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quarta-feira, 23 de junho de 2010

From one Jesus to another

E finalmente chegava o primeiro dia. Ao contrário da maioria, dirigiu-se sem medo, sem grandes excitações, e convicto, para a sala, contente e feliz da vida com a nova diversão que se avizinhava. Até então, todos os seus interesses giravam em torno de si mesmo e dos seus pequenos prazeres. Na sua pequena mente, para além do facto de nada mais, nessa altura, ser importante, desconhecia por completo a existência de outras possibilidades. Assim que se aproximou da ombreira da porta, inebriado pelo misto de cheiros provenientes do invisível pó, da madeira dos paralelepípedo expostos meticulosamente nos parapeitos das enormes janelas de cortinas brancas, e das cartolinas de todas as cores armazenadas nos armários com as portas de vidro fechados a sete chaves, entrou de rompante na sala e calcorreou a mesma de uma ponta a outra, duas vezes, só para poder ouvir o barulho das solas duras dos seus sapatos a bater contra a madeira velha, mas rija, do chão. Imaginando-se a subir para cima de um palco, onde todas as atenções lhe estavam dirigidas, sentiu um particular prazer quando subiu o degrau que dava acesso a um pequeno palanque que havia no fundo da sala junto ao quadro preto. Os outros, de cara assustada, assim que entravam dirigiam-se rapidamente para uma cadeira, e aí permaneciam, mudos e quietos, à espera da senhora, conforme lhes tinha sido dito para fazer. No preciso momento que dançava em cima do pequeno palco, provocando o riso a quase todos os presentes, com cara de muito poucos amigos, entrou, altiva, a senhora que todos aguardavam. Ao entrar, soltou de imediato um berro com o intuito de parar com aquilo que a partir desse dia ficou a saber chamar-se algazarra! Todo o seu corpo estremeceu quando ouviu aquela voz. Sem saber o que pensar ou dizer, após dois segundos de espanto profundo, completamente refeito do susto, olhou para a senhora da voz temível e sorriu, com toda a genuidade que a inocência permite. Novamente sem saber o que pensar ou dizer, depois de ter levado dois enormes e disparatados tabefes na cara, sob a justificação de que não eram admitidas faltas de respeito, provou finalmente o sal que sabe a tristeza, e sentiu o sabor de uma ignorância que faz com que a inocência deixe de saber, para sempre, o caminho de regresso. Findo esse dia, jamais alguém ouviu a sua voz ou viu novamente seu sorriso.

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