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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Do prato à boca perde-se a sopa, ou a incapacidade de ver o que deveria realmente importar...

Ele

Hoje, depois de ter ido ao sitio do costume almoçar e de ter colocado o tabuleiro em cima da mesa, quando me preparava para me sentar, reparei que uma gaja, com enormes mamas, se tinha sentado à minha frente e tinha fixado o olhar em mim. Uma gaja com umas mamas daquele tamanho a olhar para mim! Só pode ser o meu dia de sorte, pensei eu enquanto dava a primeira trinca e respondia ao olhar dela com um olhar extremamente sedutor. Infelizmente, como é costume dizer, tudo o que é bom acaba depressa. Mal tinha eu pensado ainda que tal criatura poderia perfeitamente ser a mulher que me levaria ao altar, quando um pingo de azeite cai, sem dó nem piedade, em cheio na camisa branca dela, mesmo em cima do seio esquerdo. Apesar de me ter incomodado bastante notar que ela nem sequer reparou na nódoa que agora ostentava, mantendo-se a olhar para mim, aquilo que me fez desistir de imediato de todos os pensamentos que começavam a formular-se na minha cabeça, foi o facto de ter concluído que afinal nunca na vida iria conseguir casar com uma gaja a quem semelhantes situações irão acontecer o resto da vida. Se ela ao menos tivesse as mamas mais pequenas, tenho quase a certeza de que tal acidente nunca teria acontecido hoje. O Zé é que tem razão, aqui não se vê gaja nenhuma de jeito. Ele hoje já não veio, diz que vai começar a ir a outro sitio almoçar, e eu em vez de me armar em teimoso vou continuar a ir almoçar com ele. A partir de hoje não almoço mais aqui...

Ela

Não acredito nisto! Hoje, no meu primeiro dia de trabalho, a minha colega, que foi mesmo uma querida, para eu me começar a sentir mais à vontade e começar a integrar-me, disse-me para ir almoçar com ela, que dessa forma nós podíamos ir conversando e eu ia começando a saber e a conhecer melhor os cantos à casa. Até aí tudo bem. O problema é que quando fomos almoçar, se calhar porque ainda me sentia um bocadito nervosa, ou ansiosa, não sei, dei por mim a olhar para um gajo, que acabou por se sentar à nossa frente, e que não deixou de olhar mais para mim! Quando ele entrou, eu nem reparei que estava a olhar fixamente para ele, só que eu tenho quase a certeza que o tinha visto no metro de manhã, eu nunca me esqueço de uma cara, e estava a ver se era mesmo do metro ou se era de outro lado qualquer! Bom, às tantas o gajo, que diga-se de passagem era horrível, começa a olhar para mim de uma maneira tão assustadora que não consegui dizer mais nada durante o tempo todo que estivemos a almoçar. Mas o pior de tudo foi quando deixei cair uma pinga de azeite no peito! Eu já estava tão atrofiada com aquele gajo ali a olhar incessantemente para mim, que fingi não ter visto a pinga a cair só para não me pôr ali a mexer no peito. Bom, se o gajo já estava a olhar para mim daquela maneira sem me conhecer de lado nenhum, nem imagino o que é que teria feito caso eu tivesse tocado numa mama! Pelo sim pelo não, vou falar com ela para nunca mais irmos ali almoçar...

E Ela

Não posso dizer que não pensei nisto antes, ou que a culpa não é totalmente minha. Eu sabia muito bem que ouvir o que os outros me dizem, ou que fazer as coisas, a minha vida, pela cabeça dos outros nunca iria dar um bom resultado...Bom, agora também não interessa nada estar a chorar sob o leite derramado. O mau é que, com o rumo que a minha vida tomou, agora já é completamente irreversível, já não a volta a dar, nunca na vida vou conseguir retomar a coisa do ponto onde eu deixei de fazer as coisas por mim e comecei a fazer o que me diziam ser melhor para mim. Eu era tão divertida, tão bem disposta, tinha sempre tantos amigos e amigas a sorrir perto de mim, sentia-me mesmo bem perto deles, e sei que as pessoas se sentiam bem perto de mim também. Tudo bem, não tinha dinheiro para nada, vivia num apartamento minúsculo. E depois? Qual é que era o problema? Mas não, tens que arranjar um trabalho a serio, tens que começar a dar uso ao curso que tiraste, que tanto nos custou que tu o conseguisses terminar, com todas as condições, com as melhores condições...Não podes pensar que a vida é uma brincadeira, um dia queres ter filhos, queres ter uma casa, uma vida, e depois como é, vais pedir aos teus grandes amigos, aqueles que levam o mesmo tipo de vida do que tu? Eu tenho 34 anos, aquela conversa, sei lá eu porquê, começou a fazer sentido de repente! Arranjei este trabalho e comecei uma vida nova, a trabalhar a serio, com empréstimos para a casa e para o carro, ter contas de água, luz, gás, tudo pago a tempo e a horas. Estupidamente, se calhar, e inconscientemente, para me castigar por estar a fazer uma coisa na qual nem sequer acredito, deixei de ser uma pessoa social. Ou melhor, no trabalho, trabalho. O que é que ganhei com esta atitude, ao fim de um ano a trabalhar aqui? O meu chefe veio dizer-me, meio em surdina, porque eu acho que ele gosta muito das minhas nádegas, que tenho de me dar melhor com os meus colegas de trabalho, que ouviu dizer que as pessoas não me "gramam" muito, disse ele num tom moderno e eloquente! Se ouvir o que me disseram e ter vindo para aqui trabalhar já não tinha sido o suficiente para arruinar a minha vida, ainda decidi dar ouvidos ao que aquele balofo sebento me disse, para o meu bem, como ele gostou de frisar! O que é que importa que eu seja competente e que o funcionamento do departamento tenha melhorado substancialmente desde que estou ali a trabalhar? Bom, hoje, começou a trabalhar aqui aquela gaja nova. Vi nisso uma boa oportunidade para fazer amizade com ela e começar a ter uma amiga aqui dentro. OK, uma aliada. Era perfeito, uma gaja nova, que não tem a cabeça cheia da conversa dos inúteis e das parvas que aqui trabalham, seria mesmo perfeito para ter a atitude social que me falta. Passei a manhã com ela, a explicar-lhe tudo e mais alguma coisa, convidei-a para irmos almoçar e tudo, a fim de cimentarmos o nosso relacionamento. Fomos almoçar ao sítio onde há quase um ano que vou almoçar porque vai lá todos os dias um gajo pelo qual, estupidamente, me apaixonei! Apaixonei-me só de olhar para ele e de ouvir as piadas que costuma contar ao gajo que costuma ir almoçar com ele, que por acaso hoje não estava com ele! E digo que estou apaixonada porque é o primeiro gajo com quem ainda não tive lata de ir falar com ele, meter conversa, dizer uma piada, e começar a falar sem qualquer tipo de problema. Não sei, esta coisa toda do trabalho, das responsabilidades, faz com que eu nem consiga ser eu às vezes, não sei explicar. Por outro lado gosto do facto de parecer uma parvinha a olhar embasbacada para ele, faz-me sentir que a parte sonhadora de mim ainda existe! Quase um ano a olhar para ele, há espera que repare em mim, que me diga alguma coisa. De repente, não sei porquê, hoje ele passou o almoço quase todo a olhar para a nossa mesa, fiquei doida de contente, parecia uma miúda excitada, finalmente ele reparou em mim! Um ano! Passou um ano apenas! Um ano em que quase dei cabo da pessoa que eu era! Tenho muita esperança, agora que ele finalmente reparou em mim, que a minha vida volte ao normal...Mal posso esperar pelo almoço de amanhã...

2 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

F.U.C.K.! (não costumo dizer asneiras) mas fiquei com pena da gaja. :D

AP disse...

:)