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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Raiva acumulada #7

- Bom, de acordo com os resultados dos testes que efectuou, o senhor é um poeta, gosta de poesia, das artes, encara a sua vida com grande optimismo, mas...

- Não... quer dizer, sim e não...

- Não?! Como assim, não gosta de poesia, de artes… não é optimista?!

- Não. Não sou um Poeta. Creio mesmo que o facto de encarar a vida com optimismo, ou ter uma visão poética de algumas coisas, gostar de artes, etc, não querendo com isto dizer que não sou pragmático, queira dizer que sou um poeta! Também não quero dizer que só sou pragmático e que não tenho optimismo ou que não gosto de poesia, ou do que quer que seja relacionado com o mundo artístico! Alias, considero-me um actor profissional. No fundo… não consigo compreender como é que chega tão facilmente a essa conclusão! Li algures, no início disto, que posso reclamar sempre que sinta necessidade disso, e estou, desta forma, a expressar o meu protesto em relação às conclusões que chegou!

- Devo dizer-lhe que não é nem facilmente, nem de ânimo leve, que chego a esta conclusão. Deve-se, isso sim, a estudos efectuados durante anos a fio. Estudos, que permitem hoje em dia, chegarem com bastante fiabilidade de resultados a uma conclusão concreta. Mas, permita-me que lhe diga, que este não é o momento próprio para este tipo de explicação. Os testes estão feitos e os resultados obtidos. Diga-me, a que se deve o seu protesto? Acha que no meio do seu processo houve alguma irregularidade que lhe permita pensar que nós estamos errados? Recordo-lhe que ainda não revelei os resultados! Estava apenas a tentar começar de uma forma simpática, a nossa conversa final…

- Pois, acha que não é o momento para explicar a forma como chegam aos resultados, mas já lá chegaram! Resultados esses que foram obtidos a partir de estudos feitos durante anos, sabe-se lá por quem! Acha que as pessoas são todas iguais? Acha que existem n tipo de reacções iguais que se distribuem de igual forma pelas várias pessoas?

- Bom, bom, penso que estamos a dispersar-nos e a fugir da questão que nos faz estar a ter esta conversa. Como já lhe disse, este não é o momento próprio para este tipo de questões. Presumo então, à parte dessa pequena questão com a forma como os resultados são obtidos, que não tenha nenhum problema com a forma como decorreu todo o seu processo de selecção. Como sabe, o atraso já vai longo e urge terminar, o quanto antes, o seu processo de selecção. Disse-me que se considera um actor?

- Não quer responder, é o que é! Chegam a conclusões, sabe-se lá como, e depois dizem e fazem o que querem! Mas tem razão, o atraso já vai bem longo, eu também me quero ir embora! Era para sair daqui ao meio-dia, já são 6 da tarde! E é verdade sou um actor sim senhor…

- Então?! Isso só vem de encontro ao que lhe estava a dizer! É por isso que ficou espantado? Não esperava que acertássemos logo à primeira?!

- Não se esteja a rir, que eu não acho mesmo graça nenhuma à forma como vocês chegam às conclusões! Alem disso, o senhor está a partir do princípio que acertou! Em segundo lugar, um actor pode não gostar de artes ou poesia...

- Então mas isso é um contra-senso! Um actor escolhe essa carreira porque gosta da arte de representar!!!!

- Sim, mas pode ser um actor da vida real, que é o meu caso…

- Um actor da vida real?! Como assim?

- Eu, todos os dias às 09:00 da manhã começo a representar e ás 17:00, paro. Sempre com uma hora de almoço entre as 13 e as 14.

- O quê?! Nunca tinha ouvido falar em tal! Onde é que o senhor representa?!

- Não está a ouvir o que lhe estou a dizer! Eu sou um actor da vida real. Tipo um gajo que está no Big Brother. No programa, eles estão numa casa, a viver a vida deles, mas na realidade, estão a representar a vida deles como se eles fossem realmente assim, não deixando, no entanto, de ser a vida deles!

- E então o que é que isso quer dizer?! Caso efectivamente o senhor faça isso no seu dia a dia, Isso não lhe dá um salário! E, para alem disso, só revela que é uma pessoa que não gosta de se expor perante os outros…

- Das 09, às 17, tirando a hora de almoço, sim. Não me exponho perante os outros enquanto represento! Sou um actor da vida real nesse período de tempo! Acha que um actor se expõe assim perante os outros?! Pronto, está bem, há sempre uma parte de nós em cada papel, ok, mas é sempre mínima! Um bom actor, transforma-se noutra pessoa! É alguém que na realidade não é. E, mais uma vez, está a retirar conclusões que não sabe se são verdadeiras ou não… …

- Já não estou a compreender nada! Está a tentar dizer-me o quê então???

- É muito simples. Confesso que não esperava que me dissesse, que de acordo com os resultados que obteve, eu era uma pessoa que gosta de artes! Isto porque, todos os dias escolho uma personagem diferente para representar e, hoje tinha escolhido ser um actor à procura de um emprego! Gosto da ideia de representar aquelas pessoas que quando não conseguem vingar na arte de representar tentam arranjar um emprego normal a fim de encontrarem a normalidade na sua vida. Fiz-me entender?

- Eu acho que o senhor deve sofrer de alguma perturbação! Onde é que quer chegar?

- Não conseguiu ver essa perturbação nos resultados dos testes? Então é porque não a tenho! Como é que me diz agora que eu devo ter alguma perturbação? Ainda por cima sem certezas nem resultados para analisar…

- Bom, estou farto! Eu sei que a boa educação deve sempre prevalecer, mas isto é demais! Estou aqui em representação do cliente que contratou a empresa para a qual eu trabalho a fim de se conseguir reunir o melhor candidato ao lugar disponível. O senhor, perante as condições de admissão que lhe foram transmitidas, anuiu e fez todos os testes que lhe foram pedidos. Esta é a altura em que encetamos, como já lhe tive oportunidade de transmitir, a ultima fase da selecção. Fase esta, em que eu lhe transmito os resultados dos testes e tenho uma conversa consigo para avaliar o seu perfil e constatar se o senhor é, ou não, a pessoa indicada para o lugar. Neste momento e já passaram vinte minutos desde que estamos aqui, eu ainda não lhe transmiti os resultados nem tive a conversa consigo e já acho que o senhor não é a pessoa indicada para o lugar.

- Quando o senhor há pouco me perguntou se eu achava que tinha havido alguma irregularidade no processo, este momento conta? É que eu tenho a sensação que sem saber os resultados e sem ter a tal conversa consigo, o senhor não me pode dizer que eu não sirvo para o lugar! Como é que pode, ou consegue chegar à conclusão, que eu não sirvo para o lugar?

- Chega, está dispensado. Pode sair, depois informamos se ficou ou não.

- Assim! Sem mais nem menos! Não me vai dizer sequer os resultados? Isto, partindo do principio, claro, que esta já foi a conversa! Desculpe lá estar a insistir nesta questão, mas é que como já lhe disse, sou um actor da vida real e hoje tinha decidido ser um actor frustrado à procura de emprego. Já passa muito das 17 e como tal já não posso voltar à personagem! É um objectivo sabe, que impus a mim próprio. Não posso ser a mesma pessoa dias seguidos. Posso voltar a ser o actor frustrado outra vez, mas só daqui a 10 dias, que é o prazo mínimo para poder ser a mesma personagem. Como ainda fiz os testes encarnado na personagem, tenho curiosidade em saber os resultados! Fiquei deveras curioso com o facto de ter chegado à conclusão que eu gostava de artes!

- SAIA JÀ…

- A educação deve sempre prevalecer, foi o que disse há pouco! Diga-me, a quem é me devo dirigir para fazer queixa de si? Acho que todo este processo foi mal conduzido e que fui altamente prejudicado. Saio daqui sem saber os resultados, sem o emprego e com o senhor aos berros comigo sem razão aparente! Eu, tal como o senhor, também acho que a boa educação deve sempre prevalecer…

- O senhor dirija-se a quem quiser, faça queixas a quem quiser, não me interessa. SAIA.

- Responda-me só a isto, está aborrecido porque os resultados dos testes não correspondem à realidade ou porque os testes acertaram e o senhor não consegue lidar com a realidade?

- Boa tarde. Até um dia, obrigado.

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