• FIM
  • R.I.P

terça-feira, 16 de março de 2010

Within the hour

- Bem, trabalha agora, mesmo ao lado de mim, por causa da porcaria do “Open Space”, como aquela cambada de anormais gosta de dizer, uma gaja que me irrita os nervos de uma tal maneira que tu não estás mesmo bem a ver...

- Pronto. Lá começas tu com as tuas minhoquices...

- Quais minhoquices pá? Vais-me dizer que tu não te irritarias também se tivesses uma gaja ao teu lado o dia todo a contar histórias do filho e do marido, que ninguém conhece? Ou que não te irritavas por ela dizer que quando esteve grávida lia muito, porque esteve um mês de baixa, e que agora sente muita falta de ler, que anda mesmo a precisar de ler, para na conversa seguinte, com outra pessoa qualquer, neste caso um cromo semelhante a ela, dizer que leu um livro espectacular sobre os “illuminati”, do Dan Brown! E depois o anormal a responder-lhe com alto entusiasmo também sobre outro livro qualquer do gajo, e gera-se ali uma conversa tão merdosa que só me apetece chegar ao pé deles e espetar-lhes um greg em cima e depois dizer: Perdão, foi sem querer, enquanto limpo a boca na manga da camisa...

- Meu, tu és tão, mas tão anti-social! Tu não vês que as pessoas precisam dessas conversas insignificantes para poderem dar algum significado ao dia delas? Não é importante tu saberes do que elas falam, ou conheceres as pessoas todas de quem falam, o importante é partilhares o entusiasmo, a alegria, ou a tristeza, com que te dizem as coisas, para que as pessoas consigam estabelecer empatia contigo e se sintam confortáveis, e assim um dia, quem sabe, poderem ter uma conversa de facto importante contigo...

- Sim, claro. Dizes isso porque não és tu que levas com a minha mulher todos os dias a contar aquelas histórias deprimentes sobre as colegas de trabalho, amigas, como ela diz. Até a minha mulher pá...

- Eu percebo o que estás a dizer, mas tens de fazer um esforço para compreender que isso é importante para ela. E se é importante para ela, tem de ser importante para ti, mesmo que não te entusiasme muito a conversa...

- ... ... Pronto, és capaz de ter razão...Ou melhor, pensando bem na coisa, acho que tens mesmo razão. Ela até me anda a chatear que eu nunca ligo nada ao que ela me diz. Agora anda sempre a dizer que nada do que ela me diz ou faz me desperta algum interesse. Pudera.... Mas sim, é capaz de ser por causa disso que estás para aí a dizer...Já sei...É isso mesmo...

- Agora estás a falar sozinho! É isso mesmo o quê?

- Decidi agora mesmo que quero ter um tipo de vida, em que os anos de uma amiga dela, daquelas das aulas de aeróbica, por exemplo, vão ser importantes para mim também. Decidi que quero vibrar com isso da mesma forma que ela vibra quando olha para mim e me conta essas coisas. Que a história que ela me contar, sobre a cara que a amiga fez quando recebeu a prenda que a aula toda escolheu para ela, é impagável. Quero escrever dedicatórias em postais para pessoas que conheço mal, ou nem conheço, mas que são importantes para mim na mesma.
Decidi que quero ficar genuinamente preocupado com o facto de uma qualquer amiga dela, de quem eu só ouvi falar, andar consternada e a dormir mal, porque o marido descobriu um sinal esquisito nas costas…Há uns dias, recebi um e-mail, daqueles com piadas e coisas assim…Uma delas dizia qualquer coisa do género: “As probabilidades de encontrares alguém que não querias ver, aumentam exponencialmente quando estás com alguém que não querias ser visto com.”…Eu decidi que quero ter uma vida em que seja uma aventura termos que nos esconder nas escadas do cinema com medo que aquela gaja, que eu nunca vi mas sei que é uma chata do caraças e uma grande coscuvilheira, e que depois, por causa de um azar do caraças, acabe por nos ver na mesma, e seja cinicamente simpática, embora esteja o tempo todo a olhar para mim de lado, e vá no dia seguinte para o escritório dizer a toda a gente que passa, que nos viu bêbados no cinema, e que só gostamos de fazer figuras tristes, que fui eu de certeza que a desencaminhei…Decidi que quero começar a preocupar-me, genuinamente, com essas coisas todas…

- Por mim tudo bem. Até sou gajo para concordar com o que estás a dizer. Mas acho que, ou um gajo ou se preocupa, genuinamente, para usar essa palavra que usaste, com isso tudo, ou não se preocupa. Se tu, até hoje, não te preocupaste com isso, não é por tomares essa decisão que vais começar a sentir preocupação. Tudo o que vais conseguir fazer é mostrar um ar genuinamente falso quando mostrares preocupação, e vais acabar por convence-la que aquilo que ela te conta não te interessa para nada, que só serve para tu gozares. Vais começar a discutir sobre isso todos os dias, ela vai deixar de te contar o que quer que seja, vocês deixam de falar, acabam e nunca mais se falam. Acho que não vale a pena o esforço para mostrares que te preocupas…Não há nada como sermos nós…É verdade. Já te disse que vi ontem, no chão, um pinhão, em que se tu olhasses de um certo ângulo, aquilo parecia mesmo um cu! Ainda estive um bom tempo a olhar para aquilo…

- Um pinhão? Não seria um feijão verde? Ou um grão? O grão é que tem aquela coisa que parece uma racha…

- Isso são os tremoços! Não, era um pinhão. Então mas eu não sei o que é agora um pinhão queres ver?...

2 comentários:

Zigue Zague disse...

As pessoas que trabalham nessas modernices, open spaces ou lá o que é, sofrem muito. Eu bem sei.

(E eu estou a comer nozes agorinha mesmo)

AP disse...

:)