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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O projecto - capitulo 3

Fomos de imediato para a loja onde o Guilherme tinha comprado a máquina. Quando lá chegámos, contámos ao dono o que se tinha passado desde o início do projecto. A loja era nova e eu não conhecia ainda o dono e nem consigo imaginar a cara de parvos que fizemos quando a resposta do homem ao que lhe tínhamos dito foi:
- Então, mas por que é que não tiram uma foto agora para ver se a máquina está estragada ou não?
O Guilherme desculpou-se dizendo que fazia parte do projecto tirar apenas uma foto por dia e que como não percebia muito de máquinas fotográficas queria que fosse o homem a ver a máquina. Ele mostrou as 3 fotos iguais ao homem e passou-lhe a máquina para as mãos. O dono da loja olhou para as fotos, disse que apesar de iguais as fotos estavam boas. De seguida, agarrou na máquina, apontou para a porta da loja e tirou uma foto. Esperámos impacientemente que a foto ficasse nítida Quando ficou nítida podia ver-se na foto a porta da loja. O homem olhou para nós e disse que a máquina não tinha nenhum problema. Eu ainda tentei falar com o homem e perguntar por que é que a máquina tinha tirado 3 fotos iguais, mas o Guilherme puxou-me e saímos da loja.
Quando saímos perguntei ao Guilherme o que é que ele ia fazer. Ele respondeu que não ia fazer mais nada a não ser esperar que chegassem as 15:45 de sexta-feira. Eu concordei, depois de provado que que a máquina não tinha nenhum problema restava agora tirar mais uma foto. Combinamos à mesma hora na praça no dia a seguir e fui para casa. Mais uma vez quanto mais pensava naquilo, menos percebia, foi um custo o resto do dia a noite e a manhã seguinte.
Eram novamente 14:00, estávamos na praça a olhar para todo o lado e a ver quem de vez em quando passava. Nem sequer nos dávamos ao trabalho de identificar quem passava, se não fossem as 4 pessoas que estavam nas 3 fotos não olhávamos outra vez. Ficamos assim até às 15:44. Enquanto nos aproximávamos mais uma vez da máquina para tirar a foto, disse ao Guilherme para não fechar os olhos ao tirar a foto. Ele concordou, e quando soou o toque das 15:45, ele de olhos bem abertos e olhar na direcção em que a máquina apontava tirou a foto. No tempo de espera para a foto ficar nítida, concordámos os 2 que ninguém tinha passado. Foi sem surpresa, e com surpresa, que vimos que a foto tinha ficado igual às outras 3. Nem tentámos perceber nada desta vez, apenas perguntei ao Guilherme o que é que ele ia fazer. Ele disse-me que já tinha um plano e que o ia por em prática nessa noite. Quando lhe perguntei qual era o plano ele recusou-se a dizer-mo! Eu tinha de ir passar esse fim-de-semana fora em trabalho, insisti bastante com ele para me dizer o que ia fazer, estive quase até às 10 da noite a tentar que ele me dissesse, mas nada. Fui-me embora sem saber o que ele ia fazer. Parti no sábado por volta das 10:00 da manhã. Como moro ainda relativamente longe da praça, ainda pensei em passar por lá, mas disse para mim mesmo que não podia passar o fim-de-semana a trabalhar com aquilo na cabeça. Aumentei o volume do rádio e sai da aldeia a toda a velocidade, mentalizei-me que só na Segunda é que ia pensar naquilo outra vez.
Na Segunda à tarde, quando cheguei a casa, tinha na caixa do correio uma carta. Vi que a carta era do Guilherme e abri a carta. Ele contava-me na carta que tinha, durante a noite de sexta para sábado, cortado a nogueira que estava na praça. Ele sabia que ao cortar a nogueira no Sábado de manhã, quando as pessoas começassem a passar pela praça, elas iriam ficar por ali para ver quem tinha feito aquilo e porquê. A azáfama que ele tinha pensado que ia existir existiu mesmo, e no Sábado à tarde, quando o Guilherme às 15:45 tirou a quinta foto, teve que pedir a um senhor para se desviar da frente. A praça tinha ficado cheia de gente no Sábado à tarde, o Guilherme tinha tirado a foto, e a foto tinha saído igual às outras quatro. Na carta, o Guilherme deixou escrito que a teoria dele para que as fotos tivessem saído todas iguais se devia ao facto de ele não acreditar em recordações através de fotos e que a partir do momento em que tinha iniciado aquele projecto, a única coisa que ele conseguia fazer era transpor a memória que ele tinha tido quando tirou a primeira foto para as restantes fotos. Lembrou-me ainda na carta que tirando ele mesmo, só o dono da loja tinha tirado uma foto. Portanto, para ele, a máquina nas mãos dele apenas iria tirar uma foto, e sempre igual à memória que ele tinha da primeira foto que ele tinha tirado. Despediu-se de mim na carta e disse que ia correr o mundo sem qualquer destino traçado, a fim de conseguir fortalecer e aumentar as suas memórias. Deixou-me, em conjunto com a carta, a chave da casa dele para que de vez em quando lá fosse ver se tudo se encontrava em ordem. Quando acabei de ler a carta, nada daquilo fazia sentido para mim! Por que é que ele tinha decido ir assim embora? Por que é que ele tinha cortado a nogueira se o problema estava naquela máquina? Por que é que ele não a trocou por outra e tirou uma nova foto? Por que é que ele não tirou uma foto noutro sitio, ou noutra hora qualquer? O que é que afinal se tinha passado? Nunca soube. A única coisa que sei, é que hoje é dia 22 de Junho e faz precisamente um ano em que o projecto começou. Hoje deveria ter sido tirada a ultima foto do projecto, e deviam ter sido tiradas 365 fotos e foram apenas tiradas cinco, seis se for contabilizada a foto da porta da loja. Hoje, fui lá a casa buscar a máquina. Quando li a carta tinha decidido, não sei porquê, continuar eu o projecto. Depois pensei que com aqueles dois dias em que tinha estado fora o projecto tinha perdido a continuidade, como tal continuei com a minha vida de sempre. Apesar de me lembrar disto quase todos os dias, tenho sentido menos necessidade de saber a explicação para o sucedido. Hoje, apenas por graça, não sei, como fazia um ano desde o início do projecto, decidi tirar uma foto na praça a um metro do sinal de trânsito que lá está, às 15:45. A foto saiu igual às outras cinco!

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