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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

História do homem que não se surpreende com nada

A história do homem que não se surpreende com nada conta-se sem muita demora, é simples, linear, e não surpreende ninguém.
Era uma vez então o homem que não se surpreende com nada. Absolutamente nada o conseguia surpreender ou causar qualquer outro tipo de reacção para além da habitual serenidade. Desde pequeno que nenhuma das pessoas que falava com ele conseguia obter qualquer tipo de prazer ou gosto em falar com ele.

- É muito mortiço e nunca se ri, nunca faz nada! Eu tenho cá para mim que ele não tem o juízo todo...

(Depoimento de uma pessoa escolhida ao calhas na rua, desde que usasse lenço na cabeça, retirado do livro autobiográfico do excelso e notável mentor do projecto ampliador do turismo rural para a aldeia onde nasceu o homem que não se surpreende com nada.)

Estas e muitas outras opiniões fizeram com que a pouco e pouco todos os habitantes da aldeia, progressivamente, deixassem de falar com o homem que não se surpreende com nada. Desta forma, sempre muito sereno, o homem que não se surpreende com nada cresceu na mais absoluta solidão. Quando atingiu a maioridade, alegria das alegrias, eis que era chegada a hora de partir da aldeia que o viu nascer, eis que era chegada a hora de conhecer a babilónia! Sem qualquer tipo de surpresa, tanto na aldeia, como para ele, partiu rumo ao sul. Nos primeiros anos as coisas não foram fáceis. As pessoas da cidade também estranhavam muito o comportamento arredio do homem que não se surpreende com nada, pelo que começou a sua vida a trabalhar na recolha de bolotas perdidas nos jardins da cidade. Não havia um só esquilo na cidade que gostasse do homem que não se surpreende com nada! Com o passar dos anos, o seu trabalho foi sendo reconhecido e pessoas de todo o lado passeavam-se nos jardins, corriam, sorriam, faziam pic nics, felizes e contentes. Todas elas sabiam que se podiam sentar sem qualquer tipo de problema em qualquer sítio que escolhessem, num qualquer jardim da cidade. Até que um dia, o inesperado aconteceu! Chegava à cidade o filho pródigo, aquele que retornava a casa depois de ter granjeado fama no estrangeiro. Tinha desempenhado funções de administrador de sistemas informáticos no Gabão e vinha com a cabeça num turbilhão de ideias! Queria fazer uma barragem para produzir electricidade! Queria construir o maior estaleiro do mundo e lá construir o maior Katamaran do Universo! Falava sempre de tudo, e com todos, com um entusiasmo ensurdecedor! As pessoas da cidade começaram a perder a admiração pelo filho pródigo e a desilusão começava a instalar-se na cidade. Assim, pouco tempo volvido, o filho pródigo passara a andar sempre de um lado para o outro, pelas ruas da cidade, a gritar aos setes ventos todos os projectos megalómanos que a sua imaginação lhe ditava. Certo dia, enquanto errava pela cidade, parou e ficou a admirar o maior jardim que já tinha visto. Ao mesmo tempo, viu também o homem que não se surpreende com nada a apanhar as bolotas. Chamou-o e sentou-se com ele num banco de jardim a contar todos os seus projectos. Contou-lhe todos e mais algum que se podia ter lembrado sem dar nunca a hipótese ao homem que não se surpreendia com nada de dizer fosse o que fosse. Visivelmente satisfeito por não ter sido enxotado, como todas as outras pessoas da cidade agora faziam com ele, quando finalmente terminou de contar todos os seus projectos perguntou ao homem que não se surpreende com nada:

- Então o que é que tens a dizer? Não ficas excitado e maravilhado com tudo isto?

- Nada disso me surpreende.

Foi o que respondeu o homem que não se surpreendia com nada sem demonstrar qualquer tipo de reacção ou sorriso. Permaneceu absolutamente sereno.
A resposta e a reacção do homem que não se surpreende com nada caiu como uma bomba no cérebro do filho pródigo. De repente, tudo fazia sentido na sua cabeça! A calma e o bom senso apoderaram-se dele. Disse então, agora tranquilo, muito obrigado ao homem que não se surpreende com nada, e seguiu calmo e tranquilo o caminho de casa. Passaram mais de 7 meses e nunca mais ninguém tinha visto o filho pródigo. Até que no dia 6 de Agosto a notícia foi espalhada. O filho pródigo tinha transformado a sua garagem numa serralharia e o negócio de família estava agora assegurado para o futuro. A cidade rejubilou e foi declarado feriado municipal o dia 6 de Agosto de 1993.
A fama do homem que não se surpreende com nada precede-o hoje em dia! Os que sofrem dos nervos, os demasiadamente entusiastas, os que sofrem de insónia, todos os que sofrem de alegria a mais, e até um narcoléptico, vêm de todo o lado para se poderem sentar num banco de jardim a falar com o homem que não se surpreende com nada. O turismo da cidade duplicou e a serralharia do filho pródigo estendeu-se para um negócio de aluguer de bicicletas!
Na aldeia do homem que não se surpreende com nada, já há uma estátua com o busto dele. Todos na aldeia lhe agradecem o bom-nome com que a aldeia ficou.
Mas o homem que não se surpreende com nada nunca mais lá foi. Reza a lenda que foi, até hoje, a única coisa que o fez sorrir.

1 comentário:

Tindergirl disse...

Gosto muito muito deste post...