Então por que é que dizes que o deixaste a pensar?

- Porque, por acaso, enquanto ele se preparava para me divulgar os resultados dos testes que fiz, tivemos uma troca de pontos de vista interessante acerca do modo como eles chegam aos resultados dos testes! A dele, talvez diferisse um pouco da minha, mas no cômputo geral, até acho que temos pontos de vista comuns sobre o modo como eles chegam ao resultado…

- Tu?! Tu concordaste com alguém nalguma coisa?! Não acredito! Em que é que vocês concordaram?

- Em nada. Mas houve uma altura, logo ao início da conversa, que ele até acertou numas coisas!

- Já vi para onde é que isto vai! Acertou em quê?

- Disse-me que eu gostava de artes, que eu era um poeta!

- Não me digas que foste para lá armado em parvo a dizeres que és um actor?

- Então?! Se eu sou um actor por que é que eu não o hei de o assumir perante as pessoas?

- Porque é uma estupidez! Porque tu não és actor! Porque as pessoas pensam que és parvo quando começas com essa conversa, e, principalmente, porque só o dizes quando não tens mais nada para irritar a pessoa com quem estás a falar. Por que é que fizeste isso hoje? Logo hoje e numa entrevista de trabalho? Tiveste medo dos resultados dos testes que fizeste não foi? Pela primeira vez fizeste os testes de uma forma seria e tiveste medo que todas as tuas teorias sobre esses testes se fossem por água abaixo quando ele te dissesse os resultados, não foi? Tu devias estar prestes a perceber que eles até tinham acertado, como tu não consegues concordar com nada que não tenhas antes tu próprio pensado, disseste que és actor! Não foi?

- Não. Não foi isso! Não sei porque é que estás a dizer isso agora até! Já tínhamos falado sobre o facto de eu ser actor, e tu até tinhas concordado que eu sou um actor da vida real! Para além disso, só o disse hoje porque o homem me pareceu arrogante comigo! Foi só por isso, mais nada…

- Está bem pronto. És um actor da vida real, como todos nós somos. Até concordo com esse teu ponto de vista. Mas por que é que tinhas de dizer isso ao homem?! Tens de concordar que não estando dentro do contexto do que estás a dizer, é difícil entender…

- Mas tu sabes que é exactamente isso que eu gosto! Sabes que gosto de provocar a dúvida na pessoa que está a falar comigo, sobre a seriedade ou não, da conversa que eu estou a ter com ela nesse momento. Hoje... olha, não resisti e fi-lo outra vez.

- Tu é que sabes. A mim não me interessa. Tu é que dizes que queres arranjar um emprego normal e ter uma vida normal! Acho graça é depois vires com coisas! Primeiro ele tinha dito uma coisa que te tinha chateado, depois já tinha sido arrogante, e depois é mais não sei o quê, e é sempre a mesma coisa! Para quê?! Porquê?! Por que é que não consegues ser uma pessoa normal?! Por que é que não conseguimos ter uma vida como as outras pessoas todas têm? O que é que estás a fazer? Ainda agora chegaste, já vais sair outra vez? Tu ouviste alguma coisa do que eu te acabei de dizer?...

- Já falámos tantas vezes sobre isto! Quando falamos e tu não estás assim, eu penso que tu me compreendes. Mas depois, quando chegamos a uma circunstância como esta, vejo que não me entendes. Vou até lá abaixo, não queres vir? Anda, vamos espairecer. Anda, vai fazer-nos bem. Não vale a pena estares sempre com coisas…

- Não. Não tenho paciência. Tu agora, só para me provar, pela enésima vez, as coisas que dizes, vais dar uma de actor outra vez e eu já vi como é que vai terminar a noite. Hoje não tenho paciência. Diz-me só uma coisa que não me chegaste a responder. Fizeste os testes psicotécnicos a sério e tiveste medo que os resultados estivessem correctos ou foi tudo como sempre fazes?

- Não sei bem! Eu fiz os testes e pronto, estão feitos, foi só isso. Dá-me um beijo…

- Não, neste momento estou nervosa e não te quero dar beijos, até logo.

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