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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Straight to hell

Tudo começou algures para o fim do mês de Julho e tudo terminou no princípio do mês de Maio. Na realidade não se sabe bem quando é que tudo começou ou terminou. Não se sabe nunca quando é que algo começa ou acaba, existe apenas o momento em que se tem consciência disso. Esse momento não é, quase sempre, o mesmo momento em que efectivamente as coisas têm o seu princípio ou o seu fim. Mas para que Ela se possa sentir confortável, para que na sua mente as coisas façam sentido, tem de ser colocado no tempo, o início de tudo no fim do mês de Julho e colocado um fim, no princípio do mês de Maio.
Ela sempre fora assim, tudo tinha que estar determinado no tempo, tudo tinha o seu tempo e tudo tinha o seu lugar. Para Ela, nada era feito ao acaso. Tudo o que tivesse acontecido, ou estivesse para acontecer, já estava previamente determinado. Não fazia sentido nenhum lutar contra isso. Para que tudo fosse mais fácil, confortava-lhe o pensamento de saber que as coisas não iriam ser como Ela tinha imaginado. Convencia-se a Ela própria, desta forma, que já sabia o futuro. Era apenas uma questão de se deixar estar, deixar acontecer. A surpresa de tudo o que lhe acontecia, era sempre suplantada pela conformidade de saber que era aquilo que iria acontecer. Apesar de nunca saber o que iria acontecer. Era como se a expectativa por Ela criada, do que estivesse para acontecer, fosse algo de tão extraordinário, que acontecesse o que acontecesse, nada iria superar as expectativas que já tinham sido criadas. Assim, o que estava para acontecer, permaneceria mais tarde no passado, como algo de irrelevante que tinha acontecido.
Era assim que Ela vivia a sua vida, as emoções que sentia e tinha, quando imaginava como iria ser mais um momento da sua vida, bastavam-lhe para que Ela pudesse na realidade viver esse mesmo momento com a mais perfeita calma e serenidade, sem nenhuma emoção. Era assim que Ela vivia os seus momentos. A única coisa que lhe podia garantir uma surpresa na vida, uma surpresa que lhe pudesse causar alguma emoção, alguma paixão de viver, era um dia viver de facto na realidade, exactamente o que já tinha anteriormente tinha vivido nos seus pensamentos.
Na manhã do dia em que isso iria acontecer, como de costume, Ela já visto o seu dia inteiro.
Ela tinha imaginado encontrar-se com ele por acaso. Tinha imaginado levar com Ela um artigo de uma revista que Ela gostava particularmente. Ele iria reparar nela porque se interessava também por aquele tipo de assuntos. Ele iria meter conversar com Ela, iriam beber qualquer coisa, ou comer um gelado e iriam estar a tarde toda a conversar sobre as mais diversas coisas. No fim da tarde, ele iria querer casar com Ela, iria dizer que nunca tinha sentido nada assim por ninguém e que estava certo que as coisas iriam resultar de certeza. Era o destino que os tinha juntado ali naquela tarde.
Aceitaria a relação e casar-se-iam em Setembro. Poucos meses depois, chegaria à conclusão que não dava. Por mais que quisesse agora já não iria conseguir imaginar como é que iria viver o seu futuro, já não iria conseguir prever as coisas, já não iria conseguir concentrar-se e manifestar-se calma quando as coisas não eram como Ela tinha imaginado. Ela iria perder o controlo da sua vida. Anos de discussões, planos falhados, insucesso na tentativa de ter filhos para poder salvar a relação, sogros intoleráveis e sempre a imiscuírem-se na vida deles.
Relutante, nessa tarde algures no fim do mês de Julho, lá levou a revista com Ela. Mal se sentou, começou a ler o artigo sempre atenta ao que se passava em seu redor e a ver se ele chegava entretanto. Ele chegou, e tudo, mas mesmo tudo ao pormenor, aconteceu tal e qual como Ela já tinha vivido nessa manhã!
Ela sorriu, manifestou o seu agrado por uma tarde tão bem passada. Assegurou-lhe que eles nunca iriam ser felizes. Deu-lhe um beijo na cara e partiu. Nunca mais se viram.

2 comentários:

Nova Estante disse...

Gostavas de saber o futuro?

Nova Estante disse...

Desculpa, sou a Joaninha, mas estou com um problema no pc e o Grain está´aqui/ lá com o teamviewer e eu não posso andar a mudar de conta que dá mt trabalho. :P