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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Raiva acumulada #8

- Olá! Bem, para quem disse que chegava aqui por volta da uma da tarde, já são sete, não está mau o atraso! Já é costume em ti, mas hoje acho que bateste o recorde! E então como é que correu a entrevista?

- Qual entrevista?

- Então não ias a uma entrevista qualquer hoje, para um emprego?

- Não fui a entrevista nenhuma! Fui foi a uma parafernália de testes psicotécnicos que culminariam numa revelação dos resultados dos mesmos, ditos, claro, de uma forma simpática, algures no meio de uma amena conversa! Se achas que isto é uma entrevista, então temos conceitos diferentes de entrevistas! Para mim, uma entrevista é composta por uma, ou mais pessoas, a fazerem perguntas, e outra, ou outras, a responderem…

- Porque é que tu nunca consegues dar uma resposta sem ser a desatinar! Porquê? Estava só a perguntar como é que correu, mais nada! Ficaste com o emprego ao menos?

- Não! Acho que ele pensou, a meio da conversa amena, que eu estava a mentir ou a desatinar, não sei!

- A mentir! Numa uma entrevista de trabalho? Tu, a mentir?! Porquê?

- Eu não lhe menti! Eu não te disse que menti! Eu disse que ele pensou que eu estava a mentir, ou a desatinar! Eu só lhe disse que sou um actor das 9 às 17. Acho que ele achou isso fora do normal, no mínimo!...

- Um actor! TU?! Porque raio é que foste dizer que és um actor?! Tu nunca fizeste teatro ou cinema!!!

- Então para ti um actor, só pode ser actor se fizer teatro ou cinema?!

- Pronto! Lá estás tu! Independentemente do que eu acho o que faz ou deixa de fazer um actor, isso não interessa agora, porque é que disseste que és um actor, se tu não és?!

- Interessa sim senhor! Porque tu achas e pensas mesmo o que disseste! Porque é que dizes que não sou um actor?! Só porque nunca fiz teatro ou cinema? Um actor, que eu saiba, é uma pessoa que representa, que se faz passar por uma outra pessoa, por um animal ou um objecto, assumindo sempre, ser o que na realidade não é. Claro que podem haver algumas características comuns entre a personagem e a pessoa, mas, o actor quando representa, assume, necessariamente, ser alguém ou algo, que não ele próprio.

- Mas que raio de conversa é essa agora?! Tu és actor do quê?

- Eu é que te pergunto a que ponto é que tu me conheces verdadeiramente para dizeres que me conheces? Quem é que te disse a ti que eu não estou a representar neste momento e tu nunca sequer me conheceste?

- Mas porque é que havias de estar a representar?! Agora? Neste momento?! Porquê?! Porquê representares comigo?

- É isso que eu te estou a perguntar. O que é que te leva a pensar que eu não representei contigo uma personagem durante estes anos todos? O que é que te leva a dizer que me conheces ao ponto de dizeres que eu contigo não preciso, ou não tenho necessidade de representar?

- Se eu estou a perceber bem o que me estás a dizer, estás a por em causa os 10 anos de amizade que temos! Estás agora, ao fim deste tempo todo, a dizer-me que andas a representar comigo e que eu não te conheço! É isso que me estás a dizer?!

- Eu não estou a pôr em causa absolutamente nada! Não estou a pôr em causa nenhuma amizade! Tu é que estás! O que eu estou a dizer é que tu podes ser amigo de uma personagem que eu inventei e que eu posso apenas ser essa personagem quando estou contigo. Posso até, dizer que o mesmo se pode passar em relação a ti! Eu posso dizer que tu comigo és uma personagem, que não és tu próprio! Seja lá o que for ser eu próprio…

- Na na na! Não me venhas com conversas maradas, nem dar a volta ao texto como é teu apanágio! Tu é que puseste em causa a nossa amizade! A mim, nunca me passou pela cabeça representar com ninguém, muito menos com quem eu penso que é meu amigo e de quem eu considero ser amigo também!...

- Nunca te passou pela cabeça, mas já o fizeste, quer queiras quer não. Tu mudas o teu comportamento perante as situações ou perante as diferentes pessoas com que te deparas no teu dia a dia. Isso para mim é representar…

- Mas não é de propósito! Há pessoas com quem tenho mais confiança e me sinto mais à vontade e outras não! Isso é normal…

- Ai é?! Se não fosse de propósito, não alteravas o teu comportamento, a maneira de falar, etc! E mesmo com as pessoas que conheces, por certo que não tens o mesmo comportamento com todas elas! Não és de certeza a mesma pessoa que és aqui comigo quando estás em tua casa, com a tua mulher. Alem disso, não terias tido logo a consciência ao ponto de dizer, assim tão prontamente, que não é de propósito que o fazes. Tu sabes que é…

- Isso, são reacções naturais às tais situações ou pessoas de que tu falas! As pessoas têm diferentes formas de reagir perante as coisas, não são actos pensados, nem representações encenadas! Daí eu ter noção do que falas, e saber que não é de propósito. Alem disso, porque é que estamos a falar disto agora?! O que é que isto tem a ver com o que disseste em relação à nossa amizade? Andas a representar comigo o não?

- Estamos a falar disto agora, porque me irrita as pessoas dizerem que se conhecem muito bem umas às outras e quando acontece alguma coisa fora do que a maioria das pessoas considera fora do normal, elas dizem “ nunca pensei que ele fosse capaz de uma coisa destas, eu conheço-o há tantos anos e nunca o vi fazer tal coisa.”, e coisas do género…

- Sim, e foi isso que eu fiz agora?! O que é que te diz essas pessoas dizerem isso? Tu é que chegaste aqui e me disseste que foste para uma entrevista de trabalho dizer que eras actor das 9 às 17! Não percebo porque é que o fizeste! Achas mesmo isso normal?

- Sim. Eu não tenho que reagir da forma que sei que esperam que eu reaja! E não penso que por não reagir da maneira que seria expectável, isso seja uma razão ser considerado anormal, ou para dizerem logo o que dizem, ou por outra, o que de imediato pensam mas que por vezes dizem outras não dizem! Só porque não reajo da forma que estavam à espera que eu reagisse?! Nós somos regulados pela generalidade das reacções que não sei quem foi tendo ao longo do tempo, as tais reacções ditas normais e que têm, quase obrigatoriamente, de serem frequentes na maioria das pessoas! Caso isso não aconteça, quer se queria quer não, seja lá porque razão, essas pessoas são consideradas pessoas anormais! Isso irrita-me! Foi por isso que hoje não fiquei com o emprego se queres saber a verdade…

- Bom, como tu estás hoje! Acho melhor ires até casa. Já vi que hoje não se consegue falar contigo! Primeiro dizes-me que disseste que és um actor das 9 às 17, depois já dizes que não ficaste com o emprego porque tens reacções diferentes da maioria das pessoas! Acho que foste de vez para o lado do inimigo!

- Eu não sei porque é que me dou ao trabalho de falar contigo! Não percebeste nada do que estive para aqui a dizer! Ainda por cima, rematas a dizer que devo estar maluco, tudo porque não percebeste nada do que eu te disse! Quando não se percebe, não somos nós que não percebemos, os outros é que são parvos! Ora aí está uma reacção normal! Se achas que eu estou maluco, é porque não me conheces mesmo! Vou, efectivamente, até casa…

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