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segunda-feira, 15 de março de 2010

Common people

Por que é que eu acredito, à partida, no que acredito, ou não acredito, no que não acredito? Coloco-me esta questão vezes sem conta, sem nunca conseguir obter uma resposta satisfatória ou conclusiva. Como é que, não acreditando à partida em algo, passo a acreditar, e vice-versa? Claro que, quando se trata de pessoas, as atitudes delas perante nós são um motivo para acreditarmos, ou não, nessas pessoas, se bem que não consiga nunca entender como é que se chega à frase: "Afinal aquele gajo até é porreiro", ou então à frase " Pensei que aquele gajo fosse porreiro mas afinal não é"! É óbvio que se formula esta opinião com base em algo que essas pessoas fizeram, ou não, que nos fez gostar, ou não, delas. Mas o que é que nos fez não gostar, ou gostar, delas à partida? E por que é que foi assim? À medida que a idade de alguém vai avançando, as diversas situações pelas quais se vão passando permitem obter uma experiência de vida que vai fazendo com que a avaliação de algo ou alguém seja sempre condicionada pela tal experiência. Mas a primeira impressão, sensação, ou qualquer outra coisa do género, quando se tem contacto com algo ou alguém pela primeira vez, continuo sem saber explicar! Quando tinha 15 anos, tive uma professora, muito baixinha, gorda, tinha óculos fundo de garrafa e usava sempre um rabo-de-cavalo! O cabelo dela era todo grisalho e a roupa que usava era sempre muito simples, velha e preta, o que fazia com que ninguém, pelo menos que eu conhecesse, gostasse dela. Obviamente que sempre que passava, havia gozo e risota à sua passagem. Sempre que tal acontecia, ela nunca desviava o olhar, nunca manifestava desagrado ou tristeza por estarem a gozar com ela. Desta forma, para além de tudo o que já se conseguia ver e conhecer da professora, chegou-se também à conclusão que devia ser, ou surda, ou então parva. A forma que tinha de falar durante as aulas, era em tudo idêntica à sua figura. Tinha uma voz anasalada, falava relativamente baixo e raramente conseguia captar a atenção de quem quer que fosse. Durante as aulas que ministrava, era seu costume andar pela sala enquanto debitava a matéria. Ia andando, devagar, falava, mandava-nos calar ou pedia silêncio quando o barulho se tornava superior à sua voz, e continuava, impávida e serena, com a sua aula. Não sei como, nem porquê, mas gostava de mim! Tratava-me por filho, sabia o meu nome, para minha surpresa, e até chegou a achar graça a uma ou duas coisas que disse para a tentar ridicularizar! Uma das coisas que eu costumava fazer durante as aulas dela, era deixar propositadamente a minha caneta no chão para que ela quando passasse a esmigalhasse com o peso natural que tinha. Devo ter feito isto umas quatro ou cinco vezes! Em todas as vezes que isto aconteceu, desfez-se em mil desculpas por me ter destruído a caneta. Sempre mantive a minha postura depois do sucedido, ao mostrar o meu desagrado pela destruição da minha caneta enquanto ouvia os risos e os comentários jocosos da restante turma. A meio do segundo período, no fim de uma das aulas, chamou-me depois de ter dado o toque para a saída. Disse-me que queria falar comigo, que demorava apenas um minuto aquilo que me queria dizer. Assim que cheguei ao pé dela, perguntou-me por que fazia eu aquilo da caneta, sem qualquer tipo de ressentimento ou manifestação de desagrado. Não pude, nem soube, responder. Permaneci calado e quieto. Voltou-se para mim, chamou-me, mais uma vez filho, e disse que eu ainda era muito novo para perceber o que eu queria, ou não, fazer da minha vida, que era ainda muito novo para saber o que quer que fosse. Disse-me, a seguir, que sabia perfeitamente o aspecto que tinha, que sabia que todos os alunos na escola, bem como alguns professores, gozavam com ela. Continuei sem dizer absolutamente nada. Tinha a certeza que estava muito vermelho, só queria sair dali, mas ela pediu-me mais uns segundos para dizer que não se importava nada com tudo aquilo, que gostava de dar aulas, ainda que não fosse a melhor professora do mundo, e que gostava de ver a irreverência e a inocência à flor da pele, que existe na juventude, que era isso e só isso que a levava a dar aulas ali na escola. Disse-me, a seguir, que estava a dizer tudo aquilo porque me achava corajoso, porque gostava da audácia que eu tinha em deitar a caneta para o chão sem que ela visse para que ela quando passasse a partisse. Disse-me que eu devia manter a minha coragem ao longo da vida, mas que não devia julgar as pessoas pela sua aparência mas sim pelos seus actos. Assim que acabou de falar, sem dizer nada, saí dali sem saber o que pensar ou dizer. Não percebi o que ela me tinha dito, mas ela tinha-me feito sentir mal comigo próprio e eu não gostava daquela sensação. Até aquele dia só tinha tido aquela sensação no dia em que dei um pontapé na minha irmã, já nem me lembro porquê! O raspanete dos meus pais foi tão grande que tive pela primeira vez aquela sensação! Pela primeira vez tive a consciência pesada, senti-me mal comigo próprio, sabia que eu é que estava errado e sabia que as outras pessoas também sabiam disso! Ali estava eu agora, outra vez com aquela sensação! Tive vergonha! Nunca, nunca mais consegui gozar com aquela professora! No fim daquele ano lectivo, não sei porquê, ela deixou de dar aulas naquela escola. Uns três, quatro anos, depois, acho que já nem eu andava naquela escola, bateram à porta de minha casa. Era de tarde, só estava eu em casa, os meus Pais tinham ido trabalhar e a minha irmã estava na escola. Abri a porta. Ali estava ela outra vez! A minha ex-professora! Continuava vestida da mesma forma, acho até que com a mesma roupa, só que já tinha cortado o cabelo, agora estava curto, quase branco, já não era grisalho. Fiquei espantado quando a vi. Ela perguntou-me se eu estava só. Não me reconheceu, para meu espanto, e até alguma desilusão. Falou comigo como se nunca me tivesse visto antes! Não sei porquê, mas depois daquele episódio tinha ficado a gostar um bocadinho dela, embora nunca o tivesse admitido a ninguém. Depois de lhe ter dito que estava só eu em casa, entregou-me um panfleto e disse que voltaria noutro dia, numa altura que os meus Pais estivessem em casa. Antes de se ir embora, perguntei-lhe se conhecia os meus pais. Disse-me que não, que era a primeira vez que estava naquele prédio, e saiu. Olhei para o panfleto. Era um daqueles panfletos dos Jeovás que falam de Deus. Num certo domingo de manhã, ouvi a campainha tocar, depois de ter tocado uma segunda vez, quando me ia a dirigir para a porta, vi a minha Mãe gesticular para não abrir a porta. De seguida fez um gesto para que eu não fizesse barulho. Vi através do óculo da porta que era ela novamente, com mais panfletos na mão. Tocou uma terceira vez e pouco depois ouvi a porta da entrada do prédio a fechar. Nunca mais a vi depois desse dia.

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