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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Complexos #22

Todos os dias, desde que trabalho ali, quase que automaticamente, e como penso que a maioria das pessoas igualmente faz, digo bom dia àquelas pessoas a quem, tão-somente, todos os dias digo bom dia, ou boa tarde, quando passo por elas, dependendo sempre da hora do dia a que as vejo. Uma vez que a minha relação com elas se fica pelo estatuto de colegas de edifício, ou da mesma empresa, não consigo encontrar outras palavras para dizer. Não sei o que fazem, o que pensam, ou sequer o seu nome, sei apenas que trabalham no mesmo sitio do que eu! Não sei explicar a razão que me impede de pensar que não dizer nada, como se faz noutro lado qualquer que não o local de trabalho, seja o mais correcto de fazer.
Num grau relacional acima, estão aquelas pessoas com quem esporadicamente tenho uma conversa totalmente inócua. A essas pessoas, a seguir ao bom dia ou à boa tarde, pergunto, usualmente, se está tudo bem? Não deixa de ser curioso o facto de trabalharmos no mesmo edifício, e por consequência sermos “colegas” de trabalho, pessoas a quem em mais nenhuma circunstância diríamos bom dia ou boa tarde, que no local de trabalho o façamos sem pensar porquê, quando alguém passa por nós, ou está no elevador quando nós estamos a entrar. Em relação àqueles a quem pergunto se está tudo bem, é igualmente uma pergunta automática, à qual unicamente espero obter uma de duas respostas possíveis: A resposta "tudo". Ou então, a resposta "tudo", seguida de, "e tu?"! Indo, posteriormente, cada um a sua vida, depois de ficar a pairar no ar a palavra tudo. O processo inverso, obviamente, também acontece.
Já as conversas inócuas que eventualmente possa ter com elas, seguramente (não tenho memória do assunto de nenhuma delas!), não nos permitem alargar o espectro da nossa relação ao ponto de, numa situação de passagem, um cumprimento ser mais do que um Tudo bem!? Sendo que, mesmo assim, faça com que isto já seja substancialmente mais íntimo do que um bom dia ou boa tarde! Não consigo, de todo, perceber aquelas pessoas que dizem bom dia apenas com um abanar de cabeça, ou então com um boa dia dito tão baixinho, tão baixinho, que só podemos depreender que dali saiu um bom dia, uma vez que vimos os lábios a mexer enquanto alguém passava por nós! Há sempre a possibilidade de nos terem mandado para um sitio qualquer e ser a nossa imaginação que quer ouvir um bom dia! Não consigo perceber também a razão pela qual algumas pessoas, na tentativa de dizerem bom dia despercebidamente quando passam, o fazem como se estivessem a expurgar algo do corpo! Algo que eles próprios não sabem o que é, executando para isso um grunhido imperceptível, disforme, meio sussurro, meio berro, interligado por um som claramente audível, mas perfeitamente incompreensível! Contudo, no meio de todos estes automatismos, provavelmente por serem automáticos mas não infalíveis, hoje de manhã fui apanhado completamente desprevenido! Depois de ter efectuado a usual pergunta, tudo bem? Obtive a resposta: Não pá, não está tudo bem! O que responder a tal coisa? O que é que se responde a alguém que responde todos os dias, tudo? Ou então que pergunta todos os dias, está tudo bem? Sem saber, literalmente, o que dizer, parei, durante dois segundos, fiz a cara de pesar mais convincente que até hoje consegui fazer, e respondi, por duas vezes, separadas por um silêncio subtil e reflectivo: pois, é a vida!... 3 Segundos depois, sem mais nenhuma palavra proferida, cada um seguiu o seu caminho. Na cafetaria do edifico, havia hoje um pequeno bolo-rei à descrição, oferecido não sei por quem.
É uma pena nunca ter gostado de bolo-rei... O que se deve ter socializado por ali hoje...

3 comentários:

B disse...

Não simpatizo com pessoas que cumprimentam com um grunhido, nem com pessoas que não cumprimentam, nem sequer gosto de bolo-rei. Surpreendo-me com pessoas que respondem com um "não, não está tudo bem". E gosto de bolo-rainha.

B disse...

(e fiquei reduzida a um B...)

AP disse...

Estou a ber... ;)