• FIM
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Banda Sonora

Já não me recordo da última vez que adormeci noutra posição que não a de estar deitado de lado, com a face direita assente na almofada. Ontem, antes de adormecer, decidi dormir deitado para o outro lado. Assim que me virei, reparei que a cama é na realidade muito mais larga do que eu imagino quando adormeço virado para a porta do armário! Virado para o outro lado, vejo a janela e a parede branca! A luz que entra pelas frinchas das persianas, da janela agora de frente para mim, consegue desenhar por cima do lençol, o rectângulo perfeito de uma outra almofada! Há outra almofada do outro lado da cama! Há quanto tempo estará ali, intacta? Não quis perder tempo a pensar nisso, levantei a cabeça e encostei-a de imediato na outra almofada. Queria ver que forma a sombra tomaria depois! Estava fria, gelada, arrependi-me logo de ter encostado lá a cabeça! O que fará aquela almofada gelada ali? Quem é que a pôs ali? O lençol enrolou-se e começou a prender-me as pernas, estava cada vez mais e mais apertado! O arrepio de frio nas costas, provocado pelo gelo da outra almofada, não me passava, era cada vez mais longo…Esperneei até a roupa da cama ter caído toda no chão e levantei-me de rompante. Acendi a luz do quarto e dirigi-me à cozinha. Deu-me sede, precisava de beber um copo de água. Assim que abri a porta do quarto, vi que a luz do corredor estava acesa! Deixei a luz acesa?! Comecei a rever os meus passos todos, desde que tinha chegado a casa até à hora em que decidi deitar-me. Não me lembro de ter deixado nenhuma luz acesa! A luz do corredor?! Enquanto pensava, apercebi-me que permanecia à porta do quarto. Apaguei a luz e dirigi-me para a cozinha. Não foi preciso sequer entrar para poder ver. Assim que dei os cinco passos, medianamente largos, necessários para chegar à porta da cozinha, constatei que a luz também estava acesa! Fui à sala, ao outro quarto…Corri a casa toda! Todas as divisões, com excepção do quarto, estavam com a luz acesa! Terá faltado a luz?! Que disparate! Mesmo que a luz tenha faltado, alguém teria de ter ido a todos os interruptores! Corri para a sala, queria encontrar a chave do carro e sair. Já não me queria deitar. Onde é que eu deixei a chave? A chave não pode ter desaparecido! Sempre que perco alguma coisa, depois de procurar em todo o lado, apercebo-me que me esqueci de procurar no sítio mais óbvio! Baixei-me para procurar debaixo do sofá. Debaixo do sofá, o chão tinha desaparecido. Havia um buraco negro enorme! Em frente ao sofá, no meio do tapete da sala, estava um biscoito castanho para gatos. Era totalmente castanho, com uma risca ainda mais castanha a meio! Abri a janela e mandei-o fora. Fez um estrondo semelhante a um trovão quando caiu no chão! Contei até seis… Nada de mal aconteceu. Apaguei as luzes todas e tornei a deitar-me. Desta vez com a face direita na almofada...

James - Out to get you

domingo, 29 de novembro de 2009

Num substantivo, o concerto dos Muse hoje foi:

Beatriz

They will not control us we will be victorious

De tantas expressões e palavras, tais como gaita, sarilhos, ou até mesmo topas, esta ultima ainda usada por alguns argumentistas e tradutores, quando querem caracterizar uma personagem rebelde ou maléfica, tão usadas há uns anos atrás, e que hoje em dia estão tão infortunadamente a cair em desuso, a expressão que me está a dar mais pena deixar de ser usada, por ter sido substituída, sabe-se lá porquê, pela expressão aperto de mão, é a expressão passou bem! O que eu gostava quando era mais catraio que o meu Pai ou meu Avô me dissessem, quando encontravam um amigo ou um conhecido, "então não dás um passou bem ao senhor?" Durante anos, cheguei mesmo a pensar que um passou bem se tratava de uma só palavra e que o genuíno cumprimento ou saudação, o hoje em dia denominado aperto de mão, se chamava, efectivamente, passoubem!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Get behind the mule

- Absolutamente!

- Absolutamente? É isso que tens para dizer? O que raio é que queres dizer com isso?

- Então!...Quer dizer que concordo em absoluto contigo! Concordo com o que estás a dizer!...

- Concordas com tudo? Não tens absolutamente nada contra? Ou a favor? Não tens nada a acrescentar ao que te disse, mesmo concordando com tudo?

- Não. Concordo absolutamente com tudo o que disseste.

- Outra vez o absolutamente! Mas tu agora concordas absolutamente com tudo o que te digo?

- Não. Só concordo absolutamente com o que disseste há pouco. Com o que disseste agora não concordo.

- Mas tu não vês que não podes responder assim? Tu não vês que não te podes limitar a dizer que concordas ou que não concordas! Tu não fazes a mínima ideia do que é uma conversa pois não?

- Faço! Por acaso até faço. E tu, fazes ideia do que é uma conversa?

- Sim. Eu é obvio que faço! Se tu sabes também, devias então saber que para a existência de uma conversa, para que uma conversa possa ter continuidade, tens que fomentar a conversa. Tens que acrescentar algo ao que acabas de ouvir. Tens que responder, tens que concordar ou não concordar, e tens que fundamentar a posição que tomas. Quando queres dizer bem ou mal, ou dizer que concordas ou que não concordas, tens que acrescentar algo à conversa. A base de uma conversa é acrescentares algo a essa conversa, não te podes limitar a dizer que concordas absolutamente, ou que não concordas, e pronto! Como é que queres que eu possa continuar uma conversa com as tuas respostas?

- Ora essa! Mas por que é que uma conversa tem de ter várias perguntas e respostas? Para mim uma conversa, mas uma conversa a sério, é feita de pequenas, pequeninas, e médias conversas. Ao fim de algumas destas conversas, no mínimo 4, aí sim, teremos uma verdadeira conversa. Claro que se eu não concordar com o que me estão a dizer, terei de dizer alguma coisa para justificar isso, agora neste caso concreto eu concordo com tudo o que dizes. Nada tenho a acrescentar a isso, pronto, está feita uma pequena conversa, podemos de imediato passar para outra pequena, media, conversa. Obviamente que se eu tivesse apenas acenado com a cabeça, afirmativamente, aí não estaríamos na presença de uma pequena conversa, mas sim de um monólogo, dado que tu não terias obtido qualquer som da minha parte, mas se eu tivesse acenado negativamente com a cabeça, teriam de ser aplicadas as mesmas regras que são aplicadas quando se discorda verbalmente, ou com som, se preferires. Agora isso que me estás a dizer, é quase a mesma coisa que me dizeres que eu por deixar crescer a unha do meu dedo mindinho, só o faço com o único intuito de poder coçar a orelha com a unha! E isso, como deves facilmente calcular, é completamente ridículo, não é esse o único propósito quando se deixa crescer a unha do dedo mindinho.

- Isso é a comparação mais estúpida que já ouvi até hoje e não sei onde é que consegues aplicar essa comparação nesta conversa! O que raio é que queres dizer com isso?! E por que é que estás a deixar crescer a unha do dedo mindinho?

- Não sei porque é que é uma comparação estúpida! Tu estás a querer impingir-me a tua ideia de conversa, e eu, que tenho outra ideia sobre o que é uma conversa, expliquei-te exactamente isso, terminei essa explicação estabelecendo a comparação que tu denominaste como estúpida, mas que para mim, é uma comparação em que está subjacente a ideia que te acabei de transmitir. Estou a deixar crescer a unha para provar exactamente o que te disse, que nem toda a gente deixa crescer a unha com o intuito de coçar a orelha!

- Mais uma parvoíce! Isso não prova nada! Que outro motivo tens então para fazer isso? É obvio que qualquer pessoa vai pensar que é para coçar a orelha, por muito limpa e imaculada que consigas ter a unha, que, digo-te já, duvido muito que o consigas...

- Isso é que era bom! Está aqui à tua frente, podes ver que está perfeitamente limpa e imaculada! Alem disso, posso sempre dizer que é para tocar guitarra! Embora eu não saiba tocar, ninguém precisa de saber isso, basta que apresente outro motivo, que isso basta para desmistificar o mito de deixar crescer a unha unicamente com o objectivo de poder coçar o ouvido.

- Deixas crescer só a unha do mindinho para tocar guitarra? É só para os solos não? Por que é que é tão importante para ti desmistificar isso?... …Estás a ouvir? O que é que estás a fazer?

- Estou a fixar o olhar no empregado.

- Para quê?

- Então tu não sabes que se ficares o teu olhar em alguém, mais cedo ou mais tarde essa pessoa vai olhar para ti? Tu sem saberes sentes-te observado e instintivamente olhas para o sítio de onde vem o olhar.

- Tu e as tuas grandes teorias! E por que raio é que queres que o empregado olhe para ti?

- Quero pedir um chá! Por que é que fazes sempre as perguntas usando sempre a palavra raio?

- Nunca compreendi isso! Uma pessoa diz uma coisa, duas, três vezes, e fica logo rotulado como sendo para sempre, ou fazendo sempre a mesma coisa? Porquê?

- Eu pessoalmente não penso assim. Só que é um facto que tu hoje já disseste raio, e depois a pergunta, três vezes!

- Olha, está aí outra coisa que me faz confusão! “Eu pessoalmente”! O que raio é que isso quer dizer? Se és tu que pensas, não será pessoal?

- Vês? ... ...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Instant street

- Consegues irritar-me profundamente com essa tua “boa onda” constante! Não é possível! Pura e simplesmente não é possível que tudo esteja bem, sempre, para ti! E isso irrita-me. O que é que queres que eu te faça?...

- Pá, não é preciso fazeres nada. Por mim na boa...

Fell off the floor, man

Um gajo sabe que se transformou num adulto, quando compra pela primeira vez, sozinho e por necessidade, um par cuecas ou de meias...

Suds & Soda

- Já ouviste falar do Humberto Delgado?

- Não, mas já ouvi falar do João Grosso.

Acção de Graças: Obama salva dois perus de serem cozinhados

Ora aí está a justificação do Nobel.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amy Winehouse quer casar de novo com Blake Fielder-Civil

Mas desta vez pela Igreja.

EUA não assinarão tratado que proíbe minas terrestres

Como de costume, lá estão mais uma vez os Americanos a minar tudo...

Free your mind

Ontem ele, armado em intelectual tenho quase a certeza, chegou ao pé de mim, ele sabe que eu aprecio muito o passatempo da leitura, e perguntou: Há quanto tempo é que leste Tóris?
Há quanto tempo é que li Tóris? Perguntei eu de volta, meio surpreendida com a pergunta. Mal eu tinha acabado de falar, começou a rir-se, o parvo. Também não me desmanchei, se ele pensa que pode mencionar um autor que por mero acaso não conheço, tenho a certeza que é apenas e só um mero acaso, porque eu leio muito, eu sei que leio muito e estou sempre a par de todas as novidades literárias, nacionais e internacionais, mais badaladas claro está, enganou-se redondamente. Ripostei de imediato que há muito tempo que tinha lido alguma coisa e que não tinha lido mais nada porque não me tinha cativado. O imbecil, que ainda por cima nem falar sabe, teve a audácia de me dizer para eu lhe dar uma outra oportunidade porque é um glande autor! Mas se ele continuava a pensar que me apanhava na curva, voltou a enganar-se, respondi-lhe logo com a pergunta: Ai é, por acaso já o viste para saber se ele é grande ou pequeno?
O ignorante, ai que raiva, só de me lembrar fico logo cheia de brotoejas, teve o desplante de dizer que o importante não é o tamanho mas sim a forma como se trabalha! E depois foi-se embora a rir! Parecia mesmo que estava a gozar comigo! Passou-me uma coisinha má pela cabeça, às vezes dão-me estes achaques, e gritei para toda a gente ouvir: INCULTO. TU NUNCA LESTE TÓRIS, EU É QUE LI TÓRIS. Fiquei mesmo satisfeita comigo mesmo por ter conseguido ter a coragem de demonstrar a toda gente que estava a olhar para mim, e a rir-se também, que quem vai à guerra dá e leva.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Jogos físicos e psicológicos

..."Ainda hoje consigo sentir o teu sabor na minha boca sempre que viajo sozinho de carro, ou de comboio, ou até de expresso! Se tiver de fazer uma viagem ligeiramente mais longa do que o usual, mais de trinta km já são suficientes para que comece a ser invadido por pensamentos de tal forma reais que chego efectivamente a sentir a tua pela na minha, os arrepios, o tesão que tal sensação me provoca! Desde que te vi pela primeira vez, a sorrir à minha frente, que me basta olhar para ti para que fique de imediato com uma erecção! É praticamente automático e não tenho qualquer controle sobre tal fenómeno! Quando dou por mim, sem ter ninguém ao lado para conversar, estou embrenhado em ti, nas tuas mãos frias e no teu toque quente, nas tuas pernas esguias e sempre bem cuidadas, na tua boca de lábios carnudos e língua afiada, nos teus seios e nos seus pequenos mamilos rosa carne, onde passo, ao de leve a minha língua, os meus dedos, e todo o teu corpo parece que arde, no teu enorme clítoris quando ficas excitada, no teu gemer quando sentes a minha língua a saborear o teu sal, na forma como abres as pernas e em mim ficas deitada, na lascívia profunda com que me dizes apetece-me portar-me mal e com volúpia te deixas invadir pelo desejo latente, que trazes sempre contigo, de prazer carnal!"...

- E isto é o quê?

- É um excerto de um bilhete que escrevi para a Clara! Ela teve a ideia de cada um de nós escrever um bilhete romântico que explicasse ao outro porque é que nós estamos juntos há 15 anos! Sabes como é que é a Clara não é? A ideia era termos trocado de bilhete hoje...E foi o que aconteceu.
O bilhete dela dizia só isto:

"Estou há 15 anos contigo porque todos os dias continuam a ser uma surpresa para mim! Beijos"

Eu ainda sem ter lido o que ela me tinha escrito, entreguei-lhe o meu! Sabia lá!...Eu resolvi escrever isto, sabes que eu viajo muito de um lado para o outro não é, então lembrei-me de escrever uma coisa tipo poema, o bilhete é enorme, eu mostrei-te só este bocado, mas fala sobre muita coisa mais...

- Não, está mau de todo! Embora não goste muito destas cenas erótico/ pornográficas, para um gajo bruto como tu não está mau não senhor! E ela, o que é que ela disse?

- Anda à procura de casa e acabou tudo comigo! Diz que, devido ao que escrevi, ao fim de 15 anos descobriu que eu só a vejo como um objecto sexual!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Complexos #19

Por que é que tinhas de ter entrado aqui sob a justificação de querer beber mais qualquer coisa, nem sabes sequer bem o quê? Tu até nem querias beber mais nada! Ela obviamente que também não, uma vez que tu é que tiveste de pedir este café para justificares o facto de ter querido entrar aqui dentro, e ainda por cima de te teres sentado logo! Por que é que és atrofiado e quiseste entrar aqui?...Agora aqui estás tu a beber o teu quarto café da noite! Tudo porque tiveste receio de beber álcool demais e ficar demasiado expansivo! Tu e as tuas merdas parvas do costume! O que é que acabaste por conseguir com isso para além de só estares a perder tempo? Não sabes? Então eu digo-te. UM ATAQUE DE ANSIEDADE DO CARAÇAS! Que até sinto o coração a latejar nas têmporas e tudo! E porquê? Porque ela te disse, espontaneamente e até com uma certa graça, que de hoje não passava. Que é hoje que quer e vai conhecer a tua casa, pondo-se depois disso, tranquilamente e de mão dada contigo, ao caminho. Claro que tu, na tua imensa sapiência no campo da patetice, decidiste protelar sabes lá tu o quê, e, convencido que tu é que a estavas a convencer que ela é que queria ter parado aqui, só conseguiste, até agora, para além de ela dever estar a começar a pensar que tu és um totó do caraças, que ela se começasse a sentir ligeiramente desconfortável por nunca mais irmos para casa! Foi perfeitamente notório que ela quase que se sentiu na obrigação de manter uma conversa qualquer para evitar que tu estejas aqui calado feito parvo! O pior de tudo foi que ela decidiu manter uma conversa através de uma suposta piada, revelando-te a visão atroz, que ela consegue ter da cadeira dela, daquela peida cheia de pelos que aquele gajo tem! Para culminar, a seguir, desfeita em risos, contou-te o horror que tem de nádegas assim! Agora, explica-me lá, ó espertinho, como é que te vais conseguir despir diante dela sem que ela olhe para o teu rabo sem pensar de imediato na peida daquele gajo? Isto já para não mencionar a tua tentativa completamente idiota de dizeres, subliminarmente e enquanto ela se ria a bandeiras despregadas da peida do gajo, que tens uma peida em tudo similar! O que é que esperas que ela pense de ti ao dizeres com um sorriso amarelo e estúpido na cara barbaridades do género: "A namorada com a boina preta sentada ao lado dele de certeza que não deve pensar da mesma forma", ou então a pérola das pérolas de toda a tua profunda estupidez: "As coisas mais sexy são muitas vezes aquelas que consideramos repugnantes à primeira vista!".... Parabéns pá! Os meus sinceros Parabéns! Desta vez conseguiste mesmo bater no fundo...Bom, felizmente que por vezes ainda existe intervenção divina e ela teve vontade de ir à casa de banho na altura certa de interromper a tua diarreia mental...Ou então ela apercebeu-se foi exactamente disso e foi lá dentro pensar o que é que ela anda a fazer da vida dela aqui com um gajo como tu! Se tu fosses um gajo minimamente inteligente bazavas era daqui já e com um bocado de sorte nunca mais a vias e não tinhas de passar por mais vergonhas. Daqui a uns anos, eventualmente, acabas por esquecer mais este episodio...Só que se bazares sem ter bebido o café todo, ela ainda pode pensar que também foste ao W.C. e tal, fica aqui sentada à espera, começa a achar estranho o tempo que estás a demorar, depois pergunta por ti aos empregados, descreve-te, eles reconhecem a descrição e vão logo saber que ela está a referir-se a ti, de certezinha absoluta, com o azar que tens sempre ela vai perguntar por ti aquele empregado ali que eu tenho a certeza que te odeia de morte, as pessoas quando nos odeiam fixam-nos melhor, e ele vai logo dizer-lhe que moras já ali e a coisa ainda se pode tornar mais deprimente! Bem, ao menos acaba o café... Mal por mal é melhor não agravar a coisa. Deixa-a chegar pode ser que te ocorra alguma saída airosa que ainda possa salvar a noite... ...

- Voltei. Então? Em que pensas tu com essa cara tão seria?

- EU?! Em nada de especial...Olha, estava ainda a pensar na peida daquele gajo...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Banda Sonora

Subitamente, sinto-me como se estivesse a ver-me cair, em queda livre, a toda a velocidade rumo ao chão, e não consigo importar-me sequer com isso. Pelo contrário, à medida que me aproximo violentamente do chão, tenho esta sensação de leveza que cresce exponencialmente. É quase como se conseguisse ver-me cair, ao mesmo tempo que flutuo, apreciando todos os milésimos de segundo que lentamente passam, mesmo que de vez em quando decida olhar para baixo e veja que a queda continua vertiginosa. Claro que à medida que me aproximo do chão, por ventura para aumentar a ilusão, vou-me desfazendo de tudo aquilo que puder para que o peso que trago comigo possa aligeirar a queda. Curiosamente, e ao contrário do que inicialmente pensava, é cada vez menos difícil separar-me de tudo o que pensava não ser capaz de me separar! E não porque seja uma questão de sobrevivência, porque a queda é de facto inevitável e irreversível, mas porque pensava, atribuí, quase sem me dar conta disso, um significado e uma importância às coisas que, ao ver-me cair, se percebe perfeitamente que na realidade não têm.

Tindersticks - Travelling light

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Banda Sonora

À porta do edifício, enquanto esfrega o chão, a empregada de limpeza, sempre com aquela bata verde alface e letras amarelas vestida, cantarola alegremente ao mesmo tempo que pessoas passam quase sem se aperceberem que ela ali está. Através do chão húmido e repleto de pegadas, as pessoas absortas que entram no edifício, edificadas pelos seus sapatos de pele e sola maciça, balbuciam qualquer coisa ao segurança sentado na portaria, que num repente, como se tivesse sido estimulado com choques electricos, responde a todos “bom dia” de forma monocórdica e automática. O pi pi que provém do aparelho de ponto acabado de ser picado, mistura-se com o burburinho que se faz sentir perto dos ascensores, impossibilitando saber em concreto se as pessoas estão de facto a comunicar umas com as outras com palavras ou se apenas por onomatopeias. Dentro dos ascensores, durante a curta subida que os mesmos proporcionam, com o intuito de se conseguir chegar aos andares onde supostamente a produção efectuada durante o dia é a que irá proporcionar o consumo responsável pela alienação, o burburinho transforma-se numa mistura de perfumes com águas de colonia matinais, e em silêncio, interrompido de quando em vez pelo roçar inadvertido de uma perna enrolada numa fazenda num qualquer glúteo coberto por um outro tecido igualmente áspero. Os olhares, agora perdidos, ora no tecto, ora nas paredes falsas cobertas por espelhos, ora no chão, focam-se somente quando a porta abre e finalmente enfrentam as paredes brancas que os circundará durante o resto do dia, durante o resto da vida, até ser noite novamente.

Morgue – Mão Morta

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Filhos da puta sem razão e sem sentido

O Manuel Garcia era um gajo porreiro. Era mesmo aquele tipo de gajo com quem se pode falar quando estamos stressados no trabalho. Tranquilo, e quase sempre do lado da razão, por muito irritado que um gajo estivesse, quando se falava com ele as coisas pareciam sempre mais simples. Ocupava um daqueles cargos intermédios, daqueles cargos que um gajo se esfola à brava para conseguir o lugar, porque teoricamente se recebe melhor e se tem menos chatices, mas que no fim é apenas um cargo em que se trabalha mais e nunca se é levado a serio. Eu até, quando as coisas não eram comigo, ficava admirado como é que o Manel aturava certas coisas, sempre, sempre com aquela calma! Às vezes estavam mesmo a lixar o gajo, ele sabia, quase de certeza, que o estavam a lixar, mas ficava sempre tranquilo. Uma vez ou outra ainda tentava demonstrar o seu ponto de vista, tentava explicar que se calhar, de outra forma, as coisas ficariam melhor resolvidas. Mas quem é que ouvia o Manel? No fundo, o Manel era o gajo que estava ali para manter as coisas calmas, apesar de ele pensar que tinha outras funções, toda a gente no escritório, chefes e empregados normais, sabiam que o Manel só se mantinha ali porque era passivo com as chefias e era um gajo porreiro para os colegas. Quem é que diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!
Claro que no princípio ninguém desconfiava de ninguém. As coisas ocorriam de uma forma espaçada no tempo, e apesar do mau estar que causava sempre que acontecia, ninguém parecia ligar muito a isso. Certo dia, um daqueles chefes picuinhas, que se rala com tudo o que não é necessário ninguém se ralar, (Eng. Mendes é essa a sua graça. Nunca soube o primeiro nome do gajo! Acho até que ele deve ter mudado o primeiro nome dele para Eng. Só a questão que ele faz em frisar esse aspecto...) algures em meados de Maio, o Eng. Mendes dirigiu-se à casa de banho e sai passados alguns segundos, indo directamente para o seu gabinete e chama a sua secretária, a D. Alzira.
A D. Alzira, já trabalhava lá há quase há 23 anos, não suportava fazer recados nem coisas do género, tinha tirado o curso de secretariado e achava que o seu lugar era junto da administração. Passava a vida a dizer que não tinha culpa nenhuma de ser gorda e que era muito mais competente do que todas as secretárias juntas da administração.
Quando a D. Alzira chegou ao gabinete do Eng. Mendes, ele disse com aquele ar que ele sempre fazia quando tinha descoberto mais uma falha nos seus subordinados, que era necessário colocar um letreiro na casa de banho a dizer que as pessoas devem ter o cuidado de deixar a casa de banho limpa sempre que acabam de a utilizar. Disse-lhe também para ela entretanto chamar a empregada de piquete porque a casa de banho estava imunda e tinha que ser limpa.
O Eng. Mendes não era pessoa para deixar assim um assunto destes sem qualquer tipo de resolução ou medida. Apesar de ter dito à D. Alzira para colocar o letreiro na casa de banho, ia agora passar a deixar a porta do gabinete aberta e vigiar a casa de banho durante o dia. A D. Alzira, claro, não disse nada ao Eng. Mendes, mas assim que saiu, começou logo a bramar que aquilo não era o trabalho dela, que ela não tinha nada que fazer letreiros nem chamar as empregadas de limpeza. Teve mais um ataque de nervos, que deixa sempre toda a gente nervosa no escritório, e saiu a correr para a casa de banho. Saiu da casa de banho aos berros e ainda mais histérica do que tinha entrado.
Com este alvoroço todo, o graxas, correu logo para o gabinete do Eng. Mendes para perguntar o que se passava. O Eng. Mendes que já estava a ficar bastante mal disposto com aquela coisa toda, principalmente porque agora estava quase todo o piso a perguntar o que é que se passava e ninguém estava a trabalhar, disse logo ao Helder muito bruscamente para ele chamar a empregada de limpeza a fim da casa de banho ser limpa e que não se passava mais nada, que voltassem todos ao seu trabalho.
Na hora de almoço desse dia, lembro-me de ver o Manel a tentar acalmar a D. Alzira, que ainda soluçava. Foi aí que me apercebi do que se tinha passado. Alguém tinha deixado uma bosta em cimo do tampo da sanita. Eu já tinha, esporadicamente, ido à casa de banho e encontrado a mesma imprópria para consumo. Já tinha até comentado com o Manel e com outros gajos lá do escritório, se eles sabiam quem é que de vez em quando deixava a casa de banho assim, mas nunca tinha sucedido nada do género e agora estava toda a gente parva com aquilo.
Os dias foram passando, estávamos agora em Novembro, e nunca mais nada se tinha passado. Até o Eng. Mendes estava já convencido que a sua ideia do letreiro tinha mostrado quem de facto mandava ali. Tinha inclusivamente a porta do gabinete constantemente fechada novamente, quando a D. Alzira, numa terça-feira, vai à casa de banho a meio da manhã e se depara com a casa de banho no seguinte estado:
Um cheiro a merda insuportável e na parede por detrás da sanita uma frase escrita a bosta: "Se eu aturo as vossas merdas, aturem agora a minha".
Tinha sido escrita com o piaçava, que estava agora dentro do lavatório depois de ter cumprido pela primeira vez uma função para a qual não estava destinado.
Histerismo completo, todos os empregados normais correram para a casa de banho, inclusive o Eng. Mendes, e toda a gente saiu dali com a mesma pressa que tinha chegado.
Ninguém mais trabalhou nessa manhã! Fomos todos para a cantina enquanto a coitada da empregada que estava de piquete limpava a casa de banho. O Eng. Mendes reuniu de emergência com os seus superiores e a D. Alzira teve que por um comprimido debaixo da língua e ir para casa o resto do dia.
Da reunião com os seus superiores, soube depois por portas e travessas que ele tentou implementar uma medida que aos anos ele andava a tentar implementar. Mas sem sucesso. Não foi vista com bons olhos a ideia das pessoas irem à casa de banho uma vez por manhã e uma vez por tarde, apenas com 5 minutos de tempo. O Eng. Mendes decidiu a partir desse dia vigiar constantemente a casa de banho.
Passou a apontar num documento, elaborado pela D. Alzira, que se tinha esmerado a serio, as horas, quem entrava e quem saia da casa de banho. Sempre que saia alguém da casa de banho, ou a D. Alzira, ou o Eng. Mendes, que andavam agora em completa sintonia, tratavam muito discretamente de ir logo de seguida ver em que estado tinha ficado a casa de banho. Na terça-feira da semana a seguir, outra vez de manhã, exactamente uma semana depois, novamente a mesma cena. Desta vez, a frase dizia "AH AH AH não me apanham". Lá estava o piaçava no lavatório outra vez, imóvel!
O Eng. Mendes correu para o documento, verificou que ninguém tinha ido à casa de banho naquela manhã, e gritou para todo o piso ouvir que ia apanhar quem andava a fazer aquilo. Aquilo já tinha ultrapassado todos os limites e esse alguém ia ser apanhado e castigado.
Lá foi o Helder a correr novamente para o gabinete do Eng. Mendes. Estiveram algum tempo à conversa e o Helder saiu do gabinete com aquele sorriso parvo, que só ele tem, convencido que tinha subido mais uns pontos devido a uma ideia qualquer que tinha tido. Não faço ideia o que é que o Helder disse ao Eng. Mendes, só sei que naquele dia ninguém falou mais daquilo!
Nesse dia, como de costume, toda a gente saiu às seis da tarde e ficaram apenas no escritório o Eng. Mendes, o Manel, o Helder e eu.
O Eng. Mendes, desde o sucedido, ficava sempre até sair toda a gente. O Helder ou o fuinha, como quiserem, ficava para poder mostrar ao Eng. Mendes que era dedicado ao trabalho. O Manel porque tinha mesmo de trabalhar, se não, não iria ter tempo de terminar o trabalho para entregar no dia a seguir. Eu, só estava lá para ver se conseguia perceber o que é que o Fuinha tinha dito ao Eng. Mendes de manhã. Eram quase oito da noite e ninguém parecia querer ceder, o único que estava verdadeiramente ocupado continuava a ser o Manel. O Helder, fartou-se, foi-se embora. O Eng. Mendes também começava a dar mostras de querer ir embora. Eu já estava convencido que não ia saber o que é que o Helder tinha falado com o Eng. Mendes, fui á casa de banho. Quando sai da casa de banho e me dirigi para a minha secretária, vi que já tinha saído o Eng. Mendes. Só lá estava o Manel ainda a trabalhar. Perguntei-lhe se ele ainda ficava muito tempo. Ele disse-me que não. Disse que ia para casa e que no dia a seguir vinha um bocado mais cedo para acabar o trabalho. Saímos juntos do edifício. Enquanto esperávamos pelo elevador, trocamos umas palavras e nem reparamos que quando o elevador abriu as portas, estava lá o Eng. Mendes. Ele saiu sem nos dizer nada e nós entramos no elevador e descemos.
Lá em baixo despedi-me do Manel. Fingi que procurava alguma coisa nos bolsos das calças, enquanto ele se afastava, e quando ele já não me podia ver, fui a correr novamente para o escritório ver o que é que o Eng. Mendes estava lá em cima a fazer. Quando cheguei lá acima já não vi ninguém! O Eng. Mendes já devia ter ido embora de vez. Fui novamente à casa de banho e vim-me embora, feliz e contente.
No dia a seguir de manhã, o Manel, tal como tinha dito, chegou mais cedo do que todos.
Fez o seu trabalho e nem deu pelo tempo a passar. Eram praticamente nove da manhã, não tardava muito iriam começar a chegar as pessoas. Resolveu ir à casa de banho antes que alguém chegasse. Assim que entrou na casa de banho e fechou a porta, viu logo o piaçava dentro do lavatório. Enquanto os seus olhos se dirigiam para a parede da casa de banho, onde estava uma nova frase, começava a inalar o cheiro nauseabundo que empestava toda a casa de banho. Nos 2 ou 3 segundos que demorou nisto tudo, abre a porta para sair dali de imediato e ainda com a porta, apenas com uma greta aberta, vê que acaba de chegar o Eng. Mendes. Fecha de imediato a porta e põe-se a pensar no que há-de dizer ao Eng. Mendes. Enquanto pensa, lê e relê umas trinta vezes o letreiro na parede. O seu cérebro recorda-lhe que existe um cheiro insuportável na casa de banho e gasta praticamente toda a embalagem de spray ambientador que existe sempre disponivel debaixo do lavatorio. De seguida, sem sequer pensar novamente nas coisas que lhe estavam a suceder, agarra no piaçava, abre a torneira do lavatório ao máximo, lava o piaçava e limpa da forma possível a casa de banho. Por sorte, (dependendo sempre do ponto de vista), tinha ficado um balde e uma esfregona na casa de banho. O Manel consegue limpar tudo em cerca de vinte minutos. Sai da casa de banho e repara que o Eng. Mendes está a anotar a sua saída da casa de banho. Antes que o Eng. Mendes pudesse ir verificar a casa de banho, dirige-se ao Eng. Mendes e sem deixar que ele pudesse dizer alguma coisa, diz-lhe que aquele ia ser o seu ultimo dia na empresa.
O Manel trabalhou o resto do dia, sem dizer uma palavra e saiu às 6 em ponto.
Desde que o Manel foi embora, nunca mais houve nada na casa de banho. O fuinha foi obviamente para o lugar do Manel, o Eng. Mendes e a D. Alzira, apesar do espanto, estão convencidos que era o Manel quem tinha cometido aqueles actos, apesar de não poderem provar nada, chegaram à conclusão que desde a saída dele, nunca mais tinha havido nada. Eu olha, cá vou andando. Como diz a D. Alzira, quem diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Postais de Cucujães

Então, já saiu do quarto? Ainda não! Ainda está lá em cima! Tem sido assim desde a sexta-feira 13! Já não sei mais o que é que hei de fazer! Pois…nem eu! Mas que anda com um comportamento estranho outra vez anda! Ninguém me tira da cabeça que foi por causa da maldita sexta-feira! Eu bem lhe disse para não sair de casa, lembras-te? Não sei porquê, chama-lhe sexto sentido se quiseres, pressentimento, não sei, mas que eu senti que alguma lhe estava para acontecer naquele dia, senti. E agora, o que é que fazemos? Não podemos deixar ficar as coisas assim. Anda, diz-me o que é que fazemos? Foi para isto que casámos e quisemos ter filhos, foi para que quando estas alturas finalmente chegassem nós conseguissemos, juntos, resolver tudo e mais alguma coisa! Diz-me o que é que fazemos agora? Oh, mon amour, je ne sais pás! Vraiment!...Por favor! Não me comeces agora a falar francês…Mais porquoi? Mon amour…Sabes que o francês é, por excelência, a língua do amor! Se invocas neste momento o nosso amor, para resolver o problema que temos agora entre mãos, queres melhor altura para falar em francês e recorrermos efectivamente a ele para que consigamos vislumbrar uma saída? Sabes perfeitamente que a língua do amor é o italiano, ou até mesmo o espanhol! Queres coisa mais bonita do que um te quiero sussurrado ao ouvido? Bom, olha que o russo, com a pronuncia correcta, repara Я тебя люблю…Bem, se queres entrar por aí, a lingua arabe...
Entretanto, enquanto decorria este pequeno dialogo, lá em cima, depois de ter passado grande parte da noite sem dormir, tal era a ansiedade com que se deparava a sua mente, abria os olhos, pela primeira vez na manhã e com um sorriso rasgado na cara! É HOJE! É HOJE O DIA! Com a convicção absoluta de que tudo tinha corrido de acordo com todos os sinais que há anos esperava, desde a ultima sexta-feira 13, precisamente o dia em que tinha decidido que se alguma coisa fosse tivesse de acontecer, como forma de sinal, para que pudesse entender e começar então a mudar o rumo da sua vida, essa coisa teria de acontecer na sexta-feira dia 13, o seu dia preferido desde a primeira sexta-feira 13 que viveu, quando um raio quase lhe caiu em cima! Já nada podia demover a ideia de que tudo batia certo, nada podia parar e impedir a sequência de movimentos iniciada! Esta era, sem duvida absolutamente nenhuma, a imparável sequência de movimentos! Como podia não ser?! Primeiro conheceram-se sexta-feira dia 13! De seguida, no dia seguinte, o primeiro teste supremo, conseguir fazer mais de 250.000 pontos no tetris! 423.554 Record absoluto. Jamais alcançado naquele aparelho! Previamente por si determinado, e com a motivação em alta, foi um pulinho até decidir saltar para a ultima etapa e esperar que os três, extremamente importantes, sinais aleatórios que teria obrigatoriamente de receber, finalmente chegassem! Condição para que isso acontecesse? Teria de ser nos 3 dias consequentes ao dia 14! No dia 15, o seu coração pulou de alegria, quando a meio da tarde passou finalmente por cima da poça, na calçada que avista da janela do quarto, o carro preto sem um tampão no pneu da frente do lado esquerdo do carro! Só faltavam dois! Dois sinais e a sorte estaria definitivamente lançada! No dia 16, eram 23:39 e a desolação tinha ocupado todo o espaço. Foi preciso um sinal extra, para que se conseguisse levantar da cama aquela hora! Às 23:41, depois de ter caído, sem razão aparente, da prateleira ao lado da janela, a caneca que tinha trazido de Barcelona, tendo ficado em migalhas em cima dos tacos e em cima do tapete, sentiu-se na obrigação de se levantar e limpar os estragos que o acaso tinha feito. Sem sequer ter notado ainda que era a caneca de estimação, olhou para a janela antes de se baixar para apanhar os cacos e o seu coração voltou a estremecer! Ali estava, ali estava o segundo sinal! Quem diria que apenas voltaria a recordar-se da caneca no dia 18! Tal como no filme, um saco transparente voava na linha do horizonte paralela à sua visão da janela! Flutuava, como se tivesse vida própria! Depois acenou um adeus com a asa direita, e seguiu o caminho das estrelas. Ainda hoje tem a certeza que ouviu o saco rir…
Com 2 dias passados no quarto, o terceiro dia era o dia em que o ultimo o sinal, o mais difícil de obter, por todas as razões e mais alguma, teria de ocorrer! Depois de quase arruinadas as hipóteses de tal acontecer, dado que era condição primordial acordar de manhã, tendo estado quase noite toda a tentar dormir a todo o custo para que pudesse acordar de manhã, quando acordou, o Sol brilhava e os melros cantavam! Era finalmente manhã e tinha dormido o suficiente pare que a premissa permanecesse impoluta! Com um sorriso estampado na cara, desde o segundo em que acordou, bastava agora descer as escadas e encontrar os seus Pais a falar, apenas e somente, Português, para que o terceiro sinal fosse cumprido e finalmente pudesse declarar todo o seu amor, sabendo, com certeza, que isso era a coisa certa a fazer…

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Face Oculta é «problema comezinho», diz Mário Soares

Pois! O problema é que eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada...

Jogos físicos e psicológicos

- Onde é que queres ir?
- Não sei, decide tu. Não me apetece escolher hoje...
- Na na na na, nem penses que caio nisso outra vez. Diz lá onde é que queres ir?
- Já te disse que não me apetece escolher hoje, decide tu.
- Bom, eu sei que me vou arrepender mas pronto. Vamos ao Borga?
- Ao Borga? Outra vez? Vamos quase sempre ao Borga!
- Então diz tu...
- Podemos ir a qualquer lado menos ao Borga.
- Então vamos à Mena...
- À Mena?! Por que é que queres ir à Mena hoje?
- E por que é que não podemos ir à Mena hoje?
- A Mena é uma seca, não gosto de ir à Mena...
- Não te apetece decidir, não gostas de ir à Mena, não queres ir ao Borga hoje, em que é que ficamos então?
- Pronto, tirando o Borga e a Mena, vamos a qualquer lado.
- Vamos ao cinema...
- Ao cinema?!
- Porquê essa cara feia a perguntar ao cinema? Qual é o problema de irmos ao cinema?
- Nenhum! Acho estranho só tu quereres ir ao cinema. Ainda por cima hoje...
- O que é que tem irmos ao cinema hoje?
- Nada.
- Então vamos ao cinema?
- Se quiseres mesmo...
- Tu não queres ir ao cinema?
- Eu não, mas se tu quiseres vamos....
- ENTÃO PORQUE É QUE NÃO DIZES TU UM SITIO PARA IRMOS? PARA MIM É IGUAL, VOU A UM SITIO QUALQUER.
- Em primeiro lugar, não gritas que eu não sou surda. Em segundo lugar, se para ti é igual ao litro ir comigo a um sítio qualquer, por que é que para mim não pode ser também igual ir ao cinema embora não queira ir?
- Porque eu quero ir a qualquer lado, não me importa qual, e tu não queres ir a lado nenhum, ou pelo menos a lugar nenhum que eu diga. Já propus 3 sítios para irmos, eu não vou dizer mais nenhum sítio...
- Surpreende-me então
- Queres ser surpreendida? Está bem. Vamos lá então...
- Estamos a ir onde?
- É surpresa...
- Está bem, mas como já estamos a caminho já podes dizer...
- Não, se não deixava de ser uma surpresa...
- Não, se me disseres onde estamos a ir, como eu não sei qual é o sitio, é uma surpresa na mesma. A surpresa é o nome do sítio...
- Mas eu prefiro ver a tua cara de surpreendida quando lá chegarmos, até porque se não gostares da surpresa já lá estamos mesmo e não tens hipótese de dizer que não queres ir...
- Mas olha que é suposto eu gostar da surpresa. Para estares com essa conversa é porque me estás a levar a um sítio que sabes que eu não gosto ou não quero ir e isso já não é uma surpresa.
- Tecnicamente é na mesma uma surpresa. Pode é ser uma surpresa desagradável, mas é na mesma uma surpresa. Tu disseste que querias ser surpreendida...
- Mas surpreendida no bom sentido, não no mau! Para onde é que me estás a levar?
- Calma, já vais ver, é surpresa...
- Não, assim não quero ir, sem saber para onde é que me estás a levar não quero ir...
- Então queres ir onde?
- Quero ir ao Brasa.
- Viste como és capaz de decidir?
- Tu fazes isto de propósito não fazes?
- Tal como tu. 1-0, estou eu a ganhar...
- Na na na, estamos empatados
- Empatados? Como assim? Eu ganhei, foste tu que decidiste...
- Está bem, mas tu gostas de mim e eu ainda gosto de ti, por isso estamos empatados...
- O que é que queres dizer com o e eu ainda? Esperas deixar de gostar é?
- 1-1
- És tão previsível, pensas que eu não sabia que estavas a dizer isso só para que eu te fazer a pergunta que fiz?
- 1-1
- Na na, 2-0...
- 1-1...
- Vamos para casa?
- Vamos...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Parachutes

Hoje, como que por magia, depois de eu ter comunicado à senhora da companhia do gás que neste momento ando a ler Albert Cossery, a chamada caiu de repente!

What's the frequency, Kenneth?

Quanto mais mulheres conheço, mais vontade tenho de gozar com elas. Ao mesmo tempo, também aprecio muito a vontade que lhes dou de estarem sempre a mandar vir comigo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Da ornitorrinco

São duas da matina, aí vem ela outra vez
Ficou-me na retina, o olhar que ela me fez
Hoje vou ter com ela, já tomei a decisão
A Baby é tão bela, que me parte o coração
Nem sei o que dizer, mas isso não importa
Só sei que tem de ser, agora já não há volta
Acabo a bebida, só para ganhar coragem
Interiorizo a batida, dou um toque na imagem
Avanço para a pista, bem inundada de gente
Não a perdendo de vista, ficamos sós frente a frente
Olho nos olhos cara a cara, ela dança lentamente
Nem precisa dizer nada, pra dizer tudo o que sente
Morena cabelo escuro, baixinha como se gosta
Olhos grandes negro puro, pele fina boca grossa
Tu danças como a Bausch, sussurrei-lhe ao ouvido
És valsa de um Strauss, cinema, sexto sentido
Adoro o teu look, sinto prazer quando te vejo
Eu por ti escrevo um book, a expressar o meu desejo
Tu deixas-me tão crazy, só quero dar-te ternura
Yé, Anda comigo baby, embarcar nesta aventura
Ela olhou pra mim e disse, palavras não dão certeza
A seguir deu-me um kiss, que nos soube a pureza
São quatro da matina, aí vai ela outra vez
Ficou-me na retina, a dança que ela me fez

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ode

Gosto de gajas que não tenham qualquer pudor em demonstrar que apreciam um falo
De gajas que não tenham pejo em dizer foda-se, merda, ou então que granda galo
Aprecio muito mulheres que não temam admitir que são rebarbadas
E mulheres que quando se depilam ficam completamente peladas
Tenho um grande apreço por mulheres que clamam por sexo
Que o demonstrem sem pudicícia vergonha ou outro tipo de complexo
Gosto de gajas que gostem de se ver dançar nuas em frente ao espelho
E de gajas que retiram com prazer do canto da boca um pequeno pentelho
Dou muito valor a uma gaja que abre as pernas com desejo e sensualidade
E que com extremo deleite se entrega inteira a uma boca cheia de vontade
Considero mesmo as mulheres que acariciam os seus peitos gemendo de prazer
Quando estremecem radiantes por um real orgasmo ter invadido todo o seu ser
Estimo todas as mulheres que pulam gritam dançam e respeitam a liberdade
E todas aquelas que se expressam apenas e tão-somente através da verdade

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tout l'amour

Nunca consigo resistir,
quando me tentas através de um pequeno psiu
Sempre que passas por mim e te vais despindo a caminho do quarto
O que tenho na cabeça parece fugir,
e não sendo preciso nem mais um piu
Em silêncio ficamos assim, como se nenhum de nós estivesse já farto
Lentamente trocamos fluidos, carícias,
à medida que respiração vai ficando ofegante
Bem a meio perguntas-me com toda a malícia,
se a dor de cabeça que eu dizia que tinha não era afinal dilacerante
Resvalo em ti, quando tento chegar à mesa-de-cabeceira
com o intuito de tomar um comprimido para a dor de cabeça
O que é que queres daí, indagaste meio sobranceira
enquanto eu caía, desprotegido, respondendo ora essa!
Acerto em cheio com o cotovelo no teu baixo-ventre
que se encontrava húmido devido ao calor que se fazia sentir
e o teu repentino reflexo, uma murraça em cheio nos meus dentes,
parte-os de imediato, ficando agora com forma de menir
O Aiii que gritas cruza-se no éter com o meu foda-se sofrido
Doridos, misturamos os nossos corpos nus num misto de dor e sangue
Por momentos hesitas, mas a seguir segredas-me ao ouvido
antes partir uns dentes tortos, que lixar-te de vez, a glande

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Banda Sonora

Sou um homem desejado em Lisboa, um homem desejado em Lourosa
Sou um homem desejado em Foz Côa, um homem desejado em Rebordosa
Sou um homem desejado em Beja, os autóctones queriam que estivesse em Faro
Mas não é preciso inveja, esta noite eu vou estar em todo o lado

Posso até estar em Chaves, ou em Ovar ao pé do mar
A trabalhar para alguém que não sabe, o que consigo fazer desejar
Por isso se me vires por aí, e souberes qual o meu fado
Não perguntes "sabes quem está ali?", porque eu sou um homem desejado

Sou um homem desejado num qualquer colóquio, um homem desejado em Sesimbra
Sou um homem desejado inclusivamente no Tokyo, um homem desejado em Coimbra
Sou um homem desejado no Fundão, um homem desejado até mesmo em Luanda
Sou um homem desejado em Olhão da Restauração, sou um homem desejado numa demanda

Se alguma vez me apanhares a dormir
Olha bem para o tamanho do teu desejo
Minha amiga, quando isso te fizer sorrir
Não desperdices nunca esse ensejo

Sou um homem desejado pela Ana Sousa Dias, um homem desejado pela Ana Malhoa
Sou um homem desejado por todas as tias, um homem desejado por qualquer gaja boa

Sou desejado pelas irmãs Salgado
Sou desejado pela Fernanda Machado
Por isso não me digas que não queres um bocado
Quando todos sabem que eu sou um homem desejado

Um homem desejado que perdeu a alegria de viver
Um homem desejado que não sabe desistir
Um homem desejado que até quando morrer
Ainda conseguirá fazer todas se vir

Sou um homem desejado em Abrantes, um homem desejado em Pinhel
Sou um homem desejado em Amarante, um homem desejado em Penafiel
Sou um homem desejado em Alvalade, um homem desejado em Tomar
Sou até um homem desejado numa cidade, que nunca pensei visitar

Sou um homem desejado na montanha
Sou um homem desejado na praia
Sou desejado com vontade tamanha
Por todo e qualquer rabo de saia

Se algum dia alguma moça me vier falar
E por acaso não souber que eu sou o desejado
Desconheço quanto tempo irá ela aguentar
Até começar a gritar "Ah homem do Diabo!"

Por isso se tu amas o homem desejado
É bom que aproveites agora
Porque quando olhares para o lado
O desejado já se foi embora

Sou um homem desejado em Fiães, um homem desejado no Sabugal
Sou um homem desejado em Guimarães, um homem desejado em Oliveira do Hospital
Sou um homem desejado em A-dos-Cunhados, um homem desejado em Santa Cruz
Sou um homem cobiçado pelos pecados, um homem condenado por Jesus

Sou um homem desejado em todos os bares, um homem desejado em casas de putas
Sou um homem desejado em todos os lares, desejado por gajas meigas e por gajas brutas

Sou um homem desejado em Valpaços, um homem desejado em Vale de Cambra
Sou um homem desejado em Vale Milhaços, um homem desejado em Alhandra
Sou um homem desejado no Infantado, um homem desejado Gondomar
Sou há um sitio onde não sou desejado, que é o sitio a que eu chamo lar

(Tradução livre da letra Wanted Man pelo Nick Cave, que por sua vez já tinha feito uma versão da original do Bob Dylan)

domingo, 8 de novembro de 2009

Cerveja e marisco

- Ehhh! Olha lá para aquela gaja. Boa comó caraças!

- Epá! Vocês gajos são impressionantes! Só pensam em sexo!

- Olha que não me parece nada que esse lugar-comum seja verdade...

- Não? Então ele ainda agora, mesmo comigo aqui, teve a lata de estar a olhar para aquela gaja que estava a passar! Vais-me dizer que ele estava a pensar que ela deve ser muito inteligente.

- Não, mas isso não quer dizer que ele pense só em sexo. Por exemplo, ele ainda há dias me disse que quando está com a mulher, é frequente pensar na sogra para retardar e no Benfica no momento da alegria...

- Hey! Eu estou aqui mesmo ao vosso lado e consigo ouvir o que estão a dizer!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Complexos #18

Quase que me esquecia que já é sexta-feira outra vez! Hoje é dia de sair à noite! A semana correu tão rápido que nem dei conta, hoje de manhã, que hoje já é sexta-feira! Ainda nem sequer planeei a rambóia como deve ser para a noite ser de farra rija! Bem, mas também, depois do que aconteceu na semana passada, sinceramente já começa a ser complicado saber onde ir hoje.... Verdade seja dita. Se há coisa que sou grande apreciador, é de sair sexta-feira à noite. Só que, se fosse eu que mandasse, mandava retirar a possibilidade de os percalços, que nos últimos tempos me têm sucedido, voltarem a suceder. Obviamente que não foi nada que tivesse estragado a noite. Claro! O importante é uma pessoa divertir-se com aquilo que tem, sem dar lugar a lamúrias. E à grande. Já que é fim-de-semana. Mas sim, admito, os percalços, se calhar, acabam por atrapalhar uma noite que se deseja de puro divertimento para um pândego como eu. Bom, chega de devaneios. Deixa-me mas é lá ver então onde é que posso ir hoje... ... ... ... Epá, agora é que eu estou a ver que isto está mesmo cada vez mais difícil encontrar um sítio onde ainda não conheçam a minha cara! Não é que eu seja pessoa de criar problemas, só que em não me conhecendo talvez seja mais fácil deixarem-me entrar, não sei. Claro que não posso afirmar que nos sítios onde não me deixam entrar me conhecem. Nunca consegui entrar em lado nenhum que quisesse ter entrado, é sempre muito complicado por causa disto ou daquilo! Tenho cá para mim, que devo dar a impressão que sou uma pessoa muito bera, no alto do meu 1.60m! Deve ser isso...Bom, deixa lá ver, ali não, no outro dia espancaram-me porque eu não percebi que aquele gajo queria dar um golinho no meu copo de vodka, pensei que ele me queria roubar o copo! Às vezes consigo mesmo ser um totó, depois arranjo encrencas! Pois, ali também não dá, na semana passada estava mesmo convicto que era o dia em que conseguia ali entrar. Vesti-me tal qual o porteiro me disse para vestir, aguardei calmamente durante quarenta e três minutos na fila para entrar. Até decorei o que ele dizia à porta, "Senhoras não pagam, senhores pagam dez euros", ou então, "Entrada reservada a casais ou clientes habituais", e era com esta frase que eu ganhava ânimo. Já estive mais de cem vezes naquela porta, sou de certeza um cliente habitual, dizia eu para os meus botões. Estava mesmo quase a chegar a minha vez, quando reparei que à minha frente só estavam dois rapazes que namoravam um com o outro. Ainda cheguei a pensar que o porteiro ia embirrar com eles. Mas, surpreendentemente, quando chegou a vez deles, ele disse "Os senhores, pagam dez euros cada um", e lá entraram eles. Para se meter comigo, como de costume, ele assim que me viu barrou-me logo a entrada com o braço e deixou passar duas raparigas que entretanto tinham furado a fila e passado à frente de toda a gente. Aqui sim, admito que meti agua. Disse-lhe que elas tinham passado à frente de toda a gente e que isso não era justo para quem estava ali há imenso tempo na fila. Ele respondeu-me, e com razão, que quem sabia quem podia entrar e quem não podia entrar era ele. Como vi que ele ficou um bocado ressabiado com aquela situação, que burro que eu sou às vezes, decidi fazer uma piada. Estupidamente perguntei-lhe se agora com o casamento entre homossexuais, se um daqueles dois rapazes gays que tinham entrado não deveria ter entrado sem pagar, uma vez que eles eram um casal. Pronto, foi o bom e o bonito! Eu até lhe disse isto a mostrar que estava a brincar. Mas não, num ápice disse-me que enquanto ele fosse porteiro ali eu nunca entraria! Fui-me embora. Já o tinha vist aborrecido outras vezes e sabia que naquela noite não ia, de certeza, dar para entrar. Por sorte aquele café cheio de bêbados ainda estava aberto aquela hora da noite e ainda consegui comprar uma cervejita para molhar as goelas, já que aquela espera toda, apesar da chuva sempre a cair, me tinha feito sede. Estava eu a dirigir-me para outra fila noutro sítio que também gostava de conhecer um dia, quando me lembrei que tinha deixado o carro numa zona em que se começa a pagar a partir das oito da manhã. Como eu já estava a beber uma cerveja, e não seria prudente depois ir conduzir naquele estado, decidi ir por moedas no parquímetro. Estúpido, mais uma vez. Cheguei ao carro, dei um golinho na cerveja, e entrei para ir buscar a carteira ao porta-luvas, com o intuito de ver se tinha algumas moedas, já que o senhor do café dos bêbados me disse que não tinha troco de vinte e ficou-me com a nota. Estava eu à procura da carteira, quando vejo que o carro da frente está a sair. O que é que eu pensei? Vou chegar o meu carro à frente e assim deixa de estar na curva. Uma vez deixei o carro numa curva e deram-me cabo do porta-bagagem! Fechei a porta do carro, liguei-o, e como estava a segurar a cerveja com a mão esquerda, arranquei sem as mãos no volante. Às vezes gosto de passar um bocadito os limites. Faz-me sentir vivo. Azar dum raio! Não reparei que a direcção estava virada para a esquerda, e quase que saí do lugar em direcção à estrada. Como um azar nunca vem só, estava já eu a guinar o carro para a direita quando, vindo não sei de onde, um polícia me bate no vidro da janela e faz aquele sinal para eu baixar o vidro. Com a atrapalhação deixei cair a cerveja, entornei tudo em cima de mim, e deixei o carro ir abaixo! Baixei o vidro, e estava a preparar-me para dizer que estava só a, mas ele nem me deixou acabar a frase, pediu-me logo os documentos e os da viatura também. Lá soprei o balão e finalmente consegui demonstrar que não estava ébrio, só não me safei foi da multa por estar a tentar conduzir e a beber ao mesmo tempo. Tive azar com aquele chui, foi o que foi...Mas também, quem é que me mandou a mim levar o carro naquele dia? Pois, é porque aqui perto não consigo entrar em lado nenhum. Por uma razão que desconheço, embirram comigo. Tenho cá para mim que é inveja...Bom...Mas sendo assim, sem carro e com esta chuva, onde é que irá ser o fandango hoje à noite? Tenho cá uma fezada para hoje...Gosto à brava da sexta-feira, sei lá, é uma noite diferente, não sei...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ping-Pong

Nestes últimos dias, em qualquer jornal que leia, ou em qualquer programa que oiça na rádio, dou sempre de caras com o caso face oculta!

Revolution, dope, guns, fucking in the streets

O Trambalazana pavoneia-se e dá ordens ao acaso, para mostrar trabalho, a quem quer que já tenha conseguido atemorizar. Passa o dia a morder uma caneta, ou as unhas que já não tem, e fuma cigarros sozinho, na esperança que um dia alguém lhe diga bom dia com sinceridade. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque é digno de pena.
O caixa de óculos mija 10 vezes por dia para evitar estar o dia todo sentado de frente para a parede. Anda como se andasse sempre a jogar futebol e diz piadas extremamente engraçadas sobre assuntos que mais ninguém percebe. Aprecia bastante enfiar-se dentro do gabinete do chefe mor, quando o mesmo não está lá (nunca está) e passa mais de metade do dia a fingir que está a falar ao telefone com alguém importante. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque não se bate em ninguém com óculos.
O gorduroso passa o dia a dizer mal de tudo e a jorrar perdigotos para o sítio que está virado julgando mesmo que isso tem bastante piada. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque ninguém quer ficar com a mão cheia de gordura.
O atarracado do bigode queimado pelo tabaco, entra sempre a correr como se o mundo fosse acabar no instante a seguir e grita em vez de falar. De duas em duas palavras diz Merda, ou Caralho, para que todo o andar oiça o quanto é mau. É tão fácil, grunhe ele dentro do elevador, enquanto explica a sua táctica a alguém que julga muito inferior. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque um dia uma bigorna, vinda do 16º andar, lhe há-de cair em cheio nos tomates.
O mutante, para além do ser que vive na sua testa, fala como se estivesse sempre a fazer um relato de futebol sendo totalmente imperceptivel tudo o que diz. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque ninguém sabe que existe (apesar de todos conhecerem o ser que habita na sua testa!).
O chefe intermédio passa o dia com os olhos esbugalhados e a boca aberta a andar de um lado para o outro. Tudo aquilo que acha ter sido feito com competência diz que foi ele que fez. Em todas as vezes que vê o atarracado a entrar, mete o rabo entre as pernas e risse, para não chorar, com medo que o irmão o despeça. Desconhece por completo que não leva um murro no focinho de quem quer que passe por ele, única e exclusivamente porque a mulher se encarrega dessa tarefa todos os dias.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Banda Sonora

Como hoje é dia de celebração da música e obra do João Aguardela, coloco aqui dois vídeos de duas bandas que fizeram parte da minha adolescência. Principalmente os Sitiados, que de alguma forma contribuíram para a formação da minha pessoa e que, inevitavelmente, porque me recordam pessoas, convivências, sítios e emoções que me fizeram crescer física e emocionalmente, vão fazer sempre parte da minha vida.
Aconselho também, a quem quiser e tiver paciência, está no youtube, que oiça igualmente a Junto ao Rio, ou a E ela cega, outras duas músicas dos Sitiados.

Nota final - Prometo não fazer mais posts altamente pessoais pelo menos durante um ano.

Sitiados - Só



Essa Entente - Pets de loup

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Brainy brainy brainy

Será sensato cagar numa pessoa que só diga merda?

About today

- Antonito, tens um olhar tão penetrante!

- Não é o olhar...

And the beat goes on...

Como se não fosse já suficientemente deprimente levar um bolinho de aniversário para o local de trabalho, para depois se sujeitarem a levar com a usual cantoria dos Parabéns, para além do facto de haver aqueles que gostam de começar logo por aí a estragar o momento, ou cantando mal, ou muito alto, ou atrasado em relação a toda a gente, isto só para enumerar três das milhentas parvoíces que tal tema proporciona, para ajudar à festa ainda existe, sempre, aquela corja de pândegos sôfregos por regurgitarem uma catrefada de piadas acerca da escolha do bolo, das velas do bolo, da cor do bolo, etc. Depois há os que reparam sempre que o bolo que Beltrano comprou era muito melhor que o bolo de Sicrano, que este comprou um bolo mas que o outro não comprou... Isto sem falar nos famintos que se levantam de imediato quando vêem o bolo, nos gajos que perguntam se não há "champanhe", naqueles que enchem a boca de bolo até não caber mais, com medo que o bolo acabe sem que tenham a possibilidade de se mandarem a outra fatia, ou naqueles que dizem em surdina: Enquanto aqui estivermos, menos trabalhamos...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Secret meeting

A D. Guilhermina andava num pranto. Estava à horas de um lado para o outro em casa, vestida com a bata roxa dos malmequeres amarelos e com os rolos de Domingo presos no cabelo. Por volta do meio-dia, já havia telefonado à sua amiga de infância, a Anabela, sete vezes, sempre com um problema qualquer que justificaria o impedimento de poder sair de casa nesse dia. Passavam precisamente 25 anos desde que tinha enviuvado. A última vez que tinha saído de casa, tinha sido a muito contra gosto e apenas porque se tratava do casamento do seu filho, o Belarmino.
Toda a sua vida foi passada no sítio onde nasceu. Casou muito nova com o Manel da Serra, um homem enorme, muito rude, e de muito poucas palavras. Enviuvou 7 anos apenas depois de ter casado, naquela tarde fatídica em que o Manel, nunca se soube bem como, não soube prever a queda de um pinheiro para o lado que ele se tinha escapulido depois de ter dado a ultima machada na enorme arvore que ainda hoje jaz no sítio onde caiu depois de ter esborrachado, literalmente, o Manel da Serra! Assim que os sinos tocaram a repique, a assinalar a desgraça que tinha acontecido, de imediato a D. Guilhermina sentiu um alívio tal no coração que desmaiou devido ao sentimento de culpa sem ainda saber sequer do que se tratava! Reza a história que as únicas palavras que ele dirigiu à D. Guilhermina, durante os sete anos que foram casados, foram sim, não, e a frase: “Sai já daqui mulher”. A D. Guilhermina nunca tinha chegado sequer a sentir um pingo de felicidade quando no dia 18 de Dez conheceu o Manel da Serra. Sendo a mais velha de 11 irmãos e irmãs, cedo se habituou a trabalhar. Primeiro, ainda muito pequena, a tomar conta dos irmãos, e mais tarde, com cerca de 8 anos, como criada da Sr.ª D. Ofélia Madeira, uma velha rica cujo único feito durante a sua vida foi o de ter dado à luz o único médico no raio de 50 km! Cega pelo anseio de poder sair de casa dos seus pais e de deixar de trabalhar na casa da Sr.ª D. Ofélia, numa noite, já com 15 anos de idade, mas que pareciam 30, acompanhada pelos seus Pais e irmãos, foram todos ao baile. O baile era a festa anual e ao mesmo tempo o único dia em que havia diversão e festa por aqueles lados. Foi então nessa noite, onde estavam todos os habitantes reunidos, que depois de uns entreolhares marotos com o Manel da Serra que ele, completamente bêbado e 10 anos mais velho que a D. Guilhermina, falou com o Pai dela a perguntar se poderia casar com a Guilhermina em troca de um pinhal que ele tinha do outro lado do morro! Encantado com o negócio, nessa mesma noite ficou tudo tratado sem se ouvir uma palavra de discórdia por parte da D. Guilhermina que apenas e só queria sair da vida que tinha o mais rápido possível. Casaram 8 meses depois, num dia quente em Agosto. A D. Guilhermina, que nunca tinha dado um beijo a um rapaz, sentiu mais dores nessa noite do que no parto dos seus dois filhos. Apenas com duas relações sexuais com o marido durante todo o casamento, teve os seus dois filhos nos dois primeiros anos de casamento! O Manel da Serra, que sempre que não estava no mato a cortar pinheiros, ou a cortar mato, estava na taberna a embebedar-se, ou então ia para a cidade durante a semana e por lá ficava durante dias até que se acabasse o dinheiro! A D. Guilhermina nunca se perdoou pelo alívio que sentiu quando ouviu os sinos naquele dia e soube depois que tinha sido o seu marido a falecer naquele fatídico acidente. Desde então, dedicou-se a criar os seus filhos com todo o amor e sabedoria que tinha. De tudo fez no sítio onde vivia para poder criar os seus filhos com dignidade. O seu filho, alto e espadaúdo, cedo deixou de ligar aos estuds e abandonou a sua terra com apenas 16 anos de idade, cheio de sede de vencer na vida. Nos anos seguintes, regressaria à sua terra natal somente uma vez, com o pretexto de ir ao funeral de um amigo de infância! Nessa ocasião, visitou a mãe durante 10 longos minutos, tendo-a visto uma outra vez, precisamente no dia do seu casamento! A sua filha, desde cedo descobriu que era lésbica e assim que pôde, com 17 anos de idade, dado que na terra já toda a gente sabia do seu defeito sexual, rumou para a cidade à procura de uma vida normal. Embora visitasse a mãe regularmente, ninguém se recorda de não ter havido discórdia entre elas sempre que ela lá ia!
Estava então a D. Guilhermina num pranto, vestida com a bata roxa dos malmequeres amarelos e com os rolos de Domingo presos no cabelo, sem conseguir ainda sentir-se à vontade para sair de casa e ao mesmo tempo sem conseguir explicar por que é que não queria ir ao baile novamente. Só que, perante a insistência muito insistente da amiga, lá acedeu aos seus pedidos e preparava-se a muito custo para a festa que iria haver, mais uma vez, nessa noite. O dia finalmente passou e a D. Guilhermina, depois de ter comido duas batatas cozidas e uma pequena posta de bacalhau, igualmente cozido, tirou os rolos do cabelo, penteou-se e olhou para o espelho. Recordou-se dos olhares que tinha trocado com o Manel da Serra na noite em que se tinham conhecido, e não pode deixar de chorar ao pensar nos seus pensamentos nesse dia e no que a tinha levado a olhar para o Manel daquela forma. Anestesiada por tudo isto, saiu de casa de rompante, decidida a mudar o curso da sua vida nessa mesma noite. Pensou para consigo mesmo que ainda era nova, que tinha cumprido a sua obrigação com os seus filhos, que não devia nada a ninguém e que tinha chegado a uma idade em que nada tinha a perder. Foi com um sorriso mental espelhado na sua cara, embrenhada nestes pensamentos, que foi atropelada por um camião enquanto se dirigia a pé para a casa do povo, caindo a rebolar vigorosamente pela encosta abaixo! Trinta e quatro minutos depois tocavam os sinos a repique ecoando por toda a encosta. O baile nessa noite foi exactamente igual aos anos anteriores, menos para a Anabela…