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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Complexos #25

A memória dos primeiros dias de Abril trazia-lhe sempre boas recordações. Tinha sido algures durante os primeiros dias de Abril que tinha passado as primeiras noites de amor com a sua namorada. Começou novamente a pensar nesses dias, na confusão, nos esquemas e na adrenalina que tudo isso causava. Nessa altura, tudo tinha de ser feito ao pormenor para não se correrem riscos desnecessários. Enquanto pensava nisso, pensava também que naqueles tempos nada disso era um incómodo. As coisas eram assim porque tinham de ser assim, não se questionava nem se punha outra hipótese sequer, eram assim e pronto. Vivia-se com as oportunidades que se tinham, e essas oportunidades não eram para ser desperdiçadas.
Não se deu conta do tempo a passar. Já eram horas de ir embora. De repente parou, olhou novamente para o relógio e pensou.

- São horas de ir embora para onde? Qual é a minha pressa?! Pressa para quê?! São horas de ir fazer o quê?

Começou novamente a pensar, fazia tempo que ele não se questionava acerca das suas próprias acções. Pensou durante uns segundos, milhares de flashes na cabeça. Nada, não conseguiu perceber por que razão não se questionava a ele próprio, não se sabe há quanto tempo, o porquê das suas acções. Começou novamente a pensar, não conseguia encontrar um motivo para ir embora! E ir embora para onde? Por que é que de repente se tinha lembrado de ir embora?! Quando é que esta necessidade de se deslocar para outro lado qualquer tinha começado? Olhou para o relógio, começou a suar. Era a primeira vez em não sei quantos anos que ficava num mesmo sítio, mais do que 5 minutos, apercebeu-se disso naquele instante. Sentia o corpo a ficar dormente. Parte do seu cérebro fazia o corpo dele locomover-se, o corpo tinha dele tinha de se deslocar dali para fora rapidamente As pernas, sem ele querer, começavam a andar. Uma força estranha ao seu conhecimento impelia o seu corpo, para que se movesse para fora daquele lugar.

- NÃO QUERO SAIR DAQUI.

Gritou desesperado, enquanto a outra parte do cérebro lhe gritava para ele não sair dali sem ele saber porque é que tinha de sair dali. Não podia ser, agora estava uma mulher a falar com ele, perguntava-lhe se ele estava bem, se ele se sentia bem. Ele não sabia o que responder, não se tinha dado conta que estava a gritar, que havia pessoas à volta dele, quem era aquela mulher que falava com ele como se o conhecesse bem, o que é que ele fazia ali àquela hora, por que é que ele tinha de ir embora dali?

- O QUE É QUE EU ESTOU AQUI A FAZER?!!!

Gritou para a mulher, que entretanto estava branca de medo com a atitude dele.

- O que é que estás aqui a fazer?! Tu estás parvo?! Todos os dias quando saímos do trabalho vimos aqui beber alguma coisa, falamos um bocado e vamos para casa. Tu, como de costume, balbucias qualquer coisa, ficas 5 minutos e... ... AONDE É QUE VAIS, ESPERA AÍ... ... ESTÁS BEM?

Saiu a correr, não podia ser, não podia ser, como é que ele vai ali há anos? Quando é que tinha começado a trabalhar com aquelas pessoas?
Parou de correr. Ainda cansado por ter dispensado quase toda a sua energia na corrida de 20 metros que tinha acabado de efectuar, apercebeu-se, quando passou por uma montra, que não reconheceu aquela pessoa no reflexo do vidro. Voltou uns metros atrás e parou em frente à montra. Pela primeira vez, em anos, tinha olhado para si novamente. Estava mais gordo, com menos cabelo, a barba branca! Apenas se conseguiu reconhecer devido a um sinal de nascença, bem no meio da testa.
Sentou-se num banco de pedra e num instante percebeu tudo. Por uma razão que desconhecia, a rotina, que andava há anos a tentar caçar a sua mente, tinha conseguido os seus intentos. Durante anos a rotina tinha sido o seu maior inimigo. Durante anos tinha lutado com todas as suas forças para não ser mais uma presa da rotina. Ficou horas, sentado naquele banco de pedra, a pensar. Decorria mais uma noite de Abril...

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