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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Papillon

Morena, apenas com um vestido de alças preto no corpo, ela está deitada em cima
da relva junto à estátua onde vários cães, das mais diversas raças, correm de um
lado para o outro a ladrar. Tem os olhos fechados, a cara virada para Sol, ao
mesmo tempo que ajeita as rastas do cabelo de forma a servirem de almofada
esfrega freneticamente os pés descalços e imundos na relva como se conseguisse
entrar em contacto com a terra ao fazer aquele movimento. Sorri, genuinamente
feliz, sem que haja uma razão aparente para tal, fazendo com que todos os
brincos que usa na cara suja, na língua e na testa, reluzam à medida que as suas
bochechas se movem. Respira fundo duas vezes e sossega, refastelada, como se o
mundo fosse efectivamente perfeito.
Ele, louro, com o cabelo curto e totalmente desgrenhado, sentado ao lado dela,
está concentrado a fazer um charro. De vez em quando dá um gole numa garrafa
verde-escuro de vinho tinto, sem rolha, para depois a encostar novamente à base
da estátua a fim de manter o precioso líquido à sombra. Usa uma t-shirt branca
com uns dizeres imperceptíveis devido à sujidade e aos buracos que a mesma
alberga, uns calções de ganga no mesmo estado que a t-shirt, e encontra-se
igualmente descalço e a esfregar, embora de uma forma mais lenta mas da mesma
forma que ela, os pés na relva. Termina de enrolar o charro, coloca-o na boca,
agarra um dos cães que por ali anda e dá-lhe um valente abraço. Findo o pequeno
convívio com o pequeno animal, que entretanto desatou novamente a correr,
deita-se ao lado dela e beija-a carinhosamente durante uns segundos. Sorriem um
para o outro e ele acende o charro virando também a cara para o Sol. Ali ficam,
durante o resto da tarde, sem dizerem uma palavra.
Uns metros à frente, onde uma esplanada de um quiosque proporciona uma vista
privilegiada de tudo o que se passa naquele jardim, um homem só, na casa dos
trinta, absorto enquanto olha para aquelas duas pessoas na relva, vê os seus
pensamentos serem abruptamente interrompidos pelo pedido de um cigarro que um
outro homem, com vinte e poucos anos, lhe faz descaradamente. Ainda meio
embrenhado no seu pensamento, esquece-se por momentos da resolução de não voltar
a dar cigarros a estranhos e puxa de um cigarro para o entregar ao estranho,
executando o movimento da entrega sem sequer olhar para ele. Visivelmente
satisfeito por ter conseguido mais um cigarro, automaticamente decide usar a
única forma de agradecimento que conhece, metendo conversa acerca dos dois que
se encontram agora deitados na relva em silêncio, proferindo meia dúzia de
enormidades das quais apenas uma é retida no ouvido do homem que se encontrava
sentado na esplanada. O mundo está cheio de pobres infelizes, disse ele enquanto
desfrutava do cigarro oferecido. O que é que te faz pensar que eles são mais ou
menos infelizes do que tu ou do que outra qualquer pessoa, ripostou o homem que
estava sentado na esplanada.

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