• FIM
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Fado para o 1º de Maio

Quis o destino que eu fosse informático, mas não catedrático, apenas corriqueiro
Antes de eu poder saber quão dramática, a vida informática, se torna por inteiro
Antes eu era feliz, quando ainda petiz, queria ser um bombeiro ou então um polícia
Hoje aquilo que eu fiz, a mim nada me diz, embora seja porreiro ter uma vida fictícia
É que nisto da vida informática, esta coisa tecnocrática, é tudo sempre muito virtual
Quando na realidade e na prática, a produção não pode ser matemática, mas sim manual
Se não a sociedade fica em perigo, de emprego perdido
Com pessoas usadas e depois despejadas como num autoclismo
Então por tudo isto eu digo, nem que me torne num mendigo,
Para evitar mais pessoas frustradas, diz não ao automatismo

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Buck Naked

- A senhorita desculpe-me o despautério, mas tenho vindo a reparar, nestes últimos dias, que cada vez que partilhamos o elevador, como é agora o caso, ou cada vez que nas entradas e saídas do prédio nos cruzamos, por obra do acaso quero eu acreditar, que o seu olhar, quando me é directamente dirigido, é um olhar diferente, um olhar que não consigo perceber o seu significado...Mais uma vez peço desculpa se acha o meu comentário totalmente despropositado, mas há alguma coisa em que eu a possa ajudar? Pretende alguma coisa de mim que não se sinta à vontade para o expressar?

- Sim, há. Quero comer-te...

- Senhorita...Pelas chagas de Cristo, peço-lhe que se contenha, não estou habituado a tal linguajar vindo dos finos lábios de uma donzela...

- Mas é a verdade! Quero comer-te...O meu olhar significa isso mesmo. Tive mesmo esperança que o tivesses compreendido e tivesses tido o bom senso de não me dirigir a palavra. Mas tu acabaste por fazer o oposto disso. Agora já não há volta a dar, já falaste comigo e já sabes o que significa o meu olhar...

- Bom Senhorita, de momento não estou comprometido, poderíamos, se lhe aprouver, combinar um chá, quem sabe acompanhado por uns scones de passas...Podemos talvez aproveitar tal ocasião para no conhecermos um bocadito melhor e depois...Bom, depois logo se verá que surpresas nos reservam o nosso fado...

- Não percebeste! Eu quero cortar-te às fatias e comer-te. Shhhhhhhhhhhhh. Não te preocupes que não demora muito. Eu trago sempre comigo o machado de cortar os bifes...Só dói a primeira machadada...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Straight to hell

- Afinal, tu não és nada como eu pensava que eras…

- E quem é que te mandou a ti pensar que eu era como tu pensavas que eu era?

É só, paranoia, mania da perseguição...

A rapariga que não tem auto-estima acha que tudo o que eu lhe digo é para a mandar abaixo ou para lhe apontar defeitos!

Se é quando um gajo quiser...

As pessoas que decidem abortar, reservam-se ao direito de escolher a melhor altura para festejar o Natal

The not knowing is easy #8

- Não consigo compreender como é que na maior parte do Continente africano continua a haver a pobreza e a miséria que existe, sendo certo e sabido que no mercado negro é tudo sempre muito mais caro!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Running to stand still

- Eu não a consigo ver, mas o riso estridente daquela gaja naquela mesa ali está a irritar-me profundamente...

- Deixa lá, é uma velha que não sabe outra forma de poder sobre ela recair todas as atenções...

Transmission

Diz que é uma granda porca esta nova gripe que anda agora por aí!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Liberdade?

- Não gosto do 25 de Abril.

- Do dia da Liberdade?! Porquê?

- Por causa disso mesmo. Soa-me a coisa tipo Natal, é a dia 25 e tudo como o Natal! No Natal é tudo muito bonito e tal, fazem-se umas compras, a amizade, o amor, trá lá lá, pronto, passa o dia, fica tudo na mesma. Com a liberdade acabam por fazer o mesmo! Ah e tal, é dia da Liberdade, vamos expressarmo-nos como queremos e bem entendemos, fazer o que quisermos, dizem-se umas asneiras, gritam-se palavras de ordem contra o sistema, ouvem-se umas cantigas, e pronto, passa o dia, volta tudo à mesma! Então a Liberdade não é para ser festejada e usufruída da mesma forma todos os dias?... Olha, tal como o Natal!

- Isso é uma parvoíce! O 25 de Abril celebra a liberdade porque assinala a revolução, a devolução do poder ao povo, a democracia. Claro que como vives com isso todos os dias nem notas, por isso é que este dia é importante, serve para nos lembrar a todos a liberdade que temos e nem notamos!....

- Bom, lá nisso tens razão! Não noto mesmo a Liberdade que tenho! Deve andar por aí, despercebida, no meio da democracia "pluralista" que temos! Afinal é esse o poder que foi devolvido ao povo. Não sei é quando é que lho retiraram, mas fizeram bem em devolve-lo. Já fazia falta…

- Tá calado mas é pá! Tu só dizes é porcaria e baboseiras, tu lá sabes alguma coisa…

- Isso, censura-me no dia da Liberdade, no dia em que é suposto eu lembrar-me que posso dizer tudo o que quiser! Não é afinal para isso que este dia serve? Olha, parafraseando os Peste & Sida:

Os aldrabões, os vigaristas e os oportunistas, vão subindo na vida, sem darem nas vistas. Fraudes, falcatruas, negócios obscuros, num ambiente destes, nunca estamos seguros. Mentiras, Inveja, e muita falsidade, aqui é que eu não fico, vou fugir...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Jogos físicos e psicológicos

É por estas, e por outras que tais, que não sou a favor de se falar enquanto se faz o denominado amor. Não porque tenha alguma coisa contra isso, antes pelo contrário, mas porque os mal entendidos que se podem gerar ao dizer qualquer coisa que seja interpretada de uma forma que não se estaria a contar, podem ter consequências inimagináveis. Ora foi precisamente um desses mal entendidos que há uns dias, estava eu, por assim dizer, com a moral toda em cima, que aconteceu. Enquanto ela me acariciava a nuca e me beijava suavemente o pescoço perto das orelhas, murmurou-me ao ouvido para eu tentar deixar de ter o ar distante que ela diz que eu costumo ter, e me enterrar profundamente no amor! Nesse momento, a única coisa que me ocorreu foi a conversa que tinha tido com ela, dias antes, sobre variar e fazer coisas diferentes de vez em quando. Apesar de não ter ficado nada concreto decidido, aquela conversa, pelo menos para mim, estabeleceu que a qualquer momento, tanto da parte dela, como da minha, uma surpresa, ou uma variação, como ela frisou na conversa pelo menos umas duas vezes, poderia acontecer. Convencido que tinha ficado bem claro para ambos que somos, sem qualquer tipo de duvida, a favor de todo o tipo de taras, fetiches, e qualquer coisa mais cujo nome técnico para a coisa possa agora não me estar a recordar, numa relação, confesso que na altura em que ela me disse aquilo pensei de imediato que aquela era a dica que ela me estava a dar para começarmos a por em pratica o que tínhamos falado. Assim, imbuído desse pensamento, no meio da euforia natural que já se tinha instalado, a única coisa que me ocorreu, atenção, isto numa fase em que ela está a passar os seus delicados dedos por uma das zonas mais erógenas do meu corpo, sabendo eu a predilecção que ela tem por todas as plantas que possui e trata com mais carinho do que a mim, e sabendo ela, igualmente, os ciúmes, parvos admito, que por vezes demonstro em relação a isso, que ela me estaria a pedir uma espécie de desculpa por isso e que tinha decidido incluir uma das suas maiores paixões no fogo do nosso leito conjugal, sendo a primeira "variação", depois da nossa conversa, a inclusão das duas paixões dela num só momento. Assim, sem hesitar, e sem ela ter proferido qualquer palavra ou qualquer tipo de reacção de espanto, pelo menos assim me pareceu no meio da luz das velas que iluminavam tenuemente o quarto, levantei-me e fui buscar o vaso com a flor predilecta dela, um até bastante bonito amor-perfeito. Quando cheguei ao pé dela com o vaso na mão, ela olhou para mim, aí sim com alguma surpresa, e, ainda por cima, com um sorriso na cara disse-me, "Surpreende-me"! Não foi preciso mais do que meio segundo, de acordo com os meus cálculos, para ter começado, gentilmente até, a penetrar a flor de forma a ela poder ver o quão sensual o meu movimento de anca se pode tornar quando realmente me dedico ao que estou a fazer, e sem o olhar distante que ela diz que faço! Fiz todos os esforços para manter o meu olhar o mais compenetrado possível, ao mesmo tempo que olhava para a coisa mais perto da minha cara, a cara dela. E pronto! Para além da reacção alérgica, do prurido insatisfeito, e da urticária com que fiquei a seguir, os berros que ela sensualmente vociferou foram de tal forma estridentes, que caí para trás tão violentamente, e de uma forma de certeza nada sexy, que não só parti o vaso e espalhei terra e a flor por todo o chão, como agora não consigo agora manter-me em pé mais do que uns três minutos! Para culminar, com a agravante dela ainda não me falar, ou sequer cuidar de mim, como estou de baixa, para passar o tempo, e numa tentativa de apimentar o dia dela, para tentar deixa-la com uma melhor e mais fogosa disposição, e para ver se começa de novo a falar comigo, tentei comunicar com ela através de e-mail enviando algumas ideias mais elaboradas e melhor planeadas de "variações" necessárias para manter a chama do casamento acesa, sempre em jeito de piada como ela sabe ser meu apanágio. Só que, azar dos azares, a chefe dela tem o mesmo nome e um endereço de e-mail também muito parecido com o dela...Apesar de, e até agora, tudo ter saído ao contrário do que inicialmente esperava, pelo menos ontem quando ela chegou a casa já me dirigiu a palavra para me chamar tarado e idiota! Estimo que dentro de dias tudo tenha voltado ao normal. Não sei é se, pelo menos tão depressa, as "variações" tão necessárias à manutenção da chama da rotina do casamento se vão acender! Mas também, como vem aí o Verão, o que será menos preciso agora no nosso casamento, pelo menos até ao próximo Inverno, é fogo...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

The not knowing is easy #7

- ...Porra! Até parece que é o fim do mundo em cuecas! Chiça, não é caso para tanto! Não achas?
- Não sei.
- Não sabes? Então não achas que ela está a exagerar?
- Ela talvez esteja a exagerar. Mas como não sei qual é o problema do fim do mundo ocorrer em cuecas, não faço ideia se é caso para tanto ou não. Qual é que é o problema do fim do mundo ser em cuecas? Se é o fim do mundo, ao menos que um gajo se esteja a sentir confortavel com o que se tem vestido. O que é que interessa o que se tem vestido quando o mundo acabar? Isso é a mesma coisa que importar-me com o que irei vestido quando estiver morto! Quero eu lá saber disso...
- Não queres tu, mas podem outras pessoas querer saber disso! As pessoas não são todas iguais...
- CLARO! Mas então diz-me lá qual é que é verdadeiramente o problema do fim do mundo ser em cuecas?
- Então! Já viste, tudo a explodir, as coisas e as pessoas todas a andar para de um lado para o outro em cuecas...Não é bonito, pronto.
- Quer dizer, primeiro dizes que as pessoas não são todas iguais, agora vens com essa tanga! E olha que não me estou a referir a nenhumas cuecas...E para cumulo dizes que ela é que está a exagerar! Bom, só tenho mais uma coisa a dizer-te. Tu é que estás a exagerar.
- Bolas! Também não é preciso entrar logo a matar, não é assim um exagero tão grande, estava só a dar a minha opinião...
- Uma. Uma coisa só, tenho eu a dizer-te. Estás a exagerar.
- Mas estou a exagerar no quê, onde é que está o exagero? Pronto, admito que não sei se existe problema no facto do fim do mundo ser em cuecas...
- Estás a exagerar.
- OK, estou a exagerar, diz-me então onde é que estou a exagerar?
- Estás a exagerar.
- Está bem, eu já assumi que foi um exagero...
- Uma, uma coisa só. Estás a exagerar.
- Mas tu estás parvo ou quê? Porque é que só dizes isso?
- Estás a exagerar.
- Estás a começar a irritar-me com essa conversa. Exagerar no quê?
- Estás a exagerar.
- Tudo bem, tudo bem. Não queres falar sobre isso não falamos, por mim tudo bem. Diz-me só o que é que achas exagerado e não falamos mais nisso.
- Estás a exagerar.
- Desta è que foi, já me irritaste. Não queres dizer não digas. Não digas é que é exagerado. Tu não sabes do que falas. Para mim o fim do mundo em cuecas é feio. É o que eu penso e não tenho vergonha nenhuma de o assumir.
- Estás a exagerar.
- Dizes mais uma vez essa merda eu paro e carro e sais.
- Exagerado.
- Estou a falar a serio, dizes mais uma vez exagerar ou exagerado e eu paro a merda do carro.
- Exagerador.
- EU ESTOU MESMO A FALAR A SERIO, NÃO COMECES COM AS TUAS MERDAS, DIZES MAIS UMA VEZ AS PALAVRAS EXAGERAR, EXAGERO, EXAGERADOR, EU PARO A MERDA DO CARRO E DEIXO-TE NO MEIO DE NENHURES. ESTÁS A OUVIR BEM?
- EXAGERANTE.
- SAI. SAI IMEDIATAMENTE DO CARRO. SAI SAI SAI SAI SAI
- Estás a EXAGERAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR... ... ...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Banda Sonora

Esqueço-me sempre que me estou a lembrar de ti, todas as vezes que digo que já te esqueci...

A Place to bury Strangers - Missing You

Antroponímia #4

O Adalberto desde pequeno que prefere as mulheres com pés grandes por acreditar que têm mais estabilidade!

Antroponímia #3

Nunca ouvi o Hilário dizer uma piada que me fizesse rir...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Complexos #9

- Olá, como é que te chamas?

- Pedro, o meu nome é Pedro, olá!

- Eu sou a Sofia. Tenho-te visto aqui, de vez em quando, vens cá muitas vezes?

- Sim, algumas…

- … …Gosto muito desta música… …

- Sim… … é gira a música é… …

- … …

- … …

- Sabes… …tu estás aí tão calado… … não sei…achei piada à forma como danças e vim aqui perguntar-te o nome… …não sei… queres que me vá embora?

- É que o teu perfume faz-me lembrar a minha tia Mariana e as vezes que eu ia a ia visitar! Eu detestava aquelas visitas. Ela morava na margem sul, e cada vez que lá íamos, sei lá porquê, a maré estava sempre vazia e o cheiro quando chegávamos perto de casa dela era insuportável ao ponto de termos que fechar as janelas todas do carro e suster a respiração quase até chegar a casa dela! Depois, quando lá chegávamos, era aquele perfume a empestar a casa toda, mais os beijinhos repenicados e os abraços, por nós sermos tão pequenos, eram também os gritos de alegria por nos ver, o cão doido a correr de um lado para o outro a entrar e a sair pelo buraco da porta da cozinha, sempre com aquele ar maléfico e a minha Tia a gritar para ele ir lá para dentro quando via que nós ficávamos com medo dele, e o cão sempre, sempre a ladrar! O que eu detestava aquele cão...Depois aquelas tardes/noites infindáveis, com aquela alcatifa verde espalhada por toda a casa, mais aquelas visitas ao sótão, aquele sótão horripilante com umas escadas em madeira que saiam do tecto, íngremes, sempre a ranger quando alguém passava por lá, infestado de pó e bicharada...Até hoje não consegui perceber o que é que determinava aquelas visitas obrigatórias ao sótão! Porque é que o teu perfume me recorda isso, ou porque é que eu fiquei com estas visitas gravadas na memória, não sei, não consigo explicar porque é que me lembrei disto agora ou porque é que o teu perfume me faz lembrar isto! Às vezes, principalmente nestas alturas, gostava de poder controlar aquilo que a minha memória guarda e gostava de me lembrar, em determinados momentos, de coisas que me fizessem sentir menos desconfortável perante as situações. Se calhar teria dito outra coisa qualquer agora...Mas olha, foi o que me ocorreu!

- Pois...Eu acho que o que é diferente não tem necessariamente que ser comparável...Estabelecer diferenças entre algo que não tem qualquer semelhança, parece-me ser mais uma desculpa para não enfrentares os teus medos do que outra coisa qualquer… …Olha, adoro esta musica, vou dançar… …adeus… … gostei de te conhecer… …;)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Jogos físicos e psicológicos

-Olha! Olha que lindo! Que lindo aquele mar lindo! Adoro o mar lindo. O mar lindo conforta-me as tormentas que sinto...Acho que já não consigo suportar mais as tormentas. As tormentas estão a dar cabo de mim, já não me sinto fantástico. Sinto que todos os meus amigos, mesmo os bons amigos, me abandonaram. Sinto que agora estou só. Só eu, as tormentas, e o mar, lindo, que me acalma, adoro o mar lindo, calmo...

- Oh, Xupi Xupi, não fiques assim...Tu sabes que eu não gosto nada que fiques assim Xupi Xupi. Tu és tão para cima, és sempre tão positivo e pões sempre toda a gente a tua volta tão bem disposta que ninguém repara na tua dor, não é xupi xupi? Mas eu reparo xupi xupi, eu estou aqui e reparo. Tu sabes que imensa, imensa gente gosta de ti xupi xupi, porque é que estás a dizer que estás só e não tens amigos? Eu estou aqui não estou?

- Deixa estar Linda, tu és fantástica, bela... Eu sei que nasci para sofrer, já estou habituado...Sabes linda, às vezes só suporto a dor porque me lembro da tua cara linda, da tua beleza fantástica. Sinto no meu ser, quando o frio me gela os ossos e a dor se torna insuportável, que és tu e só tu, mais ninguém, que me faz suportar a dor...Adoro-te linda...

- Oh, Xupi Xupi, não fiques assim...Tu sabes que eu não gosto nada que fiques assim Xupi Xupi. Tu és tão para cima, és sempre tão positivo e pões sempre toda a gente a tua volta tão bem disposta que ninguém repara na tua dor, não é xupi xupi? Mas eu reparo xupi xupi, eu estou aqui e reparo. Tu sabes que imensa, imensa gente gosta de ti xupi xupi, porque é que estás a dizer que estás só e não tens amigos? Eu estou aqui não estou?

- Não...Oh não...Deixa-me sofrer...Às vezes sinto picadas de dor, como se fossem facas aguçadas a espetarem-se na minha carne...É demasiado cruel deixar que me vejas assim. Eu sou uma aberração quando estou assim. Não olhes para mim linda, bela, fantástica. Não olhes para mim. Deixa-me. Deixa-me sofrer por nós, pois eu sei que nunca haverá felicidade quando eu estou por perto...Se tu soubesses o que sinto e não te digo por saber que não serias capaz de aguentar tamanha dor. Ardo de desejo por ti. Ardo. E o fogo consome-me sem que eu te consiga dizer tudo o que queria dizer-te...

- Oh, Xupi Xupi, não fiques assim...Tu sabes que eu não gosto nada que fiques assim Xupi Xupi. Tu és tão para cima, és sempre tão positivo e pões sempre toda a gente a tua volta tão bem disposta que ninguém repara na tua dor, não é xupi xupi? Mas eu reparo xupi xupi, eu estou aqui e reparo. Tu sabes que imensa, imensa gente gosta de ti xupi xupi, porque é que estás a dizer que estás só e não tens amigos? Eu estou aqui não estou?

- Hey?!Tu não tinhas dito já... ...Oh... ...Não consigo... Pára. Pára. Não quero jogar mais a este jogo. Tu dizes sempre a mesma coisa! Quer dizer, estou aqui eu a esforçar-me para dizer baboseira atrás de baboseira e tu nem sequer te esforças! Mas porque é que embirraste que querias que nós fossemos aquele casal estúpido que vimos na praia ontem? Porque é que disseste que querias brincar hoje ao casal de anormais que esteve na mesa ao nosso lado com aquela conversa que me deu náuseas o resto do dia? Achas mesmo possível que ele sofra sempre como o caraças e ela adore tudo nele cagando para o sofrimento que ele diz estar a sentir? Porque é que quiseste entrar nessa onda do xupi xupi e merdas do género, que, deixa-me que te diga, não me excitam minimamente. Não estou a gostar nada deste jogo...

- Oh! Anda lá, só mais um bocadinho...Não achas giro este jogo porquê? Tu tinhas dito, ontem quando fomos à praia, que curtias à brava os casais como aquele que lá vimos, que se tratam por xupi xupi e coisas assim! Tu é que disseste que curtias ver aqueles casais em que um deles sofre sempre por tudo e por nada e o outro anda sempre a dizer que não é assim, que afinal é tudo bom...Achei que era uma coisa gira para nós fazermos...Não achas? Já viste bem, tu sofres muito, muito, eu digo que está tudo bem, xupi xupi, e se sentir que tu estás mesmo muito triste, posso ter um ataque de caridade e fazer-te muitas festinhas, deixar-te quietinho e fazer tudo ao meu xupi xupi...O que é que achas xupi xupi?

- Err...bom, não tinhas posto a coisa desse modo...Deixa-me só que te diga que estava a ser sarcástico quando te disse aquilo na praia. Na realidade dá-me vómitos casais, gajos ou gajas assim! Detesto merdas como queridinho, ou amorzinho, ou môr...Se soubesses o que môr me irrita! E aqueles gajos que sofrem por tudo e por nada?! O pior é que são tão falsos que se nota logo...Quem é que no seu perfeito juízo, num momento que sofre, diz sofrer de tormentas? Ou diz que o mar é lindo para desabafar?! Só um totó! E é o que eu me estou a sentir neste momento. Um Totó! Mesmo depois de tu teres dito qual é a finalidade do jogo...

- Ohhhhh môr...desculpa, queria dizer Xupi Xupi...Estavas a ir tão bem...Anda lá...Xupi Xupi...Estava quase a sentir um ataque de caridade...

- Oh...Razão teve o Nietzsche, quando disse "O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade"...

- Err..Quem disse isso foi o Schopenhauer!...

- Ainda estamos a jogar certo?

- Sim.

- Então digo a estupidez que eu quiser. Se o jogo é estúpido, o personagem também tem de ser. Eu acho que este personagem tem a mania que gosta de Nietzsche mas não sabe nada de nada, então inventa e diz coisas que já ouviu num lado qualquer...

- Hummmm, é tão intelectual o meu xupi xupi...

- Yá, mas tu é que me corrigiste logo. Intelectual! Vamos parar com este jogo. Peço-te...

- Ohhhh xupi xupi...xupi xupi...caridade...

- Oh! Meus Deus! Porque sofro eu? Porque sofro eu só e abandonado, com tantos amigos bons que tenho, não posso contar o meu sofrimento a ninguém? Finjo sempre que me divirto muito, mas nunca me divirto, nunca.Estou só e triste...só existo neste mundo para que possa sofrer... Só eu e o mar calmo, com quem desabafo as minhas tormentas...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Esse assassino...eras tu. No olhar, no olhar, no olhar...

Começou o dia, como usualmente nas duas ultimas semanas, a passar a loção comprada numa ervanária, conselho da sua vizinha D. Efigénia, sem ter notado, mais uma vez, que apesar da mesma (A loção, não a D. Efigénia) não estar a ter o efeito pretendido no coro cabeludo, a farta cabeleira que os seus ombros apresentam, devido aos pingos que voaram livres pelo ar aquando das anteriores aplicações, faz crer que o produto não é uma verdadeira aldrabice. Vestiu-se e saiu do quarto decidido a vencer mais um dia, quando de repente a voz dela, vinda da cozinha, lhe dispara contra os ouvidos o pedido para ele, muito depressa, lhe dizer algo bastante profundo! Sem compreender o intuito de tal pedido, pensou que seria para, provavelmente, estabelecer alguma comparação, ou outra coisa qualquer, é sempre qualquer coisa...Todavia a ele só lhe ocorreu pensar no poço que havia numa quinta onde os seus Pais iam comprar laranjas quando era pequeno! Recordou-se, como se tivesse sido hoje, do homem que vendia as laranjas, nunca soube o nome dele, ou se soube esqueceu-se, e do homem lhe dizer que não fazia ideia da profundidade que o poço tinha e que devido a isso o melhor seria ele não espreitar lá para dentro. Em redor do poço estava construído um pequeno muro circular, ainda em tijolo e cimento, e aquele poço foi sem dúvida nenhuma o alvo de toda a sua curiosidade entre os seus quatro e os sete anos de idade! Ai ele é isso, perguntou-lhe ela! Não se consegue mesmo ter uma conversa seria contigo, é a conclusão a que consigo chegar! Uma coisa te digo, agora é que a fizeste bonita, continuou ela a dizer com os olhos esbugalhados e cheios de raiva ao mesmo tempo que colocava a mala a tira-colo e agarrava nas suas chaves preferidas (as dele, não as dela) do carro, com o nítido objectivo de sair de casa, e saiu, sem lhe dizer por que razão deveria ele ter pensado em algo profundo! Após o bater da porta, ocorreu-lhe que nunca conseguiu entender o facto de ela usar a mala daquela forma! Aquilo, de certa forma, até lhe fazia alguma confusão, mas pronto, assim que ela saiu, ficou a olhar para a janela sem perceber quando é que paisagem tinha passado a ser feia! Ela uma vez tinha-lhe dito que tinha medo de ser assaltada, mas ele, quando ela lhe disse tal coisa, nunca acreditou que alguém fosse capaz de fazer uma coisa dessas a uma pessoa tão bonita! Claro está que naquela altura ele era ingénuo, pensou ele, quase de certeza que era...Depois disso, já confiante por ter perdido a sua inocência, houve alturas em que acreditou mesmo que todas as pessoas eram capazes de mentir para safar a sua própria pele. Nunca imaginou, anos mais tarde, que havia de ver pessoas a faltar com a verdade para ver se conseguiam (as pessoas) safar a pele de outras pessoas apenas e só para manterem uma coerência que nunca tinha existido até então. Terminou o café e olhou para o pulso coberto igualmente de pêlos. De quando em vez uma pessoa ou outra vinha ter ele e perguntava-lhe as horas. Como nunca usou relógios, ficou sem amigos muito cedo...Bateu a porta, também, e saiu, decidido a vencer mais um dia.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Bigmouth strikes again

- O que é que eras capaz de fazer para me conquistar?

- Era capaz de ser sincero.

Dilema #1

Será que um gajo de esquerda consegue obter prazer batendo uma com a direita?

Dilema

Consigo compreender perfeitamente que uma pessoa de direita não queira, em circunstância alguma, ser um zero à esquerda. Já não consigo entender tão bem como é que se sentirá uma pessoa de esquerda sendo uma pessoa às direitas!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Trincolejo

Tem dias que, principalmente quando chove,
Um mero se me dá vontade de por tudo a andar a nove
E é então que dou por mim a questionar o essencial
Necessito mudar de vida para não ficar demencial
Há pessoas a fazer coisas que não as que a maioria faz
Eu identifico-me com a unicidade que a minoria me traz
Por muito que me peçam ou digam, por favor não vás
Tenho de prosseguir no meu caminho e saber do que sou capaz
Sou feliz se fores feliz tal como tu deves ser se eu o for
Primordialmente o instinto diz-nos para agir sempre por amor
Negligenciamos esse instinto em prol nem sei bem do quê
Criando coisas absurdas como tratar pessoas por você
Às tantas confunde-se educação com subserviência
Nunca verdadeiramente assumida por mera conveniência
Esporadicamente, porém, há quem não veja nisso sapiência
Decidindo-se dessa forma a lutar pela sobrevivência
De uma identidade mal tratada que a pouco e pouco perece
Mas que por muito que se faça dificilmente se esquece
Não é possível nunca olvidar aquela que é a nossa raiz
Se algum dia efectivamente se quiser ser feliz
Tem dias que, principalmente quando faz Sol
Se recorre às nossas raizes e então o rol
Das nossas possibilidades torna-se de repente infinito
Apercebemo-nos então que afinal viver é tão bonito

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Complexos #8

- Posso fumar aqui dentro?

Sim, claro que podes! Pedia-te só que não usasses o cinzeiro. Não gosto de usar o cinzeiro do carro, prefiro mantê-lo imaculado. Sabes, eu sei que destruo os carros todos que vou tendo…Quer dizer, não os destruo no sentido de os partir todos aos bocados, é mais no sentido em que não tenho cuidado nenhum, nem estimo muito o carro. Acredito, sinceramente, que o carro foi concebido para servir o homem, sem que o homem tenha de ter grandes cuidados com a máquina. Ao contrário do que dizem aqueles estudos, feitos não sei bem por quem nem para quê, que provam por A+B que os homens tratam do seu carro com grande cuidado e estima, como se fosse algo precioso, que têm grande orgulho na sua máquina e que a gostam de a exibir, e de se exibirem. Eu sou daqueles que contradizem tudo isso. É claro que não o faço de propósito, ou só para demonstrar que os estudos estão errados, até porque os estudos devem apenas incidir e concluir as coisas numa base maioritária, não afirmam e concluem, de certeza, categoricamente. Eu acabo por contradizer tais estudos porque eu sou mesmo assim, não tenho naturalmente cuidado nenhum com o carro! Eu bem tento, ao início, enquanto ainda é novo, mas uns tempos depois, não sei como, já o carro está um caos!...Bom, não sou desorganizado, ou desarrumado, ao ponto de ser assim em tudo na minha vida, antes pelo contrário, não ajo assim em tudo, é mesmo só com o carro, e não sei porquê, eu até sou bastante organizado e metódico, não sou meticuloso, mas gosto de ter as coisas arrumadas no seu lugar, sem paranóias, claro…É obvio que também podem haver mulheres a ter muito cuidado com o carro, ou até mesmo a comportarem-se como os estudos dizem que os homens se comportam quando tratam do carro, não acho que hajam cenas de gajos e cenas de gajas, há pessoas diferentes que gostam de coisas diferentes só, e eu, olha, gosto da ideia de entregar o carro, quando está na altura de ir para a sucata, com o cinzeiro intacto, sem um grão de pó sequer. Acho graça à cara das pessoas, e de pensar que lhes posso deixar a dúvida sobre o cuidado que tive ou não com o carro. Se por um lado, o carro está uma desgraça, o que indica falta de cuidado, por outro o cinzeiro está novo em folha, o que, em certas ocasiões, pode dar a entender outra coisa qualquer, não sei, qualquer coisa que deixe uma duvida no ar, entendes? Eu tenho esta mania de explicar e justificar tudo o que digo e faço, para as pessoas não pensarem que disse ou fiz algo disparatado, mesmo que achem que tenha dito ou feito algo disparatado. Acho que, se justificar o que fiz ou disse, apresentado os motivos que me levaram a fazer tal coisa, isso faz com que as pessoas nos possam entender melhor, mesmo que não entendam, entendes?…Achas estranho eu ser assim? Não queria que ficasses com a ideia que eu sou um gajo estranho, como o amor é, como diz aquela musica….Achas o amor estranho? Eu acho que o amor é estranho, mas não acho que eu seja um gajo estranho, embora possa aceitar que por vezes me vejam como um gajo estranho, mesmo que isso não seja a minha intenção, nem sequer a de deixar a duvida, tal como o faço propositadamente na questão do cinzeiro. Se alguém me achar estranho, não tenho qualquer tipo de intenção que isso aconteça. Ainda que não me incomode isso, com todas as pessoas, com algumas incomoda-me, até as consigo compreender. Por vezes, muitas, fico muito ansioso, e depois fico sem saber o que dizer e acabo por passar muito tempo a pensar sem me aperceber muito bem que fico muito tempo sem dizer nada, e eu sei que as pessoas acham estranho isso…

-Alô? Ouviste o que te perguntei? Posso fumar aqui dentro? Estás estranho! Ficaste calado de repente! Estás bem? Chateado? Foi alguma coisa que eu disse? Não gostas que se fume dentro do carro e não sabes como me hás de dizer, é? Tudo bem, é que como tens o carro neste estado pensei que não te importasse que se fumasse aqui dentro… ... Alô?...

domingo, 12 de abril de 2009

Escambar #1

Já era Domingo de manhã novamente. Domingo era sem dúvida nenhuma o seu dia preferido. Apesar de não ser um católico praticante, tinha crescido com esse ensinamento. De tudo o que ouvira até então, agradava-lhe particularmente a ideia de começar a semana com um dia de descanso. Ao fim de semana, principalmente ao Domingo, gostava de se levantar cedo. Fazia questão de aproveitar o dia ao máximo. Gostaria mesmo, caso fosse possível, de conseguir estar acordado durante as 24 horas de Domingo! Apesar de ter este desejo secreto, sabia que era impossível concretizar esse desejo, as suas responsabilidades, e até mesmo o gosto que nutria pelo seu trabalho, não lhe permitiam que ficasse acordado esse tempo. Caso o fizesse, nunca na vida conseguiria ir trabalhar no dia a seguir, e ele orgulhava-se bastante de nunca ter faltado ao trabalho, um dia sequer.
Como sempre, quando era Domingo, depois de se levantar, tomar banho e fazer minuciosamente a barba. Vestia-se a rigor, outro dos ensinamentos da sua infância, e saia para a rua. Gostava sempre de caminhar calmamente até à boutique de pão que se situava relativamente perto de sua casa. Apenas ia àquele sítio uma vez por semana, como alias fazia com todos os estabelecimentos que frequentava. Pensava que o seu dever era fazer crescer e melhorar o sitio onde habita, e para ele, nada melhor do que fomentar o crescimento económico dos estabelecimentos locais. Não fazia absolutamente nada em casa, tinha um estabelecimento comercial para qualquer serviço doméstico, ou de outro género qualquer que necessitasse. Tinha um trabalho que lhe permitia viver assim, e gostava de pensar que tinha um amigo em cada estabelecimento que frequentava. Assim, era sempre com uma grande alegria que era recebido ao Domingo por aquele senhor gordo de bigode farto, que era o dono do estabelecimento de Domingo de manhã. Comia, como habitualmente, o pequeno-almoço que sempre comia aos Domingos, e como é óbvio não necessitava de fazer o pedido, o senhor do bigode farto já sabia de cor o que ele iria comer. Depois, como de costume, quer fizesse sol ou chuva, passava o resto do Domingo a passear pelos recantos do lugar onde vivia. Falava com anónimos, pessoas que conhecia, e era sempre muito simpático com todas as pessoas. Quem quer que falasse com ele, principalmente ao Domingo, percebia que estava a falar com uma pessoa realizada, uma pessoa feliz por estar viva e estar ali, naquele lugar àquela hora.
Foi então num Domingo, num Domingo de manhã, depois de ter tomado banho e de ter feito a barba minuciosamente. Saiu de casa, passou com o seu habitual passo calmo pelo estabelecimento comercial onde comia religiosamente o pequeno-almoço aos Domingos, acenou um simpático bom dia ao senhor de bigode farto que sempre o servira naquele dia, e nunca mais ninguém o viu.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Círculo Imperfeito

Passas o dia à espera que passe
Que chegue a hora de poder sair
Corres pró metro passas o passe
Nem depois disso consegues sorrir
Enquanto o metro segue no seu trilho
À janela sentado olhas para o escuro
Há quanto tempo te sentes perdido
Há quanto tempo construíste esse muro
Fechas os olhos inventas razões
Que te expliquem as quedas que deste
Revês os passos crias ilusões
Que te justifiquem tudo o que fizeste
Mais uma vez chegas ao teu destino
Sais devagar fundes-te na multidão
Pessoas com pressa cruzam o teu caminho
Que tu percorres sem qualquer emoção
Chegas a casa e não fazes nada
Qualquer coisa é a tua refeição
Olhas à tua volta tudo te enfada
No sofá adormeces a ver televisão
De manhã acordas e vais trabalhar
Finges estar ocupado até ir almoçar
Depois a tarde passa tão devagar
O fim do dia demora tanto a chegar
Passas o dia à espera que passe
Que chegue a hora de poder sair
Corres pró metro passas o passe
Nem depois disso consegues sorrir

quarta-feira, 8 de abril de 2009

The not knowing is easy #6

- ...Então ela virou-se para mim, a falar genuinamente a serio, e disse-me que a sua maior fantasia sexual é um dia fazer a posição de missionário! Dá para acreditar nisto?

- Bom, se dá para acreditar nisso ou não, não sei. Eu acredito é que essa posição, como isto anda hoje em dia, com todas as fantasias que nos são vendidas em todo o lado e a toda a hora, é de certeza absoluta a menos usada de todas. Aquilo que eu me pergunto, é se alguém tem ainda capacidade para fantasiar sem ter sido praticamente obrigado a isso...Olha, eu vejo esse fenómeno das fantasias e dos fetiches como o fenómeno das viagens. As pessoas hoje em dia vão aqui ou ali, não porque querem conhecer, ou têm um interesse nas cidades, mas porque alguém já lhes disse, ou já ouviram num lado qualquer, que é must, como ouvi no outro dia uma mulher dizer, lá ir.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sinusoide

A inercia não me torna inepto. É o repto, à partida aliciante, viciante, que se transforma em tédio e indolência...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Complexos #7

Andava há quatro meses a poupar dinheiro. Fazia precisamente quatro meses desde que tinha passado por aquela montra e tinha visto as botas com que sonhava desde que me tinha tornado adolescente e depois adulto. Estavam ali, finalmente, à minha frente, prontas a concretizar todos os meus sonhos, há muito adiados, e até quem sabe a melhoria permanente da minha auto-estima e confiança. Por fim, vislumbrava agora, uma saída, uma luz, a começar a brilhar ao fundo do túnel para a minha mísera vida social. Sim. Aquelas botas iam de certeza alterar o meu mais do que previsível, até aquele momento, futuro. Entrei, sem hesitar, perguntei se tinham o numero 39 daquelas botas pretas, ali na montra, aquelas com aqueles cromados e as pequenas correntes, de cano alto, está a ver? Foi lá dentro ver se tinha o número 39. Ânsia, angustia, desespero, estava prestes a começar a suar, quando surge por detrás do balcão o homem com a caixa de cartão que transportava o numero 39 das desejadas botas. É o último par deste número que eu tenho. Quer levar? Claro que quero levar! Quanto custam? Pago o que for preciso. 120 Euros. Assim! Sem mais nem menos! Dito de uma forma seca. Abrupta. Posso reservar as botas e vir cá depois, quando tiver o dinheiro todo, comprar as botas? Durante quanto tempo? Perguntou ele. Não sei, uns quatro meses...Todo o meu corpo estremeceu quando ouviu aquela tortuosa gargalhada de papagaio velho que guincha incessantemente clamando pelas sementes de girassol do ano de 1943! Ó amigo, as botas estão aqui. Quem aqui chegar e der 120 euros por elas, leva-as. Saí, desolado, esperançoso que mais ninguém as quisesse comprar. Decidi nesse momento começar a poupar em tudo o que pudesse e apenas regressar ali quando tivesse reunido 120 euros. Alimentei o meu ego dizendo para mim mesmo que 120 euros pela concretização de tudo o que sempre se esperou que nunca se viesse a concretizar e que estava prestes a ser concretizado era um preço muito baixo até. As botas valiam mais, muito mais, nunca pensei que fossem tão baratas, foi o meu último pensamento antes de adormecer nesse dia. Passaram quatro meses, de esforço, horas extra, alguns biscates, aqui e ali uns ligeiros apetites que não foram saciados, finalmente tinha reunido os 120 euros! Gloria! Dirigi-me, por volta das 14:30, à loja. Primeiro percalço, a loja só abria às 15! Fiquei ali ao Sol, meia hora. Às 15 em ponto, o mesmo homem da minha última visita abriu a porta e eu entrei de imediato, como quem não quer a coisa, a fingir-me desinteressado e tal, disseram-me que às vezes baixam o preço a quem tem este tipo de comportamento. O homem perguntou-me se me podia ajudar, e eu, perguntei, calmamente, se tinha o numero 39 daquelas botas ali. Desta vez, para disfarçar, apontei com o braço esquerdo para as botas sem dizer uma palavra. Ele foi lá dentro, presumindo eu que resgatar as desejadas, regressando, três minutos mais tarde, de mãos vazias! Desse modelo já só tenho o par que está na montra. E qual é o numero? Perguntei eu com o coração quase a partir-me o esterno. Vou lá ver. Ânsia, desespero, muita angústia, suor. É o número 44. Quer experimentar? Não perco nada em experimentar! SIM, QUERO!... Estão um bocadito largas... E à frente? À frente está bom? Perguntou-me o homem com ar de quem sabe perfeitamente aquilo que está a dizer. Se eu chegar o pé todo para a frente, estão! Disse-lhe eu, seguro que estava mesmo a dizer a verdade. Então, se é assim, mete dois pares de palmilhas, ofereço-lhos eu, que fica tão bom como se fosse o seu número. Negocio fechado, rejubilei eu em tom de Sol maior, prestes, mesmo quase, a ir a ré. 120 Euros. Apertámos a mão um ao outro e sorrimos de contentamento. Vou já levar as botas calçadas disse eu. Quando saí da loja era já um homem novo! Pronto, devo confessar que as calças de fazenda que naquele dia levava, em conjunto com a camisa de flanela beije e o casaco castanho, não eram a melhor indumentaria para usar com as minhas botas novas. Estava mesmo desejoso de chegar a casa e vestir as calças vermelhas de veludo, a t-shirt amarela, e o casaco castanho, para, em conjunto com as botas, claro, mergulhar na noite com estilo, pela primeira vez na minha vida. E quem sabe, até convencer uma ou duas moças para um pezinho de dança, e num slow. Que cá o je, agora com as botitas novas, ninguém o ia parar. Segundo percalço, tinha de apertar melhor as botas. Mandei um tralho do caraças quando comecei a descer a avenida. O raio do piso estava molhado, as botas, certamente por serem novas, não aderiram, os meus pés patinaram a toda a velocidade para a frente das botas, só tive tempo de ver o meu reflexo no vidro de uma montra enquanto me espalhava ao comprido pela rua abaixo! Até a cair tenho estilo, foi o que pensei à medida que rebolava. Quando cheguei lá abaixo, depois de ter amarrado os atacadores às minhas canelas, pus-me de pé, pronto para enfrentar novamente o destino, que desta vez ainda não estava traçado e comecei de novo a andar, como se nada se tivesse passado. Andei um pouco mais pela avenida, evitando sempre o passeio e a calçada molhada. Se calhar até parecia um bocado aqueles gajos que andam na praia com barbatanas, e devo mesmo ter feito a mesma figura que eles fazem a andar pela areia até chegarem ao mar e finalmente mergulharem. Bom, pelo menos tenho que dar um voto de confiança ao Zé, que depois de saber tudo o que se passou, confessou-me que me tinha visto naquele dia e que teve vergonha de parar para me falar quando me viu andar daquela maneira. Eu ia tão concentrado, que nem o vi! Estava com medo de cair porra! Qual é que é o problema? Não é fácil, assim de repente, andar de botas. Bom, continuando, estava eu calmamente a andar, quando fui interpolado por um bando de pessoas de cabeça rapada. Vieram ter comigo, e eu percebi logo que era por causa das botas. Parei, à espera deles, e o primeiro que chegou ao pé de mim cumprimentou-me logo com um tabefe na cara! Depois disseram-me que é sempre assim quando eles encontram alguém que não é da confiança deles, só que eu, com estas modernices todas que agora para aí há em termos de cumprimentos, na altura, não sabia ainda sobre aquele costume deles e pensei que aquilo era mesmo a forma que eles usavam para cumprimentar. Dei-lhe um tabefe também, sorrindo ao mesmo tempo. Só me recordo de acordar, com o corpo todo dorido, principalmente as costelas e a mão com que tinha dado o tabefe ao moço, a direita acho eu, e levantar-me meio azamboado com a visão muito turva. Alguém me perguntou o nome e eu na altura não me lembrei e disse que não me lembrava. Coitado, não vês que é atrasado mental? Outro alguém, mais distante de mim, gritou também! Apesar de inicialmente ter pensado que provavelmente seria costume deles falar aos berros, sussurrei, o mais baixo que pude, que não era nada atrasado. Levei logo outro tabefe! Desta vez acho que por pura maldade! Há gente muito má por aí, diga-se de passagem. Bom, decidi então não dizer mais nada, a não ser que me perguntassem alguma coisa que eu soubesse responder. Foi então que um deles, chegou-se ao pé de mim e disse, mais uma vez aos berros, mas ainda mais alto do que os outros dois, QUERES SER UM DOS NOSSOS? QUERES SER UM DOS NOSSOS E EXPULSAR AQUELA GENTE TODA, COMO AQUELES GAJOS ALI, disse ele apontando para um grupo de moços que estavam todos encostados a uma parede a partilharem um cigarro e a ouvir uma música que tinha só bateria e pessoas a vociferarem onomatopeias! Achei surpreendente o facto de, mesmo com a música alta como estava, os moços terem ouvido o que aquele ser estava para ali a gritar, enquanto o resto do bando dos carecas se ria a bandeiras despregadas! Dada a situação, achei melhor rir-me com eles, em vez de responder o que quer que fosse. Na altura pensei mesmo que rir-me com eles tinha sido mesmo a melhor opção. Depois de todos termos rido, a bom rir, eles começaram a afastar-se, no sentido contrário do outro grupo de moços. Ainda ouvi um deles gritar, PENSA NISSO MEU. CONNOSCO NUNCA ANDAS SOZINHO, enquanto eu ficava ali, sozinho, eram quase dez para as cinco! Estava mesmo prestes a recomeçar a minha caminhada, rumo ao lar doce lar, quando o outro grupo de moços, que entretanto tinham desligado o radio e deixado de fumar, se dirigiu a mim. O que é que andas aqui a fazer brother? Vou para casa, disse eu. Porque é que te estavas a rir há bocado brother? Estavas a rir do quê? Ou de quem? Estavas a rir de nós brother? É que a mim, quer dizer, a nós, pareceu-nos que tu te estavas a rir de nós, brother. Era de nós que estavas a rir? ERA? Disse ele com a mão dele mesmo perto da minha cara! Afastei-me um bocado, pigarreei, um bocado também, e disse, obviamente que não! Que disparate! Não, com certeza que não me estava a rir de nenhum de vós! Isso foi impressão vossa! Às vezes também me acontece isso. São fases! Pumba, levei um tabefe! Arre que esta gente gosta é de dar tabefes! Vamos lá a ter calma! Disse eu no melhor tom apaziguador que consegui fazer. Vocês não viram que eles me estiveram a bater? Depois pensaram que eu era atrasado mental e começamos todos a rir. Acho que no fundo não sabem o que é que andam por aí a fazer. Devem andar perdidos. Mas vocês não, vocês parecem-me todos gente muito catita. A vida quando nos dá uma oportunidade de aprender não devemos desperdiçar. Pensei eu, durante um milésimo de segundo, tentando não cometer os mesmos erros que tinha cometido na abordagem anterior. Bom, eu vou indo para casa então, até logo. Pensando eu que com estas palavras conseguia finalmente que a viagem até casa corresse sem problemas. Tu podes ir brother, mas as tuas botas ficam... NÃO PODE SER. NÃO PODE SER. NÃO. ISSO É QUE NÃO PODE SER. Berrei eu o mais alto e assustadoramente que pude. Desta vez levei uma galheta! Agarraram-me, tiraram-me as botas, e ainda disseram que para castigo levavam também o par de sapatos velho que eu trazia na caixa das botas. Levaram a caixa e tudo! Bom, vendo as coisas do lado positivo, quando dei por mim, já estava a caminho de casa novamente, e quase sem nenhum arranhão! Descalço, é certo, mas a caminho de casa, o que, dadas as circunstâncias, não era nada mau. O resto da viagem, a pé obviamente, que depois reparei que o primeiro grupo de moços me tinha levado a carteira, devem ter-me tirado a carteira quando eu estava inconsciente, correu sem problemas de maior. A última pequena surpresa, talvez a piece de resistance, antes de chegar a casa, foi já na minha rua. Estava eu a chegar a chegar a casa, e vejo um homem muito grande, que eu por acaso eu até conhecia de vista porque eu já o tinha visto na esplanada do café perto da loja onde comprei as botas, a correr na minha direcção, a urrar! Ainda tentei correr, mas o raio dos miúdos com as brincadeiras parvas de partir garrafas verdes de vinho tinto, na estrada, nunca contam que uma pessoa pode muito bem ir descalça pela rua e que depois se corta com tanto vidro no chão, por isso fiquei especado. Sinceramente, nunca tal pensei que me viesse a acontecer, ser assaltado na minha rua! Ainda por cima já não tenho nada que ele possa levar! Com o tamanho que ele tem a minha roupa não há de querer. Bom, também se a quiser, estou mesmo a chegar a casa, é da maneira que vou directo para a banheira. Foi com estes pensamentos na minha mente que o enorme homem parou ao pé de mim e me agarrou com o dois braços até eu ter ficado suspenso no ar com a minha cabeça à altura da dele. OBRIGADO. Urrou ele! Os meus amigos disseram-me que foste tu que mandaste dar as botas a mim. Obrigado. E desapareceu pela rua acima a correr, como um petiz atrás de um balão cheio de hélio. Mentalizei-me ali, naquele preciso momento, que deveria ter percebido, assim que saí da loja, que o poder das botas era demasiado para mim. Hoje, não guardo mágoa de nada do que aconteceu naquele dia. Gosto de contar esta história até, faz-me sentir vivo. Foi o único dia da minha vida em que vivi de facto uma aventura! Não foi bem a aventura que eu gostava que tivesse acontecido. Mas uma aventura é uma aventura! Tal como eu sabia que as botas eram capazes de proporcionar.

Manifestos virtuais

A bloguer I.D.Pena escolheu-me também para figurar entre os jovens que pensam :)
Desta forma, agradecendo a escolha, e de acordo com as regras, tenho agora que o retribuir:

Eis as regras:

1. Exiba a imagem do prémio (Está em baixo)
2. Poste o link do blog que o premiou (Está em cima :)
3. Indique dez blogs para fazerem parte do “Manifesto Jovens que Pensam” (De todos os blogs que leio, muitos já receberem o prémio, não tenho mais 10, ficam aqui mais dois)

http://tindergirlthoughts.blogspot.com
http://tertuliadosnescios.blogspot.com

4. Avise os indicados.
5. Publique as regras.

A Imagem do prémio:

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Jogos físicos e psicológicos

- Porque razão é que estás, mais uma vez, com essa conversa? Porque é que agora insistes, sempre que podes, nisso?

- Porque estou a tentar que tu entendas o quanto precisamos de uma nova mudança! Precisamos de sair daqui, recomeçar tudo do zero outra vez…

- E como é que pretendes fazer isso desta vez? Posso saber?

- Não sei! Como sempre fizemos. Qualquer coisa se há de arranjar...

- Queres mudar de vida, mais uma vez, com base, mais uma vez, em qualquer coisa abstracta! Sem planos para o futuro sem nada...

- Nós não nos temos safado sempre que o fizemos? Não conseguimos sempre ser felizes os dois quando recomeçávamos tudo novamente? Quando é que tu perdeste o espírito?

- Não venhas com a conversa que eu perdi o espírito porque sabes que isso não é verdade! Sabes perfeitamente que o meu espírito continua intacto. Estou, de facto, é um bocado cansado de recomeçar sempre tudo outra vez. Gosto da vida que temos agora e muito sinceramente não consigo compreender essa tua urgência em querer recomeçar outra vez!

- O problema é exactamente esse! Não consigo reconhecer-te quando dizes isso! O que sempre te deu pica foi o facto de ter que reconstruir tudo de novo! Se gostas da vida que tens agora, e agora? Como é que vai ser a partir de agora?

- Constróis algo com base no que neste momento já tens! Tens de concordar que é coisa que nunca fizemos antes. Não deixa de ser um novo e excitante início! Onde é que o meu espírito se perdeu? A pica está cá toda. Estou desejoso de experimentar uma vida assim…

- É esse o teu plano? Tu disseste há pouco, como é que foi…” Sem planos para o futuro sem nada!” Foi o que disseste! Tu, que sempre disseste que querias viver intensamente o momento como se fossemos morrer daqui a cinco minutos, tens agora um plano! Um plano!

- Pára! Pára tudo! Sabes perfeitamente que perdeste a tua oportunidade! Posso até reconhecer que escolhi mal as palavras para me expressar, mas tu já sabes o que está escrito no nosso contracto nupcial! Que, deixa que te recorde, tu assinaste e concordaste com tudo o que está lá escrito, preto no branco! Está lá escrito, para nosso bem, como muito bem nós achamos na altura que instituímos essa regra, que não se pode contra argumentar sobre algo que foi dito há mais de duas respostas atrás! Ambos concordamos que para que uma discussão possa ser produtiva e não alcance proporções desmedidas, que todos os argumentos a meio de uma discussão se devem cingir às duas ultimas respostas dadas! Desde que, claro, não se continue a falar explicitamente sobre o que foi dito há três respostas anteriores, por exemplo, nas respostas consequentes! O que aqui, não é, claramente, o caso! A consequência disto, como tu muito bem sabes, é o terminus imediato desta discussão, para não gerar mais atritos, podendo nós retomar este assunto daqui a dois dias.

- Era o que tu querias não era? Sabes bem que se nenhum de nós invocar essa regra a discussão pode prosseguir. Tu queres é adiar este assunto não é?

- Olha as regras…

- Está bem. Eu respeito as regras. Não falamos mais nisto durante dois dias. Dois dias.

- Dá-me um beijo, não nos podemos deitar zangados.

- Está bem… …Apetece-me, agora…

- O que é que te apetece agora?

- Oh! Sabes que eu não gosto de o dizer em voz alta.

- És tão pudica…

- Não sou nada! E não te estejas a rir…Apetece-me e à bruta. Pronto. Já disse…

-Ahhhhh! Já percebi tudo! Tu és tão espertinha! Sabes que se eu não respeitar uma regra do contracto agora ficamos empatados! Podendo, aí, ser retomado o assunto…Não, não me apanhas assim tão facilmente…Sabes perfeitamente que depois de uma discussão não o podemos fazer à bruta! Sabes que se for assim, corremos o risco de um de nós ficar a pensar que se foi mais bruto desta vez porque estamos ressentidos por causa da discussão e depois não nos sai da cabeça se foi natural ou vingança! Não, amanhã já podemos, hoje não! Hoje só com carinho…

- Mas eu não quero carinho, quero à bruta! Amanhã já se pode discutir sobre a forma como eu faço as torradas de manhã e eu já sei que tu vais querer falar nisso. Vamos discutir e depois vamos chegar à noite da mesma forma que estamos hoje. Amanhã não pode ser à bruta e assim nunca se pode!

- Não podes sequer mencionar o assunto das torradas! Tu misturaste tudo, nem sei o que se pode fazer agora! O que é que o contrato diz?

- Amanhã vou fazer as torradas como sempre faço. Quero à bruta hoje, anda… vem…

- LA LA LA LA LA I’m not listening to you LA LA LA LA LA

- Para. Para tudo. Tu acabaste de imitar o Eddie Murphy?

- Não! Isto não é imitar o Eddie Murphy. Isto é uma coisa que toda a gente faz quando não quer ouvir o que lhe estão a dizer…

- Não é não. Está no contracto, bem explícito, que tu não podes, tal como eu, deliberadamente, fazer coisas que me irritam solenemente! Está escrito no contracto tudo o que nos irrita solenemente! Tu não gostas que eu faça a voz fanhosa, que eu sei fazer tão bem, não gostas que eu diga imenso com sotaque açoriano, etc. Eu não gosto que calces as meias brancas das raquetes, que tu só vestias para me irritar, não gosto que quando vamos a um restaurante finjas que não tens dentes, nem gosto que imites o Eddie Murphy! Está no contracto, preto no branco! Sabes o que é que isso significa não é? Posso retomar ou antecipar um assunto. Quero à bruta…anda…

- Tens sempre que levar a tua avante…

- 1…2…3…Cavalinho, Cavalinho… …

quinta-feira, 2 de abril de 2009

The not knowing is easy #5

Estive, há bocado, a tentar recordar-me do que jantei na passada Terça-feira, e não me consigo lembrar do que comi! Concluí, apesar de diariamente não serem, que numa distância temporal a curto prazo, e de uma forma geral, todos os meus dias são iguais.

Antroponímia #2

Porra! Outra vez aquela dor aguda! Aquela dor lancinante, mesmo no meio do pescoço, que me sobe pela cabeça acima como se fossem agulhas a espetarem-se, lentamente, uma a uma, bem devagar pelo crânio adentro! Tenho um calor infernal, sinto pequenas gotas de suor a escorrerem-me pela testa abaixo! Olha! Está ali a D. Alice! Quando estou assim não consigo suportar a voz esganiçada dela a dizer BOM DIA! E o perfume que ela usa... Não consigo perceber qual o gozo que alguém pode ter ao usar um perfume assim tóxico, e sempre com aquele colar falso de pérolas e camisas cheias de cores e papagaios amarelos e verdes... Não consigo respirar…Concentra-te. Concentra-te. Olha para outro sitio, ou finge que não sentes o perfume…Olha! Está ali a Isaura! Não consigo perceber a Isaura, sempre cabisbaixa! Desde que casou nunca mais ninguém a viu rir! Das duas uma, ou ficou completamente infeliz, ou apercebeu-se que o trabalho a que ela se dedicou a vida inteira é muito pior do que a vida de casada e agora só se ri em casa! Quem a viu e quem a vê! Dantes andava sempre de preto e era só sorrisos. Agora veste todas as cores e ninguém a vê rir...Olha-me este agora olha, tinha que vir para aqui agora empatar ainda mais! Tenho a certeza absoluta que é só mesmo para atrasar isto tudo, ele não sabe fazer mais nada! O Fernandinho, como a D. Alzira gosta de o chamar! Não consigo encontrar uma explicação lógica para a vida deste gajo! É filho do dono desta porcaria toda, no entanto quer é ser paquete e andar de moto, sempre na bisga, claro! Passo o dia todo de um lado para o outro! No outro dia pedi-lhe um serviço urgente e foi o que se viu, ainda ninguém sabe onde é que pára a carta! Quem teve de ouvir fui eu, claro! Quem é que desatina com o Fernandinho?! Puto estúpido! Um dia ainda hei de chegar ao pé da cara dele e gritar-lhe PUTO ESTUPIDO! Cheio de brincos na cara, tatuagens por todo o lado, já para não falar no cabelo! Há uns dias apanhei um bocado de vento e vim um bocado mais despenteado, veio logo o Sr. Álvaro chamar-me a atenção para o facto de termos uma imagem a preservar, que convém fazer a barba e pentear o cabelo, etc. Quando lhe apontei o exemplo que o filho do chefe dá, veio logo com coisas que ele é paquete, que tem de andar de capacete e tal! Puta que o pariu mas é, é o que qualquer dia lhe digo nas trombas! Porra, isto vai parar outra vez...E esta dor...A dor está cada vez pior, isto está cada vez mais apertado, só vejo cabeças e mamas de pessoas que não conheço de lado nenhum, fatos pretos e gravatas vermelhas, os gajos são todos iguais, as gajas falam cada vez mais alto, não se percebe nada do que dizem, é uma risota pegada que me está a por a vista turva, só me apetece desatar aos pontapés e murros em todas as direcções, e o perfume daquela gaja, o perfume daquela gaja está a dar-me cabo da cabeça….Vou explodir, vou explodir…TIM…Finalmente…12º andar, é aqui que eu saio.
- Com licença, deixem passar se fazem favor…Bom dia Sr. Álvaro…D. Alice, como está a senhora hoje de manhã? Bem disposta?...Até já…

quarta-feira, 1 de abril de 2009