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terça-feira, 25 de maio de 2010

O projecto - capitulo 1

- É hoje. De hoje não pode passar...
Foi desta forma que o Guilherme decidiu dar início ao seu ambicioso projecto. Há já alguns meses que o Guilherme andava a pensar nisto. Ele sabia que não era a ideia mais original do Mundo. Alias, ele sabia que não era uma ideia nada original, já n pessoas o tinham feito e ele estava plenamente consciente que não iria trazer nada de novo ao mundo. No entanto, este projecto, como ele lhe chamava, era de extrema importância para ele, dada a forma como, até então, levava a vida dele. O Guilherme, tal como a maioria dos meus amigos, era muito conservador no que a bens materiais se refere. Tinha sempre um armário cheio de roupa, papeis e não sei mais o quê, a que não dava uso nenhum. De quando em quando, conscientemente, espalhava alguns objectos desse armário por sítios mais recônditos da casa dele e deixava-os lá. Como costumava mudar com alguma frequência a disposição dos móveis, e mesmo de casa, quando essas modificações aconteciam ele encontrava novamente os objectos que tinha espalhado e recordava tudo o que aquele objecto significava para ele. Eu sempre achei isto uma parvoíce, mas para o Guilherme, o efeito que aqueles objectos, papeis, roupas, etc, tinham para ele era o efeito semelhante a uma foto antiga, que trás sempre memórias, por vezes até já esquecidas. Ele chegava mesmo a chamar-lhes fotos tridimensionais, reais, verdadeiras, com cheiro, palpáveis, tudo coisas que as fotos não têm. Para ele, tudo teria que ficar registado no corpo, na cabeça, na alma, no que lhe quiserem chamar. Para o Guilherme era muito mais importante ver um objecto e lembrar-se de si, dos amigos, de momentos, tal e qual como ele os recordava, do que ver uma foto.
Foi numa discussão sobre a importância das fotos, e sobre o que as fotos podem significar, que um dia ele, já meio irritado, decidiu, só para não me ouvir mais, que fotos dele e de amigos não tirava nem queria, mas que iria durante um ano fotografar um sítio qualquer e sempre no mesmo sítio à mesma hora. Eu nem me consigo recordar do motivo daquela discussão parva, nem porque é que ele decidiu aquilo, o que é certo é que se passaram meses depois daquela conversa e eu já nem me lembrava de a ter tido quando ele me disse:
- É hoje. De hoje não pode passar. Vou começar hoje a fotografar todos os dias às 15:45 a praça. Vou fotografar a praça todos os dias a um metro do sinal de trânsito que lá está, virado de costas para sul.
E pronto, nem me deu oportunidade de dizer nada. Fez-se ao caminho da praça com uma máquina fotográfica e um tripé na mão. Estávamos a 22 de Junho e eram sensivelmente 15:32.
O Guilherme detestava esperar, fazia-lhe comichões. Então resolveu comprar uma daquelas máquinas em que as fotos saem logo da máquina. Ele estava tão empenhado no que estava a fazer que comprou um tripé e tudo! Mediu um metro a partir do sinal de trânsito, fez uma marca no chão, colocou a máquina por cima do tripé e sentou-se ao pé do mesmo.
Ele tinha escolhido uma vista da praça em que era possível ver o relógio na torre da Igreja, que é um daqueles relógios antigos que tocam de quarto em quarto de hora. Virado no sentido que ele estava, à esquerda havia uma nogueira enorme. A árvore já devia ser bastante antiga e por isso proporcionava bastante sombra, era realmente imponente! Com a vista meio tapada pela árvore, havia mais ao fundo um café com uma esplanada na praça, tinha duas portas e uma delas estava virada para o Guilherme. Ao lado do café, havia umas escadas estreitinhas que começavam a fazer esquina a meio com uma retrosaria, e a fazer perpendicular com o café havia uma casa enorme e antiga. Dizem que pertenceu a um conde qualquer, eu nunca soube muito bem a história da casa, só sei que não vive lá ninguém há anos e que a casa apesar de bonita ainda, alguns vidros partidos das janelas começam a dar-lhe um ar decadente.
Eram 15:44 e o Guilherme levantou-se para tirar a foto. Quando o relógio assinalou o minuto 45, foi tirada a primeira foto.
Naquela foto, tirando o relógio na torre da igreja, que ficava muito alto e a máquina não podia alcançar, podia ver-se tudo o que já descrevi em conjunto com uma mulher vestida com um vestido de alças preto, uns cabelos longos, com óculos escuros. É uma mulher extremamente bonita e sexy, nunca a tinha visto por ali. Naquela altura lembro-me de pensar que pelo menos a foto tinha servido para alguma coisa, tinha visto uma mulher lá na aldeia que nunca tinha visto, ainda por cima bem bonita! Conseguia-se ainda ver na foto o Sr. Matias a passar. O Sr. Matias, era o guarda, quando éramos putos chamávamos-lhe Serôdio, ele não percebia porquê e ria-se, ao mesmo tempo que se ria dizia sempre, ai esta rapaziada! Na foto, o Sr. Matias tinha o bigode bastante mais branco e foi também nessa foto que reparei que o Sr. Matias estava muito mais velho do que eu me recordava. Por fim, foram também captados na foto a filha da D. Almerinda, a Rosa, que tem agora 14 anos, e o Mota, que andava pela rua a gritar que queria um café. Por acaso até ficou giro, o Mota ficou de boca aberta e dá logo a entender na foto o estado de espírito que ele tem sempre!
Para o Guilherme, ficava registado na memória dele aquele momento. Mostrou-me depois com orgulho a primeira foto que tinha tirado na vida. Devo admitir que até ficou gira e que comecei a achar graça àquilo, pareceu-me que ia ser uma coisa gira de se fazer. Decidi ir com ele no dia a seguir tirar a foto. Ele concordou que eu fosse com ele, mas avisou-me logo que eu não podia interferir na vida da praça, a partir do momento em que eu sabia que ia ser tirada a foto, eu não podia de forma alguma aparecer no campo de visão da máquina. Acedi ao que ele disse e fomos para casa.

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