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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lemonworld

Duas gotículas de suor escorreram suavemente pela sua face direita e caíram desamparadas em cheio na mesa. De braços caídos e com as costas curvadas sem tocarem no encosto da cadeira, no preciso momento em que caíam, o seu olhar finalmente derivou, a fim de poder contemplar a lenta evaporação das duas pequenas gotas que formavam agora duas manchas na madeira quase podre da mesa de jantar! Há muito tempo habituado ao baloiçar desengonçado da cadeira, cujas pernas, devido ao uso permanente, abanavam intensamente, raramente dava conta do que quer que fosse enquanto ali estava sentado a pensar. Sob o ritmo hipnótico e constante do bater exacto dos ponteiros do grande relógio de parede que jazia no meio da sala, passava horas e horas a deambular entre pensamentos desconexos e abstractos. Durante esse tempo, de trinta em trinta minutos, os únicos sons que se ouviam eram os do velho relógio a regurgitar automaticamente uma melodia desafinada e imperceptível que ecoava pela casa fora e que perecia, inevitavelmente, ao embater com estrondo nas paredes. Sempre que tal acontecia, e sem que ninguém desse por isso, outra minúscula fenda abria-se de rompante, e silenciosamente, passando a existir numa parede que outrora tinha sido branca! Estranhamente, apesar da sua idade e de todas as maleitas que a sua estrutura já possuía, o velho relógio continuava a cumprir a sua função na perfeição! Naquele dia, porem, aquelas duas gotículas de suor fizeram-no pensar de imediato e conscientemente no conta gotas da sua avó! Recordou-se do quarto azul clarinho, da colcha roxa com flores brancas de renda, da luz ténue do pequeno candeeiro da mesa-de-cabeceira, do lenço azul-escuro enfeitado com flores vermelhas no rebordo que ela trazia sempre na cabeça amarrado ao queixo com um pequeno nó, e da cara concentrada que fazia enquanto contava mentalmente o número de gotas de remédio que eram necessárias colocar num copo de água. Jamais se esquecera da boca da sua avó sem a dentadura! Soltou um pequeno sorriso ao recordar-se dos pedidos para dizer a palavra avião que usualmente fazia quando via a sua avó sem os dentes! Sorriu novamente, já sem saber por que razão, e voltou, inconscientemente, a centrar-se no bater dos ponteiros do relógio.

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