• FIM
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

This is the way step inside

Naquela quinta-feira de manhã acordei por volta das sete e meia da manhã, como já era quase um costume nessa altura! Independentemente da hora a que eu me deitava, invariavelmente acordava sempre por volta das sete e meia da manhã! Acho que aquilo que me costumavam dizer acerca do organismo se habituar a uma hora para acordar era mesmo verdade! Nunca consegui compreender como é que, quase inconscientemente, as pessoas se habituam a viver sob as condições mais degradantes, inóspitas, ou sob condições totalmente incompreensíveis para outras pessoas! O hábito é mesmo muito esquisito, e as pessoas habituam-se muito depressa a algo, não conseguindo depois ver, ou ter mais nada na vida delas, achando mesmo que essa é a única hipótese e forma que têm para poder viver a sua vida. Há pessoas que até se humilham a elas próprias, sem terem noção do que estão a fazer a si mesmo! Um minuto depois de ter acordado, também como de costume, acendi a televisão e fiquei a olhar para as pessoas que estavam a falar. De manhã, era raro conseguir fazer zapping. Passava normalmente cerca de 5, 10 minutos, deitado, apenas a olhar para um canal qualquer enquanto o meu corpo ainda terminava de acordar. Era sempre o mesmo! Mal terminavam os 5, 10 minutos que ali ficava, e pensava sempre que era estúpido acender a televisão assim que acordava. Depois de ter perdido cerca de 1 minuto à procura do comando e de ter apagado a televisão, levantei-me e dirigi-me para um outro quarto que tinha e onde estavam os meus discos e as coisas que eu mais prezava. Não sei porquê, nem consigo encontrar uma razão lógica para isso, mas sempre me deu uma grande sensação de conforto guardar numa mesma divisão todos os meus discos, as minhas fotos com todas as minhas recordações, os meus instrumentos e outras coisas ao acaso, que quando olhava para elas, apesar de nunca ter sabido o quê, me diziam alguma coisa. Naquela manhã senti uma vontade estranha de ouvir Joy Division! Pus o disco ao vivo que eu tinha deles, e fui, lentamente, tomar banho e vestir-me. Não me recordo de nada do que se passou entre o momento em que pus o disco e o momento em que reparei que estava pronto para sair de casa! Acho que naquela altura já havia um ritual, ou uma coisa semelhante qualquer, tão normal para mim que não dava nem pelo facto de estar a tomar banho ou estar vestir-me! Reparei apenas na roupa que tinha vestido quando passei pelo único espelho que tinha em casa, mesmo quando estava a sair para ir para o trabalho. Acho que devem ter passado uns 30 segundos enquanto pensei se por acaso já tinha vestido aquela roupa durante aquela semana. Para além de não me ter recordado se o tinha feito ou não, ainda pensei, pela milésima vez, que não interessava nada se eu tinha ou não vestido aquela roupa naquela semana, se eu próprio não me lembrava disso, quem é que se iria lembrar? E mesmo que se lembrassem, o que é que isso interessava?! Tudo isto é sempre muito bonito de dizer, mas se isto realmente não me interessava por que é que eu perdia tempo a pensar nisto, acho que no fundo sempre gostei de me desculpar a mim próprio pelas mentiras a que me auto infligia! Tranquei a porta de casa, com duas voltas na fechadura, e saí para a rua. Sempre que saía à rua para me dirigir a um sítio qualquer, tinha sempre a tendência para voltar atrás a fim de verificar se estava mesmo tudo desligado. Uma luz, o esquentador, o gás... E todos os dias, quando voltava a casa, verificava sempre que tudo estava desligado. Dizia sempre a mim próprio que era uma estupidez fazer aquilo, que aquilo só me fazia perder tempo e que tinha de me deixar daquelas paranóias! Decidi que naquele dia não ia voltar atrás para verificar se estava tudo desligado. Entrei no carro e fui para o trabalho. Assim que entrei no edifício onde trabalhava, dirigia-me eu para o meu lugar, quando reparei que vinha na direcção contrária à qual eu me dirigia, aquele gajo que desde o primeiro dia em que eu trabalhava ali nunca me tinha dito bom dia! Normalmente, em todas as situações em que uma pessoa não me respondia bom dia ao bom dia que eu lhe tinha dito, eu nunca mais lhe diria bom dia e a nossa relação terminaria ali. Dizia sempre a mim próprio que uma pessoa que não diz bom dia é parva, ou então que não teria havido empatia suficiente entre nós para que se pudesse estabelecer uma relação em que apenas o bom dia ou a boa tarde fosse dito. Mas, não sei porquê, incomodava-me mesmo o facto daquele gajo nem sequer olhar para mim quando eu dizia bom dia! Cheguei ao meu lugar e enquanto me sentava, pensava mais uma vez que ninguém, das pessoas que já estavam a trabalhar, tinha ouvido o tímido bom dia que eu tinha dito ao chegar ao pé da minha cadeira! Comecei o dia de trabalho tal e qual como todos os dias. Sentei-me à secretária e pus-me a olhar para o ecrã a pensar o que é que eu faço aqui. Normalmente as manhãs passavam melhor do que as tardes e aquele dia não foi excepção. Com uns cigarros fumados, uma ou outra piada trocada com o colega da secretária ao lado, e chegava a hora do almoço. Era quase outro ritual ir almoçar ao meio-dia e meia. Tive sempre a ideia de que se saísse a essa hora e voltasse às duas e pouco, ninguém iria notar a minha falta durante a hora e meia que durava o meu tempo de almoço. DEsta forma sempre passava mais um bocado de tempo ser ter que ali estar. Nunca gostei daquilo que fazia e nunca soube por que é que me mantive ali tanto tempo! Quando começou a tarde, começou novamente o degredo. Detestava as tardes. O tempo nunca mais passava e nunca mais chegava a hora de sair. Tinha sempre pressa que chegasse a hora de sair, tinha sempre pressa para sair dali. Eu raramente tinha alguma coisa para fazer depois de sair. No entanto, sempre que saía do trabalho, 10 minutos depois de ter saído já estava num sítio qualquer dentro do carro a pensar que não tinha mais nada para fazer até ao outro dia de manhã quando tivesse que me levantar para ir trabalhar. Passava a vida a pensar em coisas que gostava de fazer quando saísse do trabalho e passava a vida a pensar no que é que iria fazer quando chegasse o fim-de-semana ou as férias, sempre com pressa que os dias chegassem ao fim ou que as férias ou o fim-de-semana chegassem! Houve uma altura da minha vida em que uma pessoa, que me era muito querida, me perguntou por que é que eu estava sempre com tanta pressa e por que é que eu tinha sempre tanta pressa para ir para outro lugar qualquer! De todas as vezes que pensei nisso, nunca consegui dar-me uma resposta satisfatória! Nunca consegui saber por que é que eu tinha tanta pressa para ir para outro lado fazer absolutamente nada a não ser olhar ou pensar, mas sempre fiz isso e sempre achei que era isso que eu devia fazer, apesar de ter dado, em praticamente todas as vezes, a mim mesmo e a quem me perguntava, uma desculpa ou uma justificação qualquer, sempre plausível! Passei muitos dias a queixar-me da minha vida e a achar que nada podia fazer para alterar o rumo que as coisas tinham tomado, e vivi não sei quanto tempo dessa forma! Naquele dia, mais uma vez, tudo isto se repetiu novamente. Tudo isto, menos aquilo que me aconteceu por volta das 17:24, quando faltava quase meia hora para poder sair dali. Não me recordo de quase nada do que se passou, só me lembro de num momento estar a ver o ecrã à minha frente e num outro momento sentir umas palmadas na cara e de ter visto o teto branco do meu trabalho. Depois disso foi a escuridão e o silêncio total...
Morri no sítio em que passei mais tempo da minha vida e ao mesmo tempo no sítio em que mais detestava estar! Um ataque fulminante e apenas alguns segundos foram o suficiente para terminar com tudo de vez! Em tempos, uma amiga tinha-me dito que a coisa que mais fazia impressão à Mãe dela quando via um acidente de carro, era o rádio por vezes permanecer a tocar enquanto uma pessoa morria mesmo ali, ao som da música que minutos antes desfrutava. Para mim isso sempre significou que a vida, apesar de tudo continua e não pára por causa de mais um acidente qualquer. Naquele dia, depois de ter decidido não ir a casa verificar se estava tudo desligado, deixei a tocar, pela primeira vez desde que morava naquela casa, a música que queria ouvir quando fui tomar banho. Depreendo que por estar tão absorto, a pensar se já teria vestido naquela semana a roupa que usei naquele dia, nem dei pelo facto de haver musica a tocar enquanto saía de casa. Ouvir a mesma música vezes sem conta era outra das coisas que gostava muito de fazer. Quando as pessoas a quem eu disse alguma coisa durante a minha vida entraram, dias mais tarde, na divisão que eu tinha reservado para guardar todos os meus discos, recordações e tudo aquilo que restou de mim, das colunas saiam repetidamente as palavras: ” Welcome to the atrocity exibition, this is the way step inside"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Atlantic City

- Sabes qual é que é a grande vantagem de seguir por uma estrada ao calhas, sem prestar qualquer atenção ao caminho que se está a fazer, desfrutando apenas da paisagem e do gozo que se tem quando se viaja sem um destino certo? É que mesmo que mais tarde queiras, já não consegues voltar para trás. Como tal, já sabes à partida que não vai adiantar nada pensar que a determinada altura devias ter virado à esquerda, ou direita, mas afinal seguiste em frente.

Passividade activa ou O vira da parvoíce

A Maria, no outro dia, olhou e disse bom dia, quando eu estava a passar.
Bom dia, disse à Maria, quando ela no outro dia, olhou para me saudar
Às vezes sou indeciso, não tenho o que é preciso, dói-me o dente do siso, quando estou a crescer
Tem vezes que é preciso, ser um pouco indeciso, para não pensar no siso, que me está a doer
Por vezes ter a certeza, não é grande esperteza, jogar muito à defesa, pode até fazer sofrer
Noutras vezes à defesa, se jogarmos com esperteza, podemos ter a certeza, daquilo que queremos ter
Avancei para a Maria, perguntei se concebia, comigo quem sabe um dia, uma saída irmos dar
Quem sabe talvez um dia, respondeu logo a Maria, quando vi que concebia, através do seu olhar
Segui então o meu caminho, dando ensejo ao destino, que é constante e paulatino, no que toca a surpresa
E cumprido o destino, com a Maria no caminho, eis que algo repentino, se transforma em certeza!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Can't catch love with a net or a gun

…Então, numa determinada altura da minha vida, apaixonei-me por completo por uma belíssima rapariga. Numa das primeiras conversas que tivemos, ao invés dela tentar fazer aquele charme habitual que normalmente se faz quando se quer cativar, ou impressionar uma pessoa, ela disse-me, mesmo numa tentativa de me tentar seduzir, que conseguia apanhar coisas com os pés! Eu desde que a tinha visto pela primeira vez estava completamente conquistado, mas foi aquela frase naquela tarde que consolidou tudo…

Gotta keep faith that your path will change

A incoerência que praticas diariamente, deixa-te descalço e só, dentro de um beco pejado de vidros, com pontas afiadas, no decorrer do unico caminho que tens para a saída. Cortar os pés e as pernas à medida que vais andando, é a unica solução que te resta se não quiseres ficar preso no beco.
O medo que sentes da dor, provoca-te pânico, espasmos, ao ponto de preferires tentar trepar a já gasta, ultra lisa e sem fissuras, parede que te circunda.
Desistes da ideia de tentar sair do beco a correr, as hipoteses de te cortar menos vezes aumentam ao mesmo tempo que aumenta a possibilidade dos golpes serem mais fundos. Desistes tambem da ideia de tentar sair lentamente e com cuidado. Tal ideia exerce uma pressão de cuidado e concentração sobre ti, que sabes não conseguir suportar durante muito tempo. Os trinta metros que te separam da saída, estão cada vez mais longe do teu horizonte.
Estás preso num beco que te proporciona uma saida e não tens coragem para a enfrentar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Jogos físicos e psicológicos

Eu não acredito! Cada vez que sucede algo que a surpreenda, pumba, lá diz ela mais uma vez que não acredita!
Há uns dias, tinha acabado ela de dizer que não acreditava em qualquer coisa que já nem sequer me recordo do quê, quando de repente parámos em frente à porta do metro a fim de observar um mendigo entretido a lamber o palito com que tinha acabado de limpar as gengivas podres da sua boca fétida! Ele encontrava-se tão entusiasmado com a ideia de ainda conseguir deglutir aquele pedaço minúsculo de carne carcomido, que por sorte se tinha colado à madeira encharcada de saliva, que nem sequer reparou que estávamos ambos a olhar para ele, expectantes, para ver quando é que ele daria por terminada a sua pequena refeição. Provavelmente para uma posterior utilização, assim que ele guardou cuidadosamente o palito dentro do bolso do casaco roto, enquanto descíamos as escadas decidi desanuviar o ambiente com um apontamento humorístico Estupidamente, pensei que bastava dizer que costumo fazer exactamente o mesmo quando uso um palito, para depois esperar que ela dissesse de uma forma histérica "EU NÃO ACREDITO" e de seguida fizesse uma cara de nojo forçada, no entanto muito mais expressiva do que a cara que tinha feito espontaneamente quando viu o mendigo, e a seguir sorrisse, com aquele riso que só ela consegue fazer, para que aquele desconforto que se sente sempre que se vê um mendigo se desvanecesse e tudo ficasse bem ainda antes de chegarmos lá abaixo. Só que, para minha completa surpresa, ela respondeu-me, com o sorriso que só ela sabe fazer, "Eu também", continuando impávida e serena a descer as escadas!
Eu não acredito! Disse-lhe eu com esperança que ela tivesse tido exactamente a mesma ideia que eu para desanuviar o ambiente. Mas ela, sempre na dela, perguntou-me porquê, se eu até fazia também o mesmo! Disse-lhe que estava a brincar, que tinha dito que fazia o mesmo só para desanuviar o ambiente! Ela, depois de me dizer que não via qualquer razão para que o ambiente necessitasse de ser desanuviado, respondeu que aquilo nem sequer a tinha incomodado! Que tal coisa, como muitas outras, é a coisa mais normal do mundo! Não contente com isso, ainda decidiu revelar-me que uma das coisas que mais aprecia, é quando por vezes um bocado de comida se solta de uma qualquer cavidade num dente, e ela consegue ter a possibilidade, a meio da tarde, de voltar a sentir o gosto que o almoço lhe proporcionou! Eu não acredito! Estás mesmo a falar a serio? Indaguei eu cada vez mais surpreendido com aquelas súbitas revelações! Ela sorriu, mais uma vez, e respondeu-me que não, que obviamente não estava a falar a serio, que apenas tinha dito o que disse para me provar a razão pela qual acha que somos almas gémeas! Então e que razão é essa, perguntei honestamente admirado! Lembras-te da nossa conversa sobre os pequenos detalhes, os pormenores serem a coisa mais importante, aquilo que faz realmente a diferença, disse-me ela muito seria. Sim, lembro, porquê? Porque eu reparei há uns dias que tu dizes sempre “Não acredito” cada vez que te digo uma tontearia qualquer, e isso diverte-me mesmo muito! Não só porque eu digo exactamente a mesma coisa quando me surpreendem, como fazes sempre uma cara que só me faz querer beijar-te! Então, aproveitei a tua tentativa de desanuviares o ambiente, sim, porque tu és tão previsível que utilizas sempre o humor quando algo te perturba, para te revelar que cheguei à conclusão que nós somos de facto almas gémeas! Não achas lindo? EU NÃO ACREDITO! Foi a única coisa que consegui dizer! Estávamos a entrar para o metro quando ela se virou para mim e disse; Ah, quase que me esquecia de te dizer isto, ontem quando fui tomar um café com a Sofia, fomos aquele bar que vou contigo de vez em quando, aquele da empregada com um bigode disfarçado que só a empregada deve pensar que mais ninguém nota que ela o tem, e estava uma rapariga careca, tipo o vocalista dos UHF, a olhar, com o olhar mais infeliz do mundo, para o horizonte! E então, perguntei eu. Não achas curioso que no bar onde há uma empregada que tenta disfarçar os pelos a mais que tem, esteja, ao mesmo tempo, uma outra gaja que não consegue disfarçar os pelos a menos que tem? Quais são as possibilidades de uma coisa destas acontecer? De facto é mesmo curioso! Disse eu, enquanto nos sentávamos num banco vago e um cego passava por nós...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Stutter

Por que é que não fazes assim?
Por que é que não tentas de outra forma.
Eu no teu lugar faria assim...
Se fosse eu nunca mais faria isso outra vez...
Eu no teu lugar terminava com essa situação de uma vez por todas, por que é que não fazes isso?
Se não és compreendido, por que é que continuas a insistir, desiste...
Toda a gente é capaz de analisar, dar conselhos e dizer aquilo que acha melhor para o seu amigo ou amiga. Toda a gente sabe perfeitamente o que faria se estivesse na mesma situação que a pessoa que está a falar com ela. Mas nunca, ou quase nunca fazemos o que dizemos quando somos nós em situações semelhantes, falta sempre um clic que nos faça aperceber das coisas, ou mesmo que nos apercebamos das coisas, falta sempre um clic qualquer que nos impede de fazer o que numa situação em que se fossemos nós a dar o conselho, seria aquilo que faríamos!
A conclusão que chego, é a de que estamos a um clic de distância de podermos aplicar na prática tudo aquilo que sabemos e aprendemos ao longo das nossas vidas. Mas ainda falta o raio do clic. Se ao menos fosse um interruptor difícil de chegar, mas que soubéssemos onde está...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Blandícia

Sempre me indaguei sobre o que sentem as lâmpadas quando as acendo ou apago! Será que elas sabem, ou lembram-se, de tudo o que iluminaram quando estavam acesas, ou mesmo apagadas? Será que elas sabem quem é que as acende ou as apaga e acabam por nutrir um carinho especial por este ou por aquele, quando alguém entra na divisão que elas iluminam! Será que elas conseguem falar umas com as outras quando estão todas numa rua, ou num espaço amplo, a iluminar? Será que elas gostam do facto de serem apagadas, aproveitando para descansar, ou esfriar as ideias, quando não são necessárias, ou preferiam estar sempre acesas até se fundirem? Ou será que gostavam mesmo é de estar sempre apagadas, mas, no entanto, prontas a serem usadas, tendo dessa forma vida eterna? Será que elas têm noção da importância que têm e são tão altivas por causa disso, chegando mesmo ao ponto, por causa disso, de nunca proferirem uma palavra? Será que uma uma lâmpada de um candeeiro de cabeceira se sente inferior a uma lâmpada de tecto? Ou no mundo das lâmpadas, apesar da voltagem, do tipo, e dos tamanhos diferentes, todas sentem que são úteis e necessárias não obstante das diferenças entre elas? Uma coisa é certa, quando alguém quer representar uma ideia, num livro de bonecos, por exemplo, é uma lâmpada acesa que é colocada num balão branco por cima de uma cabeça! Será que o cérebro também é composto por milhões de pequenas lâmpadas, que se acendem e apagam, e morrem à medida que se vão fundindo? Eu cá, não sei como é que é com as lâmpadas, mas lembro-me de tudo que se passou durante os não sei quantos minutos que o meu cérebro ontem desligou! Se agua é vida, as lâmpadas sentem, é quase certo isto...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Inbetween Days

Gosto da energia que transmitem logo de manhã aquelas pessoas que andam com os pés para fora, tipo Charlie Chaplin mas não de uma forma tão acentuada, e ao mesmo tempo com os braços estendidos e mortos, com o ar mais cansado do mundo, a entrar vagarosamente dentro do metro. Gosto da sabedoria daquelas pessoas que gostam de desanuviar o ambiente durante as conversas de trabalho usando, como forma de piada extremamente engraçada, expressões utilizadas na publicidade da empresa onde trabalham, tipo aquele gajo que trabalha nos escritórios do pingo doce e diz que o ficheiro está guardado está no sitio do costume, ou entao aquele gajo que trabalha na IKEA que diz Välkommen till oss, hemma hos dig, enquanto chama um colega para lhe transmitir um recado do chefe. Aprecio mesmo o conhecimento profundo daquelas pessoas que, numa reunião ou numa apresentação qualquer, fundamentam a sua opinião dizendo e por aí adiante, ou e por aí fora, ou até mesmo etc etc etc, depois de terem demonstrado, notoriamente, que já não conseguem dar mais nenhum exemplo para uma determinada coisa ou situação. Quase sempre que tal sucede, quase cedo à tentação de perguntar apenas e só por mais um exemplo. Provoca-me realmente prazer a postura daquelas pessoas que desatinam por frequentemente não serem convidadas para um pausa de um cigarro, ou de um café, durante o horário de expediente, jamais se questionando do porquê de tais convites nunca sucederem. Aprecio profundamente o saber daquelas pessoas que ao fim da tarde dizem pedisse licença para passar, quando sabem que estão a impedir as pessoas que não capazes de pedir licença para passar por elas nas escadas rolantes, e que quando o mesmo lhes acontece, porque também são pessoas incapazes de desatinar com as pessoas que impedem as outras de subirem as escadas rolantes a andar, vão o tempo todo a dizer para a pessoa do lado, que não conhecem de lado nenhum, que há gente que não tem respeito nenhum pelos outros.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O sonho comanda a vida

Vou sempre sozinho no carro para o trabalho, só que ontem tinha combinado levar o Tiago ao trabalho dado que ele tinha o carro na oficina. Uma vez que ele trabalha uns quilómetros mais a frente do sítio onde trabalho, depois de o ter ido buscar a casa, segui exactamente o mesmo caminho que faço todos os dias para o trabalho. Tirando o facto de o ter ido buscar a casa e isso ter feito com que não tivesse feito o horário que costumo fazer, estava tudo a ser igual aos outros dias. Desde que vivo ali, gosto de fazer o caminho que faço para o trabalho, é uma estrada estreita, rodeada em grande parte por vegetação, alguns montes, várias casas baixinhas todas pintadas de branco, bastante sinuosa, onde por vezes, em algumas partes do troço, chega a causar alguma entropia no trânsito quando se cruza uma camioneta com um carro. Tirando as horas normais de ida e vinda do trabalho, tem bastante pouco movimento e não sei porquê, mas passar por ali todos os dias, principalmente de manhã, o percurso acaba por me transmitir invariavelmente alguma calma e descontracção antes de chegar ao trabalho! Como normalmente vou sozinho, acabo sempre por descobrir um pormenor ou outro pelo caminho, às vezes nem me apercebo que vem um carro no sentido contrário e até já levei com algumas buzinadelas por ir distraído a conduzir. Mas ontem ia o Tiago comigo e ao contrário do que gosto de fazer de manhã, vi-me obrigado a debitar palavras logo pela fresquinha! Foi então que, numa das poucas e curtas rectas que a estrada tem, vi a possibilidade da concretização de um sonho que tenho desde os findos anos 80, quando vi um episódio da série “Dempsey & Makepeace”. A pequena recta é toda ladeada por musgo, ervas, terra e algumas árvores, é relativamente larga comparativamente com o resto, e naquela zona, como é uma recta, tem algumas lombas que nos obriga mesmo a abrandar a marcha. Quando estava a iniciar a recta, vi, no sentido em que seguia, junto à paragem de camioneta que existe quase no fim da recta, um carro parado. O carro estava parado uns 5 metros à frente da paragem, meio na berma meio na estrada e ao lado do carro estava uma mulher, de meia-idade, ruiva, a falar com um homem, também de meia-idade e calvo! Do outro lado da estrada, mesmo em frente à paragem, também meio na berma, meio na estrada, estava uma carrinha branca igualmente parada. Quando iniciei a recta, não me apercebi logo, mas quando estava mais ou menos a uns 40 metros da carrinha, devido a uma pequena neblina, reparei que a carrinha estava a deitar fumo do tubo de escape e pude constatar que estava trabalhar. Tudo isto, enquanto os dois estavam do outro lado da estrada, naquilo que aparentava ser uma amena conversa. Não me recordo sobre o que é que eu e ele estávamos a conversar quando parei o carro em frente a uma lomba já muito perto da paragem, só me recordo da cara atónita do Tiago quando me vê a sair do carro a dizer-lhe bem alto que estava mais do que na altura de ele perder o medo de conduzir uma vez que já tinha a carta quase há um mês. Nisto virei-me para as pessoas, que estavam agora em silêncio a olhar para mim e para o meu carro, que da forma que estava parado, impedia a passagem de qualquer veículo, e disse-lhes que o meu amigo tinha medo de conduzir e que eu ia trocar de lugar com ele para ver se ele conseguia conduzir ali sem problemas, uma vez que a estrada tem pouco movimento. O homem ainda me disse com um ar sorridente, para ter cuidado que a estrada não é assim tão calma como parece. De seguida retomou a conversa com a mulher. O Tiago, sem perceber absolutamente nada, saiu do carro, sempre com a cara de espanto que tinha colocado desde que eu tinha parado em frente à lomba, e dirigiu-se pela parte da frente do carro para o lugar do condutor. Assim que o Tiago assumiu o meu lugar, enquanto eu me preparava para começar a dar a volta por detrás do carro, gritei o mais alto que pude ao mesmo tempo que olhei para o céu, cuidado vem aí um meteorito! Assim que terminei de gritar, no segundo e meio em que as duas pessoas pararam novamente de falar e olharam compulsivamente para trás, a fim de se certificarem sobre a veracidade do que eu tinha acabado de gritar, entrei para a carrinha que estava a trabalhar e arranquei a fundo no sentido contrário do meu trabalho. Ainda consegui ver o meu carro a soluçar várias vezes quando arrancou e não consegui suster o riso quando imaginei o Tiago a pensar o que é que devia fazer, antes de ter arrancado com o meu carro. Um dia destes ainda nos havemos de rir a bom rir com isto, para já, o Tiago não atende as minhas chamadas!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Banda Sonora

- Então é isto que tu fazes todos os sabados à tarde? É por causa disto que discutimos há anos? É isto que fazes com o teu denominado tempo? É este o tempo que tu tanto queres preservar?

- Sim.

- Tu queres mesmo convencer-me que tu vens todos os Sabados para aqui, há anos, e aqui ficas, em silencio, a fumar uma ganza e a olhar para o mar! É mesmo só isto o tempo que dizes querer só para ti?

- A maior parte das vezes leio depois de fumar. E um pouco antes de me ir embora oiço musica enquanto fumo um cigarro...

- E é isto que fazes sempre? Sozinho aqui! Porquê?

- Tu disseste que querias saber o que é que eu faço sempre todos os Sabados à tarde. Eu disse-te que te trazia desde que ficasses apenas a observar e não me interrompesses. O que é que achas que estás a fazer agora?

- PRONTO! Está bem! Diz-me só porquê?

- Porque aprecio mesmo, mesmo, mesmo, ficar a olhar para o mar em silencio enquanto fumo, enquanto leio, enquanto oiço musica. Faz-me sentir vivo...

- ...

- ...

- ... ... Está bem...

- ...

- ... ... Olha lá aquela onda! Espectacular...

- ...

- ... Dá-me um beijo... ...Não faças essa cara! Só um beijo, vá...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Tiny Vessels

- O que é que te faz desistir?

- O que me faz desistir? Como assim? Desistir do quê?

- Não é desistir de nada em particular, é de uma forma geral. O que é que te faz deitar a toalha ao chão, dar-te por vencido, achar que não vale mais a pena...desistir?

- Depende da situação!

- Sim, mas eu acho que em todas as situações, é sempre a mesma coisa que se perde, ou que se deixa de ter, para que se consiga desistir...

- E que coisa é essa?

- A motivação. Sem motivação as pessoas desistem. As motivações são o movel que nos fazem sentir que algo ou alguem valem a pena, e isso sim, é que difere de situação para situação, mas, quando se desiste, o motivo é sempre o mesmo, a perca da motivação!

- Não concordo. Não será que existe tambem uma motivação que te leva a desistir, uma motivação que se sobrepõe a uma primeira motivação, porque é mais forte, mais consistente, mais realista, ou até mesmo mais irreal, porem mais desafiadora, mais de acordo com o que se sonha, ou se almeja? Porque é que dizes que se desiste por se ter perdido a motivação e não porque se ganhou, ou se adquiriu, outra motivação? Não me parece que se desista porque a motivação acabou. Acho que é mais, tal como tinha dito no principio, que é por causa de vários factores determinantes, como tu bem disseste, existem n factores que podem levar alguem a motivar-se, desistir é apenas mais uma motivação! No fundo, existem apenas diferentes tipos de motivação que nos levam a fazer coisas diferentes, sendo que umas são desistir, outras lutar, perder, ganhar, etc...

-O que estás a dizer é uma parvoice, já ouviste falar de alguem que esteja motivado para desistir? Quem é que tem motivação para desistir?

- Isso depende do motivo! O que eu estou a dizer é que o motivo que te leva, ou não, a desistir, é que difere! Imagina, por absurdo, que estás motivado para lutares por uma relação, mas ao mesmo tempo que isso te passa pela cabeça, conheces uma gaja que sentes de imediato que é a tal. Não te sentes motivado a desistir de lutar pela relação, porque queres começar outra? Não perdeste a motivação, houve foi outra motivação que se sobrepôs à primeira...

-Isso não é um bom exemplo! Eu perdi uma motivação e tive outra motivação, isso é que aconteceu! Então e num jogo, quando uma equipa está a perder por 7-0 e ainda faltam 30 minutos para acabar o jogo? A equipa que perde já não tem motivação para continuar a lutar pelo resultado, obviamente que desiste!

- Isso é que é um mau exemplo! Sim, é verdade, a equipa desiste de tentar ganhar o jogo, mas há equipas que tentam ao menos marcar o ponto de honra, outras que continuam a correr, mais que não seja para treinarem, outras que começam a jogar com calma à espera que o tempo passe sem que sofram mais golos, etc. Em suma, as motivações iniciais do jogo foram sobrepostas por outras que foram surgindo com o decorrer do jogo! Para mim perder a motivação, é ficar sem motivação para fazer o que quer que seja, e isso não existe! Nem neste caso que dizes, nem no que eu disse, a motivação não se perdeu, ficou foi diferente, com outros intentos, mas continua lá na mesma! Nada se perde, tudo se transforma...

-Não se consegue falar contigo, és teimoso como uma porta!

-Isso digo-te eu a ti, parece que tens palas nos olhos e só vês em frente!

-Desisto...Já perdi a motivação para falar contigo...

-Eu é que desisto...Mas é porque tenho outras motivações que se sobrepuseram à motivação de continuar a falar contigo...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Dá-me lume...

Ela tratava-me por gatinho porque pensava que eu ronronava sempre que ela me fazia festinhas nas costas! Nunca fui capaz de lhe dizer que era apenas enfisema pulmonar...

Dízima infinita

Recordo-me sempre, como se fosse hoje, da tua cara, da tua voz, a pedir para te foder. No entanto, nunca consegui compreender a tua cara de fodida a olhar para mim.

If I could, I would, let it go...

- No Domingo a Joana virou-se para mim e disse: "Sabes Pedro, tu fazes-me ver todo o meu mundo de uma forma completamente diferente!"

- A Joana! A serio? E tu, o que é que lhe respondeste?

- Disse-lhe que não era eu, mas o alcool que ela já tinha bebido.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Complexos #15

Ao contrário do que normalmente acontece, decidi que iria meter conversa com ela de uma forma interessante, moderna e apelativa, almejando aguçar a perspicácia e o intelecto dela, ao mesmo tempo que faria uma inequívoca demonstração da minha argúcia e incomensurável sentido de humor. (Não que eu normalmente não meta conversa de uma forma interessante, mas porque normalmente não meto conversa de uma forma decidida.)
Assim, aproximei-me dela e perguntei-lhe se ela achava que as bombas de gasolina que são assaltadas e não revelam a quantia que foi surripiada, o fazem porque foi apenas uma quantia irrisória que foi levada, ou porque foi uma avultada quantia e não querem que se saiba que foram violentamente desfalcados. Quando terminei de falar, fiz a minha melhor cara, e aguardei pela resposta demonstrando segurança e contentamento por ter apresentado tão brilhante dilema. Demorou cerca de dois segundos o misto de espanto e hesitação dela, para de seguida me perguntar se eu fazia parte de algum gangue, daqueles que agora andam para aí a assaltar bombas de gasolina! Outros dois segundos passaram, sem que eu tenha tido tempo para dizer o que quer que fosse, e ela desatou histericamente aos berros proferindo palavras como agarra que é ladrão, socorro, S.O.S, coisa que não ouvia desde que era puto e brincava com os meus primos aos espiões, e a melhor de todas, gatuno! Ainda parei cerca de meio segundo para poder desfrutar daquela memória recôndita no meu cérebro suscitada pelo S.O.S! Perdi outro meio segundo quando a seguir me recordei também da calhauzada na cabeça que um dia levei quando brincávamos aos profissionais, tendo na altura a estrela metálica de Xerife, que o meu chapéu albergava, safado de me ter aleijado a serio! (Éramos crianças e podíamos misturar espiões com cobóis sem haver complicações por causa disso!)
Desta forma, e no espaço de cerca de cinco segundos, desde o malfadado momento em que decidi meter conversa até ao momento em que as memórias me faziam viajar no tempo, dei por mim estavam as pessoas todas do bar a olhar para nós! Preparava-me para dizer que estava tudo bem, fazendo aquele ar de que tudo está a correr como previamente tinha sido planeado, quando um homem, com uns três metros de altura, pelo menos, me agarrou no sítio que era suposto haver colarinhos (finalmente percebo a utilidade de um colarinho) e me disse que eu tinha escolhido o sítio, a hora e a pessoa errada para assaltar! Com algum custo consegui livrar-me dele, tendo apenas levado duas galhetas e um tabefe, e, com um bocado mais de esforço do que tinha feito para me livrar dele, lá consegui explicar-lhe que não sou nenhum larápio e que estava apenas a meter conversa com a rapariga, nada mais! Ainda com toda a gente a olhar para mim, mas com os ânimos notoriamente mais serenos, o homem perguntou-me por que razão é que alguém mete conversa dizendo que é ladrão! Mal tinha começado a explicação que poria tudo em pratos limpos quando de repente vejo a mulher com quem eu tinha metido conversa cair redonda no chão a hiperventilar! Nova confusão, tudo aos berros, uma mulher que grita para chamarem o 112, massagens cardíacas, respiração boca a boca, pessoas a gritar para darem espaço, o individuo de trÊs metros a berrar ao telefone com alguém do INEM e um outro homem somente a abanar negativamente a cabeça a olhar para mim!
Não sei se devido aos três vodkas que já tinha ingerido, ou se devido ao facto de sempre que vejo alguém fazer a respiração boca a boca eu me recordar de imediato da praia das maças e daquelas bóias brancas com listas vermelhas, senti uma vontade enorme de mictar, coisa que tentei refrear ao máximo até não aguentar mais, para finalmente, uma vez que a coisa parecia mesmo vir a ser demorada, ter mesmo de ir ao W.C.
Provavelmente por terem achado que estava a planear uma fuga qualquer, assim que saí da casa de banho estavam 2 polícias à minha espera!
Aparentemente aquele homem que abanava negativamente a cabeça era cunhado de um bófia e nem sequer hesitou em ligar-lhe quando a confusão começou a ocorrer! Para meu azar o cunhado dele estava de serviço e a esquadra era mesmo ali perto!
Estava já há duas horas e meia na esquadra da polícia quando chegou a notícia que felizmente a rapariga teve apenas um ataque de stress e não tinha morrido! Com o olhar reprovador de todos os polícias, 3 cacetadas e dois murros no estômago depois, saí da esquadra directamente para casa sem saber sequer o nome dela! Há gente realmente muito parva, pensei eu a caminho do lar doce lar!
Como não sou pessoa para me dar por vencido, no dia a seguir alterei ligeiramente a estratégia, dirigi-me a outro bar e decidi novamente meter conversa com uma rapariga! Desta vez perguntei-lhe se ela achava que quando um campeonato qualquer começa as equipas estão todas em último ou em primeiro lugar. Ela sorriu, e disse que gostaria primeiro de ouvir a minha resposta à mesma pergunta!
A coisa desta vez estava a correr bem! Sem hesitar disse-lhe que para mim estão sempre em último porque como toda a gente sabe os últimos são sempre os primeiros, demonstrando novamente segurança e contentamento por ter apresentado outro brilhante dilema.
Ela voltou de novo a sorrir, levantou-se, revelou-me que era psicóloga e disse-me que apesar de ter achado original a minha abordagem o que eu disse revela que sou um negativista em vez de um positivista, coisa que para ela não funciona! Despediu-se de mim e saiu sem sequer olhar uma vez para trás!
O mais engraçado disto tudo, é que eu sempre soube que havia uma razão para eu não meter conversa decididamente, agora, e enquanto estiver na posse de todas as minhas faculdades mentais, já sei porque é que não o devo voltar a fazer.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Banda Sonora

Naquela altura, os dias só começavam verdadeiramente depois das dez e meia, onze da manhã. Era limpinho! Como por milagre, todos os dias depois das dez e meia, onze da manhã, lá despontava o Sol entre o emaranhado de nuvens, e por vezes alguma chuva, e finalmente começava o calor abrasador que se iria fazer sentir durante o resto do dia! Antes, por volta das nove, o acordar penoso, sempre sob forte humidade e frio, não só fazia com que, invariavelmente, a vontade de nos levantarmos fosse sendo adiada, até que o frio conseguia ganhar e nos obrigava a sair da tenda, como fazia com que se pensasse, todos os dias, que desta é que o dia não iria ser bonito. Nunca consegui compreender como é que conseguíamos adormecer com tanto frio e depois só voltávamos a sentir o mesmo frio quando abríamos os olhos de manhã, sendo o saco de cama o mesmo ao deitar, durante a noite, e ao acordar! Depois da habitual viagem aos balneários, onde os homens mais velhos, usualmente os gordos e com bigode, persistiam em andar somente de fato de banho o dia todo, e às vezes também com uma toalha ao ombro, apesar do frio matinal, e de cumpridas, a muito custo, devido à agua extremamente fria, todas as tarefas de higiene matinal, o pequeno-almoço, que quanto mais cedo se tomasse mais cedo se poderia ir ao banho, era sempre leite natural e uma sandes ou de queijo ou de fiambre, feita com o pão comprado na cantina do parque só para se poder fazer o pequeno-almoço. O pão a serio, bem como os restantes viveres, seriam comprados depois na vila. Do parque até à vila são cerca de quinhentos metros e praticamente todas as pessoas lá iam de manhã fazer as suas compras, sendo a cantina do parque apenas utilizada de manhã para se comprar o pão, depois do almoço para se beber o café com o bagaço ou bagaceira, e por fim depois do jantar para se poder ver a telenovela, única altura do dia, alias, em que durante as férias alguém olhava para a televisão.
Depois de tomado o pequeno-almoço, tanto a caminho da vila, como depois no caminho de regresso, as conversas entre as pessoas, que acabavam por se conhecer e muitas vezes fomentar amizades para o resto da vida ao fazer tal trajecto, eram praticamente dominadas pelo facto do parque ser tão perto da vila e de ali haver tudo o que era necessário para se poder viver! Homens e mulheres do norte, do centro, do sul do País, Alemães, Holandeses, que sabe-se lá como é que tinham descoberto tal sítio e para ali tinham vindo dos Países de origem, às vezes de bicicleta e tudo, falavam entusiasmadamente, todos os dias, sobre tal facto como se fosse uma novidade, uma descoberta que tinham acabado de fazer! Para além da Igreja imponente que se vê logo ao chegar perto da Vila, havia ainda três pequenos restaurantes, dois supermercados/café, num deles era até possível comer hambúrgueres iguais aos hambúrgueres americanos, um café apenas café onde num ano em mil novecentos e oitenta e tal se venderam gelados diferentes dos da Olá, uma farmácia, dois talhos, uma peixaria, um banco, e uma papelaria que vendia tanto bicicletas como chinelos e onde, caso fosse Segunda ou Sexta, também era possível comprar o jornal desportivo do dia anterior e assim saber as ultimas do Benfica. Também havia uma ou duas lojas de roupa, duas sapatarias, uma delas sempre com o sapateiro à porta a martelar qualquer coisa e duas lojas de electrodomésticos, mas, embora fosse tudo na mesma avenida, eram sítios muito menos frequentados e quase que faziam apenas parte da paisagem para os turistas poderem realmente constatar que estavam num sítio verdadeiramente pitoresco! Anos mais tarde, descobri ainda várias tascas, mais algumas mercearias, duas escolas e a casa do povo, mas nesta altura ainda não sabia que por ali existiam tais estabelecimentos. Um verdadeiro mundo, em suma, bem no meio de nenhures! Invariavelmente, por volta das onze e meia, meio-dia, feito o regresso ao parque, era hora de vestir o fato-de-banho, agarrar na toalha e nas braçadeiras, e ir a correr até ao caneiro, sob um sol inofensivo mesmo ao meio dia, e por ali ficar dentro de água até ser hora de almoço.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Banda Sonora

- Sabes o que é que eu acho engraçado nas pessoas? É o facto de milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo, todas as semanas, acreditarem mesmo na hipótese de lhes poder sair um grande prémio num qualquer jogo de sorte ou azar, e que por causa disso continuam, semana após semana a jogar, mas entanto, com base na justificação das experiencias anteriores de vida que tiveram, quase nenhuma consegue encontrar aquela única pessoa, num milhão de pessoas possíveis, que é a sua cara-metade, ou a sua alma gémea! Repara bem, julgam as pessoas que vão conhecendo ao longo da vida com base em comportamentos e experiencias passadas, condicionando assim, logo à partida, um conhecimento isento e genuíno da pessoa que acabam de conhecer, estabelecendo, por norma, as inevitáveis comparações com outras pessoas. Todavia, essa mesma experiencia de vida não lhes permite conseguir ver que as hipóteses de conseguirem ganhar um grande prémio, jogando semana após semana, quase nunca ganhando nada e por vezes gastando significativas quantidades de dinheiro, são muito menores do que as probabilidades de encontrar a sua alma gémea no meio de um milhão de pessoas!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

P.S

Agora vê lá, não deites tudo a perder!
Que bonita, inspiradora, e motivadora coisa de se dizer! Não deites tudo a perder é aquilo que se diz a um falhado que teve a sua segunda oportunidade sem saber ler nem escrever, como alias acontecem todas as segundas oportunidades! Não deites tudo a perder, que é como quem diz, vê lá, estiveste na mó de baixo, ou quase, não faças agora com que lá vás parar outra vez! Sinceramente, quem é que quer estar, por opção, com um calhau de mil quilos em cima dos costados? Mesmo que se tenha a melhor das intenções, ao proferir tal frase, a mesma é logo, e ao mesmo tempo, um aviso e uma constatação de que não se acredita que se vai conseguir não deitar tudo a perder, mesmo que inconscientemente, embora se possa ter a esperança. Então serve para quê dizer uma coisa dessas? Para atrofiar logo as ideias quando a esperança começou a tomar um novo fôlego? Para chamar a atenção que as rosas também têm espinhos? Porque quem te avisa teu amigo é? Porque se acha mesmo que conseguimos ver melhor e mais à frente do que os outros? Porque não queremos que o mesmo aconteça? E quem é que quer? E quem é que não sabe essas patacoadas todas de cor e salteado? Voltamos ao mesmo! O quê? Porque as pessoas por vezes precisam de ouvir dos outros as coisas que já sabem, ou até costumam também dizer aos outros, porque quando somos nós a ouvir da boca dos outros a coisa soa de maneira diferente? Ai é? E como é que isso funciona? Só pensamos bem quando é com os outros? Connosco não pensamos da mesma maneira? Ai achas mesmo que sim? Achas mesmo que as coisas são mesmo assim? Deve ser por isso que a maioria das respostas, quando a frase não deites tudo a perder é dita, são, se depender de mim não deito! Coisa mais absurda de se dizer! Se não depender de ti depende de quem então? MAS TU ESTÁS PARVO OU QUÊ? Achas mesmo que a coisa funciona mesmo assim? Olha, se achas então deves é estar a fazer de mim parvo! Quem é que no seu juízo perfeito julga melhor o que é melhor para os outros do que para si mesmo? Sim, porque esta é que é a questão? Ou o cerne da questão, como eu ouvi no outro dia na televisão! Para ti então as pessoas só conseguem saber o que é melhor para elas com base no que os outros lhe dizem e não no que elas pensam e sabem o que é melhor para elas! Ai não foi isso que disseste? Então o que é que disseste? Para o que é que serve então dizeres, não deites tudo a perder? Achas que eu quero deitar tudo a perder? Ou achas que eu não sei o que fazer? SE eu não souber o que fazer, porque é que achas que aquilo que me possas dizer para fazer pode ser a coisa correcta? Eu não sou tu! Como é que uma coisa que tu achas que seria boa para ti seria ao mesmo tempo boa para mim? Tu não és eu! Como é que te podes colocar no meu lugar e saber o que está na minha cabeça? Se as coisas fossem assim não valia a pena as pessoas falarem umas com as outras! É isso que tens a dizer ao que eu te estou a dizer? Tu ouviste alguma coisa que eu te disse? Então se ouviste, o que é que adiantou eu ter dito se tu não achas o mesmo que eu? Adiantou alguma coisa termos estado aqui a conversar? Então porque é que dizes que se as coisas fossem como eu estou a dizer que não valia a pena as pessoas falarem umas com as outras? Pois… não é

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A mansão perto de Arganil

Existe um sítio fora da beira da Cidade, senhora
Que se vê para além das fábricas e do campo primaveril
Agora, e desde que era criança, lembro-me sempre daquela mansão perto de Arganil

Durante o dia conseguia-se ver as crianças a brincar
Pela estrada que nos levava até aquele jardim pueril
Resplandecentes árvores rodeavam completamente, senhora, a mansão perto de Arganil

À noite, percorríamos aquelas estradas escuras e silenciosas
E ali ficávamos, deitados no muro de pedra, em pura brincadeira juvenil
Conversávamos, sonhávamos, até adormecer, a olhar para aquela mansão perto de Arganil

No Verão, as luzes na ponte brilhavam, a música tocava na rua, e havia pessoas de toda a parte
Embebedávamo-nos, riamos, dançávamos, corríamos em plena demonstração viril
E em êxtase, sossegávamos, sentindo apenas o pulsar da vida, que transmitia a mansão perto de Arganil

Ontem à noite, aqui em Lisboa, enquanto o frenesim de carros me fazia sentir febril
A Lua espectacular que estava, brilhava calma na sua quietude, acima daquela mansão perto de Arganil

(Tradução livre da letra da musica Mansion on the Hill de Bruce Springsteen)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

The hills are alive

- Não achas sempre estranho, ou esquisito, ver uma mulher com suíças?

- Depende, se ela estiver na Suíça não.