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sexta-feira, 12 de março de 2010

Complexos #24

Depois de muitos dias de chuva, o Sol faz destas coisas. Ontem, imbuído pelo espírito festivo que o Sol provocou, de uma maneira geral, nas pessoas, decidi ir aquele jardim, tão bonito e com uma vista tão bonita, confraternizar com os demais transeuntes que por ali se pavoneavam. Mal sabia eu que no que me estava a meter! A coisa até começou por correr bem. Assim que cheguei perto do Jardim, já pejado de gente e povo, visto que não conseguia vislumbrar muito bem o Rio em todo o seu esplendor, decidi furar pela multidão com o intuito de me acercar daquelas grades verdes que impedem que uma pessoa caía pelo precipício abaixo, e poder aí desfrutar da paisagem em toda a sua plenitude. Foi então que quando pedi licença a uma bonita moça de vestido bordeaux e meias às riscas de todas as cores, cheia de brincos e com um cabelo muito espesso, que ela, muito simpática, me ofereceu um resto de cigarro que estava a fumar! Ora eu como sempre aprendi que não se deve recusar um presente dado espontaneamente, embora nem fume, aceitei de bom grado e até dei uns bafos, expressão que me disseram um dia ser a correcta para tal tipo de situação. Bem, mal inalei a primeira baforada de fumo, deu-me logo uma zamboeira que comecei a ver tudo à roda! Perguntei de imediato à menina o que era aquilo, ao que ela respondeu Cavalo! Nunca tinha ouvido falar em tal marca de tabaco, mas como há águia e também há camelo, pareceu-me normal haver um tabaco chamado cavalo. Apesar de não me recordar do teor da conversa que tive com ela, e com os amigos dela que entretanto tinham chegado com umas garrafas de cerveja na mão, sei que eles, e eu, nos rimos muito, até que me deu uma indisposição que me obrigou a ir a correr, dentro da medida do possível, à casa de banho pública que por ali há. Tenho cá para mim que o folhado de legumes que tinha comido ao almoço, eu quando estava a comer ainda pensei que aquele sabor agridoce poderia advir da courgette ou da couve roxa, foi o grande culpado por me sentir assim tão indisposto. Ora, na casa de banho é que foram elas! Assim que entrei, estava um moço à porta que me indagou se eu queria alguma coisa. Eu disse-lhe, a muito custo, que estava muito aflito e entrei a correr sem dar a devida atenção a tal amabilidade da parte dele, embora pensando bem agora, o que será que ele me poderia arranjar ali à porta da casa de banho? Bom, fui directo a um compartimento, que suponho que tenham tirado a porta para que o ar possa circular melhor, já que o cheiro não era, de todo, nada agradável, na altura ainda me passou pela cabeça dizer ao moço da porta para chamar alguém responsável pela limpeza, mas com a má disposição a agravar-se a todo o momento, rapidamente me esqueci disso e entrei sem hesitar. Depois disso, não tenho memória nenhuma do que aconteceu! Eu devia estar mesmo muito mal disposto, estou convencido que aquela couve roxa me provocou uma virose, porque caí redondo no chão e não sei quanto tempo ali estive a dormir. Só sei que quando acordei não tinha a minha carteira nem os meus sapatos! Há gente muito mal-intencionada no mundo, pensei eu com o que restava dos meus botões, sim porque aparentemente devem ter tentado tirar-me a camisa, só que não devem ter conseguido devido à posição em que estava. Ainda agora me dói o pescoço e fiquei com um torcicolo por causa de ter adormecido assim ali dentro. O problema maior foi quando me levantei e me quis vir embora. Em primeiro lugar, assim que me levantei, fiquei com as meias ensopadas, naquilo que até agora rezo para que seja água. Depois, ninguém reparou que eu ali estava. Ou então eu estava a dormir tão profundamente que não me conseguiram acordar. O que é certo é que fecharam a casa de banho, à chave, deve ser por causa dos vândalos que eles trancam a casa de banho à noite, como é pública há sempre abusos, e só hoje de manhã, por volta das 9, é que o senhor que costuma tomar conta daquilo me disse que adormeceu e por isso abriu mais tarde, é que consegui sair! Apesar de a noite ter sido depois um degredo ali dentro, embora já nem o cheiro me conseguisse incomodar, é sempre desagradável passar a noite sentado num lavatório, a única coisa que me pareceu minimamente limpo para me poder sentar, a cara do homem quando abriu a porta de manhã e me viu ali dentro foi impagável. Depois de lhe ter contado a minha história, e ele se ter desculpado por ter chegado mais tarde do que é habitual, ainda nos rimos a bom rir com aquilo. Ele pelo menos ainda se estava a rir, provavelmente a pensar na cara de espanto que fez quando me viu, quando eu me pus a a caminho de casa a fim de me despachar para ir trabalhar. E pronto, felizmente hoje já é sexta e continua Sol. A ver se é desta que hoje consigo desfrutar da paisagem, tão bonita, que aquele jardim tem.

1 comentário:

Tindergirl disse...

Ahahahaha!!!
Foi sem dúvida da couve roxa. De tão roxa que era devia estar estragada.