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quarta-feira, 26 de maio de 2010

O projecto - capitulo 2

No dia a seguir, às 15:30, lá estávamos eu e o Guilherme exactamente no mesmo sitio. O Guilherme refez a marca do dia anterior, colocou o tripé, a máquina, e sentamo-nos no chão à espera das 15:45. Não dissemos uma palavra, ficámos só ali à espera que passasse o tempo, nem sequer notámos quem passava e o que é que se passava na praça, ficámos apenas ali, sentados no chão à espera da hora para tirar a foto. Eram 15:44 o Guilherme pôs-se em pé, chegou-se junto à máquina, quando soaram as 15:45 ele tirou novamente a foto. Nos segundos que demoram para a fotografia a ficar nítida, a nossa expectativa era enorme, como é que seria que iria ficar a foto hoje, eu ainda tentei discutir com o Guilherme o facto de ele fechar os olhos no momento em que carrega no botão da máquina, mas não deu tempo para mais. A fotografia ficou nítida e podíamos ver agora a segunda foto. Olhámos um para o outro com um ar de espanto, pelo menos era esse o semblante do Guilherme, e ficámos uns bons 5 minutos a olhar para a foto. Na foto estavam a passar a mulher do dia anterior com o mesmo vestido, os mesmos óculos, o Sr. Matias lá estava também, no mesmo sítio a atravessar a praça, a Rosa a passar, e o Mota com a boca aberta! A primeira coisa que nos ocorreu depois de termos estado 5 minutos a olhar para a foto, foi que todas aquelas pessoas provavelmente tinham alguma coisa para fazer àquela hora e que devido a isso era muito possível estarem as mesmas pessoas na foto. A mulher eu não conhecia, não sei o que ela faz. O Sr. Matias pensámos que ainda fazia parte da guarda e que provavelmente se dirigia à esquadra para pegar ao serviço. A Rosa provavelmente ia para a escola. E o Mota andava sempre por ali. Corremos para casa do Guilherme para podermos comparar as fotos. Eram iguais! A mulher do vestido preto estava exactamente com a mesma expressão triste, reparávamos agora que ela tinha calçado uns sapatos pretos, daqueles com fiozinhos que se apertam nas pernas, em que os fios estavam exactamente na mesma posição nas duas fotos. A Rosa, tinha também a mesma roupa! Estava de costas e era a perna direita dela que estava à frente no sentido em que ela se dirigia. A praça é coberta por blocos de cimento, as divisões entre os blocos são bastante nítidas, e conseguia-se ver na foto que ela estava, tal como a mulher de preto e o Sr. Matias, no mesmo bloco nas duas fotos. O Sr. Matias, que se conseguia ver muito bem na foto, atravessava a praça nas duas fotos exactamente da mesma forma, a mesma roupa, a mesma expressão. Já não era a mesma expressão que ele tinha quando dizia, ai esta rapaziada, não era uma expressão triste nem alegre, era uma expressão de indiferença. Enquanto analisava a expressão do Sr. Matias, comecei a pensar na expressão dele e até me esqueci do que nos tinha acontecido. Foi o Guilherme que me chamou e me disse que o Mota também tinha a boca aberta e o braço direito levantado, exactamente da mesma forma nas duas fotos. Claro que a roupa também era a mesma, mas a roupa do Mota era todos os dias a mesma!
A primeira hipótese que tínhamos pensado já não fazia sentido, mesmo que aquelas 4 pessoas, 3 delas com compromissos ou outra coisa qualquer, tivessem que estar todos os dias às 15:45 na praça, era muita, mas mesmo muita coincidência que estivessem à mesma hora a fazer exactamente o mesmo que no dia anterior!
Estivemos horas a olhar para as fotos e a tentar arranjar explicações, não conseguimos achar nenhuma explicação lógica e decidimos que a prova dos nove seria a foto do dia a seguir. Combinamos não falar disto a ninguém e fui para casa. Passei o resto do dia e da noite a tentar não pensar naquilo que tinha acontecido mas não consegui. Olhei de 5 em 5 minutos para o relógio até ao dia a seguir às 15:40. No dia a seguir, fomos para a praça às 14:00, sabíamos que provavelmente ia ser pior estar ali à espera, mas queríamos ver se a mulher de preto entrava no café, se víamos o Sr. Matias, a Rosa ou o Mota. Não vimos ninguém, era quinta-feira, dia de trabalho, e normalmente a praça àquela hora estava vazia. Para tentar desanuviar o ambiente disse ao Guilherme que o sítio que ele tinha escolhido para o projecto até era bom, mas que a hora que ele tinha escolhido era uma porcaria, que àquela hora quase nunca iria apanhar ninguém nas fotos. O Guilherme olhou para mim com uma cara, que eu apercebi-me de imediato que não fazia sentido o que tinha dito e calei-me. Às 15:44 fomos para perto da máquina. Soaram as 15:45 e o Guilherme tirou a foto. Desatinei mais uma vez por ele ter fechado os olhos ao tirar a foto, ele ripostou dizendo que fechar os olhos fazia parte do projecto e que se eu queria ver como a foto ia ficar, porque é que estava a olhar para ele em vez de olhar para onde a máquina aponta. Com esta pequena discussão, esquecemo-nos de ver quem é que tinha passado na praça depois de a foto ter sido tirada, quando olhámos não vimos ninguém A foto ficou nítida, pusemos a cabeça em cima da foto e tivemos logo a certeza. A foto era de novo igual às outras duas!
Não sabíamos o que pensar, era impressionante o que estava a acontecer. Fui ao café a correr e perguntei ao dono do café, o Sr. Albano, quem era a mulher de preto que tinha acabado de sair do café. O Sr. Albano olhou para mim e perguntou-me se eu estava maluco. Ele disse-me que estava sentado naquele banquinho onde ele se senta, desde que eu me lembro de ir àquele café, e que não se tinha levantado dali há mais de uma hora! Fiquei perplexo, corri novamente até ao Guilherme e contei-lhe. O Guilherme então lembrou-se de um pormenor que nos deixou cheios de esperança de resolver o mistério. Tanto eu como ele não percebíamos nada de máquinas fotográficas, mas ele pensou que se calhar a máquina, como era nova, tinha um defeito qualquer e que provavelmente tinha ficado com uma coisa tipo negativo lá dentro em que cada vez que se tirava uma foto, a máquina revelava sempre a mesma foto. Depois de ele dizer isto, culpamo-nos por nenhum de nós ter olhado para a praça depois de ter sido tirada a foto, para ver se efectivamente as pessoas tinham passado lá ou não e depois culpamo-nos por não nos termos lembrado do problema da máquina antes.

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