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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Unnatural selection

Sábado, sete da manhã. Depois de terem tomado o pequeno-almoço juntos, após terem passado a noite a conversar sobre tudo e sobre nada, sentados num banco de um jardim com vista para o Castelo, o Orlando e a Sofia, que se tinham visto pela primeira, horas antes, num concerto dos D3O, tinham decido acabar a noite, ou começar o dia, a olhar para o Tejo. Apesar do frio e do vento que se fazia sentir, a alegria aquecia-lhes o espírito e fazia esquecer os arrepios que eram cada vez mais frequentes à medida que caminhavam de mão dada, visando o horizonte com um esgar feliz. Finalmente chegados à beira rio, deparam-se com um enorme bouquet de Dálias de todas as cores, abandonado perto da passagem que dá acesso ao cais dos barcos que rumam e chegam da margem mais distante. Sem hesitar, ao ver o bouquet, a Sofia espontaneamente trocou o seu primeiro beijo com o Orlando. Sem trocarem mais nenhuma palavra, ali ficaram, sentados, até o Sol ficar bem alto. Ele, de sorriso em riste, em silêncio e enquanto esfregava as suas mãos bastante doridas uma na outra, observava o brilho da água. Ela, de sorriso em punho, a inalar o perfume de uma flor de cada vez, voltava, descontraída, a ligar o seu telemóvel, confiante no futuro.

Sexta-feira, cinco da manhã. O Abdel levanta-se novamente cheio de frio e, como sempre faz, olha em frente, ainda estremunhado, verificando que os seus cinco filhos ainda estão a dormir. Repara que dois deles se encontram destapados, e abdica de continuar a dormir para ceder o único cobertor que lhe resta para os poder tapar. O seu pensamento é novamente invadido pela ideia de que um dia terá uma casa com mais de um quarto e uma cama para cada um, e chora, em silêncio, ao recordar-se novamente da mulher que tinha morrido, fazia agora precisamente um ano. Sem comer ou beber, sai de casa ainda de noite para se dirigir, como de costume, para o mercado, com o intuito de comprar rosas e dálias a fim de as conseguir vender nessa noite aos turistas e pândegos que usualmente à sexta-feira pululam por todos os cantos da cidade. Sem saber ler ou escrever, aquela é a única forma que conhece, desde que tinha decido emigrar na busca de uma vida mais confortável, para obter algum sustento. Depois de passar o dia todo a revolver contentores de lixo, e a recolher coisas abandonadas pelas ruas da cidade, à noite dirigiu-se para o centro da cidade, carregando às costas dois enormes sacos de flores. Porém, nessa noite, ainda antes de ter vendido uma flor sequer, sem saber de onde vieram nem porquê, é atacado por um grupo de homens, que sem dizerem nada de imediato começam a espancar o Abdel sem dó nem piedade! Segundos antes de ficar inconsciente, ainda sentiu o nó dos dedos frios de uma mão enorme a quebrar-lhe o maxilar!
Acordou horas depois, esvaído em sangue e com muita dificuldade em falar, com as pancadas no ombro de um compatriota que o tinha visto ali por acaso!
Sem qualquer dinheiro no bolso e qualquer comida em casa, implorou ao homem que o tinha acordado que ele lhe desse pelo menos um ramo de flores para conseguir comprar qualquer coisa para poder dar aos filhos!
Ali ficou sentado, absorto, sem se conseguir mexer, com um bouquet de dálias de todas as cores na mão.

Sexta-feira, nove da noite. O dia tinha corrido demasiado lento para o Alfredo. Não conseguia pensar em mais nada se não nas últimas palavras que a sua namorada, há onze anos, lhe tinha dito de manhã antes de ele ir para o trabalho. Como é que ele não se tinha apercebido de tudo o que ela andava a sentir? Como é que ele tinha deixado as coisas terem chegado aquele ponto? Como é que ele se tinha deixado alterar tanto sem sequer dar por isso? A frustração que sentiu durante o dia todo começava agora a transformar-se em medo. A vida que tinha sonhado para si, onze anos antes, nunca tinha chegado sequer a ter inicio! As coisas tinham corrido e decorrido demasiado depressa para que tivesse tido tempo para reparar que teria de ter virado à esquerda, numa altura em que seguiu em frente, enquanto olhava para a direita apenas e só para olhar, mais uma vez, para aquela que julgou ser a pessoa com quem iria passar o resto da vida. Tinha de tentar, pela primeira vez, apagar o passado, e pela última vez recomeçar tudo de novo. Bastava que essa fosse a vontade dela também. Confiante que o sentimento que sentia por ela era mais forte do que tudo, ganhou alento e correu rua fora, à procura da única coisa que sabia que ela iria gostar de receber nessa noite, a coisa que os tinha unido onze anos antes, junto ao Tejo, onde tinham trocado pela primeira vez o seu primeiro beijo. Enquanto corria sem saber para onde, de repente o olhar do Alfredo iluminou-se! À frente dele, um homem em muito mau estado e com muito mau aspecto, segurava na mão um enorme bouquet de Dálias de todas as cores. Sem sequer se importar com o estado do homem, deu-lhe cinco euros pelas flores e seguiu para a beira do rio. Ali parado, durante um numero incerto de horas, enquanto a Lua ia sendo coberta por teimosas nuvens que incessantemente passavam, telefonou cem vezes para ela sem obter qualquer resposta. Num acto desesperado, e sem mais nada que pudesse ou soubesse fazer, enviou-lhe uma mensagem terna de despedida e amor eterno, amarrou duas enormes pedras às pernas, e com as forças que lhe restavam empurrou-as para as aguas frias e calmas do rio que passa quase sempre devagar.

7 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Li a primeira parte sem saber que a segunda pertencia ao mesmo texto. Pensei qt à primeira que a história (como ando depressiva) podia não ter um final feliz e não lho desejei. Li a segunda parte e senti solidariedade com o infeliz e pensei que alguém lhe iria dar alguma coisa pelas flores ou que irir ser ajudado de qualquer forma.
Ao ler a terceira confirmei o que pensei qt às outras.
Mas podias ser um bocadinho menos pessimista que eu, não? :P

joaninha versus escaravelho disse...

AH! O texto está muito bom... :)

Tindergirl disse...

A vida também é feita de histórias tristes e encadeadas no espaço e no tempo com pessoas que se cruzam por acaso. E o amor existe :)
Obrigada AP!

AP disse...

Pronto, então, e para ser optimista, já que a agua do rio continua a correr em direcção ao mar, mudo o fim da história para a frase "Tudo está bem quando acaba bem" ;)

joaninha versus escaravelho disse...

Ahahaahah!
Que sádico!

Já agora aproveito para dizer que gostava de ter ainda um bocadinho daquele acreditar, da Tindergirl. Mas é bom ver que ainda há quem acredite. Sinto que fic assim um bocadinho na dúvida, o que é melhor do que não ter fá nenhuma no amor.
Obrigada Tindergirl. :)

joaninha versus escaravelho disse...

A minha fé é tão negativa que até escrevi fá... :D

Tindergirl disse...

Joaninha podes não ter fá, mas tem fé :)