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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Raiva acumulada #3

- Bom, se fosse eu a chegar com o atraso que estás agora a chegar, tinha de te ouvir o resto da tarde a bramar...

- Ina, a sério, hoje não estou com paciência...Além disso, tens cá uma lata! Tu chegas sempre atrasado a tudo, eu chego uma vez atrasado, e é logo a mesma coisa...

-Calma pá! Estava só a entrar contigo. Está mal dispostinho o menino é?

- Não, estou sem paciência só. Tu acreditas nesta merda? Fui à médica, estive uns 45 minutos à espera, mesmo tendo chegado à hora marcada. Depois de ter desatinado duas vezes, por achar que o atraso já estava a ser excessivo, a puta da secretária vem ter comigo e diz-me que já posso entrar porque a doutora já terminou de ler o jornal! Achas esta porcaria possível?

- Bem! Disseste duas asneiras e tudo! Estás mesmo fora de controlo! Tem calma man. Já passou. Foste à médica porquê? Estás doentinho?

-... ...Bom, se tens mesmo de saber, fui à medica dos nervos...

- À médica dos nervos! Foda-se que cena mais à velho! Acho que hoje em dia nem os velhos dizem médica dos nervos...Mas foste à médica dos nervos porquê? Andas nervosinho?

- Foda-se qual é a tua cena com os inhos hoje? É tudo inho é?

- Bom, vou abrir uma excepção e vou falar mesmo a serio contigo. O que é que se passa man? Nunca te vi assim.

- Ando todo lixado da cabeça, sinto esta ansiedade, uma raiva acumulada, que não sei explicar, não sei, não sei...

- Calma. E porquê?

- Ela deixou-me. Se queres saber a verdade verdadinha, ela deixou-me....

- Então, mas...

- Sim, eu sei que já tínhamos falado n vezes sobre isso, e que era apenas uma questão de tempo. Eu sei, eu sei. Eu sei que apesar de tu achares que eu sou todo atinhadinho e de não usar o vernáculo com a mesma frequência do que tu, tenho um modus vivendi diferente da maioria das pessoas e que isso, mais cedo ou mais tarde, faz com que as pessoas se cansem disso. Mas com ela, apesar de ter noção de que ela se estava a fartar, não sei, não consegui parar de fazer o mesmo embora quisesse mesmo parar e ficar com ela, casar, ter filhos e faze-la feliz...Não sei...não sei...

- Eu ia perguntar então mas quando é que ela te deixou, tu és um gajo do caraças e nunca dizes nada a ninguém, preferes atrofiar...Bom, deixa lá. Mas agora percebo a tua falta de paciência nos últimos dias... Epá, mas porra, também não é o fim do mundo. E foda-se, ir a médicos dos nervos meu? Bebe uns copos, falas com os amigos, ou seja eu, curte, atira-te a outras gajas, daqui a uns tempos está tudo na boa outra vez. A gaja também tem um feitio fodido como tu sabes, ela está sempre a desatinar por tudo e por nada...E já agora, que já acabaram, eu sempre achei que ela não era mesmo a tua cena...

- Oh! Toda a gente tem o feitio que tem...Sabes, é que a nossa idade já não é a mesma, já não somos putos. Eu, por muito que queira tentar fazer o contrário, começo a desconfiar que já não mudo e que nunca vou encontrar ninguém que me ature com as minhas cenas. O pior é que eu estava convencido, ou convenci-me, que ela era a tal, a miúda que ia aceitar-me tal como eu sou, tal como eu aceitei a ela...

- Epá, desculpa lá, mas aí vou ter de discordar de ti. A gaja estava sempre com cenas...Tudo bem que tu fazes sempre aquilo que te dá na real gana, ela quase que não se via ao pé de ti. Nenhuma gaja gosta disso...Só que depois ela estava sempre com as merdas dela, sempre a foder-te o juízo, e não faças isso, e não faças não sei o quê, dass! Eu digo-te já, nem sei como é que tu aguentaste tanto tempo. Estava mais do que visto que mais ano menos ano ia cada um para seu lado. Agora não me venhas com a tanga que a culpa é toda tua e não sei mais o quê. A culpa é sempre dos dois, e eu até acho que foi mais dela e tudo...

- Não sei... Acho que é por isso que eu sinto esta raiva. A médica disse-me mais ou menos o mesmo que tu, que a culpa é sempre dos dois e tal...Não sei, sinto que ficou muita coisa por dizer, muita coisa que foi dita e feita e não devia...

- Estás a ver? Para o quê que vais à médica, tens é de falar comigo man. Sabes o que é que devias fazer?

- O quê?

- Escrever-lhe uma carta a expressar toda tua raiva acumulada.

- Uma carta? Que parvoíce...

- A sério pá! Se quiseres eu ajudo-te. Mas uma carta é o ideal. Deitas tudo cá para fora e dizes-lhe tudo o que tiveres vontade e atravessado na garganta sem diálogos ou discussões maradas, e ela fica a saber o que pensas e sentes da cena toda, e fica com espaço e tempo para pensar também. Vais ver que ficas logo fixe, aliviado vá....

- Talvez tenhas razão...não sei...não sei...

- Caga nisso agora, vamos beber um copo. Diz-me uma cena, a médica dos nervos era boa?

- Tinha de vir a estupidez!

- Então e tu, com toda a tua cena das cenas correctas, bem-feitas e o profissionalismo e tal, não desatinaste quando ela te disse que a médica já tinha lido o jornal?

- Ainda pensei nisso. Mas é uma médica dos nervos, tudo o que for dito ou feito em desatino ali dentro para eles é sempre porque um gajo não está bem dos nervos, não deve adiantar nada e ainda nos devem mandar internar. À cautela contive-me...

- Então mas e era boa a médica ou não?

- Nem reparei. A sério...

- Escreve a carta pá. Estou a dizer-te...

- Logo vejo...

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