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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Secret meeting

A D. Guilhermina andava num pranto. Estava à horas de um lado para o outro em casa, vestida com a bata roxa dos malmequeres amarelos e com os rolos de Domingo presos no cabelo. Por volta do meio-dia, já havia telefonado à sua amiga de infância, a Anabela, sete vezes, sempre com um problema qualquer que justificaria o impedimento de poder sair de casa nesse dia. Passavam precisamente 25 anos desde que tinha enviuvado. A última vez que tinha saído de casa, tinha sido a muito contra gosto e apenas porque se tratava do casamento do seu filho, o Belarmino.
Toda a sua vida foi passada no sítio onde nasceu. Casou muito nova com o Manel da Serra, um homem enorme, muito rude, e de muito poucas palavras. Enviuvou 7 anos apenas depois de ter casado, naquela tarde fatídica em que o Manel, nunca se soube bem como, não soube prever a queda de um pinheiro para o lado que ele se tinha escapulido depois de ter dado a ultima machada na enorme arvore que ainda hoje jaz no sítio onde caiu depois de ter esborrachado, literalmente, o Manel da Serra! Assim que os sinos tocaram a repique, a assinalar a desgraça que tinha acontecido, de imediato a D. Guilhermina sentiu um alívio tal no coração que desmaiou devido ao sentimento de culpa sem ainda saber sequer do que se tratava! Reza a história que as únicas palavras que ele dirigiu à D. Guilhermina, durante os sete anos que foram casados, foram sim, não, e a frase: “Sai já daqui mulher”. A D. Guilhermina nunca tinha chegado sequer a sentir um pingo de felicidade quando no dia 18 de Dez conheceu o Manel da Serra. Sendo a mais velha de 11 irmãos e irmãs, cedo se habituou a trabalhar. Primeiro, ainda muito pequena, a tomar conta dos irmãos, e mais tarde, com cerca de 8 anos, como criada da Sr.ª D. Ofélia Madeira, uma velha rica cujo único feito durante a sua vida foi o de ter dado à luz o único médico no raio de 50 km! Cega pelo anseio de poder sair de casa dos seus pais e de deixar de trabalhar na casa da Sr.ª D. Ofélia, numa noite, já com 15 anos de idade, mas que pareciam 30, acompanhada pelos seus Pais e irmãos, foram todos ao baile. O baile era a festa anual e ao mesmo tempo o único dia em que havia diversão e festa por aqueles lados. Foi então nessa noite, onde estavam todos os habitantes reunidos, que depois de uns entreolhares marotos com o Manel da Serra que ele, completamente bêbado e 10 anos mais velho que a D. Guilhermina, falou com o Pai dela a perguntar se poderia casar com a Guilhermina em troca de um pinhal que ele tinha do outro lado do morro! Encantado com o negócio, nessa mesma noite ficou tudo tratado sem se ouvir uma palavra de discórdia por parte da D. Guilhermina que apenas e só queria sair da vida que tinha o mais rápido possível. Casaram 8 meses depois, num dia quente em Agosto. A D. Guilhermina, que nunca tinha dado um beijo a um rapaz, sentiu mais dores nessa noite do que no parto dos seus dois filhos. Apenas com duas relações sexuais com o marido durante todo o casamento, teve os seus dois filhos nos dois primeiros anos de casamento! O Manel da Serra, que sempre que não estava no mato a cortar pinheiros, ou a cortar mato, estava na taberna a embebedar-se, ou então ia para a cidade durante a semana e por lá ficava durante dias até que se acabasse o dinheiro! A D. Guilhermina nunca se perdoou pelo alívio que sentiu quando ouviu os sinos naquele dia e soube depois que tinha sido o seu marido a falecer naquele fatídico acidente. Desde então, dedicou-se a criar os seus filhos com todo o amor e sabedoria que tinha. De tudo fez no sítio onde vivia para poder criar os seus filhos com dignidade. O seu filho, alto e espadaúdo, cedo deixou de ligar aos estuds e abandonou a sua terra com apenas 16 anos de idade, cheio de sede de vencer na vida. Nos anos seguintes, regressaria à sua terra natal somente uma vez, com o pretexto de ir ao funeral de um amigo de infância! Nessa ocasião, visitou a mãe durante 10 longos minutos, tendo-a visto uma outra vez, precisamente no dia do seu casamento! A sua filha, desde cedo descobriu que era lésbica e assim que pôde, com 17 anos de idade, dado que na terra já toda a gente sabia do seu defeito sexual, rumou para a cidade à procura de uma vida normal. Embora visitasse a mãe regularmente, ninguém se recorda de não ter havido discórdia entre elas sempre que ela lá ia!
Estava então a D. Guilhermina num pranto, vestida com a bata roxa dos malmequeres amarelos e com os rolos de Domingo presos no cabelo, sem conseguir ainda sentir-se à vontade para sair de casa e ao mesmo tempo sem conseguir explicar por que é que não queria ir ao baile novamente. Só que, perante a insistência muito insistente da amiga, lá acedeu aos seus pedidos e preparava-se a muito custo para a festa que iria haver, mais uma vez, nessa noite. O dia finalmente passou e a D. Guilhermina, depois de ter comido duas batatas cozidas e uma pequena posta de bacalhau, igualmente cozido, tirou os rolos do cabelo, penteou-se e olhou para o espelho. Recordou-se dos olhares que tinha trocado com o Manel da Serra na noite em que se tinham conhecido, e não pode deixar de chorar ao pensar nos seus pensamentos nesse dia e no que a tinha levado a olhar para o Manel daquela forma. Anestesiada por tudo isto, saiu de casa de rompante, decidida a mudar o curso da sua vida nessa mesma noite. Pensou para consigo mesmo que ainda era nova, que tinha cumprido a sua obrigação com os seus filhos, que não devia nada a ninguém e que tinha chegado a uma idade em que nada tinha a perder. Foi com um sorriso mental espelhado na sua cara, embrenhada nestes pensamentos, que foi atropelada por um camião enquanto se dirigia a pé para a casa do povo, caindo a rebolar vigorosamente pela encosta abaixo! Trinta e quatro minutos depois tocavam os sinos a repique ecoando por toda a encosta. O baile nessa noite foi exactamente igual aos anos anteriores, menos para a Anabela…

3 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Estás com a telha? :)

Em Bicos de Pés disse...

Um final feliz este. :)

AP disse...

Com a telha?! Não. Estar com a telha é um desperdicio de tempo :)

Pois, nada como um final feliz :)