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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Banda Sonora

Acordei. A primeira coisa que faço, sempre que acordo, é olhar para a janela. Durmo sempre com os estores todos para cima, e uma das várias coisas que me dão prazer é receber os raios de sol matinais no quarto! Gosto de ser acordado com a claridade e com o calor do sol a baterem-me na cara, de ficar dentro da cama, dez, quinze, minutos a olhar para a janela a aproveitar o quente dos cobertores e dos lençóis. Não há nada melhor do que depois de vários dias de chuva de Outono um dia com um Sol resplandecente. Forço-me para me levantar, e é com muito custo que puxo os cobertores e saio da cama! O frio que me invade o corpo faz com que eu olhe compulsivamente para o relógio e me aperceba, como de costume, que já é mais tarde do que devia ser! Começo a tentar despachar-me o mais rápido possível. Gosto de ouvir musica enquanto tomo banho e me visto. Antes de iniciar esse ritual, dirijo-me à sala para escolher um CD. Normalmente, de manhã, prefiro ouvir um CD que já não toque há muito tempo, perco cinco, dez, minutos a escolher um que me apeteça mesmo a ouvir e deixo-o a tocar enquanto penso na última vez que tinha ouvido aquela musica e prossigo com os meus os demais afazeres. Assim que estou pronto para sair de casa, não resisto ao passar pela guitarra, ou pelo baixo, em agarrar um deles e começar, ou pelo menos tentar, a tocar a música que ainda não desliguei e que já devia ter desligado há mais de vinte minutos. Detesto ser um escravo do relógio, e acho que aqueles cinco, dez, minutos que passo a tocar antes de sair de casa me fazem sentir que eu sou o dono do meu tempo. Quando chego ao carro, está coberto de humidade. Os vidros estão todos enevoados e o carro está gelado por dentro. Quando saí do estacionamento e cheguei à estrada que me vai levar ao trabalho, apercebo-me que o céu está completamente azul e que o dia, apesar de estar bastante frio, está indescritível! Não consigo ir já para o trabalho, viro no sentido contrário em direcção ao mar. Passo por um cafezinho relativamente perto da praia e estaciono o carro. O café tem uma pequena esplanada com duas mesas e quatro cadeiras em ferro. Como o Sol já se encarregou de secar tudo, vou lá dentro fazer o meu pedido, e sento-me na esplanada a ler um jornal qualquer que estava em cima de uma mesa dentro do café. Enquanto espero que o empregado me traga o pequeno-almoço, penso na desculpa que vou usar para ter chegado atrasado ao trabalho, não me ocorre nenhuma que não tenha dito ultimamente, e chego novamente à conclusão que detesto o meu trabalho. Mais uma vez, martirizo-me por nunca ter pensado antes no que gostaria de ter feito quando fosse grande e olho de repente para um lado e depois para o outro com medo que alguém possa ter ouvido os meus pensamentos. Apercebo-me que estou sozinho, ali, com a minha torrada e o meu chá que entretanto o empregado me tinha trazido. Faço planos para mudar a minha vida. Nunca é tarde para mudar, nunca é tarde para sonhar, são os pensamentos que me varrem a mente enquanto como a torrada. Não me apetecia nada ir trabalhar hoje, é o que eu penso enquanto me dirijo para a areia da praia e me sento numa rocha perto do mar a fumar um cigarro. Fecho os olhos e deixo que o Sol me aqueça a cara. Fico ali, não sei quanto tempo, apenas a sentir o Sol na cara e o som do mar! J’adore la campagne, murmura ela, enquanto olha fixamente o mar! Lembro-me, quase sempre, quando estou junto ao mar, da primeira frase do poema que escrevi há uns anos. Arranjo todas as razões e mais alguma para justificar, outra vez, a inércia abnegada que mantive e mantenho quando chega a altura de fazer as minhas escolhas. Digo para mim próprio que o sonho só serve para ser sonhado e que a felicidade é aquilo que eu tenho, a felicidade é o poder de conseguir sonhar enquanto faço o que todos fazem para poder sobreviver. Eu não sei viver sem a possibilidade de poder continuar a dizer, um dia, um dia hei de… … O mar continua calmo e a bater suavemente na areia. Entro no carro e fico lá dentro a sentir o calor do Sol durante mais alguns minutos. Retorno o caminho para o trabalho a pensar numa nova desculpa para ter chegado atrasado…

Lou Reed – Dirty Boulevard

Pedro lives out of the Wilshire Hotel
he looks out a window without glass
The walls are made of cardboard, newspapers on his feet
his father beats him 'cause he's too tired to beg

He's got 9 brothers and sisters
they're brought up on their knees
it's hard to run when a coat hanger beats you on the thighs
Pedro dreams of being older and killing the old man
but that's a slim chance he's going to the boulevard

He's going to end up, on the dirty boulevard
he's going out, to the dirty boulevard
He's going down, to the dirty boulevard

This room cost 2,000 dollars a month
you can believe it man it's true
somewhere a landlord's laughing till he wets his pants
No one here dreams of being a doctor or a lawyer or anything
they dream of dealing on the dirty boulevard

Give me your hungry, your tired your poor I'll piss on 'em
that's what the Statue of Bigotry says
Your poor huddled masses, let's club 'em to death
and get it over with and just dump 'em on the boulevard

Get to end up, on the dirty boulevard
going out, to the dirty boulevard
He's going down, on the dirty boulevard
going out

Outside it's a bright night
there's an opera at Lincoln Center
movie stars arrive by limousine
The klieg lights shoot up over the skyline of Manhattan
but the lights are out on the Mean Streets

A small kid stands by the Lincoln Tunnel
he's selling plastic roses for a buck
The traffic's backed up to 39th street
the TV whores are calling the cops out for a suck

And back at the Wilshire, Pedro sits there dreaming
he's found a book on magic in a garbage can
He looks at the pictures and stares at the cracked ceiling
"At the count of 3" he says, "I hope I can disappear"

And fly fly away, from this dirty boulevard
I want to fly, from dirty boulevard
I want to fly, from dirty boulevard
I want to fly-fly-fly-fly, from dirty boulevard

I want to fly away
I want to fly
Fly, fly away
I want to fly
Fly-fly away (Fly a-)

7 comentários:

Em Bicos de Pés disse...

"Eu não sei viver sem a possibilidade de poder continuar a dizer, um dia, um dia hei de…" Nem eu consigo. Por vezes, isso deixa-me a pensar que o Tempo corre depressa demais (e eu dou crédito ao relógio) e que demora tanto a chegar esse tal dia, ou dias, em que vou pondo em prática todos os meus "hei-de". Acho que pode ter de ver com os momentos certos de pô-los em prática ou com a nossa (in)capacidade de fazermos escolhas.

I want to fly away, como diz o outro.

AP disse...

Ou até mesmo com coragem.

Em Bicos de Pés disse...

Sobretudo isso. :)

Tindergirl disse...

Voa. Boa! :)

*Alice~ disse...

Aprendi que os "hei-de" têm que ser MESMO presentificados, porque a vida é muito MESMO curta... Diz-se isso da boca para fora, de forma barata, mas é mesmo é para se dizer da boca para dentro... Em termos de profissão não fácil, não...e todas têm os seus aspectos negativos ( como têm ! ), mas também terão aspectos positivos. Já em matéria de relações humanas, não vale a pena prendermo-nos a coisas pequenas, para não se correr o risco de deixar morrer/secar sentimentos ( já me reporto à "Banda Sonora" de hoje ) que poderiam ter sido pedaços de vida intensa. Por acaso, a "ela" que murmura "J'adore la campagne" não é um "hei-de", não ?:)...Os "hei-de"... Vou fazer minha essa expressão...

*Alice~ disse...

Gosto muito deste texto. Deste "espraiar-se" no tempo, no espaço, no ser e nas palavras.

AP disse...

Não, a ela que murmura é um já foi :)