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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em 5,4,3,2,1, acção:

- Tu não vês que isso é um falso problema?

- E então? Um falso problema não deixa de ser um problema. Alias, o facto de ser falso torna-o de imediato num problema! Se não tens um problema, mas julgas que tens, isso é um falso problema, no entanto, não deixas de ter o problema de achar que tens um problema que não existe. Tens na mesma um problema para resolver embora aches que só pelo facto de ser falso não necessite de resolução! Um falso problema, é na realidade um problema verdadeiro, mas que não existe. Se quiseres ser correcto, em vez de me dizeres que tenho um falso problema, terás que me dizer que tenho um verdadeiro problema, mas que não existe caso eu queira verificar que o problema que aponto como sendo um problema na verdade não é porque não se coloca essa situação nos termos que estou a falar. Caso me digas isto, aqui sim, poderia dar-te alguma razão. No entanto, não acho que a coisa seja assim tão fácil como estás a dizer, eu acho que tens um problema, real, verdadeiro, que existe e que tu apenas queres virar as costas porque o vês como falso. O falso não é invisível meu amigo, se não tens consciência disso, tens aí outro problema...

- A consciência é uma coisa lixada. É extraordinária, mas lixada! Sabias que foi inventada 1764 anos antes do primeiro homem pitagórico, a fim de conseguir fazer com que as gerações vindouras sentissem culpa e remorsos dos seus próprios actos. Uma invenção completamente falhada na altura, mas que foi ressuscitada alguns milénios mais tarde, e mantida desde então com grande vitalidade. Só que, como em quase tudo, esqueceram-se do princípio básico e elementar, o mesmo que tinha sido olvidado aquando da primeira implementação! Para que a consciência possa ser utilizada com total sucesso, é necessário dotar os seus utilizadores de conhecimento e inteligência, coisa que até aos dias de hoje ainda não entrou em vigor, nem é de carácter obrigatório para ninguém. As pessoas são egoístas e egocêntricas em tudo, dê-se as voltas que se queiram dar, disto não se consegue sair. Por isso é que apreciam tanto o facto de serem Pais. É a única situação que lhes permite, por um lado, poder castigar alguém que não fez aquilo que eles acham que devia ter sido feito, e por outro, aceitar com facilidade e alguma naturalidade que alguém não partilhe dos mesmos gostos e interesses. Por isso, meu amigo, não me venhas agora com a tua conversa fiada, porque eu, num acto de altruísmo puro, antagónico por consequência ao egoísmo de que falei, partilhei contigo a minha modesta opinião, no sentido de te alertar para um problema, que a meu ver, e atenção, ver esse que é dotado de todo o meu conhecimento e inteligência desenvolvidos ao longo da experiência de vida que fui adquirindo, é um falso problema. Caso queiras aceitar isso de bom grado, sem que vejas nisso uma segunda, terceira, ou qualquer outra intenção, tudo bem, a conversa foi feita para se partilhar opiniões, caso contrário, tudo bem na mesma, amigos como dantes.

- Por acaso, tem a sua piada teres mencionado a segunda, terceira, ou demais intenções. Quase nunca ninguém refere a primeira intenção, a que dá o mote a tudo o resto, a que origina o caos ou a ordem! Sempre sob o refúgio da total evidência, escondendo todavia essa mesma evidência através de palavras ou gestos de dúbia seriedade, as pessoas preferem logo olhar para a segunda intenção de uma forma genérica, e para as subsequentes intenções de uma forma particular! Então e a primeira, pergunto eu! E a primeira intenção, qual é? Não será um acto de altruísmo puro, como tu próprio disseste, um acto de egoísmo disfarçado de primeira intenção? E a graça que eu acho, quando se diz que não se tem qualquer intenção no que se diz ou que faz! Se é desprovido de intento, para quê dizer ou fazer?! E vens tu agora com essa conversa, essa sim, fiada, porque acaba por ser de borla, derivada do altruísmo puro, que na realidade não é mais do que o mesmo falso problema de que falavas! Não será todo o teu conhecimento, inteligência, ambos desenvolvidos ao longo da experiência de vida que foste adquirindo, uma forma de vanglória, uma forma de demonstrares o bom, sensato, e brilhante que és, tudo para que, inconscientemente até, se quiseres, o teu ego seja alimentado e essa mesma experiência possa mais uma vez ser enriquecida? Sim, porque o bom ou o mau são ambos fortes contributos para o enriquecimento da experiência, apesar de poderem haver estados intermédios, para os menos práticos, o bom e o mau conseguem quase que resumir tudo, sendo a experiência a única coisa que enriquece com ambos. Não será, de todo, pelo facto de não partilharmos um mesmo ponto de vista, que tu me dizes, complacentemente, que eu tenho um falso problema. É porque vês nisso uma oportunidade de demonstrar que eu estou errado e tu estás certo, motivação única que faz girar o mundo. O que aborrece realmente, excepto quando mencionaste a paternidade, é que tirando isso, o certo e o errado são tão subjectivos como o bom e o mau! Achas mesmo que é por tu me dizeres que algo, ou alguém, não são bons, que eu passo a achar isso também caso não pense primariamente dessa forma? A explanação de argumentos quanto mais cuidada for mais serve para demonstrar vaidade e presunção, nada mais meu amigo, nada mais. Mesmo que disfarçada de generosidade, essa bela palavra que desculpa o cinismo e oculta a mentira adjacente a todos os actos humanos, a primeira intenção....

- Bom, penso que já chega. Meninos, uma grande salva de palmas para estes dois excelentes e interessantes pedaços de excremento! Espero que todos tenham gostado, e principalmente aprendido alguma coisa. Lembrem-se meninos, estas conferências de ideias e conhecimento são pura ficção baseada no comportamento que nós, excrementos negligenciados em todo o mundo e deixados ao acaso em toda a parte, observamos nos humanos, e servem apenas para demonstrar o quão estúpidos podemos ser, quer queiramos quer não, se começarmos a comportar-nos como eles.
Pedia-vos então, e mais uma vez, uma grande salva de palmas para tão notáveis e dedicados excrementos, que tudo fazem para manter esta sociedade tão limpa e tão pura, quase que imaculada!
Deixo-vos com a máxima que nos rege a todos: o objectivo de todos nós é, e será, conseguir sermos os melhores excrementos possíveis e impossíveis de se imaginar. Mesmo que eles sacudam e sacudam, até depois de muito sacudir, há pelo menos um de nós que fica para sempre agarrado...

5 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Excremento: Aquilo que o escaravelho (eu, o outro lado do meu outro eu - joaninha) carrega de uma lado para o outro.
Logo, o problema de tudo no mundo é o outro, como se pode constatar com a palavra outro utilizada tantas vezes aqui em meia dúzia de palavras.

AP disse...

Pois! Lá diz o outro...

Em Bicos de Pés disse...

Eu só substituía ali as "conferências de ideias e conhecimento" por workshops. Diz que está mais na moda. :)

AP disse...

Nunca compreendi o conceito de Workshops! Se alguém tem trabalho, obviamente que não vai a uma loja de trabalho. A não ser que seja garganeiro, não precisa de comprar mais trabalho.
Se alguém não tem trabalho, como não é um bem de primeira necessidade,(o IVA até deve ser de 20% ou 21%, nunca sei o seu valor) será também obvio que esse alguém, com o pouco dinheiro que terá, irá preferir comprar outras coisas mais importantes. :]

joaninha versus escaravelho disse...

Agora que falam disso aproveito para dizer que penso exactamente o mesmo.
Será que em vez de shop queriam dizer oficinas? Nunca entendi bem isso... mas a Em Bicos de Pés tem razão: está mesmo na moda! Até eu, apesar de não perceber o conceito já frequentei isso e até já organizei!
Às vezes fico surpreendida comigo mesma.
Mas foi assim: "Olha vou organizar os tempos livres para os miúdos das escolas. E diz o outro (lá está o outro) : Olha chama-lhe Workshops. E eu assim fiz. :/