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terça-feira, 22 de junho de 2010

Banda Sonora

Ao fundo, caída sob o parapeito de pedra, fria, da janela, uma garrafa de rum misturado com uma fruta qualquer jaz sem a mínima possibilidade de se conseguir determinar há quanto tempo. O sofá, semi-coberto pelos cortinados cor de laranja amarrotados, olha para a garrafa com o mesmo desprezo de sempre, imune a todo e qualquer tipo de sentimento que nele outrora assentou. Infecto, o cinzeiro inundado de pontas de cigarros e ganzas, lenta e meticulosamente, quase sem sequer se conseguir dar por isso, vai espalhando cinza para cima da mesa coberta de livros, alguma roupa, papéis cheios de anotações de ideias pré-concebidas e de planos para um futuro obsoleto, causando, inadvertidamente, sensações simultâneas de proximidade. Lá fora, através do vidro baço rachado pelo vento, distingue-se nitidamente o jardim verde e castanho, pejado de portas antigas de madeira podre, de pedras partidas, e de restos de arvores e de plantas viçosas, do som que o cair da noite provoca e instiga o gigante melro, em conjunto com as medricas rolas, a cantar destemidamente, sempre dentro do compasso causado pelo bater da chuva, ignorando, tais criaturas, e por completo, que um dia, qualquer, a garrafa albergou liquido, que o sofá foi acolhedor, e que o cinzeiro brilhou como um cristal que acaba de reflectir um raio de luz, que por si só, o raio, já irradiava ventura para quem para ela, para ela, tivesse, de frente, coragem para olhar…

The House of love - Shine on

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