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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Percebes

- Ouve lá, por que é que falas sempre nos percebes quando terminas uma frase? Qualquer coisa que me digas, qualquer coisa mesmo, tu terminas sempre a dizer “percebes”! Isso anda, há uma data de tempo, a fazer-me uma confusão do caraças. Qual a razão de mencionares tais animais no fim de cada frase que dizes?

- É uma mnemónica. O percebes é um bicho admirável! À semelhança do mexilhão, ou da lapa, vive alapado nas rochas, agarra-se com todas as suas forças à sua vida na rocha que escolheu para se colar, e sobrevive a todas as intempéries e ao mar revolto do Inverno dessa forma. Queres melhor referência para fixar uma conversa no teu cérebro do que um percebes?

- Tudo bem. Mas às tantas fixo o meu pensamento só na expectativa que vou criando enquanto falas comigo que acabo por ficar apenas atento e à espera que digas percebes outra vez! Não consigo depois prestar atenção nenhuma ao resto das coisas que dizes. Por exemplo, há 5 minutos atrás, quando estivemos a falar sobre castanhas, disseste 7 vezes percebes! Da conversa toda, só sei que disseste 7 frases e que eu respondi a 6. De resto, só me lembro que estivemos a falar sobre castanhas, mas não me lembro o que dissemos. Trocámos 13 frases e só me lembro dos percebes e das castanhas! De que forma o percebes ajuda a lembrar-me da conversa?

- As pessoas geralmente têm uma baixa percentagem de memória sobre a totalidade das conversas que têm. Instintivamente, geram uma súmula da conversa que têm e formulam uma opinião, ou uma impressão, sobre isso. Somente essa opinião, ou impressão, é que vai restar da conversa. Tudo o resto é eliminado para poupar espaço no cérebro. O percebes é a marca que uso para o meu registo cerebral, percebes?

- Então e por que é que não usas uma lapa ou um mexilhão? Não são igualmente admiráveis animais?

- Sim, são. Mas não se coadunam. Lapa acaba por ser muito redutor, transporta-nos sempre para uma determinada zona de Lisboa e por aí se fica. O mexilhão é pornográfico praticamente, muito movimento, muita bisbilhotice, impensável usar mexilhão. Tem que ser uma coisa suave, quase subliminar, para não se meter no meio da conversa e levar-nos para outros assuntos, percebes?

- Olha que é uma muito boa ideia, devo-te dizer! Vou começar a usar a mesma técnica nas minhas conversas.

- Hey, mas não vale imitações. Depois confundem-se marcas e corre-se o risco de se registar coisas que não são para ser registadas. Percebes?

- Sim claro. Eu vou passar a usar o tás a ver. Tás a ver?

- Tás a ver? Isso é estúpido! No que é que o tás a ver te pode ajudar naquilo que eu te estou a dizer, percebes?

- Então! O taz é o monstro da Tasmânia, rápido como um relâmpago! Queres coisa melhor para registar quase subliminarmente uma coisa no cérebro do que algo rápido como um relâmpago a ver tudo? Tás a ver?

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