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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Bring on the dancing horses

Ainda com a respiração ofegante, devido a ter subido a íngreme ladeira em passo apressado, ao mesmo tempo que se sentava no banco verde de madeira, no jardim reinaugurado precisamente no dia em que se tinha mudado para ali, um casal de Alemães, albergando ténis e mochilas iguais, passava pacatamente usufruindo da vista privilegiada para o castelo que o jardim proporciona. Depois de se ter sentado, e antes de começar a ler o romance que levou consigo na mão esquerda, reparou que uma rapariga, com pinta de leste, ocupava o banco ao lado do seu com quadros, pulseiras e bugigangas para vender, enquanto olhava para o horizonte com o semblante triste e carregado. Acendeu um cigarro, coisa que aprecia sempre antes de começar a ler, e observou com cuidado o minúsculo rabo-de-cavalo que uma rapariga de franja e vestida de preto trazia no momento em que passou por si. À sua frente, junto à grade igualmente verde, duas estudantes de máquina fotográfica na mão e head-phones nos ouvidos acercavam-se de duas outras raparigas Espanholas e pediam, se elas não se importarem, para elas fingirem que alternavam o olhar entre um mapa, emprestado pelas duas estudantes, e um apontar de dedo fascinado para o Castelo. Uma das raparigas Espanholas, de olhos azuis, franja, e um nariz abatatado enfeitado com uma grande argola de prata na narina esquerda, acenou afirmativamente com a cabeça e durante três minutos, o tempo em que quase se consumia o cigarro, ali estiveram elas a olhar, a apontar, e a rir genuinamente, enquanto as outras duas faziam poses para alcançar o melhor plano. Deu uma última baforada, e expeliu o fumo pelo nariz. Normalmente não expele o fumo pelo nariz, mas talvez devido ao tamanho daquela argola, ainda na sua retina, foi movido pelo instinto a faze-lo naquele momento. Ainda esboçou um pequeno sorriso quando se lembrou novamente da pequena conversa que tinha tido um dia com uma rapariga Espanhola, e do olhar de espanto dela quando lhe disse, muito rapidamente, "No lo conoco". Afundou então os olhos nas letras e nas frases desconexas que o livro lhe ia apresentando, quando, um tempo considerável depois, a sua atenção derivou para o comentário: "Está frio chiça!", de uma rapariga usando um enorme cachecol cinzento à volta do pescoço e uma camisola preta com um decote do tamanho do cachecol, deixando grande parte da pele morena do tórax à mostra. Apercebeu-se que de facto o Sol já não brilhava no céu, que já nem sequer estava azul, e que estava até a começar a tremer de frio ali sentado no banco. Fechou o livro, e antes de se fazer novamente ao caminho, decidiu fumar mais um cigarro. A rapariga de leste ali continuava sentada, desta vez a fazer qualquer coisa no telemóvel. Olhou em frente, apreciou também o Castelo, e enquanto o cigarro durou, imaginou como teria sido o dia em que alguém tinha chegado ali ao cimo daquela colina e tinha decidido que era precisamente ali que se iria construir um Castelo. Antes de se levantar, ainda viu um velhote igualzinho ao súbdito do Herr Flick, da serie Alô Alô, com um chapéu e óculos iguais e tudo, a passar muito devagar por ele ao mesmo tempo que cuspia para o chão e limpava a boca com um lenço branco de algodão todo amarfanhado na mão direita. Levantou-se e rumou direito a casa, inalando o ar fresco e poluído da rua. Enquanto os táxis, os autocarros e os eléctricos passavam já cheios de pessoas a querer regressar a casa depois de mais um dia igual a tantos outros, a constatação que de facto é muito bom ser livre para poder fazer tudo aquilo que realmente nos apetece aquecia-lhe o pensamento.

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