• FIM
  • R.I.P

terça-feira, 23 de março de 2010

Dr. Hellier

- Bom, D. Sofia, antes de me pronunciar sobre a sentença final, gostava de proferir umas palavras.
Eu sei que pode ser, ou parecer, pouco ético, pouco ortodoxo da minha parte, mas devo dizer que a senhora é, sem dúvida absolutamente nenhuma a maior desperdiçadora de Vida que eu já tive oportunidade de julgar.
Eu devo dizer que, apesar de estar legislado e de haver base e legitimidade da minha parte para poder tomar decisões nesse sentido, eu sou, por princípio, totalmente contra a pena de Vida.
No seu caso concreto, devo dizer-lhe que o seu comportamento é, em relação à Vida que lhe foi dada, tão negligente, que teria sido escusada toda a apresentação de factos e provas que comprovam o que todos, à vista desarmada, conseguimos confirmar. Eu vou, obviamente, escusar-me a referir novamente todos os casos, provas e factos que foram aqui apresentados. Mas, e perdoem-me os presentes a opinião meramente pessoal, a senhora merece sem sombra de qualquer dúvida a pena de Vida.
D. Sofia, hoje em dia todos os humanos estão conscientes que a Vida é um bem que não pode em circunstância alguma, perante a sociedade em que a senhora se insere, ser desperdiçado.
D. Sofia, o seu nome representa conhecimento, a senhora devia saber à partida que desperdiçar tempo de vida, ainda por cima da forma consciente e cruel para consigo própria, como a senhora o fez, que isso significa uma provocação deliberada à lei que a rege, não é possível que o conhecimento que o seu nome comporta não a tenha chamado a atenção para este facto.
D. Sofia, em ultimo lugar, gostaria de lhe dizer que me custa muito hoje em dia julgar um caso destes, e olhe que já sou juiz há praticamente 30 anos. Nunca nestes 30 anos de vida julguei um caso em que houvesse tanto desperdício de vida como no seu caso. Nunca na minha vida de juiz julguei um caso em que a pessoa, que deliberadamente desperdiçava vida, tinha ao mesmo tempo remorsos pelo que fazia. As únicas perguntas que a senhora não conseguiu responder durante o tempo que o julgamento decorreu foram estas duas questões que volto a fazer.
Se tinha consciência que estava a desperdiçar Vida deliberadamente, porque sentia então remorsos depois de o fazer?
Por que é que apesar dos remorsos, ou como a senhora diz, apesar de lhe custar muito, o que a levava sempre a manter tudo na mesma como tinha acabado de fazer, fazendo com que o desperdício de Vida que tinha acabado de fazer, fosse para sempre irrecuperável?
É, principalmente, a falta de resposta a estas duas questões que em conjunto com todas as provas que foram aqui apresentadas, que eu pela primeira vez em 30 anos de Juiz, tomo a decisão de sentenciar uma pena de Vida.
D. Sofia, a senhora é condenada à pena de Vida.
Estou certo que sabe o que isso acarreta, o seu advogado poderá esclarecer melhor o que isso quer dizer e poderá recorrer da decisão, caso assim o deseje, mas a partir de agora, a senhora terá obrigatoriamente de passar o resto da sua vida feliz e contente.
A sessão está encerrada.

1 comentário:

Zigue Zague disse...

Sorte a da D. Sofia não sair da sala de audiências com umas algemas, daquelas mesmo a sério. Porque as que usou até então chamam-se despalgemas (desperdício+algemas=despalgemas. Achei melhor explicar, não fosses tu não entender, o que era perfeitamente normal, porque aquilo não se entende mesmo).