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segunda-feira, 22 de março de 2010

The way you crawled into my life and stayed there for a while...

Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje. Ia, ainda de manhã, a subir aquelas escadas que vão dar à feira que ainda há todos os Sábados, quando o meu vizinho me pergunta se eu preferia uma gaja gira de cara e feia de corpo, ou uma gaja feia de cara e com um granda corpo. Sem me deixar responder, ele disse-me logo que preferia, de longe, uma gaja com uma cara feia mas com um corpo do caraças! Depois disse mais meia duzia de baboseiras, como se soubesse realmente do que estava a falar, e eu disse-lhe que preferia uma gaja com a cara bonita, não sei porquê!
Claro que quase todas as miúdas eram giras! Aquela conversa da gaja gira de corpo feio e da gaja feia com corpo giro era tudo conversa de gajo com gajo para dar uma de gajo. No fundo quase nenhum de nós tinha dado um beijo na boca de uma rapariga e aquela conversa toda servia apenas para ver quem é que se picava mais para depois passar a ser a habitual vítima de que todos os putos precisam para se sentir bem uns com os outros. Havia sempre o totó, o caixa de óculos, que normalmente acumulava as mesmas funções do totó, o engatatão, vulgo gajo que já tinha tido algum contacto com o sexo feminino, o gajo que tinha mais lata, ou lábia, e depois os restantes mortais, que só não eram considerados também totós, porque depois os totós estariam em maioria e quem acabaria por levar porrada sem qualquer motivo aparente seria o gajo da lábia, já que o gajo que já tinha, comprovadamente, tido algum contacto com o sexo feminino seria o gajo em que todos os outros, totós incluídos, depositavam a esperança da partilha de todo o conhecimento e truques necessários para conseguir falar com as raparigas.
Mal estávamos a acabar de subir as escadas, deparamo-nos com duas miúdas sentadas a barrar a passagem. Uma loura, da minha altura, com os cabelos compridos, com um vestido de cor-de-rosa! Tinha umas caneleiras também cor-de-rosa e uns sapatos brancos. A outra, morena, devia ter uns sete metros, com um corte de cabelo punk, vestida de preto da cabeça aos pés, cheia de pulseiras, pins e brincos.
Gostas mais de heavy, break dance ou modern talking? Perguntou-me ele quase em surdina mas cheio de convicção.
Não sei, talvez de heavy...Disse eu sem saber o que era heavy.
Pronto, então ficas com a esquisita que eu fico com a outra.
E eu, no alto do meu 1.32m de altura, sem me passar pela cabeça ir falar com aquela rapariga, que sinceramente me metia um bocado de medo, disse: impec!
Chegados ao cimo das escadas, parámos, e ficámos os quatro a olhar uns para os outros.
Tens mortalhas? Perguntou-me a rapariga dos brincos? Não, disse eu, sem saber também o que mortalhas eram!
Fumas? Voltou ela a perguntar-me. Já me deixei disso, disse-lhe eu com segurança.
Tens que idade? 13, disse eu ao mesmo tempo que empurrava as mãos dentro dos bolsos das calças contra as minhas pernas.
Já viste, o puto é baixinho mas tem uma carinha baita nice! Não achas? Disse ela para a loura que acenou afirmativamente com a cabeça!
O que é que achas dele passar a ser a nossa mascote lá na escola? Voltou ela a perguntar à loura. A outra encolheu os ombros e disse que estava na hora de irem embora enquanto se levantava.
Eu tenho dezassete, disse-me ela enquanto se levantava também.
Eu vi-te ontem na escola e achei mesmo muita graça à forma como ias entronhado a entrar no pavilhão. Se algum dia tiveres algum problema na escola, se alguém se meter contigo diz-me que eu faço-lhe a folha. Depois deu-me um beijo na cara e desceram as duas as escadas calmamente!
Sem dizer uma unica palavra durante o tempo todo, o meu vizinho só me disse, quando elas já estavam bem longe: meu, tens a vida feita!

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